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Capítulo 2

Autor: TJ
Na manhã seguinte, minha mãe levou todos nós ao shopping.

— A Emma está prestes a começar numa grande empresa. Precisa de roupas de trabalho. — Disse ela.

O amigo do meu pai só tinha conseguido uma entrevista na Westbridge, mas minha família já agia como se a vaga fosse dela.

Emma experimentou um terninho azul-marinho de 300 dólares, uma bolsa grande de couro de 600 e um par de sapatos de salto de 180. Sempre que ela olhava uma etiqueta de preço, minha mãe fazia um gesto com a mão, como se aquilo não importasse.

— Não se preocupe com isso. Você precisa estar apresentável para trabalhar num escritório.

Meu pai pagou sem hesitar, enquanto Ryan carregava as sacolas dela e perguntava se ela precisava de um perfume novo.

Ethan se agachou diante de Emma e pressionou com o polegar a parte de trás de um dos sapatos.

— Esse couro é duro. Experimente outro par. Você não vai querer ficar com bolhas logo no primeiro dia. — Disse.

Eu estava a poucos passos, observando meu namorado encher Emma de cuidados. Aquele carinho já tinha sido meu.

No nosso primeiro ano de faculdade, usei um par de sapatos de salto baratos num encontro porque queria ficar bonita para ele. Na metade do passeio à beira do rio, meus calcanhares começaram a sangrar.

Ethan me acomodou num banco, correu até a farmácia mais próxima e voltou com lenços antissépticos e curativos para bolhas.

— Você não precisa se machucar para me impressionar, Nat. — Disse, enquanto cobria cada bolha com cuidado.

— Eu te acharia linda mesmo se você aparecesse usando moletom.

No meu aniversário, ele me deu um par caro de sapatos de salto, os únicos que consegui usar sem machucar os pés.

Então ele conheceu Emma, e, aos poucos, até seu carinho passou a pertencer a ela.

Na saída, passamos em frente a uma loja de malas, e eu parei.

Minha mala tinha dez anos de uso. Um dos cantos tinha rachado e estava remendado com três camadas de fita adesiva transparente. Duas rodinhas estavam tão desniveladas que ela tombava sempre que eu soltava o puxador.

Encontrei a mala rígida mais barata da loja, que custava pouco menos de noventa dólares. Em vez de levá-la ao caixa, fui com ela até meu pai.

— Tudo bem se eu levar esta aqui?

Mesmo naquele momento, uma parte tola de mim ainda alimentava esperanças. Eles tinham acabado de gastar mais de mil dólares preparando Emma para um emprego que ela nem tinha conseguido oficialmente.

Não era pedir demais gastar noventa dólares numa mala de que eu realmente precisava.

Talvez eu só quisesse uma prova de que ainda havia um lugar para mim no coração deles, por menor que fosse.

Meu pai franziu a testa ao olhar para a mala.

— Você já não tem uma?

— Ela já tem dez anos. A lateral está rachada, e duas rodinhas mal funcionam.

— Mas ainda fecha, não fecha? — Ele suspirou.

— Natalie, você acabou de se formar. Agora precisa começar a ser responsável com o dinheiro, em vez de sair trocando as coisas só porque não estão perfeitas.

Minha mãe se aproximou e olhou a etiqueta de preço.

— A Emma precisa daquelas coisas para a entrevista. É um investimento na carreira dela.

Seu olhar se voltou para a mala na minha mão.

— Você nem sabe onde vai trabalhar. Para que comprar uma mala nova se ainda nem tem para onde ir?

Eles já tinham decidido que eu ficaria perto de casa e aceitaria qualquer emprego que conseguisse.

Ryan deu uma risada.

— Você só quer isso porque a Emma ganhou coisas novas. Nem tudo precisa ser uma competição, Nat.

Meus dedos se fecharam com força em torno do puxador, mas acabei devolvendo a mala ao expositor.

Emma estava do lado de fora da loja, com a bolsa nova de couro pendurada em um ombro e as sacolas de compras amontoadas aos pés.

— Não vai levar nada? — Perguntou.

— Não.

Baixei os olhos para a bolsa de lona puída que usei durante toda a faculdade.

Meus pais tinham dinheiro para comprar coisas boas, e as aparências eram importantes para eles. Mas, sempre que eu precisava de alguma coisa, comprá-la se tornava um gasto desnecessário, uma irresponsabilidade ou um desperdício.

Naquela noite, minha mãe reservou uma sala privativa em um restaurante para comemorar a nossa formatura. Um bolo grande estava no centro da mesa, e a primeira coisa que vi foi a mensagem escrita nele.

[PARABÉNS, EMMA! O FUTURO É SEU!]

Emma pareceu constrangida.

— Mãe, o pessoal da confeitaria esqueceu o nome da Natalie?

Minha mãe nem tirou os olhos do cardápio para responder:

— A Natalie não faz muita questão de bolo. Ela não vai se importar.

Eu me importava, sim, e adorava bolo. Minha mãe simplesmente nunca tinha comprado um para mim.

No meio do jantar, meu pai entregou a Emma uma carta de recomendação impressa.

— O Mark marcou sua entrevista para segunda-feira. Ele acha que você se encaixaria muito bem na equipe do novo projeto. A Westbridge fica perto de casa, os benefícios são excelentes e há muitas oportunidades de crescimento. — Disse ele.

Os olhos de Emma se encheram de lágrimas.

— Vocês fizeram tudo por mim. Não sei o que seria de mim sem vocês.

Minha mãe estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dela.

— É para isso que os pais servem, querida. Iremos sempre garantir que você se saia bem.

Fiquei olhando para as mãos unidas delas e me perguntei se tinha me sentado no lugar errado. O momento entre elas parecia tão acolhedor e completo que era como se a minha presença o estragasse.

Meu pai pagou a conta antes de sairmos.

Uma hora depois, meu celular vibrou. Minha mãe tinha me enviado uma cobrança de 43,72 dólares pelo Venmo. Ninguém mais tinha recebido uma.

Logo em seguida, uma mensagem apareceu no grupo da família.

[Agora que você se formou, está na hora de começar a pagar as próprias despesas.

A partir do mês que vem, vamos cobrar 450 dólares de aluguel, além da sua parte nas contas da casa e nas compras de mercado.

E, por favor, pague a sua própria refeição quando sairmos para comer.]

Fiquei encarando a cobrança, que incluía até os últimos setenta e dois centavos. Naquela manhã, meus pais tinham gastado mais de mil dólares com Emma. À noite, cobraram de mim o jantar da minha própria formatura.

Não disse nada; apenas apertei na opção "pagar".

Se achavam que eu devia alguma coisa a eles, tudo bem. Eu pagaria até o último centavo.

Dali a dois dias, eu estaria a quase 4.800 quilômetros de distância e, finalmente, seria livre.
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