LOGINEu era uma pessoa com fobia social e só tinha coragem de namorar pela internet. No dia em que a minha família biológica me reconheceu como herdeira de uma família poderosa, a falsa herdeira chorou e insistiu em me devolver o noivado que tinha sido arranjado para ela com o protagonista masculino. Eu acenei com as mãos depressa: — Não precisa. Eu tenho namorado. Assim que eu terminei de falar, algumas linhas de texto surgiram de repente diante dos meus olhos: [Que ironia. Agora essa vilã recusa tudo com firmeza, mas, daqui a pouco, quando ela vir o protagonista masculino, ela vai se arrepender.] [O protagonista masculino só tem olhos para a falsa herdeira, que é a verdadeira mocinha da história. A vilã vai usar prints das conversas para se agarrar a ele sem o menor pudor.] [No fim, a mocinha vai ser pressionada até entrar em depressão e cortar os pulsos. O protagonista masculino vai odiar a vilã com todas as forças, quebrar as mãos e os pés dela e trancá-la em um hospital psiquiátrico.] Que piada. Como alguém com tanta fobia social quanto eu poderia ir atrás de um desconhecido? Nesse momento, ouvi passos do lado de fora da porta. A falsa herdeira correu até lá com os olhos vermelhos: — Durval, esta é a minha irmã mais velha. Ela é a sua noiva original. Eu me virei e dei de cara com um rosto conhecido. Era Durval Amado, o namorado com quem eu mantinha um relacionamento virtual havia seis anos.
View More— Durval.— Pode falar.— Eu não vou me casar nesta vida.— Sim.— Principalmente, eu não vou me casar com você.Ele fechou os dedos ao redor da aliança e sorriu de leve. Os olhos dele estavam um pouco úmidos, mas ele não chorou.— Eu imaginei. — Ele deu um passo para trás e abriu caminho. — Você pode ir. Se cuida.Eu passei ao lado dele, com passos muito mais leves do que eu imaginava.O vento jogou os meus cabelos no rosto, e eu os afastei com a mão.Mesmo depois de me afastar bastante, eu não olhei para trás. Mas eu sabia que ele continuava parado no mesmo lugar, porque não ouvi passos me seguindo.Quando voltei ao apartamento, fiquei na varanda, deixando o vento bater no meu rosto. As luzes da Torre Eiffel foram se acendendo, andar por andar.O celular tocou. Rita tinha me enviado uma mensagem.[O que você quer comer amanhã? Eu levo para você.]Eu digitei:[Qualquer coisa.]O vento noturno de Paris entrou pela gola do meu casaco, e eu a fechei um pouco mais. O topo da Torre Eiffel
Rita e Milena estavam sentadas uma fileira atrás de mim. As duas seguravam uma a mão da outra e pareciam ainda mais nervosas do que eu.No palco, o apresentador falou uma longa sequência em sueco. Eu não entendia muito bem, mas ouvi o meu nome.Quando me levantei, a barra do vestido roçou no assento da cadeira. Eu respirei fundo, e as minhas palmas estavam encharcadas de suor.O caminho até o palco pareceu longo demais. Os flashes eram tão fortes que eu mal conseguia manter os olhos abertos.Eu parei diante do microfone. A plateia se aquietou, e centenas de pares de olhos se voltaram para mim.A minha fobia social nunca tinha desaparecido de verdade. O meu coração batia tão rápido que o peito chegava a doer.Mesmo assim, eu abri a boca.— A minha obra se chama Rio Sombrio. — A minha voz se espalhou pelo microfone com um leve tremor. — O título fala de um rio silencioso que corre por baixo da terra. Ninguém o vê, mas ele continua fluindo. Quando eu escrevi este livro, eu não tinha famíl
[A lista oficial de finalistas do Prêmio Nobel de Literatura foi divulgada.]Rio Sombrio estava nela.Eu fiquei encarando a lista na tela por muito tempo.A biblioteca estava silenciosa. Só se ouviam o farfalhar das páginas sendo viradas e o ruído baixo da copiadora funcionando ao longe.Eu me levantei e caminhei até a janela panorâmica.Lá fora, Paris estava coberta por um céu cinzento. As nuvens eram espessas, mas a luz ainda conseguia atravessá-las.Eu me lembrei daquela madrugada, três anos antes.A cozinha do apartamento alugado tinha um vazamento, e as gotas caíram a noite inteira, uma após a outra. Eu estava encolhida em uma cadeira, usando uma jaqueta acolchoada, enquanto digitava palavra por palavra:[Capítulo 1]Pelo WhatsApp, Durval me mandou uma mensagem dizendo que queria ser o primeiro a ler o romance quando eu terminasse.Eu esbocei um leve sorriso. Não deixei as lágrimas caírem.O celular vibrou.Rita mandou mais de vinte emojis de grito, e, no meio deles, veio uma fras
— Kayra, eu...— Você deve voltar. — Eu desviei dele e caminhei em direção à entrada do prédio. Quando passei ao lado dele, parei por um instante e disse. — Durval, você nunca me amou de verdade. Você amava Luz do Cais, aquela pessoa que conseguia fazer você sorrir através de uma tela. Você amava a sombra que criava sonhos para você pela internet. Você nem se deu ao trabalho de enxergar quem eu era bem diante dos seus olhos.Eu não esperei a resposta dele.Passei a carteirinha de estudante e entrei no prédio.Quando a porta se fechou atrás de mim, ouvi, do lado de fora, um pedido de desculpas quase inaudível.Eu subi as escadas e abri a janela para olhar.Durval ainda estava parado debaixo do plátano, de cabeça baixa, com os ombros ligeiramente caídos.Eu fechei as cortinas.No dia seguinte, ele voltou. Ele deixou um buquê de rosas vermelhas no chão, ao lado da entrada do prédio.Quando desci, eu o vi e contornei o buquê.No terceiro dia, eram rosas brancas. No cartão, estava escrito:






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