LOGINNaquela tarde, Enrico e Giacomo Rinaldi chegaram à empresa em Charlottenburg esperando encontrar Salvatore trabalhando em seu escritório, como fazia praticamente todos os dias. Porém, assim que entraram no prédio e foram recebidos por um dos homens de confiança da família, descobriram que o mais jovem dos Rinaldi havia deixado a empresa algumas horas antes.
— Salvatore já foi embora? — Giacomo perguntou, olhando para o funcionário. — Não estou vendo... — Sim, Senhor Rinaldi... — o funcionário avisou. — Salvatore terminou alguns assuntos mais cedo e disse que voltaria para casa... Deixou algumas orientações para amanhã... Enrico ergueu uma sobrancelha, demonstrando certo descontentamento. — Foi embora mais cedo? — Enrico perguntou. — Isso é novidade... — Talvez Salvatore simplesmente tenha decidido que não precisa trabalhar até a noite todos os dias... — Giacomo soltou uma pequena risada. — O que é bem coerente... — Ou talvez esteja fugindo de nós... — Enrico respondeu, com um sorriso de canto. — O que não duvido nada... Giacomo balançou a cabeça, sabendo exatamente ao que o pai se referia. Desde o café da manhã daquele dia, Enrico continuava pensando na mesma coisa. Salvatore havia deixado claro que não queria se casar novamente, mas isso não significava que o avô estivesse disposto a abandonar aquela ideia. Os dois seguiram pelo corredor em direção a uma das salas onde pretendiam verificar alguns documentos da empresa. Porém, antes que chegassem ao destino, encontraram Jacopo, que acabava de sair de uma reunião com um dos responsáveis pelos negócios. — Enrico... Giacomo... — Jacopo cumprimentou os dois, sorrindo. — Não esperava encontrar vocês aqui... — Viemos falar com Salvatore... — Giacomo explicou. — Mas parece que chegamos tarde demais... Já foi para casa... — Salvatore me pareceu bastante ocupado ultimamente... — Jacopo sorriu. — Muito serviço... — Ocupado demais para ouvir o próprio avô e o próprio pai... — Enrico respondeu, fazendo Jacopo rir. — Mas enfim... Os três começaram a caminhar juntos pelo corredor, conversando sobre assuntos relacionados aos negócios da família. Porém, em determinado momento, Jacopo mencionou a filha, Isabella, dizendo que precisava passar em casa mais tarde porque havia combinado de conversar. — Isabella está em Berlim? — Enrico imediatamente prestou atenção. — Que interessante... — Está, sim... — Jacopo disse. — Isabella tem passado bastante tempo comigo ultimamente... — Faz tempo que não vemos Isabella... — Giacomo também demonstrou interesse. — Gostaríamos de vê-la ainda... — Isabella continua a mesma de sempre... — Jacopo comentou. — Embora tenha mudado bastante nos últimos anos... — Quatro anos, não é? — Enrico observou Jacopo por alguns segundos. — Mais ou menos isso? Jacopo entendeu imediatamente que Enrico estava falando do período desde a morte de Lucas. — Quatro anos... — confirmou. — Parece que foi ontem, mas já faz todo esse tempo... Isabella havia sido noiva de Lucas. Os dois estavam planejando o casamento quando um acidente de carro mudou tudo. Lucas morreu de maneira inesperada, deixando Isabella completamente devastada. Durante quatro anos, Isabella havia guardado o luto e se mantido distante de qualquer possibilidade de relacionamento sério. Enrico conhecia aquela história. Todos na família conheciam. — Isabella nunca se casou depois disso? — Enrico ficou pensativo por alguns segundos. — Ainda está solteira? — Não... — explicou Jacopo. — Na verdade, nunca chegou a ter outro relacionamento sério... Depois da morte de Lucas, Isabella simplesmente se fechou durante muito tempo... Só nos últimos meses começou a parecer mais disposta a viver normalmente outra vez... Enrico trocou um olhar rápido com Giacomo. E, naquele instante, uma ideia começou a tomar forma em sua cabeça. Salvatore havia perdido Beatrice dez anos antes. Isabella havia perdido Lucas quatro anos antes. Eram histórias diferentes, mas havia algo em comum entre os dois, ambos conheciam a dor de perder alguém que fazia parte dos seus planos para o futuro. Enrico sabia que Salvatore não queria ouvir falar em casamento. Também sabia que insistir diretamente provavelmente só faria o neto ficar ainda mais resistente. Mas talvez houvesse outra maneira. — Isabella e Salvatore ainda são amigos, não? — perguntou. — Me lembro da última vez que se viram... — Claro... — Jacopo sorriu. — Os dois se conhecem há muitos anos... Sempre se deram muito bem... — Isso é interessante... — o sorriso de Enrico aumentou. — Aliás, muito interessante... — Pai... — Giacomo percebeu imediatamente o pensamento do pai. — Por favor... — Você nunca pensou que Isabella e Salvatore poderiam formar um bom casal? — Enrico ignorou a advertência e voltou-se para Jacopo. — Poderiam se casar? — Confesso que nunca tinha pensado nisso dessa maneira... — Jacopo ficou em silêncio por um instante, depois, seus olhos castanhos se iluminaram. — É uma boa ideia... — Pois deveria... — Enrico respondeu. — Pense bem... Os dois já se conhecem... Não seria necessário apresentar uma mulher completamente desconhecida ao meu neto... Os dois podem conversar, sair juntos, passar algum tempo na companhia um do outro... — E ambos têm algo muito importante em comum... — Giacomo acrescentou. — Muito em comum mesmo... — A perda de Lucas e de Beatrice... — Jacopo entendeu. — Eu entendi... — Exatamente... — Enrico disse. — Um assunto poderia levar ao outro... Os dois poderiam conversar sobre o que viveram, sobre como seguiram em frente... E, quando percebessem, poderiam descobrir outras coisas em comum... — Isabella gosta muito de Salvatore... — Jacopo cruzou os braços, pensativo. — Sempre falou bem dele. — E Salvatore também gosta de Isabella... — Enrico sorriu. — Os dois são amigos de muito tempo... — Gostar como amigo não significa querer se casar... — Giacomo olhou para o pai. — É preciso ter cautela... — Eu sei... — Enrico respondeu tranquilamente. — Não estou dizendo que os dois vão se casar amanhã... Estou dizendo que talvez exista uma possibilidade que Salvatore ainda não percebeu... — Para ser sincero, eu gostaria muito de vê-la feliz novamente... — Jacopo parecia cada vez mais interessado naquela ideia. — Depois de tudo que aconteceu com Lucas, minha pobre Isabella passou anos sem permitir que ninguém se aproximasse... — E Salvatore também não quer deixar ninguém se aproximar... — Enrico observou. — É uma boa ideia aproveitar essa amizade dos dois... — Isso pode acabar sendo mais complicado do que você imagina... — Giacomo respirou fundo. — Cuidado, pai... — Tudo na vida é complicado quando se pensa demais... — Enrico respondeu. — Mas relaxa, tudo vai dar certo... — Você continua exatamente igual... — Jacopo riu. — Não mudou em nada... — E foi justamente por continuar assim que sobrevivi a muita coisa... — Enrico esclareceu. — E estou vivo até hoje... Giacomo conhecia bem aquela determinação. Enrico havia enfrentado uma guerra intensa na Calábria antes de deixar a Itália e começar uma nova vida na Alemanha. Mesmo depois de tantos anos, continuava acreditando que, quando realmente queria alguma coisa, precisava encontrar uma maneira de consegui-la. — Isabella é uma moça bonita, inteligente, conhece nossa família e já é amiga de Salvatore... — Enrico voltou a olhar para Jacopo. — Eu sinceramente não consigo imaginar uma candidata melhor... — Então temos um problema a menos... — Jacopo abriu um sorriso satisfeito. — O que já é uma grande vantagem... — Temos uma possibilidade... — Enrico corrigiu. — O problema será fazer Salvatore perceber isso sem que descubra que estamos tentando aproximá-los... — Você realmente acredita que Salvatore não vai perceber? — Giacomo soltou uma risada. — Justo meu filho? — Não se fizermos tudo direito... — Enrico esfregou as mãos e seus olhos azuis brilharam. — Meu plano há de dar certo... — Meu filho conhece você muito bem... — Giacomo explicou. — O plano tem que ser feito com cuidado... — Mas Salvatore não espera que eu escolha uma mulher que já faz parte da sua vida... — Enrico esclareceu. — É justamente isso que torna Isabella uma escolha tão boa... — E o que pretende fazer? — Jacopo concordou lentamente. — Já comentei com minha filha que precisa se casar... — Nada muito complicado... Podemos simplesmente criar algumas oportunidades para que os dois passem mais tempo juntos... — Enrico deu um sorriso discreto. — Um jantar, um encontro entre amigos, alguma ocasião familiar... Não precisamos dizer a Salvatore absolutamente nada... — Você está planejando isso antes mesmo de conversar com Isabella... — Giacomo percebeu que o pai já havia decidido tudo. — Não acha perigoso? — Claro que estou... — Enrico ergueu uma de suas sobrancelhas. — E não há nada de perigoso... — Vou conversar com minha filha... — Jacopo riu novamente. — Não quero obrigá-la a nada, mas acho que Isabella pode gostar da ideia de passar mais tempo com Salvatore... — Faça isso... — Enrico assentiu. — E deixe o resto comigo. Os três continuaram conversando por alguns minutos, enquanto Enrico e Giacomo começavam a imaginar como poderiam aproximar os dois sem levantar suspeitas. Para Enrico, aquela parecia ser uma oportunidade perfeita. Salvatore conhecia Isabella havia anos. Isabella conhecia Salvatore. Ambos haviam perdido pessoas importantes e sabiam o que significava reconstruir a própria vida depois de uma tragédia. Além disso, Isabella era uma mulher bonita, e Enrico não tinha dúvidas de que o neto perceberia isso se passasse a enxergá-la de outra maneira. O único detalhe era fazer com que Salvatore chegasse a essa conclusão sozinho. Ou, pelo menos, acreditasse que havia chegado sozinho. — Salvatore nem vai desconfiar... — Enrico afirmou, satisfeito. — Confie em mim... — Espero que você esteja certo... — Giacomo apenas balançou a e cabeça. — Pois meu filho é teimoso... — Eu sempre tenho um plano... — Enrico sorriu. — E todos dão certo... E, sem que Salvatore soubesse, seu avô acabara de encontrar uma nova estratégia para tentar fazê-lo mudar de ideia sobre o casamento.Na manhã seguinte, Isabella chegou à empresa acompanhada de Papa Jacopo. Os dois haviam combinado de passar ali para conversar com Nonno Enrico, que naquele dia estava cuidando de alguns assuntos relacionados aos negócios da família. Salvatore não estava na empresa. Havia precisado ir até outra companhia para concluir uma negociação que vinha sendo discutida havia algum tempo.A ausência dele tornou a visita de Isabella mais tranquila. Ela sabia que precisava conversar com Nonno sobre o que vinha acontecendo, principalmente porque, desde o primeiro almoço, a aproximação com Salvatore havia avançado de maneira muito mais natural do que imaginara.Jacopo caminhava ao lado da filha enquanto atravessavam o corredor que levava ao escritório de Enrico. Ele conhecia o objetivo daquela conversa e também tinha interesse em saber como as coisas estavam evoluindo. Embora tivesse sido firme ao pedir que Isabella pensasse novamente em sua vida afetiva, não queria obrigá-la a aceitar alguém que não
Alguns dias haviam se passado desde o primeiro almoço de Isabella e Salvatore. O encontro que inicialmente parecera apenas uma maneira de colocar em prática o plano de aproximação da família acabou se transformando em algo mais natural do que Isabella imaginava. Depois daquela primeira refeição, os dois haviam se encontrado outras vezes, algumas por iniciativa dela e outras porque Salvatore simplesmente sugerira que almoçassem juntos novamente.A frequência desses encontros começou a chamar a atenção de Isabella. Não porque houvesse alguma declaração ou mudança evidente entre os dois, mas porque a presença de Salvatore começava a fazer parte de sua rotina de uma maneira diferente. Ela se acostumara a esperar por aqueles momentos e, quando sabia que teria a oportunidade de conversar com ele, sentia uma satisfação que não conseguia explicar completamente.Naquele dia, os dois haviam combinado mais um almoço. Isabella chegou ao restaurante alguns minutos antes de Salvatore. Escolheu uma
Depois do almoço com Isabella, Salvatore retornou à mansão no início da tarde. A refeição havia sido agradável e, apesar de não ter acontecido nada extraordinário, ele havia gostado da companhia da amiga. Durante o caminho de volta, chegou a pensar que fazia algum tempo que não tinha uma conversa tão tranquila, sem que alguém tentasse conduzi-lo para assuntos que preferia evitar.Ao entrar na mansão, encontrou Nonno na sala. Enrico estava sentado em uma das poltronas, lendo algumas páginas de um jornal, mas levantou os olhos azuis assim que percebeu a chegada do neto.Nonno já sabia do almoço. Isabella havia contado a ele que faria o convite, e o velho Rinaldi acompanhara a situação com atenção desde o momento em que soubera que os dois sairiam juntos. Não pretendia pressionar Salvatore quando ele voltasse. Sabia que qualquer insistência poderia fazê-lo se fechar imediatamente. Por isso, limitou-se a esperar.Salvatore tirou o paletó e o deixou sobre uma poltrona próxima antes de se a
Desde cedo, Franz sabia que Isabella havia convidado Salvatore para almoçar. A informação havia chegado até ele antes mesmo de os dois deixarem a empresa. Como era amigo próximo de Salvatore e também fazia parte do círculo de confiança da família, não havia nada de estranho em saber que os dois sairiam juntos. Ainda assim, desde que soubera do almoço, Franz não conseguira evitar que a notícia ocupasse alguns espaços de seus pensamentos.Ele tentou convencer a si mesmo de que não havia motivo para aquilo. Isabella e Salvatore eram amigos. Era perfeitamente normal que saíssem para almoçar. Além disso, Franz conhecia Salvatore o suficiente para saber que ele não faria nada que ultrapassasse os limites de uma amizade se não sentisse vontade de fazê-lo.Mesmo assim, a ideia de Isabella passando algumas horas sozinha com Salvatore havia despertado nele uma sensação que ainda não conseguia definir completamente. Não era exatamente ciúme. Ou, pelo menos, Franz preferia não chamar daquele jeit
O restaurante escolhido por Isabella ficava em uma região tranquila de Berlim e era conhecido por oferecer um ambiente elegante, mas sem a formalidade excessiva de alguns estabelecimentos frequentados pela família Rinaldi. Havia mesas bem distribuídas pelo salão, iluminação suave e música baixa, criando uma atmosfera adequada para uma refeição tranquila.Quando chegaram, foram conduzidos até uma mesa mais reservada. Salvatore tirou o paletó e acomodou-se diante de Isabella, enquanto ela se sentava do outro lado. Por alguns instantes, os dois apenas observaram o movimento discreto do restaurante.Isabella percebeu que estava muito mais tranquila agora. O nervosismo que sentira antes de fazer o convite havia desaparecido. Diante de Salvatore, tudo parecia novamente natural, como sempre fora entre os dois.O garçom entregou os cardápios, e ambos começaram a escolher o que comeriam. Não demorou para que a conversa surgisse espontaneamente. Salvatore escolheu um risoto e Isabella escolheu
Naquela manhã, Isabella chegou à empresa de Salvatore com uma ideia que havia decidido colocar em prática depois de pensar bastante. Desde que sua família começara a insistir para que ela se aproximasse dele, muitas coisas haviam acontecido. Jantares, encontros familiares, a presença constante de Chiara e Franz e, principalmente, os problemas causados por Roxanne haviam deixado os últimos dias muito mais movimentados do que o normal.Mesmo assim, Isabella não queria transformar sua relação com Salvatore em algo artificial. Eles já eram amigos havia bastante tempo, e justamente por isso ela acreditava que qualquer aproximação deveria acontecer de maneira natural. Não queria aparecer diante dele tentando representar uma mulher diferente daquela que sempre havia sido. Se precisava se aproximar, faria isso sendo ela mesma. O convite para o almoço parecia uma maneira simples de fazer isso.Ela atravessou os corredores da empresa pensando em como Salvatore receberia a ideia. Não havia motiv







