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A mansão se ergue em tons de cinza e preto contra o céu da manhã, como se a escuridão que carrego dentro de mim tivesse tomado forma em pedra e vidro. As paredes altas, os jardins bem cuidados que escondem um perímetro de segurança que poucos conhecem, os corredores silenciosos onde meus passos ecoam como um aviso. Aqui, ninguém entra sem que eu permita. Aqui, eu sou lei.
Desço as escadas principais já vestido para o dia, terno escuro, relógio caro no pulso, e encontro três dos meus lobos mais próximos esperando no salão. Miguel, Fernando e Breno, homens que lutaram ao meu lado, que sangraram por mim, que sabem exatamente o que acontece a quem me trai ou me desafia.
— Algum problema durante a noite? — pergunto, direto, sem cumprimento.
— Nenhum, Alfa — Miguel responde, olhos baixos por um segundo antes de me encarar. — Patrulha completa. Território limpo.
— Bom. — Não elogio. Não sorrio. Fazer o trabalho certo é o mínimo esperado, não motivo de festa. — Se aparecer qualquer merda de alcateia estranha rondando nosso perímetro, quero saber na hora. Não depois. Na hora.
— Sim, Alfa.
Eles curvam a cabeça, um gesto de submissão que aprenderam a fazer sem pensar, porque sabem o que acontece quando alguém hesita perto de mim. Não preciso levantar a voz para ser obedecido. Minha presença já basta. Meu lobo é forte o suficiente para fazer até os alfas mais confiantes baixarem o olhar, e isso não é vaidade, é fato.
Saio pela garagem, onde meu carro me espera: um Lamborghini preto, motor que ruge como uma ameaça, importado direto da fábrica na Itália para minhas mãos e mais ninguém. Entro, ligo o motor, e o som preenche o espaço fechado como um rugido contido. Dirijo rápido pelas ruas estreitas, ultrapassando limites que não me interessam, porque regras humanas nunca foram feitas para mim.
Em poucos minutos, chego à sede da empresa do meu pai, segurança, vigilância, proteção corporativa para quem pode pagar o preço que cobramos. O prédio é imponente, todo vidro escuro e aço, e quando entro, o manobrista já sabe quem eu sou.
— Sr. Mateo — ele diz, curvando-se de leve enquanto pega minha chave. — Vou deixar bem na frente, como sempre.
— Faça isso — respondo, sem nem olhar para ele.
Todos aqui me conhecem. Filho do dono. O herdeiro que aparece de vez em quando, só para lembrar quem realmente manda, mesmo sem estar todos os dias atrás de uma mesa. Meu trabalho não é esse. Meu trabalho é outro, mais bruto, mais real, cuidar da minha alcateia, garantir que nenhum inimigo pise onde não deveria.
Subo até a sala do meu pai. Túlio não levanta os olhos quando entro, concentrado em papéis espalhados pela mesa de mogno.
— Mateo. — Ele fala meu nome como quem confirma um compromisso na agenda, nada mais.
— Pai.
— Como está a alcateia?
— Sob controle. Como sempre.
Ele finalmente levanta o olhar, me estuda por um segundo, como se buscasse alguma falha na minha resposta. Não encontra, porque não existe falha. Eu não erro nesse tipo de coisa.
— Os negócios não podem parar, Mateo. Tenho a segurança para cuidar, e ainda o hotel na Itália pedindo atenção. Não posso estar em dois lugares.
— Eu sei. Só passei para ver como estavam as coisas por aqui. Vou resolver umas pendências e volto pra mansão.
Ele assente, seco, e volta os olhos para os papéis. Não há abraço, não há "cuide-se", não há nada além dessa troca fria que sempre existiu entre nós dois. Foi assim desde que minha mãe morreu, quando eu ainda era pequeno demais para entender o motivo de tanto silêncio na casa. Meu pai nunca soube, ou nunca quis lidar com aquilo de outro jeito além da dureza.
Saio da sala sem me despedir de verdade. Pego minha chave de volta, entro no carro, e antes de dar a partida, minha mente foge para um lugar que tento evitar.
Lembro dela, não, não lembro o rosto, porque nunca cheguei a guardar isso direito. Lembro a ausência. O quarto vazio que era dela, esvaziado rápido demais depois que ela morreu. Lembro meu pai me chamando para treinar lutas quando eu ainda nem tinha idade para entender o que era perder alguém, dizendo que chorar era fraqueza, que um alfa não tem esse luxo. Aprendi cedo que sentimento é coisa que atrapalha. Que amor é coisa que mata, do jeito que matou minha mãe, ou pelo menos foi assim que meu pai tratou aquilo, como uma falha a ser corrigida, nunca mais repetida.
Cresci assim. Frio. Duro. Foi o que me tornou o que sou.
Dou a partida e sigo para a mansão, o pensamento ainda preso naquilo que meu pai não para de cobrar: encontrar minha luna. Já conheci várias lobas, filhas de aliados, cada uma mais bonita que a outra, mas nenhuma delas faz meu lobo reagir. Nada. Silêncio total, como se meu próprio instinto se recusasse a escolher.
Isso me irrita mais do que deveria.
Chego em casa, subo direto para o quarto, tiro o paletó e jogo na cadeira. Passo horas ali, revizando alguns papeis, algumas pendencias e dia, passa voando.
Horas depois, escuto batidas na porta.
— Entra — digo, sem me virar.
Meu pai aparece, ainda de terno, o mesmo olhar calculista de sempre.
— Recebi um convite. Festa da família Moretti, esse fim de semana. Reunião de famílias influentes, humanas e das nossas, todas disfarçadas de sociedade rica. Vai ser importante você aparecer.
— Não tenho interesse em festas, pai. - disse, dando de ombros.
— Não é sobre interesse, Mateo. É sobre posição. — Ele me encara sério. — Você precisa encontrar sua luna. Já está demorando demais.
Não respondo na hora. Só fico ali, olhando pela janela, pensando no que ele não precisa dizer em voz alta: se eu não encontrar minha companheira, se eu não tiver um herdeiro, o título de alfa pode passar para outra pessoa da linhagem, tipo, o meu tio, e só de pensar nisso fico puto, penso. Eeu não vou permitir. De jeito nenhum.
— Eu vou — respondo, finalmente, encontro os olhos dele.
Meu pai assente, satisfeito, e sai do quarto sem mais palavras.
Fico sozinho, olhando o teto, sem imaginar que aquela festa vai virar minha vida do avesso.
AMALIA. Faz alguns dias que essa sensação não me larga. Um arrepio constante na nuca, um instinto antigo que nunca tinha experimentado antes, nem quando era mais nova e mais descuidada com minha própria segurança. Sinto olhos em mim o tempo todo, na rua, no caminho até a loja, até dentro de casa às vezes, quando olho pela janela do quarto antes de dormir.— Você anda estranha — Carla comenta, um dia desses, enquanto lavamos a louça juntas. — Tá tudo bem, filha?— Tô só cansada, mãe — minto, forçando um sorriso. — Correria da gravidez, sabe como é. Me sinto estranha as vezes, cansada, mas sei que isso vai passar. - dou uma piscadela pra ela. Ela não parece convencida, mas não insiste. Só passa a fechar a porta de casa com mais cuidado à noite, e percebo Pedro dando uma volta extra pelo quintal antes de dormir, como se também sentisse que algo está diferente, mesmo sem saber exatamente o quê.Evito a floresta em horários incomuns agora. Só vou de dia, com o sol ainda alto, evitando aq
DAVID. Sigo as pistas antigas por três dias inteiros antes de finalmente chegar nessa cidade, um lugar pequeno, tranquilo demais pra esconder algo tão perigoso quanto o que eu procuro. Ao meu lado, dois soldados da nossa alcateia se movem em silêncio, disfarçados de simples viajantes, roupas comuns, nada que chame atenção.— É aqui — murmuro, parado na esquina de uma rua movimentada, os olhos varrendo cada estabelecimento com atenção calculada. — As pistas antigas apontam pra essa região. Se a linhagem sobreviveu mesmo, é aqui que vamos encontrar o rastro dela.— Como vamos identificar ela entre tanta gente? — Bruno, o soldado mais jovem, pergunta, a voz baixa.— Pelo cheiro — respondo, seco. — Sangue alfa puro não se disfarça. Vamos sentir antes de ver.Passamos o dia inteiro circulando pela cidade, atentos, disfarçados entre turistas e moradores locais, até que, no fim da tarde, paramos diante de uma pequena loja de roupas, a vitrine bem cuidada, movimento constante de clientes ent
LUCIO.A floresta que cerca meu território é diferente de qualquer outra região por aqui, mais densa, mais escura, como se a própria natureza tivesse aprendido a temer quem manda ali. Nenhuma luz artificial alcança esse trecho de mata, só a claridade fraca da lua cortando entre os galhos altos, iluminando o salão de pedra que meus ancestrais construíram séculos atrás.Sento no meu trono, um bloco de rocha esculpido, frio, impessoal, exatamente do jeito que gosto. Bato os dedos devagar no braço de pedra, um ritmo impaciente, enquanto espero o relatório que mandei buscar há dias.— Alfa. — A voz vem da entrada, e David se aproxima, cabeça baixa, respeito absoluto na postura. — Trago notícias do sul.— Finalmente — resmungo, sentindo o interesse acender por dentro. — Fala.Ele se aproxima mais, parando a poucos metros do trono, e Miguel, meu beta, se posiciona ao meu lado, braços cruzados, aquela expressão calculista que ele sempre carrega.— Os rumores são verdadeiros — David começa, a
ANA. Sinto meu corpo inteiro vibrar de satisfação assim que sento no colo dele, minha boca colada na dele, meus dedos presos no cabelo escuro que sempre imaginei tocar assim, de perto, sem pressa nenhuma.Não acredito nisso, eu realmente estou aqui, com ele, com Mateo, o meu alfa. Minha loba ruge por dentro, satisfeita, extasiada. Finalmente. Depois de tanto tempo observando ele de longe, ouvindo histórias sobre o alfa mais temido da região, sonhando silenciosamente com esse exato momento, estar perto dele, ser escolhida por ele, sentir as mãos dele no meu corpo do jeito que sempre imaginei.Sou eu. Fui eu que ele escolheu, entre tantas outras filhas de sócios do pai dele, tantas lobas de família rica e poderosa. Fui eu.O beijo aprofunda, suas mãos deslizando pelo meu corpo com uma urgência que me deixa sem fôlego, e eu me entrego completamente, decidida a mostrar a ele, ali mesmo, naquele carro, o tipo de mulher que sou. O tipo de esposa que vou ser.— Vou fazer você nunca se arre
MATEO.Horas se passam e finalmente, o jantar termina. Todos já comeram e já brindamos... mas vejo como o sorriso deles são forçados demais. Eu permaneci sério, a todo momento. Não tem necessidade de sorrir assim. Após limpar a boca, me levanto pra me despedir dos sogros com a formalidade que a ocasião exige. Pego a mão da senhora Francis, dando um beijo curto, e aperto a mão do senhor Donald com firmeza.— Estou bastante contente — ele diz, o aperto de mão se prolongando um pouco mais do que o necessário. — Sei que vai ser um casamento de sucesso. Já vejo um grande futuro pra vocês, pra nós, lá na frente. Obrigado por escolher minha filha, alfa.A última frase sai mais baixa, quase um sussurro, os olhos dele buscando os meus com um peso que entendo bem, não é só sobre Ana, é sobre alianças, sobre poder, sobre o que essa união representa pras duas famílias. Entendo bem disso. — Seremos uma família agora — respondo, o tom mais formal do que sinto por dentro.Todos assentem, satisfei
MATEO.Passo dois dias inteiros remoendo a mesma decisão na cabeça, até finalmente chegar numa conclusão que me parece a única racional.Ana. Vou ficar noivo de Ana." É a escolha certa." repito pra mim mesmo enquanto pego o celular pra fazer as ligações necessárias. Amália não tem posse nenhuma, nenhuma fortuna, nenhuma família de peso que traga vantagem pra minha alcateia ou pra empresa do meu pai. É uma mulher pobre, dona de uma lojinha qualquer, por mais que meu lobo insista em discordar veementemente disso. Separar as coisas é o que um alfa de verdade faz, sentimento de um lado, estratégia do outro. Mesmo que, no fundo, uma parte teimosa de mim sussurre que talvez ela fosse mesmo minha parceira destinada.Ignoro essa parte. Preciso ignorar.Ela não é, não é... digo várias vezes. Faço as ligações necessárias, marco um encontro com meu pai ainda naquela tarde, e assim que chego no escritório dele, vou direto ao ponto, sem rodeios.— Decidi — falo, parando na frente da mesa dele. —







