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last update publish date: 2026-09-16 02:39:13

Evangeline

Ajeito a postura e saio da cozinha. Logo meus passos ecoam pelo corredor silencioso da mansão, levando-me direto para uma sala ampla e bem iluminada, onde portas de vidro transparentes revelam uma linda parte do jardim. Antes mesmo de adentrar, escuto algumas vozes vindas lá de dentro. Empurro a porta com o ombro e entro. A longa mesa sofisticada está ocupada por apenas três pessoas. Encontro o olhar de Nadezhda. Ela faz um discreto sinal com a cabeça, e eu deixo a travessa bem no centro, como foi recomendado.

— Empregada nova?

Uma voz firme e grossa pergunta, fazendo meu coração disparar dentro do peito.

— Sim — uma jovem de cabelos claros responde. — Perdemos uma funcionária recentemente e tivemos que substituí-la.

Prendo a respiração quando percebo o olhar dele em cima de mim.

— Estrangeira?

Meu estômago se contrai.

— Sim — a governanta responde por mim. — Ela chegou à Rússia há alguns dias. Estava precisando de um emprego e aqui está.

— Algum problema, Gideon? — a mulher sentada à mesa pergunta, curiosa.

Ele fica em silêncio. E eu rogo a Deus que eles me mandem sair logo dali.

— Nenhum.

— Você já pode ir.

Nadezhda finalmente diz, e eu me controlo para não sair correndo da sala.

Do lado de fora, solto o ar que estava preso em meus pulmões. Mas não volto para a cozinha. Eu preciso respirar. Preciso me acalmar antes de voltar ao trabalho. Então abro uma porta lateral da mansão e corro para o jardim gelado. Alguns minutos depois, os empregados estão reunidos para jantar na mesa da cozinha. E, enquanto eles comem e conversam, penso na minha filha que deixei no convento sob os cuidados da freira que me recebeu com muito carinho.

Me pego suspirando algumas vezes.

Queria estar com ela agora. Sentir o seu corpinho aquecido junto do meu. Mas preciso trabalhar e juntar dinheiro. Depois, encontrar um cantinho que seja nosso. E então seremos apenas ela e eu.

— Você não gosta muito de falar, não é?

Alguém diz, quando mexo na comida com o garfo.

— É que… sou um pouco tímida.

A verdade é que ainda me sinto meio perdida. Longe da casa, dos meus amigos, do meu trabalho. Eu tive que desistir de tudo para proteger a única coisa boa que aconteceu na minha vida em anos.

— Não precisa ficar tímida conosco, Evangeline — Galina diz, abrindo um sorriso encorajador. — Somos todos amigos aqui.

Apenas concordo com um menear de cabeça e levo uma pequena porção da comida à boca.

— Isso mesmo — uma jovem fala do outro lado da mesa. — Estamos aqui para nos apoiar.

Todos concordam. Forço um sorriso de boca fechada, sibilando um agradecimento tímido.

E, logo que deixamos a cozinha limpa, seguimos para a ala dos empregados, direto para os nossos quartos. O silêncio do cômodo simples e apertado me acalma. E, após um banho quente, me deito numa cama de solteiro e pego um livro para ler.

— Essa casa também é sua.

Ele diz, me abraçando por trás. Seu nariz raspa na lateral do meu pescoço e um arrepio percorre meu corpo inteiro. Fecho os olhos e sorrio, porque nunca me senti tão feliz assim antes. O cheiro da casa era tão familiar que é como se eu já pertencesse a esse lugar.

— Eu te amo tanto, Evangeline!

Sua voz baixa e rouca arranca um suspiro baixo de mim. Então sinto seus braços me apertarem um pouco mais.

Eu o amo. E ele é tudo para mim.

Uma batida na porta do quarto me faz abrir os olhos abruptamente. Levemente sobressaltada, abro os olhos e encaro o teto branco.

— Evangeline, acorde. Está na hora — a voz de Galina anuncia que o descanso acabou.

Meu olhar corre para a janela, mas ela está embaçada por causa da neve e é impossível ver alguma coisa lá fora. Solto uma respiração alta e me sento na beirada da cama. Apanho o livro que caiu enquanto eu dormia, o fecho e ponho em cima do criado-mudo.

Em poucos minutos estou usando um uniforme azul-marinho com bordados brancos. Uso um elástico para prender meus cabelos, colocando uma tiara em seguida. Passo a mão pelo vestido para ter certeza de que não tem nenhum vinco e finalmente saio do quarto.

— Bom dia!

Um dos empregados diz, arrumando ligeiramente os botões do uniforme antes de se juntar aos outros numa fila impecável.

— Bom dia! — digo, encaixando-me na fila, com uma postura ereta e olhando para frente como os outros.

— Vamos, vamos! Para a cozinha.

Galina ordena e todos seguimos logo atrás dela.

— Evangeline, quero que cuide do pão fresco hoje.

A chefe de cozinha começa a dar as ordens. Cada funcionário aqui dentro recebe uma função diferente. Rapidamente me mexo do meu lugar e começo a pegar alguns ingredientes. Farinha, ovos, fermento, leite…

Me concentro no meu trabalho.

— Mas o que é isso?

… Consegue sentir o cheiro? — pergunto quando ele entra na cozinha.

Ergo a travessa ainda quente e aspiro o aroma do suflê.

… Hum, o cheiro está maravilhoso!

Sinto orgulho quando ele diz isso.

… Sabia que ia gostar. Esse é o suflê de camarão que a minha mãe fazia. Você vai amar.

… Suflê de camarão? Eu sou alérgico a camarão.

Meu sorriso se desfaz.

… Oh, eu… não sabia.

Então algo inesperado acontece.

Um esbarrão. A travessa cai. O vidro se estilhaça pelo chão e o creme quente se espalha pelas minhas pernas. A dor da queimadura me deixa em agonia, mas ele não se mexe. Passam alguns segundos imóvel até que escuta os meus gritos.

… Artem! Artem!

Só então ele corre, pega um pano e encharca com água para me ajudar.

… Você é muito desastrada! — resmunga.

… Como pode deixar a travessa cair daquele jeito?

Naquele instante eu me culpei, assim como em todos os outros acidentes. Havia um padrão e eu não tinha percebido isso. Acontecia sempre que o meu namorado se sentia contrariado. Ou quando estava com ciúmes. E até mesmo quando algo dava errado no trabalho. Na visão dele, era sempre eu. A desajeitada que tropeçava nos próprios pés e que batia a cabeça com força na parede. A descuidada, que deslizava a lâmina da faca no próprio dedo. A desatenta que batia contra o cotovelo dele e consequentemente se machucava na quina da pia.

Respiro fundo.

— Minha nossa, dá pra ouvir os gritos dessa massa a quilômetros de distância dessa casa.

Desperto quando Galina fala, parando do meu lado. Então percebo que estou usando uma força extrema para sovar a massa.

— Me desculpe! — falo baixo demais.

— Você está bem?

Não. Meu cérebro grita.

Mexo os lábios, sem saber o que dizer.

— Estou — respondo hesitante.

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