LOGINEvangeline
— Você não gosta muito de falar, não é?
Alguém diz, quando mexo na comida com o garfo.
— É que… sou um pouco tímida.
A verdade é que ainda me sinto meio perdida. Longe da casa, dos meus amigos, do meu trabalho. Eu tive que desistir de tudo para proteger a única coisa boa que aconteceu na minha vida em anos.
— Não precisa ficar tímida conosco, Evangeline — Galina diz, abrindo um sorriso encorajador. — Somos todos amigos aqui.
Apenas concordo com um menear de cabeça e levo uma pequena porção da comida à boca.
— Isso mesmo — uma jovem fala do outro lado da mesa. — Estamos aqui para nos apoiar.
Todos concordam. Forço um sorriso de boca fechada, sibilando um agradecimento tímido.
E, logo que deixamos a cozinha limpa, seguimos para a ala dos empregados, direto para os nossos quartos. O silêncio do cômodo simples e apertado me acalma. E, após um banho quente, me deito numa cama de solteiro e pego um livro para ler.
— Essa casa também é sua.
Ele diz, me abraçando por trás. Seu nariz raspa na lateral do meu pescoço e um arrepio percorre meu corpo inteiro. Fecho os olhos e sorrio, porque nunca me senti tão feliz assim antes. O cheiro da casa era tão familiar que é como se eu já pertencesse a esse lugar.
— Eu te amo tanto, Evangeline!
Sua voz baixa e rouca arranca um suspiro baixo de mim. Então sinto seus braços me apertarem um pouco mais.
Eu o amo. E ele é tudo para mim.
Uma batida na porta do quarto me faz abrir os olhos abruptamente. Levemente sobressaltada, abro os olhos e encaro o teto branco.
— Evangeline, acorde. Está na hora — a voz de Galina anuncia que o descanso acabou.
Meu olhar corre para a janela, mas ela está embaçada por causa da neve e é impossível ver alguma coisa lá fora. Solto uma respiração alta e me sento na beirada da cama. Apanho o livro que caiu enquanto eu dormia, o fecho e ponho em cima do criado-mudo.
Em poucos minutos estou usando um uniforme azul-marinho com bordados brancos. Uso um elástico para prender meus cabelos, colocando uma tiara em seguida. Passo a mão pelo vestido para ter certeza de que não tem nenhum vinco e finalmente saio do quarto.
— Bom dia!
Um dos empregados diz, arrumando ligeiramente os botões do uniforme antes de se juntar aos outros numa fila impecável.
— Bom dia! — digo, encaixando-me na fila, com uma postura ereta e olhando para frente como os outros.
— Vamos, vamos! Para a cozinha.
Galina ordena e todos seguimos logo atrás dela.
— Evangeline, quero que cuide do pão fresco hoje.
A chefe de cozinha começa a dar as ordens. Cada funcionário aqui dentro recebe uma função diferente. Rapidamente me mexo do meu lugar e começo a pegar alguns ingredientes. Farinha, ovos, fermento, leite…
Me concentro no meu trabalho.
— Mas o que é isso?
… Consegue sentir o cheiro? — pergunto quando ele entra na cozinha.
Ergo a travessa ainda quente e aspiro o aroma do suflê.
… Hum, o cheiro está maravilhoso!
Sinto orgulho quando ele diz isso.
… Sabia que ia gostar. Esse é o suflê de camarão que a minha mãe fazia. Você vai amar.
… Suflê de camarão? Eu sou alérgico a camarão.
Meu sorriso se desfaz.
… Oh, eu… não sabia.
Então algo inesperado acontece.
Um esbarrão. A travessa cai. O vidro se estilhaça pelo chão e o creme quente se espalha pelas minhas pernas. A dor da queimadura me deixa em agonia, mas ele não se mexe. Passam alguns segundos imóvel até que escuta os meus gritos.
… Artem! Artem!
Só então ele corre, pega um pano e encharca com água para me ajudar.
… Você é muito desastrada! — resmunga.
… Como pode deixar a travessa cair daquele jeito?
Naquele instante eu me culpei, assim como em todos os outros acidentes. Havia um padrão e eu não tinha percebido isso. Acontecia sempre que o meu namorado se sentia contrariado. Ou quando estava com ciúmes. E até mesmo quando algo dava errado no trabalho. Na visão dele, era sempre eu. A desajeitada que tropeçava nos próprios pés e que batia a cabeça com força na parede. A descuidada, que deslizava a lâmina da faca no próprio dedo. A desatenta que batia contra o cotovelo dele e consequentemente se machucava na quina da pia.
Respiro fundo.
— Minha nossa, dá pra ouvir os gritos dessa massa a quilômetros de distância dessa casa.
Desperto quando Galina fala, parando do meu lado. Então percebo que estou usando uma força extrema para sovar a massa.
— Me desculpe! — falo baixo demais.
— Você está bem?
Não. Meu cérebro grita.
Mexo os lábios, sem saber o que dizer.
— Estou — respondo hesitante.
GideonMeu tio avança sobre o médico, mas Anton o detém.— Tenho documentos, históricos de conversas, e-mails, áudios de negociações. Tudo guardado em um arquivo.— Seu cretino, filho da puta! — Dimitri grita, lutando para se livrar do agarre do meu amigo.Sinto que estou sendo esmagado por dentro. Por um instante não sei mais em quem confiar. O meu tio. O homem que me criou como seu filho, que esteve o tempo todo do meu lado. E o médico que jurou cuidar da minha família.Então algo se passa pela minha cabeça. Meu pai. Ele também fez parte dessa conspiração? E o meu avô?… Manter viva a ideia da maldição dos primogênitos dos Volkov.Meus dedos se fecham com tanta força contra minha palma, que sinto a ardência na pele.— E… o meu pai?A pergunta escapa da minha boca, à medida que encaro meu tio. O silêncio me faz olhar para o médico outra vez. Ele leva uma mão a nuca e solta uma respiração trêmula em seguida.— A cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva é uma doença hereditária, Gideon.
Gideon— Uma opinião longe dos domínios dos Volkov.— O que isso quer dizer? — Alina se pronuncia.— Exatamente o que você viu nesse laudo. OVolto o meu olhar para Viktor que agora mantém seu olhar fico no documento.— Que existe uma possibilidade de uma intervenção cirúrgica capaz de melhorar significativamente o meu quadro.Dou um passo na direção dele.— O que disse? — Mamãe indaga incrédula. — Você… v-você não vai morrer?A voz dela embarga. Contudo, continuo encarando o meu médico.— Me explique por que essa possibilidade nunca foi discutida comigo antes, doutor Viktor Sokolov? — questiono.Ele ergue a cabeça, solta um pigarro. Parece incomodado com os olhares em cima dele.— Gideon, você precisa compreender que o seu caso…Não espero terminar.Agarro Viktor pelo terno impecável e o empurro brutalmente contra uma parede. O impacto faz um quadro acima da sua cabeça balançar. E o meu antebraço pressiona com força a garganta dele, impedindo-o de se afastar.Um ruído de cadeiras arr
Gideon— Esperem aqui!Peço minutos depois, abrindo a porta de uma sala privada, e recebo os olhares de todos para mim. Alguns parecem confusos. Outros estão cheios de interrogação. E apenas um par de olhos está preocupado, o de minha mãe. Irina está sentada ao lado da minha prima, enquanto tio Dimitri ocupa uma das cadeiras próximas à cabeceira da mesa retangular. Doutor Viktor está em um canto afastado, perto de uma janela. Seus braços estão cruzados e ele carrega uma expressão de tranquilidade, de quem passou a vida cuidando da minha saúde.Observo cada um deles em silêncio. Sem expressão. Mas dentro da minha cabeça as perguntas gritam inquietas. A tensão estampada em seus rostos não passa despercebida. Tampouco as perguntas silenciosas que parecem aguardar minha entrada.— A culpa é sua! — Tio Dimitri acusa, ficando de pé, enquanto encara rudemente a minha esposa, que para do meu lado. — Como pode ser tão irresponsável, a ponto de tirar o meu sobrinho desse hospital sem uma recome
Gideon— E… o que isso muda? — pergunto. — Minha condição continua sendo grave, não é?— Sim. Não vou minimizar os riscos. Seu coração apresenta alterações que exigem tratamento especializado. E os episódios recentes de taquicardia não podem ser ignorados. Mas existe uma possibilidade que o senhor precisa conhecer.O médico faz uma pausa, como se escolhesse cuidadosamente as próximas palavras.— Uma intervenção cirúrgica pode melhorar significativamente o seu quadro.Demoro a compreender a frase.— Que tipo de intervenção?— Uma miectomia septal. É um procedimento no qual removemos uma pequena porção do músculo cardíaco espessado que está obstruindo a saída do sangue do ventrículo esquerdo. Pelos resultados que temos até agora, o senhor pode ser candidato à cirurgia. Precisaremos concluir a avaliação pré-operatória e analisar todos os riscos antes de tomar uma decisão definitiva.Fico imóvel.Uma cirurgia.A palavra ecoa na minha cabeça, mas não consigo atribuir a ela um significado q
GideonHoras depois…— Os exames ficarão prontos em uma hora.A enfermeira avisa, saindo da sala em seguida.Nervoso, saio da maca e vou para perto de uma janela. Observo o tempo nublado. Penso que irei cair na escuridão quando sinto o seu toque suave no meu braço. Viro o rosto para olhá-la.e— Você está bem?Apenas meneio a cabeça e volto a olhar para o lado de fora.Uma hora. Em uma hora descobrirei o meu destino. Ele pode me trazer um futuro ou pode simplesmente apagá-lo. Tirar de mim os sonhos que ousei sonhar por meros minutos. A espera me faz bater o polegar contra meu braço. Incapaz de permanecer completamente imóvel, afasto-me da janela e me sento uma poltrona. Respiro fundo. Penso em me levantar outra vez, quando ela se agacha bem na minha frente. Encaro o seu sorriso.É encorajador.— Fique calmo. Logo tudo isso vai acabar.Logo tudo isso vai acabar. Suas palavras se repetem dentro da minha cabeça.Vai acabar. Repito. Mas de que jeito?Então ela toca no meu rosto e me permit
Na manhã seguinte…Acordo aos poucos, consciente de um calor que não vem dos cobertores e percebo que Evangeline está aninhada contra mim, com o rosto próximo ao meu peito e um dos braços repousando sobre minha cintura. Por alguns segundos, permaneço imóvel, tentando compreender como acabamos nessa posição. A última coisa de que me lembro é de estar deitado de frente para ela e que passei horas a observando enquanto dormia.Em algum momento da noite a distância entre nós desapareceu e eu não percebi. A pior parte é que eu gostei dessa aproximação. Baixo os olhos para ela. E como se pressentisse meu olhar, Evangeline se mexe. Suas pálpebras se abrem e nossos olhos se encontram.A princípio, ela fica imóvel. O silêncio que se instala entre nós é desconcertante. Nenhum dos dois parece saber o que fazer com aquela proximidade.Sinto seus dedos se contraírem levemente contra minha camisa, como se ela só agora percebesse onde está. Eu também percebo. Cada detalhe. O calor de seu corpo, a su







