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 A MALDIÇÃO DOS VOLKOV
A MALDIÇÃO DOS VOLKOV
Author: Autora Nalva Martins

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last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-16 02:37:40

Evangeline

Escuto o som pesado da minha respiração enquanto passo apressada pelas portas de vidro do meu prédio. O inverno rigoroso que se aproxima faz o ar gelado comprimir meus pulmões. É madrugada e meus passos se apressam pelas calçadas vazias, numa tentativa de me levar para bem longe dali.

— Venha, entre!

A voz firme de Sophie diz, fazendo-me acomodar no banco traseiro de um carro.

A pergunta é: como eu cheguei até aqui?

Talvez seja difícil explicar sem voltar a um passado que passei tempo demais tentando esquecer. Houve uma época em que eu acreditava que minha vida seguiria um caminho completamente diferente. Eu tinha sonhos, planos e alguém ao meu lado em quem acreditava poder confiar.

Então, pouco a pouco, tudo mudou.

— Quero que leve isso com você.

Sophie segura firme nas minhas mãos e faz meus dedos se fecharem ao redor de um maço de dinheiro. Aturdida, encaro um rolo de notas.

— E-eu… não posso aceitar isso, Sophie…

Arfo.

— Essas são as suas economias de uma vida inteira. E eu não posso…

— É claro que você pode.

Seu olhar cai em minha barriga protuberante, coberta com uma manta grossa.

— Ela vai precisar.

Meus olhos se enchem de lágrimas.

Então ela me abraça forte e demorado. Choro em silêncio. E, quando ela se afasta, olha dentro dos meus olhos.

— Livre-se do seu celular, Evangeline — aconselha-me.

— Mas como vou poder falar com você?

— Você não vai.

E de repente sinto como se ela arrancasse mais um pedaço de mim.

— Vai ser melhor assim. Mais seguro. Não ligue para mim. Nem mesmo de um orelhão.

Prendo o ar.

— Eu… vou sentir sua falta.

Minha voz sai como um fio prestes a se romper.

— Eu sei, querida. — Seu olhar de pesar encara o meu. — Eu também — sussurra.

Seu polegar escorrega pela minha bochecha, secando uma lágrima desgarrada.

— Não chore.

Apenas faço um sim com a cabeça. Respiro fundo. Ela força um sorriso.

— Escute, conversei com uma amiga na Rússia. O nome dela é Nadezhda. Ela trabalha para um homem muito poderoso.

Abro a boca para falar, mas ela continua.

— Ela tem um trabalho para você lá. Assim estará segura e terá teto, proteção e comida.

— Ela sabe sobre…

Espalmo as minhas mãos no meu ventre.

— Não se preocupe. Ela sabe o que fazer.

Assinto.

— Obrigada, Sophie! Obrigada por tudo!

Volto a abraçá-la.

— Certo, agora vá, minha amiga — ela diz ao se afastar. Fecha a porta e b**e na lataria do carro.

— Vai! Vai! — ordena para o motorista.

Aperto a bolsa com as poucas roupas que consegui arrumar. O ronco do motor imediatamente libera uma fumaça, que se mistura ao frio extremo da noite. E, quando o veículo entra em movimento, olho para trás para vê-la uma última vez… até que ela desaparece de vez. Com uma respiração alta, relaxo sobre o banco e fecho os olhos por alguns instantes. O cansaço pesa sobre minhas pálpebras e, antes que eu perceba, o som do motor se transforma numa espécie de canção distante. Logo escuto os sons dos pássaros cantando. E alguns raios de sol escapam pelas copas das árvores. Em seguida, o toque suave da sua mão desliza pela minha bochecha.

Sorrio.

— Você é tão linda!

A voz grave diz com um tom baixo. Seguro na sua mão e beijo a sua palma demoradamente. Então ele se inclina para beijar a minha boca calidamente.

— Chegamos, senhora!

A voz do motorista me desperta, e solto um resmungo baixo, abrindo os olhos em seguida. Só então percebo que adormeci e encontro o dia claro do lado de fora. Alguns flocos de neve caem incessantes, formando algumas camadas nos telhados das casas e nas calçadas úmidas.

Ajeito-me em cima do banco para olhar com mais atenção para o lado de fora.

— O que eu faço agora?

— Vamos esperar até que alguém venha buscá-la.

Sinto o meu estômago roncar e me dou conta de que, na pressa da fuga, não trouxe nada para comer. Uma batida brusca no vidro me faz sobressaltar e encaro uma jovem senhora usando touca de lã e um cachecol em volta do pescoço.

Abro a porta.

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