LOGINSofia conferiu o celular novamente, mas não havia nenhuma mensagem. Às dez e cinco, ainda tentou se convencer de que Gabriel estava atrasado. Talvez tivesse enfrentado algum imprevisto no caminho ou o trânsito estivesse pior do que imaginava. Ele apareceria. Tinha prometido.
Sofia olhou para a esquina pela terceira vez em poucos minutos. Um carro branco passou devagar, seguido por uma motocicleta. Ela se inclinou para a frente, tentando enxergar os motoristas, mas nenhum deles era Gabriel. Soltou o ar e voltou a olhar para a tela, que continuava sem nenhuma notificação. Abriu a conversa entre os dois e releu as últimas mensagens da noite anterior. Gabriel havia sido carinhoso, como sempre. Dissera que os dois começariam uma nova vida e que ela não precisava ter medo, porque ele estaria ao seu lado. Sofia apertou os lábios. — Você prometeu — murmurou. Às dez e quinze, decidiu ligar. O telefone chamou até a ligação cair na caixa postal. Ela desligou e tentou novamente, levando o aparelho ao ouvido enquanto caminhava até a entrada da praça e olhava para os dois lados da rua. — Atende, Gabriel. Por favor. A ligação caiu outra vez. Sofia afastou o celular do rosto, encarando a tela como se pudesse obrigá-lo a tocar. Pensou em mandar uma mensagem, mas não queria parecer desesperada. Ele poderia estar dirigindo ou simplesmente não conseguir atender naquele momento. Mesmo assim, digitou: Você está chegando? Enviou a mensagem e guardou o aparelho na bolsa. Depois de esperar cinco minutos sem receber resposta, pegou o celular novamente e conferiu a tela. Nada. O incômodo começou a se transformar em irritação. Gabriel sabia que ela estava arriscando tudo. Havia deixado a casa, mentido para os pais e abandonado a segurança que conhecia porque confiava nele. Não era justo deixá-la esperando sem dar notícias. E se alguma coisa tivesse acontecido? O sol já começava a esquentar, e o movimento na rua aumentava aos poucos. Um homem atravessou a praça falando ao telefone, duas mulheres passaram conversando e um cachorro farejou a base do coreto antes de seguir pela calçada. A vida continuava normalmente ao redor dela, enquanto a sua parecia ter parado. Às dez e meia, Sofia ligou mais uma vez, mas não obteve resposta. Dessa vez, nem sequer esperou a ligação terminar. Encerrou a chamada e enviou outra mensagem. Gabriel, estou ficando preocupada. Me responde assim que puder. Ficou olhando para o texto depois de enviá-lo. Por um instante, pensou em ligar para Carol. A amiga talvez pudesse ajudá-la a encontrar um lugar para ficar até descobrir o que estava acontecendo, mas não sabia da fuga e nunca havia sido a favor do namoro de Sofia com Gabriel. Pedir socorro significava ouvir um sermão justamente quando ela estava no limite do desespero. Levantou-se e caminhou até o carro. Poderia procurar um café, sentar em algum lugar e pensar com calma. Talvez Gabriel aparecesse enquanto ela estivesse ali. Talvez tivesse ocorrido apenas um atraso. Antes de abrir a porta, porém, olhou para a mochila no banco do passageiro. Tudo o que possuía para começar de novo estava ali dentro: algumas roupas, documentos, dinheiro e objetos pessoais. Era pouco, mas deveria ser suficiente para os primeiros dias. Gabriel havia dito que os dois dariam um jeito, que encontrariam um lugar para ficar e resolveriam o restante juntos. Sofia acreditara nele. Ainda acreditava. Mas, se Gabriel não aparecesse, não sabia para onde ir. Em uma semana, seria obrigada a se casar com Dante Ferraz, um homem que nunca tinha visto. Sua mãe já havia escolhido os detalhes do vestido, organizado os preparativos e tratado o casamento como se a opinião dela não tivesse importância. Augusto, por sua vez, acreditava que aquele acordo era a única saída para quitar as dívidas da família. Sofia amava o pai, mas não conseguia aceitar que o preço da salvação fosse a própria liberdade. O ronco de um motor a fez erguer a cabeça. Um carro preto passou devagar pela rua diante da praça, com os vidros escuros impedindo que ela enxergasse quem estava lá dentro. Sofia acompanhou o veículo com os olhos. Quando virou o rosto na direção dele, o carro reduziu a velocidade por alguns segundos antes de seguir em frente. Um arrepio percorreu sua nuca. Por um instante, teve a sensação de que alguém a observava por trás daqueles vidros escuros. O carro desapareceu na esquina. Sofia tentou afastar o pensamento. Não tinha motivos para acreditar que aquele veículo estivesse relacionado ao desaparecimento de Gabriel, mas já não conseguia ignorar a sensação de que alguma coisa estava errada. Voltou a olhar para a esquina, esperando ver Gabriel aparecer a qualquer momento. Depois de mais alguns minutos sem sinal dele, decidiu entrar no carro. Bateu a porta e se trancou, mantendo os olhos na rua. Às dez e quarenta, tentou ligar para Gabriel novamente, mas a chamada caiu na caixa postal. — Droga! Sofia respirou fundo. Talvez ele tivesse mudado de ideia. Talvez tivesse percebido que fugir era mais difícil do que imaginava. Mas por que não avisaria? Por que faria isso justamente quando ela havia confiado nele? Sofia limpou discretamente o canto dos olhos e abriu a conversa mais uma vez. Estava prestes a escrever outra mensagem quando o celular vibrou em sua mão, fazendo-a quase deixá-lo cair. Era um número desconhecido. Ela abriu a mensagem. Pode parar de esperar. Ele não virá. Sofia ficou imóvel, lendo as palavras repetidamente. Quem era aquela pessoa? Talvez fosse uma brincadeira ou alguém tivesse enviado a mensagem por engano. Ela tentou se agarrar àquela possibilidade, mas o celular vibrou novamente antes que conseguisse se acalmar. Você deveria ter ficado em casa, Sofia. O sangue pareceu desaparecer de seu rosto. A pessoa sabia seu nome. Sofia olhou para os lados através dos vidros do carro. O homem que falava ao telefone já havia ido embora, as duas mulheres tinham desaparecido pela rua e a praça estava quase vazia. Ela procurou alguém que pudesse estar observando-a, mas não encontrou nada além de pessoas seguindo suas rotinas. Com os dedos trêmulos, ligou para Gabriel. Dessa vez, o telefone nem chegou a chamar: estava desligado. — Não... — sussurrou, balançando a cabeça. — Não pode ser. Tentou novamente, como se o resultado pudesse mudar, mas a mesma mensagem automática confirmou que o aparelho estava indisponível. As mensagens anônimas poderiam ser uma coincidência, e o telefone desligado também. Mas, juntas, aquelas coisas pareciam formar algo muito mais assustador. Alguém sabia que ela estava ali, que estava esperando por Gabriel e que ele não apareceria. Sofia precisava sair dali. Encontrar um lugar seguro e descobrir o que havia acontecido. Aproximou os dedos da chave na ignição, mas, antes que pudesse girá-la, o celular vibrou mais uma vez. Uma terceira mensagem apareceu na tela. Não tente fugir outra vez. Sofia ficou olhando para a mensagem, incapaz de afastar a sensação de que alguém conhecia cada passo que ela havia dado naquela manhã. Como alguém sabia dos planos deles? Tudo havia sido combinado em absoluto segredo. Dante Ferraz. Ela sabia que ele era um homem poderoso. O casamento fora negociado sem que ela tivesse voz, e agora alguém parecia conhecer seus movimentos. Não tinha provas, mas a possibilidade era assustadora o bastante. Se Dante já sabia que ela tentara fugir, do que mais seria capaz?Dante caminhou alguns passos para dentro do quarto. O assoalho rangeu sob o peso dele, e a luz da tarde, filtrada pelas cortinas, deixou metade do seu rosto na sombra.Sofia continuou sentada na beirada da cama, com as mãos apoiadas sobre o colo. Girou a aliança no dedo. O metal estava morno e parecia pesar mais do que antes.— Precisamos conversar sobre algumas coisas — ele repetiu.— Que questões ainda precisam ser esclarecidas? Pensei que nosso casamento já tivesse sido decidido por você e pelo meu pai.Dante a observou por alguns segundos.— Seu pai fez um acordo comigo. Mas isso não significa que você precise continuar vivendo como se não tivesse escolha.Ela soltou uma risada curta, sem humor.— Engraçado você dizer isso depois de tudo já estar decidido.— O que você esperava? Que eu pedisse sua opinião antes de resolver os problemas da sua família?— Eu esperava ter alguma participação na decisão que mudou a minha vida.— E você aceitou.— Porque não tinha outra saída!A voz de
— Sofia! Graças a Deus! Você atendeu!A voz dele chegava entrecortada, com um chiado de fundo, como se viesse de um lugar com eco. O coração dela disparou. Sofia encostou a testa no vidro da janela, e o calor do sol atravessou a pele, enquanto ela procurava o que dizer.— Onde você estava? Meu Deus, Gabriel, o que aconteceu? Eu esperei por você!— Eu sei, meu amor. Sinto muito. Acabei de recuperar meu telefone. Fiquei preso por vinte e quatro horas.— Preso? Como assim?— Fui confundido com outra pessoa. Estava a caminho do nosso encontro quando fui abordado. Tentaram me identificar, disseram que havia uma ocorrência envolvendo alguém com minhas características e acabaram me levando. Não adiantou explicar. Fiquei lá até conseguirem esclarecer tudo.— Meu Deus... Gabriel!— Eu não tinha como avisar você. Fiquei sem telefone, sem conseguir falar com ninguém. Assim que me liberaram e devolveram minhas coisas, a primeira coisa que fiz foi ligar para você.Sofia levou a mão à testa. As lág
Sofia demorou mais do que pretendia no quarto. Escolheu um vestido leve de algodão claro entre os que alguém havia pendurado no closet, passou a escova pelos cabelos até desfazer o que restava do penteado de noiva e guardou o celular no bolso. Pela janela, o morro descia em degraus de telhados e caixas d'água, e o ronco de uma moto subindo a ladeira chegava abafado pelo vidro. Ela ficou ali um instante, os dedos apoiados no parapeito frio, antes de abrir a porta.A escada tinha cheiro de madeira encerada. Conforme descia, outro cheiro foi se juntando a ele: alho dourando na manteiga, alguma coisa assando com ervas. O corrimão estava liso sob a palma de sua mão. De algum ponto da casa vinham passos rápidos e o tilintar de louça sendo disposta.Ainda tentava se acostumar com tudo aquilo quando encontrou Lívia na sala, de costas, montando um arranjo de flores. Com uma tesoura pequena nas mãos, ela cortava alguns caules, retirava folhas e escolhia cuidadosamente onde encaixar cada flor em
O carro seguiu pelas ruas enquanto Sofia tentava prestar atenção ao caminho. Sob a renda do vestido, podia sentir o contorno do celular que escondera ali antes da cerimônia, preso à cintura. Era a única coisa que ainda a ligava ao que tinha deixado para trás.No início, tudo parecia familiar. Prédios, avenidas movimentadas e estabelecimentos comerciais passavam pela janela. Ela imaginou que Dante a levaria para alguma mansão afastada ou um condomínio de luxo.Mas, depois de alguns minutos, o cenário começou a mudar.As ruas ficaram mais estreitas. Os prédios deram lugar a casas construídas muito próximas umas das outras, algumas empilhadas nas encostas do morro. Fios atravessavam as ruas de um lado a outro, pequenos comércios ocupavam as esquinas e músicas diferentes vinham de casas próximas. O cheiro de fritura e de roupa recém-lavada entrava pela fresta da janela. Havia crianças brincando nas calçadas, moradores conversando nas portas e motocicletas passando pelos becos.Sofia olhou
Augusto segurou a mão de Sofia por um instante antes de colocá-la sobre a de Dante.Ela sentiu os dedos do pai se afastarem. Por um momento, teve vontade de olhar para trás, como se ainda existisse alguma possibilidade de voltar pelo mesmo caminho.— Sofia — Dante chamou, em voz baixa.Ela voltou os olhos para ele.— Dante Ferraz. Embora imagine que já saiba disso.Sofia sustentou seu olhar por um instante.— Seria difícil não saber. Meu casamento inteiro foi organizado em torno do seu nome.Um breve movimento surgiu no canto da boca dele, quase um sorriso.— Justo.Ela não esperava aquela resposta. Muito menos a tranquilidade com que ele a recebeu.Dante ofereceu o braço.— Vamos?Sofia hesitou antes de aceitá-lo.Só então conseguiu observá-lo melhor. Ele era alto, tinha ombros largos, cabelos escuros cuidadosamente arrumados e um rosto de traços marcantes. O terno preto parecia feito sob medida. Havia algo em sua postura que transmitia autoridade, como se não precisasse levantar a v
Sofia mal conseguia prestar atenção ao vestido que estava escolhendo. Seus pensamentos continuavam presos a Gabriel e ao silêncio que se seguira à tentativa frustrada de fuga.— Esse vestido serve — disse Sofia, saindo do provador.Helena ergueu os olhos e examinou a filha de cima a baixo.— Você nem olhou direito para ele.— Não preciso olhar. Está bom.— Sofia, você vai se casar amanhã! Poderia ao menos demonstrar algum interesse!— Isso faria alguma diferença, mãe?Laura soltou uma risadinha, acomodada no sofá de veludo do ateliê.— Deixa ela, mamãe. Parece que não está nem um pouco feliz por ajudar a família. Que ingrata!Sofia lançou um olhar duro à irmã.— Não estou com paciência para você, Laura.— E eu só estou tentando ajudar. Afinal, não é todo dia que alguém consegue um marido rico sem precisar fazer o menor esforço.— Já chega, Laura — repreendeu Helena, voltando a atenção para a filha mais velha. — Gostei desse modelo. O caimento está bonito, e a renda combina com você. V







