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A Noiva de Dante Ferraz

Author: Val Lima
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-29 22:59:14

Sofia mal conseguia prestar atenção ao vestido que estava escolhendo. Seus pensamentos continuavam presos a Gabriel e ao silêncio que se seguira à tentativa frustrada de fuga.

— Esse vestido serve — disse Sofia, saindo do provador.

Helena ergueu os olhos e examinou a filha de cima a baixo.

— Você nem olhou direito para ele.

— Não preciso olhar. Está bom.

— Sofia, você vai se casar amanhã! Poderia ao menos demonstrar algum interesse!

— Isso faria alguma diferença, mãe?

Laura soltou uma risadinha, acomodada no sofá de veludo do ateliê.

— Deixa ela, mamãe. Parece que não está nem um pouco feliz por ajudar a família. Que ingrata!

Sofia lançou um olhar duro à irmã.

— Não estou com paciência para você, Laura.

— E eu só estou tentando ajudar. Afinal, não é todo dia que alguém consegue um marido rico sem precisar fazer o menor esforço.

— Já chega, Laura — repreendeu Helena, voltando a atenção para a filha mais velha. — Gostei desse modelo. O caimento está bonito, e a renda combina com você. Vamos pedir alguns ajustes com urgência.

— Faça como quiser.

— Você não se importa mesmo?

Sofia encarou a mãe.

— Isso faria alguma diferença?

Helena ficou em silêncio por um instante, claramente incomodada com a frieza da resposta.

— Não vou discutir com você. Só espero que amanhã não resolva fazer uma cena na igreja.

Sofia deu as costas e voltou para o provador sem responder.

Enquanto ela trocava de roupa atrás da cortina, ouviu Laura falar baixinho com a mãe.

— Imagine se Dante descobrir que a futura esposa está tão entusiasmada quanto alguém indo para o próprio enterro.

— Laura, comporte-se.

— Só estou dizendo...

Helena ignorou a provocação da caçula e continuou escolhendo o véu e os acessórios com a estilista. O importante era que Sofia estivesse impecável no altar. Sua aparência precisava ser perfeita.

Sofia saiu da loja com a mãe e a irmã sem demonstrar qualquer entusiasmo. Durante todo o caminho de volta à mansão, conferiu o celular várias vezes, mas Gabriel continuava sem dar notícias. O casamento estava cada vez mais próximo, e ela ainda não sabia o que havia acontecido com ele.

Ao chegar à mansão, no fim da tarde, encontrou uma funcionária parada diante de seu quarto, segurando uma caixa preta e elegante.

— Senhorita Sofia, esta encomenda acabou de chegar. Foi enviada pelo senhor Dante Ferraz.

Sofia agradeceu com um aceno, pegou a caixa e entrou no quarto. Depois de fechar a porta, colocou o pacote sobre a penteadeira e desfez o laço de fita de cetim. Dentro, encontrou um estojo revestido de veludo. Um colar de diamantes repousava sobre o tecido, com uma grande pedra azul cravejada no centro. A joia era delicada, imponente e evidentemente caríssima.

Sofia admirou a peça por alguns segundos. Era deslumbrante, mas nenhum diamante compensaria a ausência do homem que amava.

Havia um pequeno cartão junto ao estojo. Sofia o abriu.

Para usar amanhã.

Dante Ferraz.

A mensagem era curta e formal. Ela deixou o cartão sobre a penteadeira e fechou a tampa do estojo.

Helena apareceu pouco depois, sem bater, e se aproximou para ver o presente.

— Que joia maravilhosa! — exclamou, com os olhos brilhando ao admirar os diamantes. — Dante realmente sabe como tratar uma noiva da nossa posição.

— É bonita — limitou-se a responder Sofia.

— Isso deve custar uma fortuna! Amanhã, você precisa usá-la. Vai ficar perfeita com o decote do vestido.

— Vou usar, mãe.

Satisfeita, Helena sorriu e saiu do quarto para continuar coordenando os preparativos.

Sofia esperou a porta se fechar antes de pegar o celular. Abriu a conversa com Gabriel e digitou:

Gabriel, por favor, me responde. Preciso saber se você está bem.

Enviou a mensagem e tentou ligar novamente. O telefone continuava desligado.

Sofia se aproximou da janela e afastou a cortina pesada, observando o jardim escurecer. Tentou pensar no que faria no dia seguinte, em como encontraria Gabriel ou em como impediria aquele casamento. Mas não conseguiu encontrar uma saída.

Sentou-se na beirada da cama e cobriu o rosto com as mãos.

— Gabriel, onde você está? — sussurrou.

As lágrimas vieram antes que pudesse contê-las.

Chorou pelo homem que não apareceu na praça e pela vida que sua família decidira entregar a um desconhecido.

O cansaço acabou vencendo a angústia. Sem forças sequer para tirar a roupa, Sofia deitou-se de lado, apertou o celular contra o peito e fechou os olhos. Adormeceu com o rosto molhado, ainda esperando uma resposta que não chegava.

(...)

Quando despertou, a claridade do amanhecer ainda era fraca. Sofia pegou o celular imediatamente, mas não havia nenhuma mensagem nova. Olhou para o relógio sobre a penteadeira.

Seis horas da manhã.

Sentou-se na cama e passou as mãos pelo rosto. O casamento seria naquela manhã, mas não conseguiria subir ao altar sem tentar encontrar Gabriel mais uma vez.

Levantou-se depressa, vestiu um moletom largo por cima da roupa amassada com que dormira, calçou os tênis e pegou as chaves do carro. Prendeu o cabelo em um coque frouxo e saiu pelos fundos sem avisar ninguém.

Precisava ver Gabriel. Precisava saber o que havia acontecido.

Aquela era sua última oportunidade.

Sofia dirigiu pelas ruas ainda vazias da cidade até o prédio de Gabriel. Estacionou e entrou apressada, seguindo direto para o elevador. No andar dele, correu pelo corredor até parar diante da porta de madeira. Bateu com força.

— Gabriel? Sou eu! Abre, por favor!

Esperou alguns segundos e tornou a bater.

— Gabriel, preciso falar com você! Por favor!

O corredor permaneceu silencioso. Ninguém atendeu.

Ela puxou o celular do bolso do moletom e ligou. A mesma gravação informou que o aparelho continuava desligado.

— Não, Gabriel... Não faz isso comigo — murmurou, encostando a testa na porta fria.

Sem respostas, voltou ao elevador e desceu para a portaria, com os olhos ardendo. O porteiro do turno diurno organizava algumas correspondências no balcão.

— Por favor — chamou Sofia, com a voz cansada. — Preciso saber se o Gabriel do 402 saiu.

O homem ergueu os olhos, reconhecendo-a de outras visitas.

— O senhor Gabriel? Sim, eu o vi ontem de manhã.

Sofia deu um passo à frente.

— Você sabe para onde ele foi? Sabe se volta hoje?

— Ontem de manhã. Saiu com algumas malas. Disse que precisava fazer uma viagem urgente.

Sofia sentiu o estômago apertar. Gabriel havia saído naquela mesma manhã. Então, por que não apareceu na praça? O que poderia ter acontecido?

— Se ele voltar, por favor, diga que a Sofia esteve aqui — pediu ao funcionário, virando o rosto para esconder as lágrimas. — Peça para ele me ligar assim que chegar. É urgente.

— Pode deixar, senhorita.

Ela agradeceu e saiu do prédio. Gabriel havia recolhido suas coisas e viajado sem lhe dar explicações, sem sequer deixar uma mensagem.

Por quê?

Depois de tantas promessas, como ele poderia desaparecer justamente quando ela mais precisava dele?

Sem outra pista, Sofia voltou para o carro. Precisava retornar à mansão antes que notassem sua ausência.

O caminho de volta pareceu uma eternidade. As palavras do porteiro continuavam ecoando em sua mente.

Ao estacionar na garagem da propriedade, o relógio já marcava quase oito horas. Ela entrou pela porta lateral, torcendo para passar despercebida, mas o hall central já estava tomado pela movimentação dos preparativos.

Assim que Sofia entrou na sala, Helena encerrou a ligação que estava fazendo e caminhou em sua direção.

— Onde você estava, Sofia? Estou procurando por você há quase meia hora!

Sofia tentou ajeitar o moletom e disfarçar a expressão abatida.

— Saí para dar uma volta de carro. Precisava pensar.

— Sem avisar ninguém no dia do seu próprio casamento? A maquiadora já chegou e está esperando por você. O cabeleireiro também! O casamento é às dez, Sofia! Precisamos começar a nos arrumar imediatamente.

— Eu só precisava respirar um pouco, mãe — respondeu, com a voz sem vida.

Helena a examinou de cima a baixo, desconfiada ao notar o cabelo desfeito e as roupas amassadas. Mas logo olhou para o relógio de pulso.

— Você não tem tempo para isso agora. Suba, tome um banho e se prepare. Não vou admitir um único minuto de atraso com a família Ferraz.

Sofia obedeceu em silêncio e subiu os degraus de mármore.

Às dez da manhã do dia anterior, ela deveria ter encontrado Gabriel na praça. Agora, às dez daquela manhã, caminharia até o altar para se casar com um homem que nunca vira.

No quarto, os preparativos começaram imediatamente. A maquiadora trabalhou para disfarçar as olheiras profundas de Sofia com camadas de base e corretivo. O vestido de cetim branco foi fechado em suas costas, o véu de tule preso aos cabelos e, por fim, a profissional colocou o colar de diamantes de Dante em seu pescoço.

A pedra azul reluzia contra sua pele.

Sofia encarou o próprio reflexo. Estava impecável, exatamente como sua família desejava.

O trajeto até a igreja foi silencioso.

Ao chegar, Sofia ouviu o murmúrio dos convidados do outro lado das grandes portas de madeira. Seu coração disparou quando os primeiros acordes da marcha nupcial começaram a soar.

Augusto, vestindo um terno impecável, ofereceu o braço à filha e sorriu.

— Você está linda, meu amor.

Sofia tentou retribuir o sorriso, mas a tensão não a deixou.

As portas permaneceram fechadas por alguns segundos. Do outro lado, os convidados aguardavam sua entrada.

Ela respirou fundo e fechou os olhos por um instante. Uma parte dela ainda esperava que Gabriel aparecesse, que alguma coisa mudasse antes que fosse tarde demais.

Mas não havia mais tempo para esperar.

As portas começaram a se abrir lentamente, revelando a nave da igreja decorada com orquídeas brancas.

Sofia ergueu o queixo e fixou o olhar no altar.

Um homem de ombros largos e postura impecável a aguardava. Vestia um terno preto sob medida, e sua expressão séria transmitia uma autoridade que parecia dominar o ambiente.

Dante Ferraz.

O homem com quem se casaria em poucos minutos.

Sofia apertou os dedos contra o braço do pai. As pernas fraquejaram por um instante, mas ela deu o primeiro passo pelo corredor.

E, enquanto caminhava sob os olhares atentos dos convidados, uma única certeza martelava em sua mente:

Gabriel não viera.

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