Mag-log inPOV Isabella
Eu estava arrasada. Não conseguia parar de pensar no que tinha feito. Eu tinha traído a única pessoa que realmente importava para mim no mundo. E por quê? Por uma atração boba. Uma paixonite que nem deveria ter passado da minha cabeça. E o pior era perceber que, no fim, eu tinha ficado com alguém que nem sequer estava realmente ali comigo. Porque Will estava pensando nela. Emilly. Era óbvio. Desde o jeito como ele tinha ficado depois, até o silêncio daquela manhã. Eu conseguia perceber que os pensamentos dele estavam nela. E aquilo tornava tudo ainda pior. Eu tinha machucado minha melhor amiga por uma coisa que, para ele, aparentemente nem significava o que eu tinha imaginado. Naquela manhã, quando nossos olhos se encontraram, nenhum dos dois precisou dizer muita coisa. Eu baixei o olhar. — Eu preciso contar pra ela. Will respirou fundo. — Eu sei. O brilho que ela tinha quando entrou naquele quarto, claramente animada para me contar alguma coisa, desapareceu completamente. E o vazio que ela deixou quando saiu foi devastador. As palavras que tinha dito atravessaram cada parte de mim, porque eram todas verdadeiras. Ou quase todas. Quando ela disse que eu tinha tudo e que ela só tinha a mim… Aquilo doeu porque eu sabia que era verdade. Eu tinha amigos. Tinha pessoas que gostavam de mim. Tinha facilidade para conhecer gente, para me encaixar em qualquer lugar, para fazer parte de tudo. Mas nada disso significava muita coisa se eu não tivesse Emilly. Ela era minha família. Minha melhor amiga. Minha irmã em tudo que realmente importava. E eu tinha sido justamente a pessoa que tirou dela a única coisa que ela achava que nunca perderia. Quando a porta se abriu novamente, eu já esperava qualquer coisa. Uma surra. Xingamentos. Que ela gritasse comigo. Talvez até que nunca mais quisesse olhar para a minha cara. Mas não estava preparada para o que aconteceu. Emilly entrou no quarto segurando um papel nas mãos. Por alguns segundos, apenas ficou me olhando. Então estendeu o papel na minha direção. — Eu consegui um lugar pra gente em Westbridge. Meu coração apertou. Ela respirou fundo. — Você vem comigo? Eu nem pensei. Levantei da cama e me joguei nos braços dela. — Sim. Apertei Emilly com força, chorando contra o ombro dela. Ela não me abraçou de volta. E aquilo doeu. Mas também não me afastou. Depois de alguns segundos, ouvi sua voz baixa. — Eu amo você, Ella. Fechei os olhos. — A gente vai dar um jeito de consertar isso. E, naquele momento, eu soube que, apesar de tudo, ela ainda estava me dando uma chance de consertar aquilo. Uma chance que eu não iria desperdiçar. E foi assim que começaram os preparativos para a mudança. Nos dias seguintes, a casa parecia pequena demais para tantos planos. Nós duas passávamos horas falando sobre Westbridge, sobre a kitnet, sobre os móveis que precisaríamos comprar, sobre os lugares que queríamos conhecer e até sobre coisas completamente inúteis que, naquele momento, pareciam extremamente importantes. Faltava apenas um mês para irmos embora. E nós estávamos animadas. Por alguns momentos, quase conseguíamos fingir que nada tinha acontecido. Quase. Emilly ainda estava magoada comigo. Eu conseguia perceber isso em cada pequeno silêncio, em alguns olhares mais demorados e na maneira como ela ainda parecia escolher as palavras quando estávamos juntas. Mas também conseguia perceber o esforço genuíno que ela fazia para deixar aquilo para trás. Ela estava tentando. E eu sabia que não tinha direito de pedir mais do que isso. Então eu também tentava. Tentava ser a Isabella que ela conhecia antes daquela manhã. A prima que dividia tudo com ela. A amiga que sabia quando ela estava mentindo que estava bem. A pessoa que ela tinha escolhido para levar consigo para uma nova vida. Eu só não sabia se algum dia conseguiria esquecer que fui eu quem quase destruiu tudo. Cerca de vinte dias depois, Emilly entrou no meu quarto. — Ella, você tem um absorvente? Levantei os olhos para ela. — Tenho… acho. Comecei a procurar na gaveta, mas parei. Não tinha. Franzi a testa. — Espera. Meu coração deu uma pequena acelerada. Olhei para o calendário que ficava na parede. Contei os dias. Uma vez. Depois outra. Cinco dias. Eu estava atrasada havia cinco dias. E eu nunca atrasava. Meu estômago se apertou. Olhei para Emilly. Ela também percebeu. Por alguns segundos, nenhuma de nós disse nada. — Calma — ela falou rapidamente. — Você está envolvida com tudo da mudança. Deve ser isso. Assenti. — É. Mas nenhuma de nós parecia acreditar de verdade. No fundo, estávamos apavoradas. Mais tarde, fomos até uma farmácia na cidade vizinha. Não podíamos comprar aquilo em Everwood. A cidade era pequena demais. Todo mundo conhecia todo mundo. Se alguém me visse entrando em uma farmácia para comprar um teste de gravidez, provavelmente a notícia chegaria à minha mãe antes mesmo de eu voltar para casa. Então fomos para longe. Compramos o teste e voltamos em silêncio. Quando chegamos em casa, fui direto para o banheiro. Emilly entrou comigo e fechou a porta. Sentei no vaso, com as mãos tremendo enquanto esperava. Ela estava ao meu lado. Nenhuma de nós falava. Eu só conseguia olhar para aquele pequeno teste. Os segundos pareciam não passar. Até que apareceu. Duas linhas. Positivo. Meu mundo desabou. Fiquei olhando para aquilo sem conseguir respirar. — Não… Minha voz saiu quase inaudível. As lágrimas começaram antes mesmo que eu pudesse impedir. Emilly se abaixou diante de mim e me abraçou. Eu me agarrei a ela. E nós duas acabamos no chão daquele banheiro, chorando. — Vai ficar tudo bem — ela sussurrou. Apertei os olhos com força. Eu queria acreditar nela. Queria muito. Mas, naquele momento, nós duas sabíamos. Nada mais seria igual. Aquilo mudava tudo.POV WillianAssim que virei na rua, vi um carro estacionado em frente à casa de Beth.Não reconheci o carro.Mas reconheci a marca.Uma Mercedes.Parei por alguns segundos.Não precisava ser muito inteligente para imaginar de quem era.Emilly.Ela realmente tinha conseguido o que queria.Alguém que pensava grande.Balancei a cabeça e estacionei.Não queria pensar nela.Na verdade, naquele momento, eu só queria pegar Louis e levá-lo para casa.Desci do carro e caminhei até a porta.Antes mesmo de abrir, ouvi um choro.Parei.Era Louis.Abri a porta imediatamente.A primeira coisa que vi foi meu filho sentado no chão.Depois, Emilly.Ela estava no sofá, com o celular nas mãos.— O que está acontecendo aqui?Ela levantou os olhos para mim, claramente surpresa.— Willian…Entrei na sala e caminhei rapidamente até Louis.Quanto mais me aproximava, mais alguma coisa parecia errada.Ele não estava apenas chorando.Estava soluçando.Aqueles soluços curtos e repetidos de quem já tinha chorado
POV Emilly Mark tinha precisado voltar para a Europa. A viagem de negócios que tinha sido interrompida pela minha ida a Everwood não podia mais ser adiada, e eu também precisava resolver algumas coisas antes de voltar para Westbridge. Naquela manhã, fui até a casa de tia Beth. Eu queria conversar com ela, saber se precisava de alguma coisa e passar um pouco de tempo perto dela. Quando cheguei, encontrei Louis na sala. Ele estava sentado no chão, brincando com um carrinho. — Oi, Louis. Ele levantou os olhos para mim. Não respondeu. Sorri de leve. — Tudo bem? Ele voltou a olhar para o brinquedo. Olhei para Beth. — Ele está bem? Ela soltou um suspiro. — Mais ou menos. Cheguei mais perto. — O Willian deixou ele aqui? — Precisava resolver algumas coisas e pediu para eu ficar com ele. Assenti. — E você está bem para cuidar dele? Beth me olhou com uma expressão cansada. — Estou, mas preciso resolver algumas coisas também. Ela fez uma pequena pausa. — Você poderia fic
POV WillianO caminho de volta para a fazenda pareceu mais longo do que de costume.Eu dirigia em silêncio, com as mãos firmes no volante e a cabeça cheia demais para conseguir organizar qualquer pensamento.O funeral tinha acabado.As pessoas tinham ido embora.A casa da minha família estava esperando por mim.E Louis estava lá.Foi então que a realidade voltou a me atingir com força.Eu precisava contar ao meu filho que a mãe dele não voltaria.Pela primeira vez desde que recebi a notícia, não havia mais nada para fazer.Nenhuma ligação.Nenhuma decisão.Nenhuma burocracia para resolver.Só restava voltar para casa e contar ao meu filho que Isabella tinha morrido.Madison estava no banco ao meu lado.Durante boa parte do caminho, permaneceu em silêncio, até tocar de leve no meu braço.— Você quer que eu vá com você?Continuei olhando para a estrada.— Não.Ela ficou em silêncio por alguns segundos.— Tem certeza?Assenti.— Tenho.Eu não queria companhia.Naquele momento, preferia e
POV EmillyHavia gente demais naquele funeral.Muito mais do que eu imaginava.E, de alguma forma, aquilo era completamente a cara da Isabella.Ela sempre tinha sido assim. Conhecia todo mundo, e todo mundo conhecia ela. Tinha amigos em todos os lugares, pessoas que tinham estudado com ela, trabalhado com ela, convivido com ela em algum momento da vida.Até depois de morta, conseguia reunir uma quantidade absurda de pessoas em um mesmo lugar.Olhei ao redor do salão, reconhecendo alguns rostos e tentando lembrar de outros.Foi então que meus olhos encontraram Madison.Eu quase revirei os olhos.É claro que ela estava ali.Isabella nunca tinha gostado dela.Na verdade, acho que seria mais correto dizer que Ella fazia questão de deixar isso bem claro.Ela dizia que Madison estava fazendo de tudo para virar madrasta do Louis e fazia questão de ficar cada vez mais próxima de Willian.Segundo Isabella, aquela mulher estava praticamente se candidatando ao cargo.— Essa mulher ainda vai apar
POV WillEu ainda estava parado perto da entrada quando vi Emilly abraçar Beth.Por alguns segundos, apenas observei.Beth se agarrou a ela, chorando contra seu ombro, enquanto os braços dela envolviam a tia.— Eu sinto muito, tia Beth.A voz saiu baixa, mas firme.Ela fazia carinho nas costas de Beth, tentando tranquilizá-la enquanto mantinha a própria expressão estranhamente controlada.— Vai ficar tudo bem. A senhora não está sozinha.Beth continuava chorando, e o abraço se apertou um pouco mais.— A gente vai cuidar de tudo. O Louis vai ficar bem.Eram as coisas que precisavam ser ditas naquele momento. Palavras que não mudariam nada, mas que talvez ajudassem alguém a atravessar aqueles primeiros minutos.Mesmo assim, ela continuava sem chorar. Apenas permanecia ali, tentando ser forte por Beth.Foi quando sua mão passou pelos cabelos da tia e meu olhar acabou parando no dedo anelar.Um enorme anel de diamantes brilhava contra a luz do salão.Eu sabia que estava noiva.Beth tinha
POV Emilly Inércia. Substantivo feminino. Estado de um corpo que tende a permanecer em repouso ou em movimento uniforme enquanto nenhuma força externa atua sobre ele. Era assim que eu me sentia. Como se meu corpo continuasse se movimentando apenas porque alguém tinha esquecido de avisá-lo que o resto de mim tinha parado. Eu respirava. Andava. Falava. Respondia quando alguém falava comigo. Fazia tudo o que precisava ser feito. Mas não sentia que estava realmente fazendo nada daquilo. Depois daquela ligação, eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. A nossa Ella morreu. As palavras continuavam se repetindo dentro da minha cabeça. Mas não faziam sentido. Ella não podia estar morta. Não ela. Não daquele jeito. Depois da gravidez e do nascimento de Louis, Isabella começou a desenvolver problemas renais. Eu sabia. Ela sabia. Acompanhávamos tudo. Ela fazia exames, consultas, seguia as orientações médicas e sabia exatamente como estava a própria saúde.







