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last update publish date: 2026-09-16 02:39:54

Evangeline

Seu olhar me analisa por alguns segundos.

— Ponha essa massa na forma, querida. O forno já está aquecido.

Assinto e me afasto imediatamente para ir em busca da forma.

Você precisa parar de pensar no passado, Evangeline. Digo para mim mesma. Se concentre no seu trabalho. Você não pode perder esse emprego.

Algumas horas depois, o cheiro do pão está por todo o cômodo. Em cima de uma mesa comprida tem várias bandejas preparadas para serem servidas a qualquer momento. Nadezhda adentra a cozinha e a ordem é dada logo em seguida. Seguro a cesta com os pães frescos e levo para a sala de jantar. Diferente da última vez, tem apenas duas pessoas sentadas à mesa. Alguns empregados depositam os pratos e, quando me preparo para sair, percebo um par de sapatos lustrosos e negros parados na entrada do cômodo.

Engulo em seco e puxo uma respiração profunda, mas sutil.

— Gideon, querido! — a mulher atrás de mim diz animada. — Venha, sente-se do meu lado.

Ela pede, mas ele não se mexe.

— Olhe para mim! — ele solta um tom áspero e firme, porém baixo.

Nervosa, mantenho meus olhos fixos nos seus sapatos.

— Eu disse: olhe para mim!

Meu coração estremece, mas obedeço, erguendo a cabeça bem devagar. E prendo a respiração quando encontro o seu olhar escuro como uma noite sem estrelas, olhando-me com uma firmeza assustadora.

— Você parece uma fugitiva quando se esconde dessa maneira.

Meu coração dispara feroz dentro do peito.

— Nunca mais apareça assim na minha frente. Não quero vê-la novamente escondendo o rosto.

— Gideon, o que houve?

A mulher insiste. Meus olhos continuam congelados nos seus.

— Entendeu? — inquire, ignorando a pergunta dela.

Faço um sim com a cabeça.

— Eu não escutei.

Abro a boca com dificuldade.

— Sim… senhor.

Seu olhar ainda cativa o meu por alguns segundos. Até que ele se afasta para o lado e me dá passagem. Saio dali tão rápido quanto um raio. Tentando respirar, mas o ar parece estar preso em meus pulmões. E, quando já estou longe o suficiente, me encosto numa parede e tento me acalmar.

Não é nada.

Ele não sabe.

Está tudo bem.

Repito essas frases até acreditar em cada uma dessas palavras. E, quando sinto meu corpo se acalmar, respiro fundo e entro na cozinha.

***

Logo mais à noite…

— Entre! Entre! — Madre Caterina diz, quando abre as pesadas portas de madeira do convento.

Assim que entro, recebo o calor aconchegante das paredes brancas do lugar. Livro-me do pesado casaco e caminho ao seu lado pelo longo corredor.

— Como ela está? — pergunto, controlando minha ansiedade.

Recebo um sorriso seu.

— Acho que ela está adivinhando a sua chegada.

— Ah, é?

— Taya não dormiu desde a sua última mamada.

E, após subir dois lances de escadas, paramos de frente para uma porta de madeira envernizada. Meu coração dispara quando levo uma mão para a maçaneta. Eu a abro e um quarto cheio de berços entra no meu campo de visão. Meus olhos se enchem de lágrimas emocionadas e me pego sorrindo.

— Vai lá, querida — Caterina pede. — Segure a sua filha nos braços.

Só então eu me mexo.

— Oi, minha filhinha!

Minha voz sai como um sussurro quando finalmente a seguro nos meus braços e uma lembrança vívida preenche a minha mente. O dia em que pus os pés neste lugar me sentia completamente quebrada e perdida. E, alguns dias depois, a dor que rasgava o meu ventre parecia me partir ao meio, me trouxe um motivo real para sorrir.

“Taya. Você vai se chamar Taya Zorin.”

As lágrimas que preencheram meus olhos mal me permitiam ver o seu rostinho.

— Meu Deus, como eu senti a sua falta!

A aperto um pouco mais contra mim. O seu calor logo me aquece e o meu mundo inteiro se ilumina.

— Sentiu a falta da mamãe?

Começo a conversar com a minha filha enquanto saio do berçário e vou para um quarto que Caterina separou para mim desde que cheguei à Rússia. Me acomodo numa poltrona confortável, perto de uma janela. Acaricio suas bochechas rosadas. Conto-lhe uma história. E, quando termino de cantar uma canção de ninar, ela já está dormindo.

— Me desculpe não poder te levar comigo, docinho.

Fico em silêncio quando um nó começa a sufocar a minha garganta.

— A mamãe precisa trabalhar.

Em seguida, forço uma leve animação na minha voz.

— Logo vamos ter um lugar só nosso. E vamos ficar juntas para sempre.

Minha filha solta um resmungo que me faz rir. É como se ela soubesse o que eu quero dizer. A olho com mais atenção e sinto como se as emoções quisessem me afogar.

— Você é a minha força, Taya — solto um som embargado. — Por você eu sou capaz de lutar contra o mundo inteiro.

Contra ele.

Me levanto e a levo para a minha cama, ponho-a com cuidado e ajoelho-me na lateral. Fico olhando para minha filha por longos minutos sem dizer nada. E, quando o cansaço chega, me deito ao lado dela. Meu braço atravessa seu corpo frágil protetoramente.

Penso em Sophie. Me pergunto se Artem a procurou. Se ele perguntou de mim.

Não, não pense nisso. Não pense nele.

Já é bem tarde quando meus olhos ficam pesados e finalmente adormeço. Sem sonhos. Sem pesadelos.

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