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last update publish date: 2026-09-16 02:39:13

Evangeline

— Você deve ser a Evangeline.

Faço um sim com a cabeça.

— E você é a… Nadezhda, certo?

— Certo. Venha, precisamos ir — ela diz, me puxando para fora do veículo. Pego a minha bolsa e caminhamos apressadas para o outro lado da rua.

— Com quantas semanas está?

— Trinta e sete semanas.

Nadezhda para de repente e encara a minha barriga.

— Entre no carro.

Ela abre a porta traseira e eu me acomodo no banco.

— A princípio você ficará em um convento, aos cuidados de uma grande amiga.

— Até quando?

— Até o bebê nascer.

Ela liga o motor.

— Após o resguardo, darei alguns dias e poderá vir trabalhar na mansão Volkov.

— Volkov?

— Preste atenção, Evangeline. Soube que seu ex-namorado é um homem muito importante.

Apenas assinto.

— Tente não se destacar muito. Não chame a atenção de ninguém para você.

Respiro fundo.

— O que eu vou fazer na mansão Volkov?

— Vai trabalhar como empregada — ela vira a esquina. — Por enquanto. Só até resolvermos sua nova identidade. Então conseguiremos algo melhor…

— Empregada doméstica está bom para mim — a interrompo. — É um serviço interno. E não terei que lidar com pessoas importantes. Eu não me importo de lavar, limpar ou arrumar. Eu só…

Paro para respirar.

— Preciso me sentir segura outra vez.

Nadezhda meneia a cabeça em concordância.

***

Dois meses depois…

O cheiro de carne assada e ervas frescas toma conta da cozinha enquanto me movo entre as bancadas, mantendo os olhos fixos no que estou fazendo. Alguns empregados da casa pegam as travessas dispostas em cima de uma mesa retangular e saem logo em seguida.

— Evangeline?

Galina, uma senhora corpulenta e de bochechas levemente rosadas, me chama, atraindo minha atenção.

— Preciso que leve esta travessa para a sala de jantar. — Ela aponta para uma grande travessa de porcelana que acabou de ser retirada do forno.

— Sim, senhora.

Enxugo as mãos no avental e me aproximo da bancada. Com cuidado, seguro as alças da travessa protegidas por panos grossos. O calor ainda atravessa o tecido, mas não reclamo.

— E não esqueça de colocar no centro da mesa principal.

— Sim, senhora.

Ajeito a postura e saio da cozinha. Logo meus passos ecoam pelo corredor silencioso da mansão, levando-me direto para uma sala ampla e bem iluminada, onde portas de vidro transparentes revelam uma linda parte do jardim. Antes mesmo de adentrar, escuto algumas vozes vindas lá de dentro. Empurro a porta com o ombro e entro. A longa mesa sofisticada está ocupada por apenas três pessoas. Encontro o olhar de Nadezhda. Ela faz um discreto sinal com a cabeça, e eu deixo a travessa bem no centro, como foi recomendado.

— Empregada nova?

Uma voz firme e grossa pergunta, fazendo meu coração disparar dentro do peito.

— Sim — uma jovem de cabelos claros responde. — Perdemos uma funcionária recentemente e tivemos que substituí-la.

Prendo a respiração quando percebo o olhar dele em cima de mim.

— Estrangeira?

Meu estômago se contrai.

— Sim — a governanta responde por mim. — Ela chegou à Rússia há alguns dias. Estava precisando de um emprego e aqui está.

— Algum problema, Gideon? — a mulher sentada à mesa pergunta, curiosa.

Ele fica em silêncio. E eu rogo a Deus que eles me mandem sair logo dali.

— Nenhum.

— Você já pode ir.

Nadezhda finalmente diz, e eu me controlo para não sair correndo da sala.

Do lado de fora, solto o ar que estava preso em meus pulmões. Mas não volto para a cozinha. Eu preciso respirar. Preciso me acalmar antes de voltar ao trabalho. Então abro uma porta lateral da mansão e corro para o jardim gelado. Alguns minutos depois, os empregados estão reunidos para jantar na mesa da cozinha. E, enquanto eles comem e conversam, penso na minha filha que deixei no convento sob os cuidados da freira que me recebeu com muito carinho.

Me pego suspirando algumas vezes.

Queria estar com ela agora. Sentir o seu corpinho aquecido junto do meu. Mas preciso trabalhar e juntar dinheiro. Depois, encontrar um cantinho que seja nosso. E então seremos apenas ela e eu.

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