INICIAR SESIÓNAmália
O sino da porta toca quando empurro a entrada da loja, o cheiro de café recém-passado e tecido novo me recebendo como sempre. Sete da manhã, e já estou aqui, organizando as prateleiras antes de abrir para o público. Ninguém me deu essa loja de bandeja. Cada centímetro desse espaço, cada peça pendurada nas araras, eu conquistei com unha e sangue. Lembro dos tempos em que nem sonhava em ter isso. Bolsa de estudos que ganhei brigando por nota, trabalhando à noite pra pagar material escolar enquanto os outros só precisavam pedir aos pais. Nunca tive esse luxo. Tive que correr atrás de tudo, desde cedo, sem ninguém segurando minha mão, exceto duas pessoas que entraram na minha vida quando tudo parecia perdido. Abro a loja, ajusto a vitrine, e é nesse momento que Vanessa entra, dois copos de café na mão, um sorriso largo no rosto de sempre. — Bom dia, patroa — ela zoa, me entregando o café. — Para de me chamar assim, Van. — Reviro os olhos, mas não escondo o sorriso. — Mas você é a patroa. — Ela dá de ombros, encostando no balcão. — Olha só como está o movimento essa semana. A gente triplicou as vendas do mês passado, sabia? — Sei, eu que cuido das planilhas, lembra? — Tô só reforçando o quanto você é foda, Amália. — Ela me encara séria por um segundo, o tom de brincadeira sumindo. — Sério. Eu vi você começar isso do zero. Sem grana, sem apoio de ninguém além dos seus pais. E olha onde você chegou. Sinto um aperto no peito, do tipo bom, do tipo que não sei bem lidar. Não gosto de elogio fácil, nunca gostei, mas vindo da Vanessa é diferente. Ela viu o processo inteiro, as noites que fechei o caixa sozinha chorando de cansaço, as vezes que quase desisti. — Também não fiz isso sozinha — respondo, sincera. — Você tá aqui desde o início. Aguentando meu estresse, minhas crises. — E vou continuar aguentando — ela ri. — Alguém precisa, né? Eu concordo, agradeço pelo café e bebo rápido, pois temos que começar a trabalhar. Termino de beber e jogo o copo descartável no lixo e em seguida, organizamos tudo para atender os clientes. Eu, Vanessa e tem mais alguns funcionários que contratei, não são muitos, mas já ajuda bastante. A loja é de roupas femininas, masculinas e cosméticos. E ainda bem, cada dia que passa, mais clientes conhecem a loja. Trabalhamos o dia inteiro entre clientes, ajustes de estoque, e as piadas de sempre que só a gente entende. Vanessa é uma das poucas pessoas em quem confio de verdade nessa vida, só não confio o suficiente pra contar o que realmente sou. Ela não sabe da loba que vive dentro de mim, e às vezes essa mentira pesa, mas não sei como ela reagiria, e não quero arriscar perder a única amizade que construí do zero, sem precisar fingir nada além dessa única coisa. No fim da tarde, bati o ponto, me despeço da Vanessa e dos outros colegas e pego o ônibus de volta pra casa. A viagem é longa, mas gosto desse tempo, janela aberta, vento batendo no rosto, a cidade dando lugar, aos poucos, às árvores que cercam onde moro. Quando desço na minha parada, sinto aquilo que sinto todos os dias ao voltar: paz. A floresta logo ali, densa, viva, chamando de um jeito que só quem carrega o que eu carrego entende. Respiro fundo o ar mais limpo, sinto minha loba se acalmar só de estar perto daquilo que é dela por natureza. Entro em casa, e o cheiro de café quentinho já me recebe. — Filha! — Carla me abraça forte, do jeito que faz desde que eu tinha cinco anos. — Como foi o trabalho? — Foi bom, mãe. Bem corrido, mas bom. Pedro está na mesa, servindo o café, o mesmo sorriso calmo de sempre no rosto. — Sente aqui, conta como foi o dia — ele diz, puxando a cadeira. Sento entre os dois, tomo meu café, conto sobre as vendas, sobre a Vanessa, sobre bobagens do cotidiano. Eles escutam com atenção genuína, do jeito que só pais de verdade escutam, mesmo não sendo de sangue. Eles são meus pais em tudo que importa. Foram eles que me criaram, que descobriram o que eu era e, ao invés de medo, me deram mais amor ainda. Nunca soube quem foram meus pais biológicos, só sei que morreram quando eu era pequena, e que Carla e Pedro me acharam perdida, sozinha, e nunca mais me deixaram. — E vocês, como foi o dia? — pergunto. — Tranquilo, como sempre — Pedro responde, dando de ombros. — A horta tá bonita esse mês. — disse, como sempre. Depois do café, subo pro banho, deixando a água quente relaxar o corpo cansado. É nesse momento que meu celular vibra em cima da pia. **Vanessa:** Amália, tem uma festa esse fim de semana, meus pais foram convidados e disseram que eu posso levar alguém. Bora comigo?? Vai ter gente rica pra caramba, pode ser bom pra loja também, conhecer contatos. Encaro a mensagem por um tempo, indecisa. Festas não são muito minha praia, prefiro minha loja, minha floresta, minha rotina. Mas talvez fizesse bem sair um pouco, e Vanessa raramente pede esse tipo de coisa. **Eu:** Bora. Só essa vez, viu? **Vanessa:** UHULll, vai ser incrível!! Te mando o endereço. Os dias passaram rápido, já é fim de semana. Está quase a hora de ir para a festa... Preciso me arrumar. Tomo um banho rápido, seco meu corpo e então, vou até o guarda-roupa, está na hora de me decidir o que vestir. Dou uma olhada nas roupas ali e encontro o vestido branco que comprei ano passado no réveillon, mas nunca cheguei a usar, ele é simples, elegante, sem exagero. Hoje ele vai estrear. Arrumo o cabelo, deixo as ondas soltas do jeito que gosto, passo um perfume leve. Quando termino, desço pra sala, onde meus pais assistem TV. — Vou numa festa com a Vanessa — aviso. — Não devo demorar muito. — Vai, filha, se diverte — Carla sorri. — Não precisa se preocupar com a gente. — Qualquer coisa, é só ligar — Pedro completa. Aceno pra eles, sorrindo, e saio de casa. No caminho até o ponto de táxi, uma vozinha na cabeça me questiona se devia mesmo ter aceitado ir. Mas já é tarde demais, já estou na rua, já disse que ia, e eu não sou de voltar atrás depois que decido alguma coisa. Só espero não me arrepender de estar indo para essa festa.AMALIA. Faz alguns dias que essa sensação não me larga. Um arrepio constante na nuca, um instinto antigo que nunca tinha experimentado antes, nem quando era mais nova e mais descuidada com minha própria segurança. Sinto olhos em mim o tempo todo, na rua, no caminho até a loja, até dentro de casa às vezes, quando olho pela janela do quarto antes de dormir.— Você anda estranha — Carla comenta, um dia desses, enquanto lavamos a louça juntas. — Tá tudo bem, filha?— Tô só cansada, mãe — minto, forçando um sorriso. — Correria da gravidez, sabe como é. Me sinto estranha as vezes, cansada, mas sei que isso vai passar. - dou uma piscadela pra ela. Ela não parece convencida, mas não insiste. Só passa a fechar a porta de casa com mais cuidado à noite, e percebo Pedro dando uma volta extra pelo quintal antes de dormir, como se também sentisse que algo está diferente, mesmo sem saber exatamente o quê.Evito a floresta em horários incomuns agora. Só vou de dia, com o sol ainda alto, evitando aq
DAVID. Sigo as pistas antigas por três dias inteiros antes de finalmente chegar nessa cidade, um lugar pequeno, tranquilo demais pra esconder algo tão perigoso quanto o que eu procuro. Ao meu lado, dois soldados da nossa alcateia se movem em silêncio, disfarçados de simples viajantes, roupas comuns, nada que chame atenção.— É aqui — murmuro, parado na esquina de uma rua movimentada, os olhos varrendo cada estabelecimento com atenção calculada. — As pistas antigas apontam pra essa região. Se a linhagem sobreviveu mesmo, é aqui que vamos encontrar o rastro dela.— Como vamos identificar ela entre tanta gente? — Bruno, o soldado mais jovem, pergunta, a voz baixa.— Pelo cheiro — respondo, seco. — Sangue alfa puro não se disfarça. Vamos sentir antes de ver.Passamos o dia inteiro circulando pela cidade, atentos, disfarçados entre turistas e moradores locais, até que, no fim da tarde, paramos diante de uma pequena loja de roupas, a vitrine bem cuidada, movimento constante de clientes ent
LUCIO.A floresta que cerca meu território é diferente de qualquer outra região por aqui, mais densa, mais escura, como se a própria natureza tivesse aprendido a temer quem manda ali. Nenhuma luz artificial alcança esse trecho de mata, só a claridade fraca da lua cortando entre os galhos altos, iluminando o salão de pedra que meus ancestrais construíram séculos atrás.Sento no meu trono, um bloco de rocha esculpido, frio, impessoal, exatamente do jeito que gosto. Bato os dedos devagar no braço de pedra, um ritmo impaciente, enquanto espero o relatório que mandei buscar há dias.— Alfa. — A voz vem da entrada, e David se aproxima, cabeça baixa, respeito absoluto na postura. — Trago notícias do sul.— Finalmente — resmungo, sentindo o interesse acender por dentro. — Fala.Ele se aproxima mais, parando a poucos metros do trono, e Miguel, meu beta, se posiciona ao meu lado, braços cruzados, aquela expressão calculista que ele sempre carrega.— Os rumores são verdadeiros — David começa, a
ANA. Sinto meu corpo inteiro vibrar de satisfação assim que sento no colo dele, minha boca colada na dele, meus dedos presos no cabelo escuro que sempre imaginei tocar assim, de perto, sem pressa nenhuma.Não acredito nisso, eu realmente estou aqui, com ele, com Mateo, o meu alfa. Minha loba ruge por dentro, satisfeita, extasiada. Finalmente. Depois de tanto tempo observando ele de longe, ouvindo histórias sobre o alfa mais temido da região, sonhando silenciosamente com esse exato momento, estar perto dele, ser escolhida por ele, sentir as mãos dele no meu corpo do jeito que sempre imaginei.Sou eu. Fui eu que ele escolheu, entre tantas outras filhas de sócios do pai dele, tantas lobas de família rica e poderosa. Fui eu.O beijo aprofunda, suas mãos deslizando pelo meu corpo com uma urgência que me deixa sem fôlego, e eu me entrego completamente, decidida a mostrar a ele, ali mesmo, naquele carro, o tipo de mulher que sou. O tipo de esposa que vou ser.— Vou fazer você nunca se arre
MATEO.Horas se passam e finalmente, o jantar termina. Todos já comeram e já brindamos... mas vejo como o sorriso deles são forçados demais. Eu permaneci sério, a todo momento. Não tem necessidade de sorrir assim. Após limpar a boca, me levanto pra me despedir dos sogros com a formalidade que a ocasião exige. Pego a mão da senhora Francis, dando um beijo curto, e aperto a mão do senhor Donald com firmeza.— Estou bastante contente — ele diz, o aperto de mão se prolongando um pouco mais do que o necessário. — Sei que vai ser um casamento de sucesso. Já vejo um grande futuro pra vocês, pra nós, lá na frente. Obrigado por escolher minha filha, alfa.A última frase sai mais baixa, quase um sussurro, os olhos dele buscando os meus com um peso que entendo bem, não é só sobre Ana, é sobre alianças, sobre poder, sobre o que essa união representa pras duas famílias. Entendo bem disso. — Seremos uma família agora — respondo, o tom mais formal do que sinto por dentro.Todos assentem, satisfei
MATEO.Passo dois dias inteiros remoendo a mesma decisão na cabeça, até finalmente chegar numa conclusão que me parece a única racional.Ana. Vou ficar noivo de Ana." É a escolha certa." repito pra mim mesmo enquanto pego o celular pra fazer as ligações necessárias. Amália não tem posse nenhuma, nenhuma fortuna, nenhuma família de peso que traga vantagem pra minha alcateia ou pra empresa do meu pai. É uma mulher pobre, dona de uma lojinha qualquer, por mais que meu lobo insista em discordar veementemente disso. Separar as coisas é o que um alfa de verdade faz, sentimento de um lado, estratégia do outro. Mesmo que, no fundo, uma parte teimosa de mim sussurre que talvez ela fosse mesmo minha parceira destinada.Ignoro essa parte. Preciso ignorar.Ela não é, não é... digo várias vezes. Faço as ligações necessárias, marco um encontro com meu pai ainda naquela tarde, e assim que chego no escritório dele, vou direto ao ponto, sem rodeios.— Decidi — falo, parando na frente da mesa dele. —







