Share

A Falsa Pobreza do Don
A Falsa Pobreza do Don
Author: Serein M

Capítulo 1

Author: Serein M
De volta ao nosso apartamento barato, abri a porta da geladeira.

O bolo de morango de 5,90 dólares continuava na prateleira de cima. A cobertura barata já estava derretendo.

Fiquei vinte minutos na fila depois do expediente para comprá-lo. Fitei-o por três segundos. Ontem, eu jamais teria coragem de desperdiçá-lo.

Hoje, joguei a caixa inteira no lixo.

Três anos. Três longos anos.

Revirava caixas de liquidação atrás de legumes machucados. Pedia ao açougue que me desse os pedaços mais baratos de carne. Tudo para que Killian pudesse comer um pouco melhor.

Ele chegava todos os dias vestindo macacões de segunda mão, com cheiro forte de óleo de motor. Suspirava e dizia que o patrão tinha cortado o seu salário de novo.

Eu girava o meu anel de casamento de prata barata e já escurecida, beijava-lhe a bochecha e dizia: — Você trabalhou tanto hoje, meu amor.

Por puro amor a ele, trabalhei em três empregos cansativos. Mesmo na nevasca de hoje, pedalei sob o vento gelado para entregar comida.

Só queria juntar o suficiente para comprar um pequeno apartamento no Brooklyn.

E ele?

Ele deixou outra mulher me julgar como se eu fosse lixo, bem ali na porta de um hotel de luxo.

O que vem depois?

Esperar que ele concluísse o suposto "teste" para só então me conceder o título de Donna, como quem joga um osso para um cachorro de rua?

Lágrimas arderam nos meus olhos, mas eu as segurei com força.

Por que chorar por um mentiroso?

Fui direto ao quarto e chutei a caixa de ferramentas empoeirada debaixo da cama. Chaves de fenda, chaves inglesas, panos sujos de óleo. Tudo não passava de adereços.

Passei os dedos pelo fundo da caixa de metal. Toquei uma saliência. Um compartimento secreto.

Segurei a respiração e abri a placa de metal com cuidado.

Eu já sabia a verdade.

Mas ao ver aquele cartão preto ali, deitado calmamente, meu fôlego ainda ficou preso na garganta.

Um Cartão Centurion da American Express. Sem limite de gastos. Menos de um por cento da população mundial tem um.

Apertei o cartão entre os dedos. Minhas pontas dos dedos tremiam.

Ele era bilionário.

Cada centavo que juntei com tanto sacrifício durante três anos não significava nada para ele. Cem bolos baratos como o meu não dariam nem para pagar um gole de bebida no mundo real dele.

Coloquei o cartão preto de volta no escuro. Exatamente onde o encontrei.

Deitei na cama e chorei. Rezei para acordar desse pesadelo.

Ao amanhecer, ouvi o clique da porta da frente.

Killian entrou. Conhecia aquele cheiro muito bem. Óleo de motor barato.

Mas por baixo disso, havia outra fragrância.

Tom Ford Oud Wood. Eu já tinha sentido aquele perfume uma vez, numa perfumaria de shopping. Um frasco custava mais do que todo o nosso orçamento de mantimentos do mês.

Ele interpretava o seu papel com uma perfeição incrível.

— Aria, já está acordada? — Ele sorriu, entrando na cozinha com um saco de papel bege. — Trouxe uma surpresa para você.

Saí do quarto de pijama, apertando bem o meu roupão velho e desfiado.

Ele tirou um doce do saco e me entregou.

Um croissant de trufa branca. Já tinha visto aquele selo dourado no Instagram. Uma padaria exclusiva de Manhattan. Quinhentos dólares cada um.

— Coma, meu bem. Ainda está quente. — A voz dele era tão suave.

Peguei-o e dei uma mordida pequena. O sabor intenso da manteiga cobriu a minha língua.

— Deve ser caro, não é? — Perguntei sem emoção, olhando firme nos olhos dele. — Acho que reconheço essa marca.

Os dedos dele se contraíram.

Depois coçou a cabeça e deu aquele seu sorriso bobo de sempre. — Isso sobrou do jantar do meu patrão com um cliente importante. Ele ia jogar fora, e achei que seria um desperdício. Então trouxe para você experimentar.

— O seu patrão é muito generoso — falei baixinho.

— É, ele cuida bem de mim. — Killian bagunçou o meu cabelo, desviando o olhar. — Aria, só mais dois anos. Vamos comprar a nossa casa dos sonhos.

Eu sorri. Não disse uma única palavra.

Ontem, eu teria chorado de alegria. Hoje, o creme na minha boca tinha gosto de cinzas.

O celular dele vibrou no bolso da jaqueta.

Ele o pegou, suspirou e beijou a minha testa. — É o patrão. Preciso voltar à oficina para resolver uma emergência. Seja boazinha, devo voltar tarde.

Ele não sabia que vi a tela. Por um milésimo de segundo, o nome apareceu.

Chloe.

Assim que a porta fechou, peguei o meu celular e pesquisei no Instagram.

Ela foi o primeiro resultado. Uma das principais modelos da Vogue. A publicação em destaque era uma foto de duas mãos entrelaçadas.

A legenda fez o meu coração parar.

"Meu querido Kil me deu outro colar de rubis. O quarto esse mês! O que fazer com um homem tão apaixonado por mim?"

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A Falsa Pobreza do Don   Capítulo 9

    Ponto de Vista de AriaOlhei friamente para o homem que soluçava como um louco aos meus pés.As lágrimas dele misturavam-se ao sangue, manchando o meu vestido branco de alta costura.Mas eu apenas recuei um passo, com nojo. Soltei o tecido do aperto ensanguentado das suas mãos.— Aria... — As mãos de Killian pararam no ar. Olhou para o gelo no meu olhar, sem acreditar.— Não me toque com essas mãos sujas de sangue e mentiras — falei, olhando para baixo, com voz neutra.— Durante três anos, fez de mim uma palhaça, contando cada centavo para você naquele apartamento miserável. Enquanto isso, ficava em hotéis de luxo, pisoteando o meu amor e o meu orgulho sob os seus sapatos.— Você sempre dizia que estava me protegendo. Mas foi você quem quase me matou naquela nevasca.Killian estremeceu violentamente, negando com a cabeça em desespero. — Não... eu não sabia que era mentira... Aria, me dê uma chance de consertar...— Consertar? — Sorri com desprezo, cortando-o impiedosamente.— Você dev

  • A Falsa Pobreza do Don   Capítulo 8

    Ponto de Vista de AriaO meu jantar de despedida num restaurante no terraço de Manhattan.Tomei um pouco de champanhe e senti o ar um pouco abafado, por isso abri as portas de vidro e saí para a varanda em busca de ar fresco.Um instante depois, um grito agudo e insano cortou o céu noturno.— Aria — vá pro inferno!Virei a cabeça de um solavanco.Uma figura cambaleou das sombras, atrás de uma palmeira decorativa. Uma mulher de cabelos desgrenhados e o olhar perdido de um fantasma.Era a Chloe.Já não tinha vestidos de alta costura nem joias de milhões. Usava um casaco de trincheira sujo e rasgado.Durante três anos, Killian enlouqueceu de vez me procurando. Retirou todos os privilégios da família dela, cortou os seus cartões e expulsou-a da propriedade de Long Island como se fosse um cachorro de rua.O rosto dela estava contorcido de raiva. Os olhos saltavam da cara. Segurava uma faca de churrasco afiada, roubada do restaurante.— É tudo culpa sua! Sua vagabunda!Gritou descontroladam

  • A Falsa Pobreza do Don   Capítulo 7

    Ponto de Vista de AriaDepois de dizer isso, virei-me sem olhar para trás.— Segurem-na!O grito dilacerante de Killian ecoou atrás de mim.A sua voz estava cheia de uma loucura e uma obsessão totalmente descontroladas.O som seco e sincronizado de armas sendo engatadas irrompeu pelo amplo corredor.Uma dezena de guardas armados de terno preto surgiu das sombras, bloqueando-me a passagem por completo.Aquele era ele. O Don da Máfia que comandava o submundo de Nova York.Se não pudesse ter por bem, tomaria à força.Parei e virei-me lentamente.Killian cambaleou para fora daquele apartamento falso e mofado.Os seus olhos estavam vermelhos de sangue. Fitou-me como uma fera enfurecida.— Aria, não posso deixar você ir — ofegou, com a voz rouca e desesperada. — É muito perigoso lá fora. Você só está segura comigo! Transformarei toda esta propriedade no seu castelo particular. Darei a minha vida por você!— Dar a sua vida? — Olhei para ele e ri friamente.Levei a mão ao rosto e, com uma cal

  • A Falsa Pobreza do Don   Capítulo 6

    Ponto de Vista de AriaOs seguranças não ousaram tocar no temido e implacável Don. Deixaram-no bloquear a porta traseira VIP.— Aria, por favor! — Os olhos dele estavam vermelhos de tanto chorar. A voz tremia descontroladamente. — Mesmo que me condene à morte, me dê ao menos uma chance de explicar. Venha ver a minha propriedade. Apenas um olhar.Eu nem sequer olhei para ele. Caminhei direto para a van da minha equipe.— Eu ainda tenho o seu velho caderno verde-escuro! — Berrou de repente. — Tem todos os seus primeiros rascunhos! Não o quer de volta?Os meus passos pararam.Aquele caderno guardava a alma das minhas primeiras criações.Saí tão desesperada três anos atrás que não tive tempo de levá-lo comigo.Virei o rosto, com o olhar gélido.— Mande o endereço — disse friamente. — Só vou buscar minhas coisas. E fique longe do meu carro.Uma hora depois, o meu carro parou diante da Propriedade Moretti.Três anos atrás, os guardas armados dele me expulsaram daqueles portões de ferro como

  • A Falsa Pobreza do Don   Capítulo 5

    Ponto de Vista de AriaQuando o ônibus Greyhound me deixou em Los Angeles, eu tinha apenas trinta dólares no bolso.Não havia tempo para chorar. Nem energia para olhar para trás, para aquela nevasca de Nova York.Eu precisava sobreviver.Montei uma barraca na Praia de Veneza. Usei fios de cobre baratos e cacos de vidro comprados por quilo no mercado de pulgas.Durante aqueles três anos no apartamento miserável, para economizar dinheiro para o Killian, eu transformava sucata barata em joias.Eu sabia exatamente como fazer o lixo brilhar. Assim como tentei fazer aquele casamento barato brilhar.Minha barraca fez um sucesso enorme.A vida crua e a luta pura nos meus desenhos chamaram a atenção de um homem de cabelos brancos e óculos escuros.O Senhor Arthur. O mais misterioso e recluso magnata das joias da Costa Oeste.Ele ficou parado na minha barraca analisando o meu trabalho por dez minutos inteiros.Depois, me entregou um cartão de visitas com letras douradas. — O seu trabalho tem os

  • A Falsa Pobreza do Don   Capítulo 4

    Ponto de Vista de KillianA luz da sala de cirurgia permaneceu vermelha por três dias seguidos.O irmão dela levou um tiro para me salvar. Eu devia uma vida à família Costello.Aquela maldita dívida me prendia como uma âncora do lado de fora da porta.Puxei o meu terno e olhei o relógio de novo.Três dias.Não havia aquecimento no Brooklyn. A nevasca estava brutal. Aria estava sozinha naquele apartamento miserável. Ela iria passar frio.Finalmente, as portas da sala de cirurgia se abriram.As enfermeiras empurraram a maca com Chloe, a cabeça dela enrolada em ataduras grossas.O cirurgião chefe acenou brevemente, nervoso. — Senhor Moretti, a cirurgia foi um sucesso.Suspirei profundamente e me virei para sair.— Kil…Chloe esforçou-se para estender a mão. Agarrou a manga do meu terno sob medida.Respirava com dificuldade, mas um brilho de pura maldade passou pelos seus olhos.— Kil, você ficou três dias comigo. Não ouse voltar para aquela rata de esgoto do Brooklyn — cuspiu, com a voz

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status