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A Dívida

Auteur: Amanda Nunes
last update Date de publication: 2026-10-28 01:55:58

Capítulo 7 — A Dívida

Visão da Fernanda

Eu descobri uma coisa sobre TH depois da visita à minha casa.

O homem não sabia ouvir um não.

Não no sentido de Renan, que insistia em coisas que eu já tinha deixado claro que não queria.

Com TH era diferente.

Pior, talvez.

Ele ouvia.

Entendia.

Ficava em silêncio.

E depois encontrava outro jeito de fazer exatamente o que queria.

Dois dias depois da visita, descobri isso da forma mais irritante possível.

— Fernanda!

Eu estava terminando de guardar algumas coisas no posto quando Júlia apareceu com uma sacola na mão.

— O quê?

— Isso chegou pra você.

Olhei.

— O que é?

— Comida.

— Eu não pedi comida.

— Eu sei.

— Então não é minha.

— Tem seu nome.

Peguei a sacola.

Tinha mesmo.

FERNANDA.

— Quem trouxe?

— Um entregador.

— E quem pediu?

Júlia abriu um sorriso.

— Aí que começa a parte interessante.

Meu estômago apertou.

— Júlia…

— Tinha isso.

Ela tirou um pequeno papel.

Peguei.

Não tinha declaração.

Não tinha coração.

Não tinha nada demais.

Só uma frase.

Você precisa comer durante o plantão.

Fechei os olhos.

— Filho da…

— Quem?

— Ninguém.

— Fernanda.

Amassei o papel.

— Ninguém.

Ela arrancou o bilhete da minha mão.

— Ei!

Leu.

Depois me olhou.

— Ah.

— Me dá.

— “Você precisa comer durante o plantão.”

— Eu sei ler.

— Quem mandou?

— Não sei.

— Mentira.

— Júlia.

— É homem?

— Devolve.

— É bonito?

— Meu Deus.

Peguei o papel.

— Não começa.

— Você esconde alguma coisa de mim há quase uma semana e agora começa a chegar comida misteriosa no hospital.

— Não é misteriosa.

Ela arregalou os olhos.

— Então você sabe quem mandou!

Merda.

— Acho que sei.

— Quem?

— Uma pessoa.

— Nossa, obrigada. Achei que tivesse sido um cachorro.

— Júlia!

Ela começou a rir.

Abri a sacola.

Comida de verdade.

Não lanche.

Arroz, feijão, carne, legumes.

E uma sobremesa.

Olhei novamente para o bilhete.

Você precisa comer durante o plantão.

Na visita à minha casa, eu tinha comentado que trabalhava demais?

Não lembrava.

Talvez ele tivesse descoberto.

O que era ainda pior.

Peguei o celular.

Parei.

Eu não tinha o número dele.

Melhor.

Assim não poderia reclamar.

— Vai comer? — Júlia perguntou.

— Não.

— Vai jogar fora?

— Não.

— Então vai fazer o quê?

Olhei para a sacola.

Eu não jogaria comida fora.

— Vou comer.

— Então agradece seu admirador.

— Ele não é meu admirador.

— Então o que ele é?

Pensei.

Um homem que eu encontrei baleado.

O Dono da Rocinha.

Um problema que eu tinha prometido evitar.

— Uma dor de cabeça.

Quando cheguei em casa, havia outra surpresa.

Lucas estava sentado no sofá.

Com uma caixa enorme em cima da mesa.

Parei na porta.

— O que é isso?

Ele olhou para mim.

— Antes que você brigue, eu não tenho nada a ver.

— Com o quê?

Apontei.

— Isso.

— Chegou pra você.

Meu olho começou a tremer.

— De quem?

Lucas tentou esconder o sorriso.

— Adivinha.

— Não.

— Sim.

— Lucas…

— Eu juro que não pedi.

Minha mãe apareceu na cozinha.

A expressão dela dizia que também não estava gostando.

— Um rapaz deixou — falou.

— Que rapaz?

— Não sei. Disse que era pra você.

Fui até a caixa.

Abri.

Dentro havia um celular novo.

Fiquei olhando.

Depois fechei.

— Não.

Lucas levantou.

— Nanda…

— Não.

— Pelo menos olha o modelo.

— Eu não quero saber o modelo!

— Parece caro.

— Exatamente!

Minha mãe cruzou os braços.

— Eu falei para não aceitar.

— Eu não aceitei!

— Está dentro da nossa casa.

— Porque alguém deixou!

Peguei a caixa.

Havia um cartão.

Dessa vez só dizia:

O seu estava quase descarregando naquela noite.

Eu queria gritar.

— Ele tá de sacanagem comigo.

Lucas começou a rir.

— Não ri!

— Desculpa.

— Ele acha que pode sair comprando coisa pros outros?

— Talvez pra ele isso seja normal.

— Pra mim não é!

Peguei meu próprio celular.

— Eu vou devolver.

— Como?

Parei.

Ótima pergunta.

— Não sei.

Lucas sorriu.

— Eu sei.

Olhei lentamente para ele.

— Como você sabe?

— Tenho contatos.

— Você tem dezenove anos e passa metade do dia pedindo biscoito. Que contatos são esses?

— Não desmerece meu networking.

— Lucas.

Ele pegou o próprio celular.

— Eu consigo o contato do ND.

— Não quero falar com ND.

— Então pede o número do TH.

— Eu não quero o número dele!

— Então como vai devolver?

Fechei os olhos.

Respirei.

— Me dá.

— O quê?

— O contato.

O sorriso dele aumentou.

— Ah…

— Lucas!

— Tá bom!

Alguns minutos depois, eu estava olhando para um número na tela.

ND.

Minha mãe observava.

— Não é melhor simplesmente deixar isso quieto?

— Se eu deixar, amanhã ele manda uma televisão.

Lucas levantou a mão.

— Nesse caso eu voto para deixar.

— Cala a boca.

Mandei mensagem.

Eu: Boa noite. Aqui é a Fernanda.

A resposta veio quase imediatamente.

ND: Eu sei.

Franzi a testa.

Eu: Como sabe?

ND: Seu irmão falou que ia te passar meu número kkkkk.

Olhei para Lucas.

— Traidor.

— Eu avisei ele.

— Por quê?

— Educação.

Voltei para o celular.

Eu: Quero devolver uma coisa para o TH.

ND demorou alguns segundos.

ND: O celular?

Eu: Então você sabia.

ND: Talvez.

Eu: Quero devolver.

Os três pontinhos apareceram.

Sumiram.

Apareceram de novo.

ND: Acho melhor você falar com ele kkkkk.

Em seguida, outro número apareceu.

— Pronto.

Salvei.

TH — PROBLEMA.

Lucas olhou por cima do meu ombro.

— Você salvou como problema?

— Sai daqui!

Ele começou a rir.

Fui para o quarto.

Fechei a porta.

Olhei para o contato.

Pensei em mandar mensagem.

Depois decidi ligar.

Porque algumas coisas precisavam ser ditas com voz.

Ele atendeu no terceiro toque.

— Fernanda.

Parei.

— Como você sabe que sou eu?

— ND acabou de avisar.

— Claro.

Ouvi uma risada baixa.

— Gostou?

— Não.

— Nem sabe do que tô falando.

— Do celular.

— Então gostou?

— Vou devolver.

Silêncio.

— Por quê?

— TH, a gente já conversou sobre isso.

— Seu celular tava quase sem bateria naquela noite.

— E?

— E se você precisasse pedir ajuda?

— Eu tenho carregador.

— Não naquela rua.

— Meu Deus…

Passei a mão pelo rosto.

— Você não pode ficar me mandando coisa.

— Posso.

— Não, não pode.

— Pelo visto posso porque chegou.

— Você entendeu.

Ele riu.

— Você acha engraçado?

— Um pouco.

— Eu tô falando sério.

— Eu também.

— Então escuta: eu não quero dinheiro. Não quero presente. Não quero favor. Não quero que você pague minha faculdade. E não quero celular.

— Tá.

Parei.

— Tá?

— Tá.

Aquilo foi fácil demais.

— Você vai parar?

— Com presente, sim.

— Promete?

— Não gosto de prometer coisa que talvez não cumpra.

— TH!

Ele riu novamente.

— Você é impossível.

— Você já falou isso.

— Porque continua sendo verdade.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— Como você tá? — perguntei sem pensar.

Merda.

— Preocupada comigo?

— Profissionalmente.

— Claro.

— Como tá o ferimento?

— Melhor.

— Tá fazendo curativo direito?

— Tenho gente fazendo.

— Tá tomando o que o médico passou?

— Sim, senhora.

— Não me chama de senhora.

— Sim, técnica Fernanda.

Revirei os olhos.

— Você é muito besta.

— E você liga só pra devolver presente.

— Exatamente.

— Quer devolver pessoalmente?

— Não.

Ele riu.

— Boa noite, TH.

— Fernanda.

Parei antes de desligar.

— O quê?

A voz dele mudou.

Ficou séria.

— Obrigado.

Meu corpo relaxou um pouco.

— Você já agradeceu.

— Não direito.

— Não precisa.

— Pra mim precisa.

Sentei na cama.

— Você está vivo. Isso já é suficiente.

Ele ficou em silêncio.

— Pra você talvez.

— TH…

— Pra mim não.

Havia alguma coisa diferente naquela voz.

A brincadeira tinha desaparecido.

— Eu lembro daquela noite inteira — ele continuou. — Talvez não na ordem certa. Mas lembro.

Não respondi.

— Lembro de acordar no chão.

Minha mão apertou o celular.

— Lembro de tentar levantar e não conseguir. Lembro de achar que quem vinha era alguém voltando pra terminar o que começou.

Fechei os olhos.

— E depois ouvi você.

Minha respiração ficou mais lenta.

— Você tava com medo.

— Muito.

— Eu percebi.

— Mesmo assim você ficou.

— Eu sou técnica de enfermagem.

— Para de falar isso como se explicasse tudo.

Abri os olhos.

— Mas explica.

— Não explica.

— TH…

— Você estava fora do hospital. Não tava trabalhando. Não tinha médico. Não tinha segurança. Você ouviu tiro. Encontrou um desconhecido sangrando e ficou.

— Eu fiz o que qualquer pessoa deveria fazer.

— Não.

A resposta veio firme.

— Você fez o que você faria.

Fiquei quieta.

Ele continuou:

— Se tivesse ido embora, ninguém poderia te culpar.

— Eu me culparia.

— Exatamente.

Meu peito apertou.

— Então para de tratar como se não fosse nada.

— Eu não estou tratando assim.

— Tá, sim.

— Só não quero que você ache que me deve alguma coisa.

— Mas eu devo.

— Não deve.

— Fernanda.

— TH.

— Você salvou minha vida.

— Eu ajudei.

— Você salvou.

— Seus homens chegaram.

— Porque você me manteve vivo até eles chegarem.

Não consegui responder.

— Você pressionou o ferimento. Me manteve acordado. Ficou falando comigo quando eu tava apagando.

Lembrei dele pedindo para eu falar qualquer coisa.

Eu tinha contado até sobre o preço do Uber.

— Você fez seu trabalho — ele falou. — Eu entendi. Mas naquela noite ninguém tava te pagando pra fazer isso.

Engoli em seco.

— Então aceita pelo menos que eu seja grato.

— Gratidão eu aceito.

— Ótimo.

— Dinheiro não.

— Teimosa.

— Você também.

— Então estamos empatados.

Sorri sem querer.

— Boa noite, TH.

— Ainda não terminei.

— Meu Deus.

— Não vou te dar dinheiro.

— Obrigada.

— Nem pagar sua faculdade.

— Melhor ainda.

— Nem mandar outro celular.

— Perfeito.

— Mas tem uma coisa que você não vai poder recusar.

Meu sorriso desapareceu.

— O quê?

— Se algum dia você estiver em perigo, me chama.

— Não pretendo estar.

— Ninguém pretende.

A frase me fez lembrar de Renan.

Cuidado com quem você anda.

Afastei o pensamento.

— Eu sei me cuidar.

— Não falei que não sabe.

— Parece.

— Fernanda, não tô dizendo que você precisa de mim pra viver.

— Então o que tá dizendo?

Silêncio.

Quando ele respondeu, a voz veio baixa.

Séria.

Sem provocação.

— Que você não vai ficar desamparada enquanto eu estiver vivo.

Meu coração bateu diferente.

— TH…

— Você pode recusar meu dinheiro. Pode devolver tudo que eu mandar. Pode bater a porta na minha cara se quiser.

— Não me dá ideia.

Ele ignorou.

— Mas isso você vai ter que aceitar.

— E quem decidiu?

— Eu.

Revirei os olhos.

— Claro.

— Fernanda.

— O quê?

Houve uma pausa.

E então ele disse:

— Você salvou minha vida. Enquanto eu respirar, ninguém tira a sua.

Fiquei completamente imóvel.

Não sabia por que aquela frase tinha me atingido daquele jeito.

Talvez pelo tom.

TH não falou como quem estava tentando impressionar.

Não parecia cantada.

Nem brincadeira.

Parecia uma promessa.

E, vindo dele, isso me assustava.

— Não fala uma coisa dessas.

— Por quê?

— Porque é pesada.

— É pra ser.

— Eu não quero ninguém me protegendo.

— Não precisa querer.

— TH…

— Você continua vivendo sua vida.

— E você?

— Eu continuo vivendo a minha.

— Então pronto.

— Pronto.

Fiquei desconfiada.

— Você não vai mandar ninguém atrás de mim?

Silêncio.

— TH?

— Boa noite, Fernanda.

Sentei reta.

— Thiago!

Ele riu.

— Primeira vez que você me chama pelo nome.

— Não muda de assunto!

— Dorme bem.

— TH!

A ligação caiu.

Fiquei olhando para a tela.

— Desgraçado.

Liguei de novo.

Ele recusou.

Meus olhos arregalaram.

— Ah, não.

Mandei mensagem.

Eu: Você desligou na minha cara?

Ele visualizou.

Nada.

Eu: TH.

Visualizado.

Eu: THIAGO.

Finalmente respondeu.

TH: Gostei mais desse.

Eu queria jogar o celular na parede.

Eu: Você colocou alguém para me seguir?

Ele demorou.

TH: Boa noite, Fernanda.

— Filho da mãe!

A porta abriu.

Lucas colocou a cabeça para dentro.

— Tá brigando com quem?

— Ninguém.

— Esse ninguém tem nome?

Joguei o travesseiro.

Ele fechou a porta antes de ser atingido.

Ouvi a risada do corredor.

Deitei.

Fiquei olhando para o teto.

Meu celular vibrou.

Achei que fosse TH.

Era Júlia.

Ignorei por alguns segundos.

A frase dele continuava na minha cabeça.

Enquanto eu respirar, ninguém tira a sua.

Era absurda.

Exagerada.

Intensa.

E completamente desnecessária.

Eu não precisava de proteção.

Muito menos da proteção de TH.

Eu só tinha ajudado um homem ferido.

Nada mais.

A história deveria ter terminado ali.

Mas alguma coisa me dizia que, para Thiago, aquela noite tinha criado um vínculo que ele não pretendia simplesmente esquecer.

E o pior?

Por alguns segundos, ouvindo aquela promessa, eu não tinha sentido apenas medo.

Eu tinha sentido segurança.

E isso, sim, era perigoso.

Visão do TH

— Você desligou na cara dela?

ND estava sentado na poltrona, rindo.

Coloquei o celular na mesa.

— Desliguei.

— Corajoso.

— Ela fala demais.

— Você gosta.

Olhei para ele.

— Tá querendo morrer?

— Você ainda tá se recuperando. Consigo correr.

Ignorei.

ND pegou o próprio celular.

— O pessoal mandou atualização.

Minha expressão mudou.

— Fala.

— Renan.

— O que tem ele?

— Aparentemente é mais interessante do que parecia.

Sentei melhor.

— Como assim?

— Ele anda com gente que não deveria.

— Quem?

— Ainda estamos confirmando.

— Confirma antes de fazer qualquer coisa.

— Foi exatamente o que eu mandei.

Assenti.

— E a Fernanda?

— Amanhã trabalha.

— Horário?

ND me encarou.

— Você quer mesmo saber?

— Perguntei.

Ele falou.

Guardei mentalmente.

— Mantém alguém olhando.

— Sem ela saber.

— Principalmente sem ela saber.

ND soltou uma risada.

— Depois não fala que eu não avisei.

— Sobre?

— Quando ela descobrir, aquela mulher vai vir arrancar sua cabeça.

Lembrei da voz dela no telefone.

Você colocou alguém para me seguir?

Sorri.

— Ela primeiro vai ter que descobrir.

ND balançou a cabeça.

— Você tá muito confiante.

— Sempre fui.

— Esse vai ser seu problema.

Levantei os olhos.

— Qual?

Ele apontou para meu celular.

— Fernanda.

— Ela não é problema.

— Ainda.

Ignorei.

Mas minha atenção voltou para a informação sobre Renan.

Talvez a frase dele não tivesse sido só provocação.

Talvez existisse alguma coisa ali.

E, se existisse, eu descobriria.

Fernanda podia reclamar.

Podia me chamar de controlador.

Podia devolver tudo que eu tentasse dar.

Podia até decidir que nunca mais queria olhar na minha cara.

Mas havia uma decisão que eu já tinha tomado.

Ela tinha me encontrado quando eu estava sozinho, sangrando e perto de morrer.

Ficou quando poderia ter ido embora.

Agora era minha vez.

Eu ainda não sabia de onde viria o perigo.

Nem quando.

Mas a promessa estava feita.

Enquanto eu respirasse, ninguém tiraria a vida dela.

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