MasukPOV Emilly
Por alguns segundos, eu não consegui sentir nada além do meu próprio corpo. O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões, meu estômago se contraiu e minhas mãos ficaram frias. Permaneci parada diante de Isabella, tentando entender o significado daquelas quatro palavras. Eu dormi com o Will. Era como se meu cérebro tivesse ouvido a frase, mas se recusasse a processá-la. Will. O meu Will? Isabella continuava chorando diante de mim. E aquilo foi o suficiente para alguma coisa dentro de mim quebrar. Eu tinha terminado com Will havia apenas vinte dias. Ainda era recente demais. Recente demais para que aquilo parecesse real. Minha garganta fechou, e meus olhos começaram a arder. — Não… A palavra saiu tão baixa que mal pareceu minha. Isabella cobriu a boca com a mão, tentando controlar o choro, mas não conseguiu. E eu também não. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Depois outra. Eu tinha vindo até aquela porta segundos antes sorrindo, pronta para contar que nós duas poderíamos ir para Westbridge juntas. Agora, eu nem conseguia lembrar direito o que havia deixado sobre a cama. Isabella se levantou devagar, ainda enxugando as lágrimas, e tentou se aproximar de mim. — Emy… — Então por que você fez isso? Minha voz saiu trêmula. Olhei para ela, tentando encontrar alguma resposta que fizesse aquilo doer um pouco menos. — Foi por causa daquele pacto? Aquele que a gente fez quando tinha nove anos? Você ficou esse tempo todo pensando nisso? Isabella balançou a cabeça imediatamente. — Pelo amor de Deus, não foi isso. Ela respirou fundo, ainda chorando. — Nós dois estávamos tristes porque você ia embora. A gente bebeu, chorou… acabou acontecendo. Por um segundo, fiquei olhando para ela sem acreditar. Então comecei a rir. Não porque tivesse graça. Era aquele tipo de riso que escapava quando a dor era grande demais para continuar chorando. — Nossa… que lindo. Passei a mão pelo rosto, tentando conter as lágrimas e o riso ao mesmo tempo. — Estou realmente tocada. Olhei para ela, completamente incrédula. — Vocês me amam tanto que resolveram extravasar todo esse amor transando? Isabella continuou chorando. — Me perdoa, Emy. Por favor. Eu juro que não queria fazer isso com você. — Não queria? Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. Passei as mãos pelo rosto, tentando respirar, mas parecia impossível. — Desde que meu pai nos deixou sozinhas… desde que minha mãe fez aquilo… eu achei que isso nunca mais ia acontecer. Isabella me olhou, chorando ainda mais. — Eu achei que ninguém mais ia conseguir me destruir desse jeito. Minha voz começou a falhar. — Porque era você, Isabella. Balancei a cabeça, sentindo as lágrimas caírem. — Você era a única pessoa em quem eu confiava desse jeito. A única. — Emy… — Não! — interrompi, já chorando. — Eu nunca achei que você faria isso comigo. Nunca. Apertei os braços contra o próprio corpo, como se pudesse me segurar no lugar. — Eu podia esperar isso de qualquer pessoa. Qualquer uma. Mas de você? Soltei uma risada amarga. — Você era a pessoa que eu tinha certeza que nunca ia me machucar. Olhei para ela. — E olha o que você acabou de fazer. — Por favor, não fala isso, Emy. — Ah, me desculpa. Minha voz saiu carregada de ironia, mas eu já estava chorando de verdade. — Me desculpa se as minhas palavras estão te machucando. Respirei fundo, tentando recuperar algum controle. — Você tinha tudo, Isabella. Minha voz saiu baixa, mas cada palavra parecia pesar. — Eu só tinha você. Fiquei olhando para ela por alguns segundos, com as lágrimas ainda escorrendo pelo meu rosto. — E você sabia disso. Virei as costas. — Eu preciso sair daqui. — Emy… — Não. Fechei a porta atrás de mim. ⸻ Só quando me afastei alguns passos da porta percebi por que aquilo doía tanto. Isabella nunca tinha sido apenas minha prima. Quando minha mãe morreu, foi a mãe dela quem me acolheu. Eu fui morar com elas e, com o tempo, aquela casa deixou de parecer um lugar onde eu estava sendo criada. Virou minha casa. E Isabella… Isabella virou minha pessoa. Nós crescemos juntas. Dividimos quartos, segredos, brigas bobas, sonhos e praticamente todos os momentos importantes da nossa infância. Antes mesmo de entendermos direito o que significava gostar de alguém, já éramos melhores amigas. E então, aos nove anos, nós duas nos apaixonamos pelo mesmo garoto. William Cooper. Will, para todo mundo. Foi naquela idade ridícula que fizemos nosso pacto. Nenhuma das duas jamais namoraria Will. Nunca beijaria Will. Nunca ficaria com Will. Na época, aquilo parecia uma promessa séria. E, de algum jeito, continuou parecendo mesmo anos depois. Quando Will começou a demonstrar interesse por mim, fui a primeira a ficar confusa. Mas Isabella não. Ela me apoiou. Disse que eu gostava dele, que ele gostava de mim e que aquele pacto idiota de duas crianças não deveria impedir nada. Ela praticamente me empurrou para os braços dele. E eu confiei nela. Sempre confiei. Talvez esse tivesse sido o problema. Isabella sempre teve facilidade para fazer parte de qualquer lugar. Ela entrava em uma sala e, poucos minutos depois, já estava conversando com alguém. Tinha amigos por todos os lados, era convidada para tudo, conhecia todo mundo e parecia nunca precisar se esforçar para ser querida. Eu era o oposto. Mais quieta. Mais fechada. Muito mais confortável observando do que participando. Meu círculo de amigos cabia facilmente em uma mesa pequena, enquanto Isabella parecia precisar de uma cidade inteira para comportar todas as pessoas que amava. Durante muito tempo, achei que éramos o equilíbrio perfeito. Ela tinha o mundo. Eu tinha Isabella. E aquilo sempre tinha sido suficiente para mim. Até aquela manhã.POV WillianAssim que virei na rua, vi um carro estacionado em frente à casa de Beth.Não reconheci o carro.Mas reconheci a marca.Uma Mercedes.Parei por alguns segundos.Não precisava ser muito inteligente para imaginar de quem era.Emilly.Ela realmente tinha conseguido o que queria.Alguém que pensava grande.Balancei a cabeça e estacionei.Não queria pensar nela.Na verdade, naquele momento, eu só queria pegar Louis e levá-lo para casa.Desci do carro e caminhei até a porta.Antes mesmo de abrir, ouvi um choro.Parei.Era Louis.Abri a porta imediatamente.A primeira coisa que vi foi meu filho sentado no chão.Depois, Emilly.Ela estava no sofá, com o celular nas mãos.— O que está acontecendo aqui?Ela levantou os olhos para mim, claramente surpresa.— Willian…Entrei na sala e caminhei rapidamente até Louis.Quanto mais me aproximava, mais alguma coisa parecia errada.Ele não estava apenas chorando.Estava soluçando.Aqueles soluços curtos e repetidos de quem já tinha chorado
POV Emilly Mark tinha precisado voltar para a Europa. A viagem de negócios que tinha sido interrompida pela minha ida a Everwood não podia mais ser adiada, e eu também precisava resolver algumas coisas antes de voltar para Westbridge. Naquela manhã, fui até a casa de tia Beth. Eu queria conversar com ela, saber se precisava de alguma coisa e passar um pouco de tempo perto dela. Quando cheguei, encontrei Louis na sala. Ele estava sentado no chão, brincando com um carrinho. — Oi, Louis. Ele levantou os olhos para mim. Não respondeu. Sorri de leve. — Tudo bem? Ele voltou a olhar para o brinquedo. Olhei para Beth. — Ele está bem? Ela soltou um suspiro. — Mais ou menos. Cheguei mais perto. — O Willian deixou ele aqui? — Precisava resolver algumas coisas e pediu para eu ficar com ele. Assenti. — E você está bem para cuidar dele? Beth me olhou com uma expressão cansada. — Estou, mas preciso resolver algumas coisas também. Ela fez uma pequena pausa. — Você poderia fic
POV WillianO caminho de volta para a fazenda pareceu mais longo do que de costume.Eu dirigia em silêncio, com as mãos firmes no volante e a cabeça cheia demais para conseguir organizar qualquer pensamento.O funeral tinha acabado.As pessoas tinham ido embora.A casa da minha família estava esperando por mim.E Louis estava lá.Foi então que a realidade voltou a me atingir com força.Eu precisava contar ao meu filho que a mãe dele não voltaria.Pela primeira vez desde que recebi a notícia, não havia mais nada para fazer.Nenhuma ligação.Nenhuma decisão.Nenhuma burocracia para resolver.Só restava voltar para casa e contar ao meu filho que Isabella tinha morrido.Madison estava no banco ao meu lado.Durante boa parte do caminho, permaneceu em silêncio, até tocar de leve no meu braço.— Você quer que eu vá com você?Continuei olhando para a estrada.— Não.Ela ficou em silêncio por alguns segundos.— Tem certeza?Assenti.— Tenho.Eu não queria companhia.Naquele momento, preferia e
POV EmillyHavia gente demais naquele funeral.Muito mais do que eu imaginava.E, de alguma forma, aquilo era completamente a cara da Isabella.Ela sempre tinha sido assim. Conhecia todo mundo, e todo mundo conhecia ela. Tinha amigos em todos os lugares, pessoas que tinham estudado com ela, trabalhado com ela, convivido com ela em algum momento da vida.Até depois de morta, conseguia reunir uma quantidade absurda de pessoas em um mesmo lugar.Olhei ao redor do salão, reconhecendo alguns rostos e tentando lembrar de outros.Foi então que meus olhos encontraram Madison.Eu quase revirei os olhos.É claro que ela estava ali.Isabella nunca tinha gostado dela.Na verdade, acho que seria mais correto dizer que Ella fazia questão de deixar isso bem claro.Ela dizia que Madison estava fazendo de tudo para virar madrasta do Louis e fazia questão de ficar cada vez mais próxima de Willian.Segundo Isabella, aquela mulher estava praticamente se candidatando ao cargo.— Essa mulher ainda vai apar
POV WillEu ainda estava parado perto da entrada quando vi Emilly abraçar Beth.Por alguns segundos, apenas observei.Beth se agarrou a ela, chorando contra seu ombro, enquanto os braços dela envolviam a tia.— Eu sinto muito, tia Beth.A voz saiu baixa, mas firme.Ela fazia carinho nas costas de Beth, tentando tranquilizá-la enquanto mantinha a própria expressão estranhamente controlada.— Vai ficar tudo bem. A senhora não está sozinha.Beth continuava chorando, e o abraço se apertou um pouco mais.— A gente vai cuidar de tudo. O Louis vai ficar bem.Eram as coisas que precisavam ser ditas naquele momento. Palavras que não mudariam nada, mas que talvez ajudassem alguém a atravessar aqueles primeiros minutos.Mesmo assim, ela continuava sem chorar. Apenas permanecia ali, tentando ser forte por Beth.Foi quando sua mão passou pelos cabelos da tia e meu olhar acabou parando no dedo anelar.Um enorme anel de diamantes brilhava contra a luz do salão.Eu sabia que estava noiva.Beth tinha
POV Emilly Inércia. Substantivo feminino. Estado de um corpo que tende a permanecer em repouso ou em movimento uniforme enquanto nenhuma força externa atua sobre ele. Era assim que eu me sentia. Como se meu corpo continuasse se movimentando apenas porque alguém tinha esquecido de avisá-lo que o resto de mim tinha parado. Eu respirava. Andava. Falava. Respondia quando alguém falava comigo. Fazia tudo o que precisava ser feito. Mas não sentia que estava realmente fazendo nada daquilo. Depois daquela ligação, eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. A nossa Ella morreu. As palavras continuavam se repetindo dentro da minha cabeça. Mas não faziam sentido. Ella não podia estar morta. Não ela. Não daquele jeito. Depois da gravidez e do nascimento de Louis, Isabella começou a desenvolver problemas renais. Eu sabia. Ela sabia. Acompanhávamos tudo. Ela fazia exames, consultas, seguia as orientações médicas e sabia exatamente como estava a própria saúde.







