LOGINA dor não era dor. Era fogo líquido correndo nas minhas veias.
Eu gritei de novo, mas não saiu voz humana. Saiu um som rouco, rasgado, entre choro e uivo. Minhas costas arquearam naquela cama de peles e eu senti cada osso do meu corpo estalando, se rearranjando. "Respira! Olha pra mim, pequena! Respira comigo!" Gael estava por cima de mim, mas não me tocando com desejo agora. As duas mãos enormes segurando meu rosto, os olhos amarelos dele presos nos meus. Ele respirava fundo, de propósito, pra eu copiar. Eu tentei. Puxei o ar. O cheiro dele entrou queimando: terra molhada, sangue, fumaça. Meu olfato tinha ficado mil vezes mais forte. Eu conseguia cheirar o medo que saía da minha própria pele, e conseguia cheirar o desejo que saía da pele dele, mesmo ele tentando esconder. "O que você fez comigo?", eu solucei, e quando abri a boca pra falar, senti minhas presas. Pequenas, mas pontudas, arranhando meu lábio inferior. "Minha boca... minha boca tá diferente!" "Shhh. É normal. É a primeira vez. A marca está te chamando." A marca da meia-lua na minha mão estava preta como carvão agora e queimava tanto que iluminava o quarto escuro. O calor subiu pelo meu braço, foi pro meu pescoço, desceu pro meu peito, e parou bem no meu ventre, ali embaixo, onde eu senti uma pontada tão forte que encolhi as pernas. Gael viu. Os olhos dele escureceram e ele cerrou a mandíbula com força, as próprias presas dele aparecendo. "Não olha", eu chorei, tentando fechar o vestido branco que já tinha rasgado no ombro. "Já vi tudo, noiva", ele rosnou, mas a voz estava contida. "Não tem nada em você que não seja meu pra ver. A dor está descendo pra sua barriga?" Eu assenti, morrendo de vergonha e de dor ao mesmo tempo. "É o útero. A maldição da primeira curandeira. Ela amaldiçoou meu bisavô porque ele a rejeitou. Disse que nenhuma mulher humana aguentaria gerar um filhote de Alfa. Então toda lua cheia, o corpo da escolhida tenta se transformar para aguentar. Se não aguentar... morre." Morre. A palavra ficou ecoando na casa grande abandonada. Minha avó sabia disso e me mandou mesmo assim? "Eu não quero morrer!", eu gritei, agarrando a camisa dele, ou melhor, o peito nu dele, porque ele não tinha camisa. Minhas unhas, que agora eram garras pretas e curtas, arranharam a pele dele. Saiu sangue. Ele nem piscou. "Você não vai morrer", ele disse, e me puxou com uma força bruta para o peito dele. "Porque eu não vou deixar. Nenhuma das outras tinha sangue de curandeira de verdade. Você tem. Sua avó mentiu pra vila. Ela não é só uma rezadeira. Ela é a última da linhagem original. Por isso seu cheiro é diferente." Ele me deitou de novo, mas agora ele deitou atrás de mim, me encaixando no corpo enorme dele, como uma concha. Uma perna dele por cima das minhas, me prendendo. Um braço em volta da minha cintura. A outra mão dele pegou a minha mão marcada e levou até a boca. E ele lambeu. Quando a língua quente e áspera dele passou por cima da marca queimando, eu senti um choque que foi da minha mão até entre as minhas pernas. Eu arquiei de novo, mas dessa vez não foi só de dor. Foi um calor vergonhoso, úmido, que me fez morder o lábio até sangrar. "Gael...", eu gemi sem querer. "Isso", ele sussurrou no meu ouvido, e a voz dele agora era pura possessão. "Deixa a dor virar outra coisa. É assim que a loba nasce. Na dor e no prazer. Me deixa te ajudar." "Não! Não me toca aí!" "Eu não vou te tocar onde você está pensando, pequena virgem assustada. Ainda não. Você só vai ser minha de verdade quando você implorar. E você vai implorar. Mas hoje eu só vou tirar sua dor." Ele continuou lambendo minha marca, devagar, em círculos, e a cada lambida a dor diminuía um pouco e aquele calor proibido aumentava. Minhas garras foram diminuindo. Meus dentes foram voltando ao normal. Mas meus sentidos continuaram aguçados. Eu ouvia o coração dele batendo atrás de mim. Tum, tum, tum. Muito rápido. Descontrolado. Ele estava se segurando. Muito. "O que você é?", eu sussurrei, já sem forças pra lutar, mole nos braços dele. "Você é mesmo o lobisomem?" "Sou o Alfa do bando das Confusões", ele disse, com a boca ainda na minha mão. "Meu nome é Gael Moura. Meu bisavô comprou toda essa terra aqui em 1920. Essa fazenda Boi Morto era nossa. Até a maldição. Agora eu moro na serra, porque aqui embaixo o cheiro de gente me deixa louco." "Por que você não me mata logo? Se eu não aguentar?" Ele parou de lamber. Virou meu rosto à força pra olhar pra ele. Os olhos amarelos estavam quase dourados de raiva. "Nunca fala isso de novo. Eu não mato noiva. Eu protejo. Eu fiquei 5 anos sem pegar nenhuma oferenda porque eu sabia que nenhuma ia aguentar e eu não queria ver mais uma menina morrer nos meus braços. Mas você... quando o Seu Raimundo falou 'a neta da curandeira', eu senti da serra. Senti seu cheiro vindo no vento. Cheiro de mandacaru em flor. E eu desci." Ele estava tão perto que eu via as pintinhas douradas nos olhos dele. Via uma cicatriz fina cortando a sobrancelha dele. "Você me escolheu?", eu perguntei, boba. "A lua te escolheu. Eu só aceitei mais rápido do que ela esperava." A dor finalmente passou. Ficou só um formigamento gostoso no meu ventre e um cansaço absurdo, como se eu tivesse corrido o sertão inteiro a pé. Eu estava suada, o vestido branco colado no corpo, rasgado, mostrando meu sutiã simples. Eu devia estar horrível. Mas o jeito que Gael me olhava... Como se eu fosse a coisa mais preciosa que ele já viu. Ele se levantou da cama, me deixando com frio imediatamente. Foi até a lareira e jogou mais lenha. O fogo iluminou as costas dele. Deus do céu. As costas dele eram todas riscadas de cicatrizes enormes, de garras. E as tatuagens tribais... eu percebi agora que não eram tatuagens. Eram marcas que se moviam quando ele respirava. "Você tem frio. As humanas sempre têm frio depois da primeira transformação", ele resmungou, e pegou uma pele enorme, de onça, e jogou por cima de mim. "Dorme. Amanhã a febre vem." "Febre?" "Seu corpo vai lutar com meu vírus até amanhã à noite. Vai ter febre, calafrio, fome. Muita fome. Se você sobreviver até a próxima lua cheia, você não vai mais ser humana. Vai ser metade loba. Minha Luna." Luna. De novo essa palavra. "E se eu não quiser ser sua Luna?" Ele se virou, e sorriu. Dessa vez um sorriso de verdade, torto, lindo, que mostrou as presas pontudas. "Você já é, pequena. Desde que pisou na minha porteira. Só seu corpinho ainda não entendeu." Ele voltou pra cama. Deitou do outro lado, longe, de propósito, com as mãos atrás da cabeça, me dando espaço. Mas os olhos não saíam de mim. "O que você está fazendo?" "Me segurando pra não te puxar pra debaixo de mim e te marcar de uma vez. Porque se eu te marcar hoje, com você com medo, você vai me odiar pra sempre. E eu quero que você me queira. Mesmo que demore." Eu fiquei olhando pra ele. Praquele homem-monstro lindo e amaldiçoado que todo mundo em Gilbués temia. E pela primeira vez desde que a carroça me deixou, eu não tive medo dele. Tive medo do que eu estava sentindo. Porque aquele calor entre minhas pernas não tinha passado. E quando ele me chamou de "minha Luna", minha barriga contraiu de novo. "Gael...", eu chamei baixinho. "Hmm?" "Se eu for sua... você deixa eu ver minha avó de novo?" Os olhos amarelos dele ficaram tristes por um segundo. "Depois da primeira febre, eu te levo. Mas você não vai poder contar nada. Se contar, os anciãos vão te trazer de volta pra cá amarrada. E da próxima vez eu não vou conseguir me segurar." Eu assenti e me encolhi na pele de onça. O cheiro dele estava nela. Me deu sono na hora. Antes de apagar, eu senti a mão grande e quente dele pegar meu pé por baixo da pele e fazer uma massagem leve, áspera. "Dorme, minha noiva do sertão. Que amanhã você vai descobrir que o monstro de Gilbués sabe ser muito pior quando está apaixonado." E eu dormi. Pela primeira vez na vida, nos braços de um lobisomem, em uma fazenda mal-assombrada, no meio do sertão do Piauí. E sonhei que eu tinha rabo, orelhas pontudas e uivava pra lua vermelha, enquanto ele me observava de cima de uma pedra, orgulhoso. Quando acordei no meio da madrugada, com febre de 40 graus, ele estava exatamente assim: em cima da pedra da janela, nu, só de lua, me olhando, com os olhos amarelos brilhando. E eu não gritei. Eu estendi a mão pra ele. Não sei se foi a febre que me deixou louca, ou se foi a loba dentro de mim que já estava acordando, mas eu estendi. Gael não se mexeu na hora. Ele ficou na janela, aquela silhueta enorme recortada pela lua vermelha de Gilbués. Ele estava completamente nu agora. A luz da lua batia no corpo dele e fazia cada músculo parecer ainda mais assustador e lindo. Ele era grande. Grande em todo lugar. Eu desviei o olhar rápido, com o rosto queimando de febre e de vergonha. "Você tem certeza que quer que eu chegue perto, pequena?" "Porque se eu descer dessa janela e te tocar agora, eu não vou ser mais o cavalheiro que te deixou dormir longe." "Eu tô com frio." "Muito frio." "Você está queimando." "38, 39... tá subindo. É o vírus se espalhando." "Vai doer de novo?" "Vai. Mas menos. Cada vez dói menos, até não doer mais. Até virar prazer." "Gael, não olha assim..." "Como você quer que eu olhe pra minha noiva que está na minha cama, com meu cheiro, com febre, me chamando?" "Você quer que eu olhe como um santo? Eu não sou santo, Helena. Eu sou o monstro que sua avó mandava você rezar pra nunca encontrar." "Abre um pouco o vestido. Preciso baixar essa febre." "Eu sou curandeira também, pequena. Já vi mulher com febre. Não vou te atacar. Ainda." "Gael!" "Eu sei. Eu sei que você sentiu. Sua loba sentiu. Ela gostou do meu toque." "Loba nada, eu sou gente!" "Não mais. Olha sua mão." "Você está se transformando por causa da febre. Se você não se acalmar, você vai virar no meio da casa e vai quebrar tudo." "Escuta meu coração. Escuta e tenta bater igual." "Igual você fez quando era criança com sua avó quando tinha medo de trovão. Sua avó me contou. Ela me contou tudo sobre você, Helena." "Ela vem aqui?" "Toda lua nova. Traz remédio pra mim. Pra dor da maldição. Ela sabia que você era a única que aguentaria." "Por isso ela te guardou. Por isso nunca deixou nenhum menino de Gilbués chegar perto de você. Você sempre foi minha. Desde que nasceu." "Ela me vendeu..." "Ela te salvou. Se você ficasse na vila, os caçadores de Parnaguá iam te pegar. Eles caçam curandeiras virgens." "Eu pelo menos te dou escolha." "Que escolha? Você me prendeu aqui!" "Escolha de me amar ou me odiar. As outras não tiveram nem isso." "Gael?" "Hmm?" "Por que as tatuagens se mexem?" "Não são tatuagens. São as almas das minhas noivas passadas. Que eu não consegui salvar." "Quantas foram?" "Sete. Você é a oitava. E vai ser a última." "Posso fazer a febre passar mais rápido. Mas você tem que me deixar te marcar. Só um pouquinho. Só no pescoço." "Uma mordida de Alfa não mata, só acalma. E deixa meu cheiro em você pra sempre, pra nenhum outro macho chegar perto." "Marca..." "Marca, Gael, eu não aguento mais queimar..." "Minha." "Agora sim, Luna. Agora você nunca mais volta pra vila. Agora você é minha loba." "Você me mordeu..." "Eu te marquei, Luna. Agora todo lobo do Piauí vai saber que você é minha." "O que você fez comigo?" "Te salvei da morte. Mas te condenei a mim." "Eu quero ir embora!" "Você não pode mais. Seu cheiro já mudou. Se voltar pra Gilbués, eles vão te caçar também." "Então eu virei monstro igual você?" "Não. Você vai virar algo pior. Minha fraqueza." "E o que acontece agora?" "Agora a porta da fazenda vai bater. Porque eles vieram buscar seu corpo. E eu vou ter que mostrar pra vila que minha noiva não morreu... ela virou loba."— E agora que minha nora deixou a filha dela despertar... está na hora de terminar o que ela começou.Aquelas palavras ficaram suspensas dentro da gruta.Eu não conseguia desviar os olhos daquele homem.Augusto Moura.O pai de Gael.O homem que todos acreditavam estar morto havia quinze anos.Mas ele estava ali.Vivo.Ou pelo menos alguma coisa dentro dele ainda estava.— Minha mãe... — minha voz saiu baixa. — Você conheceu minha mãe?Augusto me encarou por alguns segundos.Então sorriu.Não era um sorriso gentil.Era como se ele estivesse diante de uma lembrança que esperou anos para reencontrar.— Eu conheci sua mãe antes mesmo de você nascer.Gael se colocou imediatamente entre nós.— Não fala com ela.Augusto soltou uma risada curta.— Ainda tentando protegê-la de mim, Gael?— Eu disse para não falar com ela.O ar da gruta pareceu ficar mais pesado.As marcas no corpo de Gael começaram a brilhar.As sete marcas.As mesmas que representavam as mulheres que haviam morrido antes de m
Os uivos continuaram.Um atrás do outro.Cada vez mais próximos.A gruta parecia pequena demais para conter aquele som.Eu conseguia sentir as vibrações no chão, como se a própria Serra das Confusões estivesse respirando junto com os lobos.Gael não tirava os olhos da entrada.Ruan permanecia parado entre as pedras quebradas.Theo estava atrás dele.E, do lado de fora, centenas de olhos amarelos brilhavam na escuridão.— Todos eles vieram? — perguntei.Ruan assentiu.— Todos.Gael deu um passo à frente.— Ninguém entra.Ruan soltou uma risada curta.— Você ainda não entendeu, irmão.— Então explique.— Eles não vieram para lutar contra você.Ruan apontou para mim.— Vieram por ela.Meu estômago apertou.Gael imediatamente ficou na minha frente.— Ela não vai a lugar nenhum.— Não
O primeiro rugido fez a gruta inteira estremecer.Eu não consegui me mexer.A criatura permanecia parada na entrada, parcialmente escondida pela poeira que ainda caía do teto.Era enorme.Muito maior que Gael.Tinha o corpo coberto por pelos escuros, mas havia algo humano demais em sua postura. As mãos terminavam em garras compridas e os olhos brilhavam em um tom dourado quase branco.E ele estava olhando diretamente para mim.— Finalmente... — a criatura repetiu. — A última Guardiã voltou.Minha mão começou a queimar.— Gael...Ele deu um passo à frente.— Não chegue perto dela.A criatura soltou uma espécie de risada baixa.— Você ainda acha que pode protegê-la?Gael rosnou.— Enquanto eu respirar.— Então você continua sendo tão ingênuo quanto seu avô.O rosto de Gael mudou.— Você conheceu meu avô?A criatura i
O corpo de Gael caiu no chão com um baque surdo.— Gael!Eu me virei imediatamente.Ele estava imóvel sobre a pedra, os braços estendidos, como se toda a força tivesse sido arrancada de seu corpo de uma vez.— Gael!Corri até ele.Mas, antes que pudesse tocá-lo, o chão inteiro tremeu.Uma luz vermelha atravessou as paredes da gruta.O cálice diante de mim começou a brilhar.Meu sangue havia desaparecido dentro dele.Não havia mais líquido.Apenas uma luz dourada, pulsando como um coração.Tum.Tum.Tum.A cada pulsação, a marca na minha mão ficava mais quente.— O que está acontecendo?Nenhuma resposta.A gruta estava completamente silenciosa.Até que ouvi uma voz.— O Corte foi iniciado.Parei de respirar.A voz parecia vir das paredes.Era feminina.Antiga.—
A luz da lua, filtrada pela abertura no topo da caverna, desenhava um círculo perfeito de prata no chão de pedra calcária. Parecia um altar natural, um convite ao sagrado. Enquanto a fazenda Boi Morto cheirava a decadência e perigo, este lugar cheirava a tempo. Era um odor de poeira milenar, de resina seca e de algo mais, algo que eu só comecei a entender quando pus o pé dentro daquele círculo: o cheiro de magia pura. Gael fechou a entrada da gruta com uma pedra pesada, movendo-a com uma facilidade que, em qualquer outro momento, teria me assustado. Agora, porém, era apenas um lembrete do quanto eu precisava daquela força. Ele se virou para mim, a respiração pesada, os ombros largos subindo e descendo. O sangue de Ruan ainda manchava seus nós dos dedos. — Estamos seguros, por enquanto — ele disse, a voz ecoando pelas paredes úmidas. — Eles não ousam entrar aqui. A Primeira Curandeira não tolerava lobos em seu santuário.
A retirada de Ruan e Theo não foi uma rendição, mas uma promessa velada de desastre. Eles recuaram para as sombras da caatinga como cães derrotados, mas o ar ao redor da fazenda Boi Morto continuava pesado, carregado com o cheiro de ozônio e sangue fresco. Gael ainda estava estático, o corpo vibrando com uma adrenalina selvagem que eu podia sentir sem sequer tocá-lo.Eu estava ali, encolhida na pele de onça, o coração martelando contra as costelas, processando o que acabara de acontecer. Minhas mãos, as mesmas mãos que ontem varriam o terreiro de terra batida da minha avó, agora brilhavam com uma energia residual, uma luz dourada que teimava em não se apagar.Gael se virou lentamente. Ele não estava mais na forma de homem totalmente humano, nem era o lobo que vi em meus pesadelos. Ele era algo entre os dois — os olhos ainda eram grandes, amarelos como lanternas, e as garras, embora retraídas, ainda eram perigosas. Ele caminhou até mim e, pela primeira vez







