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Capítulo 3

Author: Geleia
Todos os dias, milhares de mensagens privadas chegavam aos bastidores da minha conta de autora, e eu nem tinha paciência para ler a maior parte delas.

Mas a mensagem de Durval era diferente.

Ele escreveu:

[O seu estilo de escrita é idêntico ao de Luz do Cais.]

O que ele não sabia era que o meu pseudônimo era justamente Luz do Cais.

Depois, Durval contou que era presidente da Aurora Entretenimento e ainda reclamou que os direitos autorais das obras de Luz do Cais eram absurdamente caros. Então perguntou se os direitos autorais dos romances publicados no meu perfil oficial na plataforma estavam à venda.

Foi assim que trocamos nossos contatos do WhatsApp.

A minha versão on-line e a minha versão fora da internet eram duas pessoas completamente diferentes.

Na internet, eu conseguia responder a qualquer provocação e entendia todos os memes da moda. Durval dizia que, depois de um dia inteiro de trabalho, algumas mensagens comigo já bastavam para ele respirar mais leve.

Eu também gostava de mostrar a ele o meu lado mais verdadeiro.

Mais tarde, ele comprou os direitos autorais de uma novela curta minha e me convidou para participar da adaptação do roteiro.

Aquela foi a primeira vez que nós nos encontramos pessoalmente. Ele ficou olhando para as minhas orelhas vermelhas por um bom tempo e riu:

— Por que você é tão diferente da pessoa que conversa comigo pela internet? Ao vivo, você é tão tímida desse jeito que nem consegue falar alto. Mas eu acho isso bem fofo.

Desde pequena, eu sofria com fobia social. Só com ele eu não sentia medo de interagir.

No dia do meu aniversário de vinte e sete anos, ele se declarou para mim. Quando eu aceitei o pedido, Rita tratou de acabar com a minha empolgação:

— Uma família como a família Amado precisa de uma dona da casa com jogo de cintura para lidar com qualquer situação. Você nem tem coragem de abrir a porta para pegar delivery. Você acha mesmo que aguenta esse mundo?

Eu não acreditei nela.

Eu me matriculei em um curso para vencer a inibição, obriguei-me a participar de pequenas sessões de autógrafos e treinei, diante do espelho, frases para circular em coquetéis e eventos sociais. Eu repeti aquelas falas centenas de vezes.

Eu me desconstruí inteira e me refiz aos poucos, só para conseguir entrar no mundo dele. Quando finalmente consegui, ele se virou e segurou a mão de outra mulher.

...

A risada de Jéssica veio lá de fora.

Eu olhei de relance pela janela. Pelo visto, Durval já tinha conseguido agradar a Jéssica de novo. Ele passava a mão no alto da cabeça dela enquanto caminhavam em direção à garagem. Provavelmente, eles iam ao shopping.

Eu retirei o olhar e abri o e-mail.

Minha inscrição para a Academia Europeia de Letras estava na caixa de rascunhos havia meio ano. Eu cliquei em enviar.

Os comentários na tela apareceram outra vez.

[O que ela enviou? Está tudo em inglês?]

[Ela está planejando alguma coisa, com certeza. Ela não desistiu dele.]

Eu não tinha paciência para dar atenção àqueles comentários na tela que só sabiam fazer suposições sem fundamento.

Fechei o e-mail e abri o documento de Rio Sombrio. Faltavam apenas três capítulos.

As pontas dos meus dedos pousaram no teclado, e eu comecei a digitar.

Dois dias antes do Jantar de Reconhecimento Familiar, Jéssica bateu à porta do meu quarto.

Ela me entregou um vestido de festa coberto de strass e paetês, de um rosa tão forte que chegava a agredir os olhos. O tecido era bom, e o preço certamente não era baixo.

Mas aquele vestido não tinha nada a ver com as roupas discretas que eu costumava usar. Em mim, ele ficaria completamente deslocado.

Eu não o peguei e respondi:

— Eu já preparei o meu próprio vestido.

Eu já tinha dito antes que não queria um Jantar de Reconhecimento Familiar, mas eles insistiram em organizar o evento.

Os olhos de Jéssica ficaram vermelhos outra vez:

— Você não gostou deste vestido? Eu só quero que todos saibam que a família Pereira valoriza você.

No sofá, Benício jogou a revista que segurava.

— Jéssica até adiou a preparação para a Competição Literária que serve de termômetro para o Prêmio Nobel de Literatura só para escolher um vestido para você. Mesmo que você não goste, vai usar. Isso é uma demonstração de carinho dela.

Passei os olhos por Jéssica.

Ela também escrevia romances e tinha bastante fama. Mas eu já tinha lido alguns livros dela antes. A escrita era bem mediana e não combinava muito com a popularidade que ela tinha.

Depois, a qualidade das obras dela melhorou de repente. Só que o estilo mudou várias vezes, como se os textos não tivessem sido escritos pela mesma pessoa.

Eu não disse nada.

Peguei o vestido e apenas assenti. Em seguida, virei-me e mandei uma mensagem para Rita pelo WhatsApp:

[Prepare para mim um vestido para usar no Jantar de Reconhecimento Familiar.]

...

No dia do Jantar de Reconhecimento Familiar.

Eu me agachei na entrada do hotel, segurei o estômago e deixei o rosto empalidecer:

— Estou com dor no estômago. Vocês podem entrar primeiro. Eu descanso um pouco e já vou.

Benício resmungou que eu dava trabalho demais e entrou primeiro no salão com Noemi, Jéssica e Durval.

Eu endireitei o corpo na mesma hora.

O vestido que Rita tinha mandado entregar logo cedo estava guardado no carro.

Era um longo de seda cinza-fumê. Uma peça de alta-costura exclusiva, usada no tapete vermelho de Cannes pela premiada atriz Milena Leitão no ano anterior. Na lateral da cintura, havia um bordado de flores-da-noite em fios de prata. A própria atriz o guardava como item de acervo pessoal.

Depois de trocar de roupa, eu entrei no salão de banquetes.

De repente, todos ficaram em silêncio.

Durval estava ao lado da mesa principal, e a taça de champanhe na mão dele ficou suspensa no ar.

Os dedos de Jéssica, fechados ao redor da taça, ficaram esbranquiçados.

Alguém ao lado reconheceu o vestido e soltou uma exclamação em voz baixa:

— Esse não é o vestido de alta-costura da atriz Milena Leitão? Era edição limitada. Nem com dinheiro dava para comprar.

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