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Eu Não Preciso de Proteção

Author: Amanda Nunes
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-28 01:56:04

Capítulo 8 — Eu Não Preciso de Proteção

Visão da Fernanda

Demorei dois dias para perceber que alguma coisa estava errada.

No primeiro, achei que fosse coincidência.

No segundo, comecei a desconfiar.

No terceiro, tive certeza.

E, quando descobri quem estava por trás daquilo, minha vontade foi matar TH com as próprias mãos.

O que seria uma ironia enorme, considerando que poucos dias antes eu tinha feito de tudo para mantê-lo vivo.

Tudo começou de manhã, quando parei na padaria antes do trabalho.

— Bom dia, seu Jorge.

— Bom dia, Nanda.

Peguei um café, dois pães de queijo e fui até o caixa.

— Quanto deu?

Seu Jorge olhou para as coisas.

Depois para mim.

— Nada.

Franzi a testa.

— Como nada?

— Pode levar.

— Seu Jorge.

— Tá pago.

Olhei para os lados.

— Pago por quem?

— Não sei.

Mentira.

Seu Jorge era péssimo mentiroso.

— Como alguém pagou uma coisa que eu nem tinha escolhido ainda?

Ele travou.

— É…

Cruzei os braços.

— Pois é.

Tirei o dinheiro da carteira.

— Quanto?

— Nanda…

— Quanto?

— Deixa pra lá.

— Não vou deixar.

— É só um café e pão de queijo.

— Exatamente. Então posso pagar.

Coloquei uma nota no balcão.

Ele empurrou de volta.

— Não precisa.

— Seu Jorge, o senhor sempre cobrou até bala que eu pegava quando era criança.

Ele riu, sem graça.

— Os tempos mudam.

— Em três dias?

O sorriso desapareceu.

Agora eu tinha certeza.

— Quem falou alguma coisa com o senhor?

— Ninguém.

— Seu Jorge.

— Vai trabalhar, menina.

Peguei o dinheiro e coloquei novamente no balcão.

— Fica com o troco.

— Nanda…

— Bom dia.

Saí.

Estranho.

Muito estranho.

Mas eu estava atrasada e não tinha tempo para investigar.

No hospital, pelo menos, tudo parecia normal.

Paciente chamando.

Gente reclamando.

Júlia falando sem respirar.

Eu correndo de um lado para outro.

Normalidade.

Até meu horário de almoço.

— Então — Júlia começou, abrindo o refrigerante —, quando você pretende me contar?

Parei com o garfo no ar.

— Contar o quê?

— Do homem misterioso.

— Ainda isso?

— Ainda.

— Não existe homem misterioso.

— Existe um homem que manda comida para você.

— Mandou uma vez.

— Um homem que você chamou de dor de cabeça.

— Muita gente é uma dor de cabeça.

— E você ficou vermelha.

— Não fiquei.

— Ficou.

— Júlia, come.

Ela apontou o garfo para mim.

— É casado?

— Não!

— Então existe!

Fechei os olhos.

— Eu odeio conversar com você.

— É rico?

— Não sei.

— Bonito?

Silêncio.

Merda.

Júlia abriu a boca.

— É bonito!

— Eu não falei isso.

— Seu silêncio falou.

— Você inventa coisa.

— E você tá escondendo.

Meu celular vibrou.

Olhei imediatamente.

Um número desconhecido.

Meu coração deu aquele salto irritante.

Abri.

Número desconhecido: Seu pedido saiu para entrega.

Era mensagem automática.

— Você fica nervosa toda vez que recebe mensagem — Júlia comentou.

— Não fico.

— Fica.

— Júlia…

— Tem alguma coisa acontecendo?

Dessa vez ela estava séria.

Suspirei.

— Não.

— Nanda.

— Eu juro.

Ela me encarou.

— Se acontecer, você me conta.

— Conto.

Mentira.

Ou meia mentira.

Nem eu sabia.

Saí do plantão no início da noite.

Estava cansada.

Mas não tanto quanto normalmente.

Peguei o ônibus.

Desci.

E fui para casa.

No caminho, parei em uma pequena mercearia.

Precisávamos de leite.

Peguei duas caixas, algumas coisas que minha mãe tinha pedido e fui pagar.

O rapaz do caixa me conhecia de vista.

— Quanto?

Ele passou os produtos.

— Trinta e oito.

Peguei o cartão.

Foi quando um homem parado mais para o lado me reconheceu.

Eu conhecia de vista também.

Não sabia o nome.

Ele conversava com outro rapaz.

Quando me viu, parou.

O outro acompanhou o olhar.

Os dois ficaram estranhamente sérios.

Ignorei.

Aproximei o cartão.

— Pode ser débito.

O rapaz do caixa olhou para os dois.

Depois para mim.

— Deixa.

Minha mão parou.

— Deixa o quê?

— Pode levar.

Meu estômago afundou.

— Não.

— Tá tranquilo.

— Por que todo mundo resolveu me dar coisa de graça?

Ele não respondeu.

Olhei para os dois homens.

Um deles desviou o olhar.

— Tem alguma coisa que eu deveria saber?

— Não, Nanda.

— Então passa meu cartão.

— Não precisa.

— Passa meu cartão.

Ele obedeceu.

Digitei a senha.

Peguei as compras.

Antes de sair, ouvi um dos homens falando baixo:

— Essa é ela?

Parei.

Virei.

Os dois ficaram em silêncio.

— Essa quem?

— Nada, não.

— Você acabou de perguntar se eu sou “ela”.

— Confundi.

— Com quem?

— Ninguém.

Apertei a sacola.

— Boa noite.

Saí.

Meu coração estava acelerado.

Alguma coisa estava acontecendo.

E eu não estava gostando.

No dia seguinte, ficou pior.

Eu estava caminhando quando vi um grupo de rapazes mais à frente.

Normalmente, eu simplesmente passaria.

Naquele dia, um deles me viu e cutucou o outro.

A conversa diminuiu.

Quando passei, um deles falou:

— Boa tarde, Nanda.

Parei.

Eu não conhecia aquele homem.

— Boa tarde.

Continuei.

— Qualquer coisa, dá o papo.

Virei.

— Qualquer coisa o quê?

Ele pareceu perceber que tinha falado demais.

— Nada.

— Você me conhece?

— De vista.

— E por que eu daria papo pra você se precisasse de alguma coisa?

O rapaz olhou para os amigos.

Ninguém respondeu.

Eu dei um passo na direção deles.

— Tem alguém falando de mim?

— Não.

— Todo mundo hoje resolveu ficar ruim de mentira?

Um deles soltou uma risada.

O outro deu uma cotovelada nele.

— Nanda, fica tranquila.

— Eu estava tranquila até todo mundo começar a mandar eu ficar tranquila.

O primeiro rapaz respirou fundo.

— Só falaram pra ninguém mexer com você.

Meu corpo ficou imóvel.

— Quem falou?

Silêncio.

Não.

Não podia ser.

Mas eu já sabia.

— Quem?

O rapaz coçou a nuca.

— Melhor você não…

— Foi o TH?

A expressão dele respondeu antes da boca.

Fechei os olhos.

— Eu vou matar aquele homem.

Um dos rapazes tossiu.

— Acho melhor não falar isso muito alto.

Abri os olhos.

— Ele mandou fazer o quê?

— Nada demais.

— Quero ouvir.

— Só deram o papo.

— Que papo?

— Que ninguém mexe com você.

Meu sangue ferveu.

— Desde quando?

— Uns dias.

— Uns dias quanto?

Ele hesitou.

— Depois que…

— Depois que eu encontrei ele.

Silêncio.

— Certo.

Sorri.

O rapaz pareceu relaxar.

Não deveria.

— Onde ele tá?

— Quem?

— Papai Noel.

O outro riu.

— TH.

— Nanda…

— Onde?

— Não sei.

— Sabe, sim.

— Eu não posso…

Peguei o celular.

— Ótimo. Eu descubro.

Comecei a andar.

— Nanda!

Ignorei.

Eu estava furiosa.

Não era gratidão.

Aquilo era interferência.

TH tinha feito exatamente o que eu disse para ele não fazer.

Tinha colocado meu nome na boca dos outros.

Agora pessoas que eu conhecia desde criança estavam me tratando diferente.

Pessoas que nem me conheciam sabiam quem eu era.

Eu não queria aquilo.

Não pedi.

E não aceitaria.

Abri o W******p.

O contato continuava salvo.

TH — PROBLEMA.

Perfeito.

Liguei.

Ele atendeu.

— Fernanda.

— Onde você está?

Silêncio.

— Boa tarde pra você também.

— Onde você está?

— Por quê?

— Quero conversar.

— Pelo seu tom, você quer me bater.

— Talvez.

Ele riu.

— Onde você tá?

— Você primeiro.

— TH!

— Em casa.

— Que casa?

Silêncio.

— Você não sabe?

— Diferente de certas pessoas, eu não mando investigar a vida dos outros.

Ele ficou quieto.

— Manda localização.

— Fernanda…

— Agora.

— Você tá trabalhando?

— Não.

— Tá sozinha?

— Isso importa?

— Pra mim, sim.

— Localização, TH.

Ele soltou o ar.

— Vou mandar alguém te buscar.

— Não vai.

— Então não vem.

— Eu vou descobrir onde você está de qualquer jeito.

— Com quem?

— Não interessa.

— Fernanda.

— Thiago.

Silêncio.

— Você faz isso de propósito.

— O quê?

— Me chama de Thiago quando tá puta.

— Localização.

Ele desligou.

— Filho da mãe!

Um segundo depois, chegou uma mensagem.

Localização.

Sorri.

— Ótimo.

Agora ele ia me ouvir.

Talvez eu devesse ter pensado melhor.

Percebi isso uns vinte minutos depois.

Parei perto do local indicado e olhei em volta.

Definitivamente não parecia um lugar onde eu deveria chegar batendo o pé.

Havia homens por perto.

Alguns me olharam.

Meu coração acelerou.

Ótimo, Fernanda.

Parabéns.

Você deixou a raiva dirigir.

Um homem se aproximou.

Reconheci.

— ND.

O sorriso dele apareceu.

— Enfermeira brava.

— Técnica.

— Perdão. Técnica brava.

— Onde ele tá?

— Nem boa tarde?

— ND.

Ele começou a rir.

— Tá esperando.

— Espero mesmo.

— Você veio sozinha?

— Por que todo mundo pergunta isso?

— Porque você tem coragem demais e juízo de menos.

— Olha quem fala.

— Eu trabalho com TH. Nunca disse que tenho juízo.

Quase ri.

Não.

Eu estava brava.

— Anda.

Ele fez um gesto.

— Vem.

Segui.

Ninguém me parou.

Na verdade, era justamente o contrário.

As pessoas abriam espaço.

E aquilo só aumentou minha irritação.

ND percebeu.

— Relaxa.

— Não manda eu relaxar.

— Certo.

Chegamos a uma casa.

Antes de entrar, parei.

— Ele ainda tá machucado?

ND me olhou.

— Você tá preocupada?

— Não.

— Então por que perguntou?

— Porque se eu gritar e ele abrir o ferimento, não quero que coloquem a culpa em mim.

ND começou a rir.

— Tá melhor.

— Ótimo.

Entrei.

TH estava na sala.

Sentado.

Camiseta cinza.

Bermuda.

As tatuagens apareciam quase completamente.

Ele estava com um celular na mão.

Quando me viu, levantou os olhos.

— Fernanda.

— TH.

— Veio rápido.

— Você sabe por quê.

— Tenho uma ideia.

ND ficou atrás de mim.

TH olhou para ele.

— Pode sair.

— Eu quero ver.

— Nathan.

— Tá bom.

ND passou por mim.

— Boa sorte.

— Pra quem? — perguntei.

— Pros dois.

Ele saiu.

Fiquei sozinha com TH.

— Senta.

— Não quero sentar.

— Então fica em pé.

— Você mandou avisar que ninguém pode mexer comigo?

Direta.

Ele colocou o celular na mesa.

— Mandei.

Nem tentou negar.

Isso me irritou mais.

— Por quê?

— Porque ninguém vai mexer com você.

— Essa não foi minha pergunta.

— Eu fiz uma promessa.

— Eu não aceitei sua promessa.

— Não precisava.

Ri, sem humor.

— Você tá ouvindo o absurdo que tá falando?

— Tô.

— Pessoas estão me tratando diferente.

A expressão dele mudou um pouco.

— Como?

— Não querem cobrar minhas coisas.

O maxilar dele travou.

— Quem?

— Isso não interessa.

— Interessa.

— Não! Esse é exatamente o problema! Tudo interessa pra você!

Ele ficou quieto.

— Padaria. Mercado. Gente que eu nem conheço falando comigo. Hoje um cara falou “qualquer coisa, dá o papo”.

— Ninguém deveria deixar de cobrar você.

— Mas estão!

— Eu não mandei isso.

— Mas foi consequência do que você mandou!

TH se levantou.

Devagar.

Vi que ainda sentia.

Mas não falei nada.

— Eu só deixei claro que ninguém te desrespeita.

— Eu não preciso disso.

— Todo mundo precisa de alguma coisa.

— Eu sei me defender.

— Não falei que não sabe.

— Então para!

Ele ficou na minha frente.

Alto demais.

Precisei levantar o rosto.

— Para o quê?

— De interferir na minha vida.

— Não tô interferindo.

— Você fez pessoas que eu conheço desde criança mudarem a maneira como me tratam.

— Não era pra isso acontecer.

— Mas aconteceu.

Ele ficou em silêncio.

Respirei fundo.

— Eu não quero ser “a protegida do TH”.

A expressão dele mudou.

— Não quero entrar num lugar e as pessoas abrirem espaço porque acham que você vai fazer alguma coisa se me tratarem normalmente.

— Eu nunca mandei ninguém ter medo de você.

— Não precisa mandar!

Minha voz saiu mais alta.

— Você sabe quem é. Sabe o peso que seu nome tem aqui.

Ele não respondeu.

— Eu não quero usar seu nome.

— Não pedi pra usar.

— Mas ele já tá grudado no meu sem eu ter pedido!

Isso pareceu atingi-lo.

TH desviou os olhos por um instante.

Depois voltou.

— Você tem razão nessa parte.

Parei.

Eu não esperava.

— O quê?

— Eu disse que você tem razão.

— Repete. Quero gravar.

Ele quase sorriu.

— Não força.

Cruzei os braços.

— Então resolve.

— Vou resolver.

— Hoje.

— Fernanda…

— Hoje.

— Eu não consigo controlar o que cada pessoa pensa.

— Mas consegue mandar o recado contrário.

Ele respirou fundo.

— Posso deixar claro que ninguém deve mudar o jeito de tratar você.

— Ótimo.

— Mas não vou tirar a proteção.

Meu sangue voltou a ferver.

— TH!

— Não.

— A vida é minha!

— Eu sei.

— Então quem decide sou eu.

— Na sua vida, sim.

— E estamos falando de quê?

— Da sua segurança.

— Que faz parte da minha vida!

Ele passou a mão pelo rosto.

— Você é muito difícil.

— Você manda em todo mundo e acha estranho quando alguém não obedece.

— Não é isso.

— É exatamente isso.

Apontei para ele.

— Você manda no morro. Em mim, não.

Silêncio.

Pesado.

Por um instante, pensei que tivesse ido longe demais.

TH me encarou.

Não parecia bravo.

Parecia…

Surpreso.

— Repete.

— Não sou papagaio.

— Fernanda.

— Você ouviu.

Ele deu um passo na minha direção.

Instintivamente, eu deveria ter recuado.

Não recuei.

— Eu mando no morro — ele repetiu.

— Parabéns.

— Mas não mando em você.

— Finalmente.

— Nunca falei que mandava.

— Suas atitudes falam.

Ele passou a língua pelos lábios.

— Então me explica uma coisa.

— O quê?

— Se eu souber que alguém quer fazer mal pra você, você realmente espera que eu fique parado porque você não autorizou?

Parei.

— Não tem ninguém querendo me fazer mal.

O olhar dele mudou.

Foi rápido.

Mas eu vi.

— Tem?

Silêncio.

Meu coração acelerou.

— TH.

— Não sabemos.

— Como assim não sabem?

— É só precaução.

— Você tá escondendo alguma coisa.

— Não.

— Tá.

— Fernanda…

— Tem a ver com Renan?

A expressão dele endureceu.

Meu estômago afundou.

— Tem.

— O que ele fez?

— Nada.

— Então por que fez essa cara?

— Porque não gosto dele.

Fiquei incrédula.

— Você nem conhece Renan!

— Exatamente.

— Isso não faz sentido.

— Pra mim faz.

— Você investigou ele também?

Silêncio.

Abri a boca.

— Você é doente.

— Cuidado.

— Não vem com “cuidado” pra cima de mim.

— Não tô te ameaçando.

— Ainda bem.

— Fernanda…

— Você investigou um homem só porque ele falou comigo?

— Não.

— Então por quê?

Ele ficou alguns segundos sem responder.

— Porque ele falou pra você tomar cuidado com quem anda.

Meu coração parou.

— Como você sabe disso?

Merda.

TH percebeu tarde demais.

— Como você sabe o que Renan falou pra mim?

Ele ficou em silêncio.

Dei um passo para trás.

— Você colocou alguém me seguindo.

— Observando.

— É a mesma merda!

— Não é.

— Claro que é!

Passei as mãos pelo cabelo.

— Eu sabia! Eu perguntei no telefone e você desligou!

— Porque sabia que você ia reagir assim.

— E você acha que isso melhora?

— Não.

— Desde quando?

— Fernanda…

— Desde quando?

— Depois do ataque.

— Você tá me seguindo desde aquela noite?

— Não eu.

— Não piora!

Ele respirou fundo.

— Eu precisava ter certeza de que ninguém que veio atrás de mim iria atrás de você.

Minha raiva encontrou uma pequena fresta de medo.

— Por que iriam?

— Porque você me encontrou.

— Depois.

— Eles não sabem necessariamente disso.

Fiquei quieta.

— Você viu meu rosto. Ficou comigo. Meus homens chegaram e te viram. Se alguém estivesse observando…

— Você acha que alguém me viu?

— Não sei.

Aquela resposta foi pior do que um sim.

— E você não pensou em me contar?

— Eu não queria te assustar sem motivo.

— Então preferiu mandar um estranho me seguir?

— Preferi ter alguém perto caso aparecesse motivo.

Balancei a cabeça.

— Isso é errado.

— Talvez.

— Talvez?

— Eu faria de novo.

Olhei para ele.

— Você é inacreditável.

— E você teria feito o quê se eu contasse?

— Decidido por mim mesma!

Ele ficou em silêncio.

A resposta tinha atingido.

— Esse é o ponto, TH. Você não pode decidir o que eu devo ou não saber.

Ele desviou o olhar.

— Certo.

— Certo?

— Nisso você tem razão.

Respirei fundo.

— Quero que pare.

— Não posso prometer.

— Então nossa conversa não adiantou nada.

Virei para sair.

— Fernanda.

Continuei.

Ele segurou meu braço.

Parei imediatamente.

Olhei para a mão dele.

TH soltou na mesma hora.

— Desculpa.

Aquilo me surpreendeu.

Virei.

— Eu não quero controlar você.

— Então não controla.

— Tô tentando manter você segura.

— Sem me perguntar.

— Porque se eu perguntar, você vai dizer não.

— E talvez você precise aprender a ouvir não.

Ele me encarou.

— Talvez.

— Começa hoje.

TH respirou fundo.

— Vou mandar corrigirem o recado.

Esperei.

— Ninguém deixa de cobrar você. Ninguém muda a forma de te tratar. Ninguém fala em meu nome com você.

— E a pessoa me seguindo?

Ele ficou em silêncio.

— TH.

— Vou tirar.

Estreitei os olhos.

— Verdade?

— Vou.

— Hoje?

— Hoje.

— Obrigada.

— Mas se surgir qualquer coisa…

— Você me conta.

Ele ficou sério.

— Eu conto.

Assenti.

Era um começo.

Caminhei até a porta.

— Fernanda.

Virei.

— O quê?

— O celular?

— Continua na caixa.

— Você vai devolver?

— Sim.

— Pode ficar.

— Não.

— Teimosa.

— Controlador.

— Chata.

— Mandão.

Ele sorriu.

— Enfermeira.

— Técnica!

A risada dele veio baixa.

— Vai embora antes que minha pressão suba.

— A sua?

— Sim.

— Eu sou da saúde. Posso medir.

— Sai, Fernanda.

Sorri sem querer.

— Tchau, TH.

Saí.

ND estava encostado do lado de fora.

— Sobreviveu? — perguntei.

— Eu ia perguntar isso pra você.

— Ele é impossível.

— Vinte anos de amizade. Não precisa me contar.

— Vinte?

— Desde moleque.

Assenti.

Comecei a andar.

— Nanda.

Parei.

Foi a primeira vez que ND me chamou assim.

— O quê?

A expressão dele estava séria.

— Ele erra a mão às vezes.

— Percebi.

— Mas não fez pra te colocar numa posição ruim.

— Eu sei.

— TH não sabe agradecer direito.

— Ele precisa aprender.

ND sorriu.

— Talvez você ensine.

— Eu?

Ri.

— Nem pensar.

Fui embora.

Só que, dessa vez, ninguém veio atrás.

Pelo menos ninguém que eu percebesse.

E, pela primeira vez desde aquela madrugada, senti que tinha recuperado um pouco do controle da minha própria vida.

Eu só ainda não sabia que aquela discussão sobre proteção seria a primeira de muitas.

Porque TH tinha acabado de descobrir uma coisa sobre mim.

Eu não obedecia só porque ele mandava.

E eu tinha acabado de descobrir uma coisa sobre ele.

Por trás de toda aquela autoridade, Thiago era capaz de reconhecer quando errava.

Talvez não com facilidade.

Talvez depois de me fazer querer estrangulá-lo.

Mas era.

E isso tornava tudo mais complicado.

Porque seria muito mais fácil manter distância se ele fosse apenas o homem perigoso que todos diziam que era.

O problema era que, aos poucos, eu começava a enxergar o homem por trás do vulgo.

E eu ainda não fazia ideia do tamanho do perigo que existia nisso.

Visão do TH

— Ela foi embora?

Olhei para ND entrando na sala.

— Você tava lá fora.

— Pergunta retórica.

Ignorei.

Peguei o celular.

— Manda desfazer o recado.

ND parou.

— Como?

— Ninguém deixa de cobrar nada dela. Ninguém trata diferente. Quero tudo normal.

Ele abriu um sorriso.

— Ela ganhou?

— Isso não é competição.

— Então ela ganhou.

— Nathan.

— Tá bom.

Começou a digitar.

— E tira o cara que tá acompanhando ela.

ND parou de digitar.

— Tem certeza?

Não respondi imediatamente.

Não.

Não tinha.

Tudo em mim dizia que era uma decisão ruim.

Ainda não sabíamos quem tinha armado o ataque.

Renan continuava sendo uma interrogação.

E Fernanda já tinha sido vista comigo.

Mas ela tinha razão.

Eu estava decidindo coisas que afetavam diretamente a vida dela sem contar.

— Tira.

— Beleza.

— Mas quero atualização sobre Renan.

— Isso continua?

— Continua.

— E se descobrirmos alguma coisa?

Lembrei da conversa.

Você me conta.

— Primeiro você me avisa.

— Depois?

— Eu falo com ela.

ND levantou as sobrancelhas.

— Olha só.

— O quê?

— Evolução.

— Vai se foder.

Ele riu.

— Já mandei.

Olhei para o celular.

— E ND?

— Fala.

— Descobre por que estão deixando ela pegar coisa de graça.

— Você acabou de…

— Quero saber quem começou.

— Pra quê?

— Pra mandar parar.

Ele me encarou.

— Ela mexeu mesmo com você.

— Não começa.

— Eu só…

— Não.

Ele levantou as mãos.

— Beleza.

ND foi embora.

Fiquei sozinho.

Você manda no morro. Em mim, não.

Ninguém falava comigo daquele jeito.

Ou, pelo menos, ninguém que não fosse minha mãe ou ND.

Fernanda tinha entrado na minha casa, apontado o dedo na minha cara e deixado claro que eu tinha ultrapassado um limite.

E, em vez de ficar puto…

Eu tinha gostado.

Sorri de canto.

— Complicada pra caralho.

Meu celular vibrou.

Mensagem de CK.

Abri.

O sorriso desapareceu.

CK: Consegui mais coisa daquele Renan. Precisamos conversar.

Sentei direito.

Respondi.

Eu: Vem.

Minutos depois, outra mensagem.

CK: Tem gente próxima dele que pode ter ligação com o pessoal que estamos procurando.

Fiquei olhando para a tela.

A sensação ruim voltou.

Talvez Fernanda tivesse razão sobre eu não poder controlar a vida dela.

Mas meu instinto também estava certo em uma coisa.

A frase de Renan não tinha me incomodado por acaso.

E, se existisse qualquer ligação entre aquele filho da puta e quem tentou me matar, Fernanda precisava saber.

Dessa vez eu contaria.

Porque eu tinha acabado de prometer.

E, gostando ou não, havia uma coisa que eu já começava a entender sobre ela:

Se eu quisesse que Fernanda confiasse em mim, não adiantava protegê-la escondido.

Eu teria que aprender a protegê-la sem tirar dela o direito de escolher.

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    O Último ConselhoNarrado por NDConheci TH antes de muita coisa mudar em nossas vidas.Vi aquele homem enfrentar momentos que teriam feito muita gente desistir. Estive ao lado dele em dias bons e ruins, acompanhei suas decisões, seus erros e as consequências que vieram depois.Durante anos, fomos mais do que parceiros. Construímos uma amizade que resistiu ao tempo, às dificuldades e até às diferenças que surgiram pelo caminho.Mas agora tudo estava mudando.TH havia decidido se afastar definitivamente, e TJ começava a ocupar um espaço que, durante muito tempo, pertenceu ao pai.Às vezes, eu olhava para aquele garoto e ainda enxergava o menino que corria pela casa com Sofia. Agora, os dois estavam adultos o suficiente para tomar decisões próprias, mesmo que ainda tivessem muito a aprender.E eu também precisava aprender a deixá-los crescer.Encontrei João Pedro na varanda, mexendo no celular.— Posso conversar com você?Ele guardou o aparelho.— Claro, ND.Sentei-me ao lado dele.— Vo

  • A Nova Protegida do Dono do Morro   A decisão de Th

    A Decisão de THNarrado por THEu passei muitos anos acreditando que precisava estar no controle de tudo.Aprendi a tomar decisões difíceis, a carregar responsabilidades e a esconder minhas preocupações para que ninguém percebesse quando alguma coisa estava me atingindo. Mas, com o passar do tempo, comecei a entender que não poderia viver daquela maneira para sempre.TJ estava crescendo. Cometeu erros, enfrentou as consequências e começou a perceber que responsabilidade não era apenas ter voz nas decisões.E eu precisava cumprir minha parte.Naquela manhã, encontrei Fernanda no quarto, organizando algumas coisas.— Preciso conversar com você — falei.Ela levantou os olhos.— Aconteceu alguma coisa?— Tomei uma decisão.Fernanda deixou o que estava fazendo de lado.— Sobre seu afastamento?Assenti.— Vou iniciar a etapa final. Não quero mais prolongar isso.Ela se aproximou.— Tem certeza?— Tenho. Quero organizar os próximos passos e deixar claro para todos que, quando a transição est

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    Mais Que Uma AmizadeNarrado por SofiaEu sempre achei TJ irritante.Desde pequenos, ele tinha aquela mania de querer ter resposta para tudo. Se eu dizia alguma coisa, ele encontrava um jeito de discordar. Se eu ficava quieta, perguntava o que tinha acontecido. E, quando queria me provocar, fazia isso com uma tranquilidade que dava vontade de jogar alguma coisa nele.Só que, nos últimos tempos, comecei a perceber que havia algo diferente.Talvez fosse o jeito como ele tentava esconder as preocupações. Ou a maneira como olhava para o pai quando achava que ninguém estava prestando atenção. Talvez fosse porque, pela primeira vez, eu estava vendo o garoto que conheci crescer diante dos meus olhos.E isso estava me confundindo.Depois do problema que ele causou, fiquei decepcionada. Não porque esperava que TJ fosse perfeito, mas porque sabia que ele tinha capacidade de agir melhor. Ele parecia tão preocupado em provar que estava pronto que esqueceu de ouvir as pessoas que queriam ajudá-lo.

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