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A Loba Branca Rejeitada da Matilha Sem Lei
A Loba Branca Rejeitada da Matilha Sem Lei
Penulis: Gell Pereira

CAPÍTULO 1 — MÃOS QUENTES

Penulis: Gell Pereira
last update Tanggal publikasi: 2026-08-03 20:24:06

A água já estava fria demais. Annaluz sentia, nos nós dos dedos de Marta, que se cravavam contra a própria barriga, um tremor que não vinha da temperatura, mas do medo puro de quem está à beira do abismo.

O quarto cheirava a sangue, a suor, a uma mistura de ervas que Annaluz havia queimado na bacia ao lado da cama. Camomila. Calêndula. Algumas outras coisas que sua mãe nunca permitiu que ela nomeasse em voz alta. "Parteiras não explicam o que fazem. Elas apenas fazem", Nívea dizia, sempre, nos momentos em que Annaluz perguntava por quê.

Mas Annaluz explicava. Sussurrando, enquanto trabalhava. Contava histórias de outros partos que havia atendido, de bebês que nasceram saudáveis, de mães que viveram.

As lobas não sabiam se as histórias eram verdadeiras. Mas funcionava. Mantinha as mulheres acordadas. Mantinha-as respirando quando o instinto era gritar.

— Quanto tempo a contração dura? — perguntou Marta entre as contrações.

— O tempo que precisa durar.

Era uma resposta que Nívea teria dado. Annaluz odiava quando aquelas palavras saíam de sua própria boca. Soavam como resignação, quando o que ela queria era certeza. Soavam como magia, quando o que havia era apenas conhecimento, conhecimento que sua mãe insistia em guardar, fragmentado, como se a verdade fosse perigosa demais para revelar inteira.

A contração terminou. Marta caiu de volta ao lençol, ofegante, com os olhos pregados no teto de madeira da casa.

— Respira comigo, Marta — disse Annaluz, a voz firme e envolvente, carregando uma paciência infinita. Ela se inclinou mais, ajustando a posição com cuidado cirúrgico. — A filhote está ouvindo você. Ela sente o seu ritmo. Vamos trazer ela para fora juntas.

Marta obedeceu, engolindo o choro. Porque, quando uma loba está estirada, sangrando e vulnerável, ela confia instintivamente na única pessoa capaz de segurar o fio da sua vida.

— Sua bebê é forte — disse Annaluz, tocando a barriga de Marta com as mãos. Quentes, agora. Ela não sabia exatamente quando suas mãos ficavam quentes. Era sempre uma surpresa descobrir. — Sinto. Aqui.

Marta respirou fundo. A próxima contração a pegou em menos de um minuto.

Annaluz fechou os olhos por um segundo e começou a cantar.

Não era um canto solene de templo. Era uma melodia suave, baixa, uma daquelas canções que pareciam vir de longe, cortando o silêncio abafado daquele quarto no segundo andar. Enquanto a voz limpa e melodiosa preenchia o espaço, suas mãos desciam firmes sobre a barriga de Marta, guiando o movimento, absorvendo o calafrio da dor com uma precisão dolorosa.

Marta soltou o ar devagar, o corpo relaxando e se rendendo ao ritmo daquela voz. Lá dentro, a filhote pareceu acalmar o pulso apressado.

Annaluz respirou fundo, sentindo o peso daquela vida nos próprios dedos. A adrenalina corria quente, transformando cada segundo numa corda estirada ao máximo, mas ela mantinha os olhos focados, calculando cada centímetro, cada contração, cada batida do coração duplo. O desafio era imenso, mas ela estava exatamente onde precisava estar. "Esse parto vai ser épico", pensou, com um sorriso leve e firme nos lábios, enquanto a canção continuava a fluir.

Lá fora, a capital fingia normalidade. Carros passavam, vozes cortavam o vento, o mundo seguia cego. Mas ali dentro o tempo havia morrido, reduzido à respiração ofegante, ao cheiro de sangue e suor velho, e ao trabalho árduo e manual de desatar o nó da vida.

Annaluz acompanhou cada contração com os olhos semicerrados pela concentração, sentindo o exato momento em que o corpo de Marta cedia para dar passagem. Suas mãos firmes apoiaram o corpinho que vinha descendo, guiando os ombros com uma delicadeza milimétrica para evitar qualquer rasgo, qualquer sofrimento desnecessário. Foram horas de contato contínuo, de suor misturado à pele, de sussurros de encorajamento direcionados tanto à mãe exausta quanto à lobinha lá dentro.

Até que o choro cortou o silêncio. Fino, forte, perfeito. Uma fêmea.

Annaluz sorriu, o cansaço sumindo por um instante, e a envolveu rapidamente em lã grossa, colocando-a logo em seguida contra o peito de Marta.

— Lena — balbuciou a mãe, as lágrimas lavando a poeira do rosto e caindo sobre o rostinho da bebê.

Annaluz apenas assentiu, as costas doendo, o cabelo negro, herdado de Nívea, sua mãe, colado à testa pelo suor. Alta, de pele clara e lábios rosados, ela carregava uma beleza que chamaria a atenção de qualquer lobo à primeira vista, mas caminhava discreta, sem nenhuma vaidade no gesto, como quem nunca precisou se exibir para ser notada.

Saiu da casa ao meio-dia carregando o peso de uma cesta de pão e o corpo exausto de quem entregou tudo o que tinha. As ruas fervilhavam, mas ela caminhava em silêncio, sentindo o eco daquele nascimento vibrando em cada músculo.

Quando empurrou a porta de casa, Nívea estava na bancada, sovando a massa com gestos firmes e pausados. Os cabelos negros escapavam levente do coque  preso, emoldurando um rosto  de pele clara que,mesmo aos 45 anos, ainda guardava uma beleza serena e inegável. Os olhos experientes, castanhos, da cor de mel, se ergueram para a filha assim que ela entrou.

— Como foi? — perguntou Nívea, com a voz serena de quem conhecia o peso daquele ofício melhor do que ninguém.

— Menina. Saudável. A mãe está bem.

Nívea assentiu, desacelerando o movimento das mãos.

— Você cantou de novo?

— Sim.

— A rua inteira ouve quando você canta, Annaluz — Nívea ponderou, o tom carregado de um cuidado antigo. — "A parteira que canta nos quartos." Nem sempre a curiosidade dos outros é inofensiva. Você sabe que precisamos manter discrição.

Annaluz deu de ombros, guardando a cesta na mesa.

— Elas precisam de calma, mãe. E a minha voz funciona.

Nívea suspirou, fitando a filha por um longo momento antes de desviar o olhar para a porta dos fundos.

— Seu pai quer vê-la — disse Nívea, com uma entonação que era quase desinteressada demais para ser verdadeira.

— Agora?

— Agora.

Havia uma qualidade diferente naquele "agora". O tipo de "agora" que não era sobre o presente, mas sobre inevitabilidade. Annaluz deixou a cesta na mesa e subiu a escada.

Hesitou por um segundo antes de girar a maçaneta pesada de carvalho. O escritório de Demétrio ficava no andar de cima era o espaço mais privado da casa, com as paredes cobertas de mapas. Não o tipo de mapa que aparecia em casarões de ricos, para decoração, eram mapas manipulados, marcados a tinta, com linhas rasuradas e anotações nas margens que ela nunca conseguia ler de longe. O ambiente cheirava a tabaco antigo, couro batido e a papel amarelado dos registros de matilha, que acumulavam décadas de história.

Demétrio estava de pé, perto da janela, com as costas para a porta. Era um homem alto, de ombros largos, com a aparência de uns 48 anos. Cabelo castanho-avermelhado, começando a ficar grisalho. Mãos sempre ativas, mesmo parado, os dedos tamborilavam contra a coxa.

— Annaluz — disse, sem virar. Apenas o nome. Uma confirmação de que ela havia entrado. — Entre. E feche a porta.

Demétrio sentou-se sem tirar os olhos dos pergaminhos espalhados pela mesa quando ela entrou. Apenas esticou a mão sem olhar, apontando para a pesada cadeira de espaldar alto do outro lado.

O trinco bateu com um som abafado, isolando o cômodo do resto da casa. Annaluz obedeceu, sentindo o peso do olhar do pai recair sobre si antes mesmo de se ajeitar no estofado da poltrona. Ela cruzou as pernas, ajeitando a barra do vestido ainda marcada pelo pó e pelo suor seco da manhã, o corpo latejando com os resquícios da adrenalina do parto que acabou de realizar.

— Como foi o parto? — perguntou Demétrio, finalmente erguendo o rosto. Os olhos dele eram azul-acinzentados, duros como pedra polida, mas havia neles uma curiosidade contida. — Você saiu de casa antes mesmo do sol raiar, nem esperou o café.

Um sorriso involuntário, carregado de uma energia vibrante e teimosa, escapou pelos lábios de Annaluz. Ela recostou-se, sentindo o calor daquela vitória ainda fresco nas veias.

— Foi épico — disse ela, os olhos brilhando com o eco da canção que havia entoado horas antes. — A loba de Marta estava exausta, quase no limite, mas conseguimos. É uma menina forte. Vai crescer saudável.

Demétrio soltou um suspiro, balançando levemente a cabeça. Ele conhecia bem aquela expressão na filha, o brilho perigoso de quem se alimentava do risco e vencia a morte por pura audácia. Mas a leve satisfação que contornava o rosto dele logo se desfez, substituída por uma sombra densa que fez a temperatura do escritório parecer cair.

Ele recostou-se na cadeira, cruzando os braços grossos sobre o peito. O silêncio que se seguiu pesou no ar, espesso e carregado, arrastando-se por longos segundos até que ele decidiu quebrar a barreira.

— Daqui a quatro dias você faz dezoito anos, Annaluz — disse ele, a voz grave cortando o espaço entre os dois com a precisão de uma lâmina. — E precisamos conversar sobre o príncipe Valentin.

Annaluz sentiu o estômago dar um salto involuntário, mas manteve o queixo erguido, por puro instinto de sobrevivência emocional.

— O que tem ele, pai? — perguntou, a voz saindo um pouco mais firme do que ela realmente se sentia.

— Você tem certeza absoluta do que está fazendo? — Demétrio inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na madeira escura da mesa, cravando os olhos nela. — A cerimônia de maioridade está logo aí. Você realmente quer ficar noiva dele diante de todas as matilhas?

A pergunta veio carregada de um peso que ia muito além de uma simples formalidade familiar. Havia um aviso velado ali, uma brecha que ele abria para ela escapar, caso quisesse. Mas Annaluz não queria. O peito dela apertou com uma mistura de ansiedade e a teimosia típica de quem já havia tomado a própria decisão.

— Pai, ele prometeu — argumentou ela, gesticulando com as mãos ainda marcadas pelo esforço do dia. — A gente está namorando há quatro meses. O senhor sabe como funcionam as coisas para alguém da posição dele. O Valentin é um príncipe, ele não pode ficar muito tempo namorando às escondidas, sem status oficial. Tem que firmar compromisso logo. As matilhas reparam nessas coisas, o senhor sabe melhor do que ninguém.

Demétrio fechou os olhos por um instante, massageando a ponta do nariz com os dedos calejados, como se estivesse tentando conter uma dor de cabeça antiga que teimava em voltar. Quando tornou a encará-la, o olhar dele trazia uma mistura de frustração e um remorso pesado, difícil de decifrar.

— Um título não compra lealdade, Annaluz — murmurou ele, a voz grave raspando no fundo da garganta. — E um príncipe nem sempre é o homem que a sua loba merece ter ao lado quando o mundo desabar.

— Ele é bom para mim — retrucou ela rapidamente, o coração batendo mais forte contra as costelas. — E eu sei me cuidar, pai. O senhor me treinou para isso.

Demétrio encarou-a por um longo e torturante momento, avaliando cada traço do rosto dela, buscando ali a menina que ele criou e encontrando apenas a mulher obstinada em que ela havia se transformado. No fim, ele apenas desviou o olhar para os papéis na mesa, derrotado pelo próprio silêncio.

Permaneceu calado por alguns instantes, deixando o peso daquelas palavras se espalhar pelo escritório. Quando voltou a falar, sua voz perdeu a aspereza da autoridade e adquiriu um tom mais grave, quase íntimo, carregado de uma vulnerabilidade que raramente mostrava.

— Annaluz... — Ele a chamou pelo nome inteiro, o que sempre significava que a conversa tinha deixado de ser entre pai e filha para se tornar um aviso de sobrevivência. — Eu vou te fazer uma pergunta, e quero que você seja sincera, não comigo, mas com você mesma.

Annaluz tensionou os ombros, o coração dando um salto contra as costelas, mas manteve o queixo erguido.

— Qual pergunta, pai?

Demétrio inclinou-se ainda mais sobre a mesa, os olhos cinzentos fixos nos dela, como se quisesse atravessar a pele e ler cada pensamento escondido ali.

— Você está disposta a sacrificar o vínculo de companheira de destino pra ser apenas uma companheira por marcação? Eu não duvido dos seus sentimentos por ele, mas você sabe que na cerimônia, quando você pegar o amuleto da mão do sábio, ele vai direcionar pra onde está o seu companheiro de destino, caso ele esteja na cerimônia... Mas, e se não for o príncipe? O que você vai fazer? Já pensou nisso?

O silêncio que se seguiu foi denso, cortado apenas pelo som abafado da cidade lá fora. Annaluz sentiu o ar faltar por um segundo. A pergunta atingiu exatamente o medo mais profundo que ela vinha empurrando para o canto da mente há meses. O amuleto da maioridade não mentia, ele puxava a energia de quem estivesse na multidão, traçando a linha invisível do destino que os deuses lupinos escreviam no sangue.

Ela engoliu em seco, mas a voz saiu firme quando respondeu:

— Já pensei, pai. Se eu encontrar o meu companheiro de destino... eu não vou deixar passar a oportunidade de ter o que o senhor tem com a mamãe. Eu quero isso.

Demétrio franziu a testa, a surpresa misturando-se à angústia em seu rosto.

— Mesmo gostando do Valentin? — insistiu ele, querendo testar os limites da convicção dela.

— Sim — Annaluz respondeu sem hesitar, embora os dedos estivessem cravados nos próprios joelhos, traindo a tensão interna. — Ele vai entender. O vínculo de companheiro de destino é mais forte do que qualquer escolha, todos sabem disso, está no nosso sangue. Mas, se o meu companheiro não estiver na cerimônia e o Valentin fizer o pedido, eu vou aceitar. É uma escolha lógica, segura.

Demétrio balançou a cabeça lentamente, o maxilar travado pela frustração, enquanto se recostava na cadeira com força.

— Annaluz, você é muito jovem. Acha que tem o tempo do mundo, mas não tem. E se você encontrar o seu companheiro depois? Você sabe perfeitamente que, se o príncipe te marcar primeiro, o laço de sangue é selado. O seu verdadeiro companheiro nunca vai poder se aproximar, vai passar o resto da vida sentindo a dor de um vazio que nunca vai fechar, além de você condená-lo a esperar por alguém que já pertence a outro. É uma tortura para os dois lados.

As palavras do pai atingiram em cheio, pesadas como chumbo. Por um segundo, a imagem de um desconhecido sofrendo por um laço cortado cruzou sua mente, e um calafrio percorreu sua espinha. Mas Annaluz sacudiu a cabeça, fechando os olhos por um instante para afastar a fraqueza, antes de encará-lo com a teimosia inegociável que herdou dele.

— Eu já tomei a minha decisão, pai — disse ela, a voz baixa, mas inflexível, sem deixar margem para mais debates. — Eu sei o que estou fazendo.

Demétrio a encarou por um longo, longuíssimo minuto. Viu ali a mesma obstinação que fazia com que ela entrasse nos quartos de parto mais perigosos e sorrisse diante do perigo. Percebeu que tentar argumentar mais seria inútil; Annaluz já havia cruzado a linha entre a menina que pedia conselhos e a mulher que arcava com as consequências das próprias escolhas.

Soltou um suspiro longo, cansado, passando a mão pelo rosto antes de se render.

— Eu vou respeitar... — murmurou Demétrio, desviando o olhar para os papéis espalhados na mesa, a derrota estampada em cada linha dos seus ombros. — Embora eu não concorde cem por cento com isso.

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