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Menos de vinte e quatro horas

Auteur: Val Lima
last update Date de publication: 2026-10-29 22:18:04

Sofia ligou o carro e deixou a praça para trás, contendo a angústia que ameaçava dominá-la. Tinha saído da mansão naquela manhã acreditando que finalmente conseguiria escapar do casamento arranjado. Agora, estava voltando sozinha.

Quando chegou à garagem da propriedade, permaneceu alguns segundos com as mãos firmes no volante, olhando para a entrada imponente da mansão. Respirou fundo, forçou uma expressão tranquila, pegou a bolsa e a mochila no banco do passageiro e saiu do veículo.

Ao entrar em casa, encontrou uma das funcionárias organizando alguns vasos de flores no aparador do corredor.

— Já voltou, senhorita Sofia? — perguntou a mulher, erguendo os olhos.

— Já. Resolvi voltar mais cedo...

A resposta saiu rápida demais, mas a funcionária apenas assentiu e não fez outras perguntas.

Sofia aproveitou a oportunidade para subir as escadas, tentando manter a postura tranquila até alcançar a segurança de seu quarto. Assim que fechou a porta e girou a chave na fechadura, largou a bolsa sobre a cama e tirou a mochila do ombro.

Caminhou até o closet e guardou-a no fundo do guarda-roupa, escondida atrás de algumas caixas grandes. Ficou olhando para o esconderijo por alguns segundos, sentindo um gosto amargo na boca.

Era ridículo. Tudo tinha dado errado.

O celular continuava sem notícias de Gabriel. Ela abriu a conversa dos dois e releu a última mensagem da noite anterior.

Queria acreditar que algum imprevisto o havia impedido de chegar à praça, mas não conseguia afastar a lembrança das mensagens anônimas.

Alguém sabia da fuga. E, se sua suspeita estivesse certa, o responsável poderia ser justamente o homem com quem seria obrigada a se casar: Dante Ferraz.

O nome fez seu estômago se contrair. Ela nunca o tinha visto, não sabia como era sua voz nem conhecia os motivos pelos quais ele a havia escolhido para aquele arranjo. Tudo o que sabia era que o acordo quitaria as dívidas de sua família e que ninguém naquela casa parecia disposto a permitir que ela recusasse.

Uma batida firme na porta interrompeu seus pensamentos.

— Sofia? — chamou Helena. — Que bom que você chegou.

Ela largou o celular na cômoda e destrancou a porta, encarando a mãe.

— Oi, mãe. O que aconteceu?

— Seu pai quer falar com você com urgência. Eu já ia te ligar. Ele está no escritório esperando.

Sofia fechou os olhos por um instante. Tudo ali dentro continuava exatamente como antes.

— Vou lá falar com ele.

— Ótimo. Então desça assim que puder.

Helena já estava se virando para sair quando parou e avaliou a filha de cima a baixo.

— Espere. Você não disse que ia encontrar a Carol para fazer as unhas?

Sofia manteve o tom neutro.

— Não consegui. O salão estava cheio.

A mãe franziu a testa, claramente insatisfeita com o visual despojado da filha, e virou as costas sem dizer mais nada.

Sofia foi até o espelho do banheiro e jogou um pouco de água no rosto. Precisava agir com absoluta normalidade. Se Augusto percebesse qualquer traço de pânico, faria perguntas para as quais ela não tinha respostas.

Quando entrou no escritório, encontrou o pai sentado atrás da mesa de jacarandá, examinando uma pilha de documentos. Ele ergueu os olhos assim que ela apareceu à porta.

— Já voltou, filha? Pensei que fosse passar a manhã inteira com a Carol.

Sofia cruzou a sala e se aproximou.

— Acabei resolvendo tudo mais rápido.

Augusto deixou os papéis sobre a mesa e observou o rosto dela com atenção.

— Está tudo bem?

A pergunta, feita com aquela voz cansada e paternal, quase a desarmou. Por um instante, Sofia teve vontade de chorar e implorar para que ele não a entregasse a Dante Ferraz. Mas as mensagens anônimas a fizeram conter o impulso.

— Está sim, papai. Só estou um pouco cansada.

Ele assentiu, embora continuasse olhando para ela como se tentasse decifrar um enigma.

— Sente-se um pouco. Precisamos conversar sobre o casamento.

Sofia acomodou-se na poltrona de couro à frente dele.

— Aconteceu alguma coisa, papai? — perguntou, lutando para manter a voz firme.

Augusto juntou as folhas espalhadas sobre a mesa e soltou um suspiro pesado antes de encará-la.

— Dante entrou em contato comigo esta manhã. Ele quer antecipar a cerimônia.

Ela sentiu o sangue congelar nas veias.

— Antecipar? Para quando?

— Amanhã de manhã.

Sofia ficou alguns segundos em silêncio, tentando processar o golpe. O casamento estava marcado para a semana seguinte. Ela contava com aqueles dias para procurar Gabriel, descobrir quem a estava ameaçando e traçar uma nova rota de fuga.

— Mas, papai, nós nem escolhemos o vestido ainda! — protestou, elevando a voz.

— Vocês vão resolver isso hoje à tarde. Sua mãe já está ajustando os detalhes com o ateliê, e a estilista foi avisada de que precisamos sair de lá com o vestido pronto.

— Mas não é tão simples assim! E os outros preparativos? A cerimônia, os convidados... Não dá para organizar tudo de uma hora para outra!

Augusto balançou a cabeça.

— Dante decidiu que será uma cerimônia reservada, apenas com a presença das pessoas mais próximas. Não haverá recepção nem festa. Ele quer apenas realizar o casamento amanhã e encerrar tudo ali.

Sofia franziu a testa.

— Mas por quê? Não faz sentido organizar tudo às pressas e simplesmente dispensar uma comemoração.

— Foi uma decisão dele. Dante já está cuidando de todos os detalhes para que a cerimônia aconteça amanhã. Não precisamos nos preocupar com isso.

Sofia apertou as mãos sobre o colo.

— Mas o casamento estava marcado para a semana que vem. Não podemos pedir pelo menos mais alguns dias?

— Não, Sofia. Dante foi bastante firme quanto à nova data. Não aceitou contrapropostas.

Ela baixou os olhos, engolindo o nó de angústia que subia por sua garganta.

— Entendi — murmurou, sem forças.

Augusto se levantou, deu a volta na mesa e segurou a mão dela entre as suas.

— Sei que tudo isso é difícil e repentino, minha filha. Mas esse casamento é a única coisa que garante o futuro da nossa família. Não se esqueça disso.

Sofia olhou para as mãos do pai. Sabia que ele estava abalado pela falência, mas a culpa que colocava sobre seus ombros era um fardo terrível.

— Eu confio em você, papai — respondeu, com a voz quase num sussurro.

Ele beijou o topo da cabeça dela e pediu licença para fazer algumas ligações. Sofia permaneceu sentada por mais um minuto, encarando o vazio.

Uma semana havia se transformado em menos de vinte e quatro horas.

(...)

De volta ao quarto, Sofia sentou-se na beirada da cama. O celular começou a tocar, e ela se apressou em pegá-lo ao reconhecer o nome de Carol na tela.

— Oi, amiga! Ainda bem que você está ligando!

— Oi, Sofi! Aconteceu alguma coisa? Você parece preocupada.

Sofia soltou um suspiro.

— Meu casamento foi antecipado.

— Como assim?

— Vai ser amanhã de manhã.

Carol ficou em silêncio do outro lado da linha.

— Amanhã? Sofia, o casamento não estava marcado para a semana que vem?

— Estava. Mas Dante decidiu antecipar tudo. Meu pai acabou de me contar.

— Mas por que essa pressa toda?

— Não sei. Ele resolveu que será uma cerimônia reservada, sem recepção nem festa. Só o casamento e pronto.

— Sofia, você tem certeza de que quer entrar nessa? Estamos falando de Dante Ferraz. Você sabe quem ele é e o tipo de poder que esse homem tem.

— Como se eu tivesse escolha, Carol.

— Sempre existe alguma escolha. Talvez nenhuma seja fácil, mas isso não significa que você precise aceitar tudo sem lutar.

Sofia sentiu os olhos arderem.

— Meu pai já decidiu por mim. As dívidas da família dependem desse casamento, e ninguém parece se importar com o que eu quero.

— Eu me importo, sua idiota — respondeu Carol, com a voz mais branda. — Posso não concordar com todas as suas decisões, mas não quero ver você sendo obrigada a se casar com um homem que nem conhece e não merece você.

Sofia apertou o celular contra a orelha, contendo as lágrimas.

— Eu não sei o que fazer.

— Então não tenta resolver tudo sozinha — aconselhou Carol.

— Eu sei, amiga. Só queria acreditar que as coisas vão ficar bem.

— Vai ficar tudo bem, Sofi. E amanhã eu vou estar lá com você. Não vou deixar você passar por isso sozinha.

— Obrigada, Carol. Não sei o que faria sem você.

— Até amanhã, Sofi. Tenta descansar um pouco.

Depois de se despedir da amiga, Sofia permaneceu sentada na cama, olhando para o aparelho. Pelo menos alguém havia reconhecido que ela também tinha o direito de escolher o próprio futuro.

Mas ainda havia uma pergunta que não conseguia afastar da mente: o que teria acontecido com Gabriel?

Ligou novamente. A mesma gravação informou que o aparelho continuava desligado.

Sofia baixou o telefone devagar. As mensagens anônimas recebidas naquela manhã tornavam impossível ignorar a possibilidade de que algo grave tivesse acontecido.

Seu olhar se voltou para o guarda-roupa, onde a mochila permanecia escondida.

Ela tinha menos de vinte e quatro horas para descobrir o que havia acontecido com Gabriel e decidir o que fazer.

Sofia se aproximou da janela e afastou a cortina, observando o jardim da mansão. Estava de volta à casa da família, prestes a se casar com um desconhecido.

E, se aquelas mensagens misteriosas tivessem alguma relação com Dante Ferraz, talvez aquele casamento fosse muito mais perigoso do que ela jamais imaginara.

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