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Capítulo 5

Author: Geleia
Ele inclinou o corpo para a frente.

— Eu já tinha apagado todos os dados do disco rígido antes de quebrar o computador. Se você ousar fazer escândalo, eu tenho meios de sobra para expulsar você do meio literário.

Eu o encarei por vários segundos. Era como olhar para um completo desconhecido.

Eu não discuti, não fiz escândalo. Apenas me virei e fui embora.

Quando voltei para a casa da família Pereira, a sala estava cheia de animação.

Os pais de Durval estavam sentados no sofá, segurando as mãos de Jéssica, com sorrisos radiantes:

— Durval ter a sorte de se casar com uma mulher tão promissora quanto você é uma honra para a nossa família.

Jéssica ergueu a cabeça ao me ver. O olhar dela revelou pânico por um instante, mas ela logo recuperou aquele sorriso doce.

Eu apenas assenti, como cumprimento, e subi direto para o meu quarto.

Sobre a escrivaninha, os pedaços do computador ainda estavam espalhados. Aquele computador tinha sido um presente de Durval.

Ele dizia que, como eu passava o dia inteiro digitando diante da tela, usar algo que ele me dera faria eu pensar nele o tempo todo.

Eu encarei por muito tempo a tela quebrada, coberta de rachaduras que formavam uma teia de aranha. O último resquício de calor que ainda restava dentro de mim se apagou por completo.

A porta foi empurrada.

Jéssica se encostou no batente, sorrindo com arrogância:

— Durval já me contou tudo. E daí se vocês se conheciam antes? No fim, ele escolheu a mim. Ele disse que só uma pessoa como eu merece ser a dona da família Amado. Você nunca vai ter classe para fazer parte de um mundo como esse.

Eu não tive paciência nem para olhar para ela. Coloquei todos os pedaços do computador na mochila.

Quando passei por Jéssica, parei por um instante e respondi:

— Eu não tenho o menor interesse nessa tal posição de dona da família Amado.

...

Quando cheguei ao estúdio de Rita, Milena também estava lá. Ela era justamente a atriz premiada que tinha me emprestado aquele vestido de alta-costura.

Milena tinha sido a protagonista da adaptação audiovisual do meu primeiro romance. Naquela época, ela ainda não era famosa, mas aquela série a transformou em estrela da noite para o dia.

Depois disso, eu a indiquei como protagonista em todas as minhas obras adaptadas e a empurrei, passo a passo, até o primeiro escalão.

Assim que me viu entrar, Milena me entregou uma xícara de café quente:

— Não fica ansiosa. O hacker que eu encontrei é o melhor do meio. Ele com certeza vai recuperar os dados.

Menos de meia hora depois, o hacker me entregou um pen drive:

— Por sorte, o disco rígido só sofreu danos físicos. Agora os arquivos originais foram totalmente recuperados. Todos os registros de edição e carimbos de data e hora estão aqui. Eu também consegui recuperar até o backup das conversas na nuvem.

Milena apertou o celular com tanta raiva que rangeu os dentes:

— Eu vou postar no X agora e expor essa mulher. Os comentários dos meus trezentos milhões de seguidores acabam com ela!

Eu balancei a cabeça:

— Não precisa ter pressa. Vamos esperar ela ganhar o prêmio de ouro. Eu quero desmascará-la no palco da premiação.

Milena ficou atordoada por um segundo e depois sorriu:

— Pelo visto, você tem muita confiança na sua própria obra.

Ao lado, Rita ergueu uma sobrancelha:

— Claro que ela tem. Ela é Luz do Cais.

...

Uma semana depois.

O comitê organizador da Competição Literária que serve de termômetro para o Prêmio Nobel de Literatura anunciou a vencedora do prêmio de ouro: Jéssica.

A notícia explodiu nas buscas.

Mas o dia da cerimônia de premiação também era o dia em que eu precisava me apresentar à Academia Europeia de Letras.

Eu arrumei a mala e expliquei tudo a Rita:

— Você vai à cerimônia de premiação. Eu vou publicar as provas pela conta de Luz do Cais. Nós agimos nos dois lados ao mesmo tempo.

No dia da premiação, eu estava no aeroporto, aguardando o embarque, com a transmissão ao vivo aberta no celular.

Na tela, Jéssica usava um vestido de alta-costura cravejado de cristais e estava de pé no palco, segurando o troféu de ouro. Ela chorava de um jeito delicado, comovente:

— Eu escrevi Rio Sombrio palavra por palavra, ao longo de três anos. Obrigada a todos...

No segundo seguinte, Rita se levantou com o pen drive na mão:

— Eu denuncio Jéssica. A obra inscrita por ela, Rio Sombrio, é plágio de uma obra original de outra autora.

Eu observava a transmissão na tela.

Com a ponta dos dedos, abri a publicação do X que já tinha deixado pronta. Nos anexos, estavam os arquivos originais, os carimbos de data e hora, os registros de edição do Rio Sombrio e todas as capturas de tela das conversas em que Durval e eu discutíamos o roteiro de Rio Sombrio.

A legenda tinha apenas cinco palavras:

[Eu sou Luz do Cais.]

Eu toquei em publicar.

Assim que a postagem foi ao ar, o anúncio do aeroporto soou:

— Atenção, passageiros do voo CA3287 com destino a Paris. O embarque foi iniciado. Por favor, dirijam-se ao portão 3.

Eu me levantei e peguei a bolsa.

O celular começou a vibrar feito louco no meu bolso.

Na tela, apareceu o nome de quem ligava:

[Durval.]

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