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CAPÍTULO 6 - O ECO DO SANGUE ANCESTRAL

ผู้เขียน: A. C. Belem
last update วันที่เผยแพร่: 2026-09-27 07:00:50

A luz da lua, filtrada pela abertura no topo da caverna, desenhava um círculo perfeito de prata no chão de pedra calcária. Parecia um altar natural, um convite ao sagrado. Enquanto a fazenda Boi Morto cheirava a decadência e perigo, este lugar cheirava a tempo. Era um odor de poeira milenar, de resina seca e de algo mais, algo que eu só comecei a entender quando pus o pé dentro daquele círculo: o cheiro de magia pura.

Gael fechou a entrada da gruta com uma pedra pesada, movendo-a com uma facilidade que, em qualquer outro momento, teria me assustado. Agora, porém, era apenas um lembrete do quanto eu precisava daquela força. Ele se virou para mim, a respiração pesada, os ombros largos subindo e descendo. O sangue de Ruan ainda manchava seus nós dos dedos.

— Estamos seguros, por enquanto — ele disse, a voz ecoando pelas paredes úmidas. — Eles não ousam entrar aqui. A Primeira Curandeira não tolerava lobos em seu santuário.

— Se ela não os tolerava — respondi, tentando controlar o tremor nas pernas enquanto caminhava até o centro daquele círculo de luz —, por que você está aqui? Por que ela permite que você respire o mesmo ar que eu?

Gael parou. Ele parecia um estranho ali, alguém que sabia que estava em solo sagrado e temia ofender os deuses antigos. Seus olhos amarelos, que brilhavam com intensidade no escuro, desviaram-se do meu rosto para as paredes. O rosto dele contraiu-se numa expressão de dor física.

— Eu não sou bem-vindo, Helena. A cada segundo que passo aqui, sinto como se estivesse caminhando sobre brasas. Esta caverna me repele, me queima. Mas eu estou ligado a você pela marca. Pela lei da matilha e pela maldição, você é minha âncora e eu sou seu protetor. O santuário me reconhece apenas como uma sombra sua. Se você não estivesse aqui, eu teria me transformado em cinzas no instante em que cruzasse aquela entrada.

Eu o observei. Ele parecia menor, menos Alfa, mais humano. Havia uma vulnerabilidade nele que eu nunca tinha visto.

— Você está sofrendo — percebi, dando um passo em sua direção.

— O sofrimento é irrelevante — ele rosnou, embora o tom fosse de quem está tentando manter a sanidade. — O que importa é que aqui, sob o olhar da pedra da primeira curandeira, você não é apenas a neta de uma rezadeira. Você é a única que pode desfazer o que começou há um século.

Caminhei até o centro do círculo. O chão estava coberto de inscrições. Não eram pinturas; eram entalhes profundos na rocha, formando espirais e figuras que pareciam mudar de lugar se eu olhasse de soslaio. Sentei-me no chão, o cansaço da noite finalmente cobrando seu preço. A febre da transformação ainda queimava minha testa, mas uma clareza estranha começou a se instalar em minha mente. Eu via a gruta não como um buraco na terra, mas como uma biblioteca. Havia ecos ali.

Ecos de mulheres que vieram antes de mim, oferendas que, assim como eu, carregaram o peso de uma linhagem esquecida.

Eu fechei os olhos e, por um instante, a caverna deixou de ser escura. Eu vi rostos. Sete rostos diferentes, flutuando como fantasmas na penumbra. Eram jovens, aterrorizadas, solitárias. Vi Maria, a sétima noiva, a que Gael amara. Ela não morreu de um mal súbito; eu a vi, na minha visão, tentando abraçar a própria sombra para não se perder, tentando negar o lado selvagem que começava a germinar em sua alma. Ela morreu de solidão dentro de si mesma. Ela morreu porque, no momento crucial, não tinha ninguém que pudesse segurar sua mão e dizer: *"Eu estou aqui com você"*.

Abri os olhos, ofegante. O suor frio escorria pelas minhas têmporas. A diferença entre elas e eu não era apenas o sangue; era a presença dele. Gael estava ali, ajoelhado, o rosto pálido e suado, as mãos cravadas no chão de pedra enquanto a aura sagrada da gruta o castigava.

— Elas estavam sozinhas — sussurrei, horrorizada com a clareza daquela percepção. — Você as entregava aqui e esperava lá fora, não era? Você as deixava enfrentar a transformação no isolamento absoluto.

Gael levantou a cabeça. Ele estava tremendo, um tremor violento que sacudia todo o seu corpo musculoso. Seus olhos amarelos estavam opacos, como se estivesse perdendo a visão.

— Eu não podia entrar — ele gemeu, a voz arranhada. — O sangue delas não era compatível com o meu. Se eu entrasse, a gruta as destruiria instantaneamente. Mas você... o seu sangue, Helena... é como se a caverna te reconhecesse como filha. Ela não está me matando porque você está permitindo que eu fique. Mas dói. Dói como se mil lâminas estivessem cortando minha pele.

Eu me arrastei até ele. Senti o choque térmico quando encostei nele: o calor vulcânico do seu corpo lutando contra o frio sobrenatural da caverna. Sem pensar, abracei seu pescoço, trazendo-o para perto.

— Por que você não me contou? Por que não disse que sofreria tanto?

— Porque eu prefiro ser reduzido a cinzas a deixar você passar por isso sem mim — ele rosnou contra o meu ombro.

Nesse momento, a gruta reagiu. As inscrições na parede começaram a brilhar em um tom carmesim profundo, e um som de pedra se moendo ecoou pelo santuário. No centro do círculo de lua, o chão se abriu, revelando um pedestal de obsidiana. Sobre ele, repousava um cálice esculpido em osso, vazio.

Eu me levantei, atraída pela gravidade daquele objeto. Meus pés se moviam sem que eu desse o comando. Gael tentou me seguir, mas caiu de joelhos novamente, soltando um grito abafado de dor.

— Não vá — ele implorou, agarrando a bainha do meu vestido rasgado. — Helena, isso é o que eles chamam de 'O Corte'. Se você der o seu sangue para esse altar, não haverá mais volta. Você será ligada a mim de uma forma que nem a morte poderá separar. Você não será mais humana. Você será a lenda.

— E se eu não o fizer? — perguntei, olhando para o cálice.

— Se não o fizer, a febre vai te consumir até o amanhecer. Você vai morrer como as outras.

Olhei para Gael. Aquele homem-monstro, aquele ser que a vila inteira temia, estava ali, prostrado, sacrificando cada fibra de seu ser para estar perto de mim. Eu vi, na penumbra da caverna, a flor de mandacaru brilhando em suas costas, a marca da minha mãe. Ele não estava apenas protegendo uma noiva; ele estava cumprindo uma promessa feita a alguém que ele amou e perdeu. Ele estava cuidando de mim porque era a única maneira de se perdoar.

Caminhei até o pedestal. O cálice parecia esperar por mim. Peguei uma lasca de pedra afiada que jazia no chão. Minha mão tremia, mas meu coração estava calmo, uma calma que eu nunca havia sentido antes. Era o sangue da curandeira chamando pelo seu propósito.

— Eu não vou morrer — disse eu, mais para mim mesma do que para ele.

Cortei a palma da mão. O sangue, vermelho e vibrante, gotejou no cálice.

No instante em que a primeira gota tocou o fundo, a caverna explodiu em silêncio. Um silêncio tão denso que doeu os ouvidos. Gael soltou um suspiro profundo e desabou de bruços.

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