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Capítulo 4

Author: Geleia
— A herdeira que a família Pereira encontrou é bem bonita. Ela tem aquela beleza fria, elegante.

As minhas orelhas ficaram quentes. A minha fobia social quase veio à tona.

Eu apertei a barra do vestido para me manter inteira e caminhei salão adentro, sustentando no rosto uma expressão serena e distante.

Jéssica veio imediatamente ao meu encontro e segurou o meu braço com intimidade. O sorriso dela era caloroso demais:

— Irmã, você chegou. Eu vou apresentar você a alguns membros mais antigos da Associação Literária. Assim, quando você entrar para a associação no futuro, alguém já pode cuidar de você.

Ela me levou até alguns homens de terno. A voz dela ficou macia, doce, ensaiada:

— A minha irmã escreve em uma plataforma de romances. Ela ainda não tem muita fama, então eu conto com os senhores para orientá-la no futuro.

Alguns deles me avaliaram de cima a baixo e sorriram com desdém.

— Para entrar na Associação Literária, é preciso ter talento de verdade. Beleza, sozinha, não serve para nada.

— Pois é. Qualquer pessoa escreve duas frases e já quer entrar na Associação Literária? O nível não é tão baixo assim.

Eu batia a ponta dos dedos de leve na parede da taça e não respondi.

Enquanto conversavam, eles acabaram mudando de assunto e passaram a falar sobre a eleição para a presidência da Associação Literária.

Um homem suspirou:

— Jéssica, o romance da sua adversária, Barco da Travessia, está no topo da lista dos mais lidos há quase um mês. Se você não lançar uma obra nova, essa presidência pode escapar das suas mãos.

Jéssica não respondeu. Uma garota ao lado se adiantou por ela:

— Jéssica vai inscrever uma obra na competição literária que serve de termômetro para o Prêmio Nobel de Literatura. Se ela ganhar o prêmio de ouro, não vai ter mais o que temer.

Alguns diretores da Associação Literária balançaram a cabeça sem parar.

— Aquela competição é difícil demais! No Brasil, só Luz do Cais já ganhou o prêmio de ouro. Os outros escritores nem conseguem chegar à lista de finalistas.

— Nós já convidamos Luz do Cais várias vezes para entrar na associação, mas essa pessoa nunca deu a menor atenção. É misteriosa demais. Ninguém sabe nem se é homem ou mulher.

A conversa chata me deu sono.

Eu disse a Jéssica que ia ao banheiro, virei-me e encontrei um canto vazio para me sentar.

Peguei o celular e continuei escrevendo as últimas partes de Rio Sombrio.

Em algum momento, Durval sentou-se à minha frente. Ele foi direto ao ponto:

— Entregue Rio Sombrio para Jéssica e a deixe usar a obra na competição.

Os meus dedos pararam sobre a tela.

Meu coração apertou, e uma dor surda tomou conta do meu peito.

Ele sabia melhor do que qualquer pessoa que eu tinha lapidado Rio Sombrio durante três anos. Aquela obra tinha sido escrita com o Nobel em mente.

Quando eu ainda estruturava o roteiro, ele passou três madrugadas comigo, revisando capítulo por capítulo a lógica da história.

Os comentários na tela enlouqueceram.

[Começou! Ela com certeza vai usar Rio Sombrio como moeda de troca para pressionar o protagonista!]

[Eu aposto que ela vai pedir uma recompensa enorme!]

Eu ergui os olhos para ele. A garganta ficou seca, mas a minha voz saiu calma:

— Não.

Depois disso, eu me levantei e fui embora.

O meu celular vibrou.

Eu baixei os olhos e vi a notificação.

[Academia Europeia de Letras: A sua inscrição foi aprovada. Por favor, envie os documentos de matrícula até o dia 30 deste mês.]

Eu encarei aquelas palavras por três segundos.

O canto da minha boca se moveu de leve. Sem dar atenção ao rosto sombrio de Durval atrás de mim, eu saí direto do salão de banquetes.

...

Naquele dia, eu estava em um centro de atendimento para solicitação de vistos, preenchendo um formulário.

Uma notícia em alta apareceu no meu celular:

[Rio Sombrio, de Jéssica, entra para a lista de finalistas da competição literária que serve de termômetro para o Prêmio Nobel de Literatura. Brasil tem nova escritora indicada depois de Luz do Cais]

Eu me levantei de repente. Os documentos nas minhas mãos se espalharam pelo chão.

Eu corri para fora do prédio, parei um táxi e fui direto para a casa da família Pereira.

No instante em que empurrei a porta do quarto, eu parei, imóvel.

O meu computador tinha sido destruído. A placa-mãe e o teclado estavam arrancados, espalhados em pedaços. A tela estava coberta de rachaduras que se espalhavam como uma teia de aranha. Até o disco rígido estava completamente destruído.

Eu fiquei parada ali, tremendo dos pés à cabeça.

Pela primeira vez, os comentários na tela mudaram de tom.

[Dessa vez, o protagonista passou dos limites... Ele destruiu o computador da vilã por causa de Jéssica.]

[Eu vivia xingando a vilã, mas agora estou começando a sentir pena dela.]

Eu peguei o celular e liguei para Rita. A garganta estava apertada:

— O meu computador foi destruído. O arquivo original de Rio Sombrio estava todo nele. Encontre para mim o melhor especialista em recuperação de dados do disco rígido. O dinheiro não importa.

Depois de desligar, eu peguei outro táxi e fui direto para a Aurora Entretenimento.

A recepcionista tentou me barrar, mas eu desviei dela e empurrei a porta da sala do presidente com força.

Durval estava sentado na cadeira de couro. Quando me viu, ele ainda ergueu uma sobrancelha.

Eu não disse uma palavra. Avancei e dei um tapa no rosto dele.

O rosto dele virou para o lado com o impacto, e o canto da boca dele começou a sangrar.

— Você não sabe o que Rio Sombrio significa para mim? — Perguntei.

Durval limpou o canto da boca e, inacreditavelmente, soltou um sorriso. O olhar dele era tão frio que me causou um arrepio:

— As coisas já chegaram a esse ponto. Eu aconselho você a não fazer escândalo. Eu dou trinta milhões como compensação para você. Além disso...

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