FAZER LOGINMATEO
O salão da mansão Moretti está lotado quando chego, luzes douradas refletindo em taças de cristal, música ao fundo baixa o suficiente pra não atrapalhar as conversas de gente rica fingindo se importar umas com as outras. Ajusto o paletó, sinto o peso do relógio no pulso, e entro como quem entra num campo de batalha, postura ereta, olhar frio, pronto pra aguentar essa merda de noite. Meu pai me apresenta a alguns sócios logo de cara, cada um exalando um perfume caro demais e um ego maior ainda, competindo silenciosamente por quem tem o Rolex mais novo, o carro mais absurdo estacionado lá fora. Eu só assinto, aperto mãos, digo o mínimo necessário. Patético. Isso é o que penso, revirando os olhos assim que alguém se distrai. Inferno, não queria estar aqui, mas preciso fazer isso, se não, meu pai não iria largar do meu pé. Pego uma taça da bandeja que passa, viro de uma vez, pego outra. O álcool queima na garganta, mas não o suficiente pra apagar o tédio de estar aqui. — Calma, filho. — Meu pai segura meu braço, olhar de aviso. — Não quero que fique bêbado na frente de todo mundo. — Vou falar com uns empresários — respondo seco, me soltando. E é isso que faço. Um por um, aliados de negócios do meu pai me arrastam pra perto de suas filhas, cada uma mais arrumada que a outra, sorrisos ensaiados, decotes calculados. Todos sabem exatamente o que estão fazendo, meu pai é dono de uma das empresas de segurança mais respeitadas da cidade, além do hotel de luxo na Itália, e eu sou o herdeiro disso tudo. Pra eles, eu sou prêmio de loteria, e as filhas são o bilhete. Tento ser simpático. Difícil pra caralho, mas tento. Sorrio quando preciso, faço perguntas educadas, escuto respostas que esqueço no segundo seguinte. Todas bonitas, impecáveis, treinadas pra esse tipo de jogo social. E nada. Meu lobo continua mudo, indiferente, como se nenhuma delas existisse de verdade. Isso me irrita mais do que deveria. Nenhuma delas é minha parceria. Pronto, posso ir embora daqui. Depois de mais uma rodada de sorrisos falsos, invento desculpa de trabalho pendente e vou até meu pai, avisando que já fiz minha parte, que cumpri o que ele pediu. Ele assente, satisfeito o suficiente, e eu me afasto antes que outro empresário me empurre outra filha na cara. Pego outra taça, encosto perto de uma das janelas, decidido a ficar só mais alguns minutos antes de inventar uma saída definitiva. É aí que eu a vejo. Cabelos loiros escuros, ondulados, caindo sobre os ombros nus. Vestido branco simples, mas que veste o corpo dela de um jeito que nenhum vestido de grife conseguiu fazer com nenhuma outra mulher ali. Ela está conversando com alguém, rindo de algo, e o som daquela risada atravessa o salão inteiro e me acerta em cheio no peito. Que porra é essa que estou sentindo? Não consigo desviar meus olhos. Meu lobo, quieto a noite inteira, de repente ruge por dentro, um puxão físico que nunca senti antes, tipo se meu corpo inteiro decidisse ignorar meu comando e caminhar sozinho até ela. E é exatamente isso que acontece, antes de processar direito, já estou atravessando o salão, taça ainda na mão, olhos fixos naquela mulher que nem sei o nome. Chego perto, e ela percebe minha presença, se virando pra me encarar. Olhos verdes. Intensos, questionadores, nada tímidos. — Esse vestido realça seus olhos — falo, sem nem pensar direito no que estou dizendo. Nunca flerto assim, nunca preciso de flerte pra nada, mas as palavras saem antes que eu consiga filtrar. Ela ri, meio sem graça, meio debochada. — Isso é um elogio ou uma cantada mal ensaiada? — Ela me encara, olhos grandes e brilhantes demais. — As duas coisas, talvez. Ela me olha de cima a baixo, avaliando, e algo na postura dela, direta, sem papas na língua, me prende ainda mais. Ela não é como aquelas outras mulheres, não é mesmo. — Sou filho do dono que organizou essa festa — digo, testando a reação dela. — Ah. — Ela ergue uma sobrancelha, mais interessada agora, mas sem exagero, sem aquela postura calculista que vi a noite toda. — Isso explica o terno caro. — E o carro lá fora — completo, e ela ri de novo, dessa vez sem sem-graça nenhum. — Confesso que quase não vim — ela diz, ainda com aquele sorriso torto no rosto. — Mas acho que teria me arrependido. Essa noite tá ficando mais interessante do que eu esperava. Alguma coisa passa entre nós dois nesse momento, algo que eu não sei nomear, mas que sinto na pele, quase físico, elétrico. O salão inteiro parece sumir ao redor, as vozes, a música, tudo vira ruído distante. Só existe ela, o cheiro dela chegando até mim de um jeito que eu não consigo explicar racionalmente, doce, mas com algo selvagem por baixo, algo que meu lobo reconhece antes de mim. Eu me aproximo mais, curioso, possessivo de um jeito que não faz sentido pra alguém que acabei de conhecer. Ela também sente. Vejo isso nos olhos dela, no jeito que ela hesita antes de recuar um passo, como se estivesse tentando entender o próprio corpo reagindo daquele jeito. Mas ela não sabe o que eu sou, não sabe que essa atração que sente não é só química, é reconhecimento, é instinto puro de duas naturezas se encontrando. Passamos o resto da noite conversando, só nós dois, ignorando o resto da festa completamente. Ela é afiada, responde tudo com uma segurança que a maioria das mulheres ali não tem, não finge interesse em nada que eu diga só pra me agradar. Isso, de um jeito estranho, me atrai ainda mais. Quando o salão começa a esvaziar um pouco, me aproximo dela, voz baixa. — Vamos conversar em um lugar mais privado? Eu quero sentir a pele dela, ah como quero, quero a foder, e mesmo que não devesse, eu não consigo dizer não a isso. Eu preciso urgentemente sentir essa mulher. Ela hesita só um segundo antes de assentir. Seguro sua cintura antes de sairmos, um gesto possessivo que nem penso antes de fazer, puxando ela mais perto de mim. Nossos rostos ficam a centímetros de distância, e eu sorrio, sedutor, sentindo o coração dela acelerar, mesmo que ela tente disfarçar. — Vem comigo — falo, baixo, só pra ela ouvir. E ela vem, com seu sorriso que me deixa maluco de tesao.MATEO.Aprofundo o beijo, sentindo o gosto de vinho ainda na boca dela, e sem quebrar o contato, murmuro contra os lábios dela:— Vem, te levo pra casa. Não precisa chamar seu motorista. Eu mesmo faço isso. — me afasto um pouco, para olhar em seus olhos.Ela sorri pra mim, parece estar gostando da ideia. Ela assente, e então, se aproxima mais de mim, não querendo parar de me beijar enquanto andamos os últimos passos até o carro. Abro a porta pra ela, mas antes de entrar, Ana para, um sorriso malicioso no rosto, e passa a mão devagar pelo meu rosto, descendo até os ombros.— Antes disso — ela sussurra, puxando minha gravata de leve — eu quero fazer uma coisa. Algo que não dá mais para evitar, Mateo. — sussurra, roçando sua boca em minha barba rala. Ela se aproxima mais, porém, ao invés de sentar no banco, se acomoda no meu colo, as pernas de cada lado do meu corpo, e me beija de novo, mais intensa dessa vez, mais decidida.Seguro a cintura dela, aprofundando o beijo, sentindo cada cu
MATEO.Passo a manhã inteira revisando o perímetro da propriedade com meus lobos, cada detalhe, cada ponto cego que precisa de reforço.— Quero câmeras extras naquele trecho do bosque — ordeno, apontando pro mapa estendido sobre a mesa. — Qualquer um que se aproximar sem autorização, paga com a própria vida. Sem exceção, sem segunda chance.— Sim, Alfa — Rocco confirma, anotando tudo.Sou rígido com meus lobos porque preciso ser. Frouxidão custa vidas, custa território, custa respeito. Aprendi isso cedo, e não vou mudar agora.Mas nas últimas semanas, mesmo com tudo sob controle na alcateia, meu próprio lobo continua uma bagunça só. Insuportável, teimoso, recusando esquecer aquela mulher sem nome.— Descubram quem estava naquele evento dos Moretti — ordeno pra Tiago, mais cedo naquele dia. — Quero lista completa de convidadas, fotos do evento, qualquer registro que exista. Preciso saber quem é uma loba específica que estava lá.— Vou correr atrás, Alfa — ele responde, sem questionar.
AMALIA.Se passaram semanas, desde aquela noite, e minha menstruação ainda não veio. Fico contando os dias no calendário do celular, tentando entender se estou só estressada ou se é outra coisa qualquer. Nunca atrasei assim antes, nem nos períodos mais corridos da loja.Na segunda-feira, arrumando as araras de roupa, sinto uma tontura repentina, forte o suficiente pra eu precisar me apoiar no balcão por um segundo.— Amália? — Vanessa se aproxima rápido, preocupação estampada no rosto. — Você tá bem? Ficou branca do nada.— Tô, tô sim — respondo, respirando fundo até a tontura passar. — Só levantei rápido demais.Ela me olha desconfiada, os olhos correndo pelo meu rosto, pelo meu corpo.— Você emagreceu, sabia? E tá com uma cara péssima essa semana toda.— É estresse do trabalho, Van. E a TPM que insiste em não chegar direito, sabe como é.— Ah, TPM do inferno — ela faz uma careta de compreensão. — Nada que um chocolate bem gordo e um pote de sorvete não resolvam. Olha, você quer ir l
MATEO.Desço pra cozinha e encontro meu pai já sentado à mesa, café na mão, um sorriso satisfeito demais estampado no rosto. Sirvo meu próprio café em silêncio, sentando na cadeira de sempre, sem me alongar em cumprimentos.— Dormiu bem? — ele pergunta, e eu sei exatamente por que está tão bem-humorado hoje.— Dormi. — dou uma rápida olhada nele e dou um gole no café, que está amargo, como gosto. — As ligações renderam bom resultado — ele continua, ignorando meu tom seco. — Já tenho três encontros marcados pra você hoje. Famílias de peso, Mateo. Vai gostar do que vai ver. Todas são lindas, por favor, preste atenção nelas, em cada detalhe. — Vou ver — respondo, tomando mais um gole do café.— Não se atrase no primeiro encontro, por favor. É importante fazer boa impressão. — ele me olha por alguns segundos e limpa sua boca após terminar de comer. Só assinto, sem discutir. Estou fazendo exatamente o que ele sempre cobrou de mim, então não faz sentido nenhum bancar o difícil agora. Ter
AMALIATrês semanas se passaram desde aquela noite, e eu me obrigo, todos os dias, a seguir em frente como se nada tivesse acontecido.Não é fácil.As lembranças voltam nos momentos mais idiotas, enquanto arrumo uma prateleira, enquanto espero o ônibus, enquanto tento dormir. O cheiro dele, o toque dele, aquela frase seca ecoando na minha cabeça como um disco riscado: foi só uma noite.— Para com isso — sussurro pra mim mesma, batendo a mão na testa enquanto organizo o estoque na loja. — Ele nem existe mais, Amália. Esquece.Minha loba discorda, claro. Ela sempre discorda. Fica ali, quieta mas presente, uma saudade idiota de algo que nem devia ter sentido em primeiro lugar.— Não — falo baixo, séria, quase como se pudesse repreender aquela parte de mim como se repreende uma criança birrenta. — Você não vai ficar pensando nele. Aquele homem rico, nojento, desprezível. Foi um erro. Ponto.Respiro fundo, sacudo a cabeça, e volto a atenção pro trabalho. É a única coisa que realmente ajuda
MATEOFico olhando pra porta por onde ela saiu, o eco da batida ainda ecoando na cabeça. O quarto parece maior agora, vazio de um jeito que não devia incomodar tanto quanto incomoda.Passo a mão pelos cabelos, respiro fundo, e sento na beirada da cama. É aí que vejo, jogada no chão, a blusa que ela usou pra dormir, a minha blusa na verdade, ainda com o cheiro dela impregnado no tecido.— É melhor assim — sussurro, quase no automático, pegando a peça.Levo até o nariz sem pensar direito, e o cheiro me atinge em cheio. Doce e selvagem ao mesmo tempo, uma mistura que não existe em nenhuma outra mulher que já conheci. Fecho os olhos, e a lembrança da noite volta inteira, sem pedir licença, as mãos dela deslizando pelo meu corpo, minha boca na pele dela, os gemidos, o jeito que ela se movia comigo como se nossos corpos já se conhecessem há anos.Porra, como foi gostoso, sentir ela, tocar aquele corpo... Meu corpo esquenta só de lembrar, meu pau pulsa, está faminto por ela, que inferno. Qu







