INICIAR SESIÓNCapítulo 14 — Minha Vida, Minhas Regras
Visão da Fernanda
Eu devia ter desconfiado quando TH ficou quieto demais.
Homem mandão em silêncio nunca significava coisa boa.
Principalmente quando o homem em questão era Thiago Henrique, mais conhecido como TH, que parecia acreditar que a palavra limite era apenas uma sugestão.
Naquela manhã, acordei com uma mensagem dele.
TH: Quando sair do trabalho, a gente conversa.
Olhei o horário.
Seis e dez.
Eu: Você acorda pensando em me dar ordem?
Ele respondeu quase imediatamente.
TH: Bom dia pra você também.
Eu: Bom dia.
TH: Dormiu bem?
Parei.
Aquela pergunta simples me arrancou um sorriso que eu não deveria ter dado.
Eu: Dormi.
TH: Come antes de sair.
Revirei os olhos.
Eu: Lá vem.
TH: Não tô mandando.
Eu: Parece.
Demorou alguns segundos.
TH: Por favor, come antes de sair.
Mordi o canto da boca.
Filho da mãe.
Ele estava aprendendo.
Eu: Vou comer.
TH: Obrigado.
Levantei da cama ainda sorrindo.
— Tá ficando perigoso — murmurei.
— O quê?
Quase joguei o celular longe.
Lucas estava parado na porta.
— Você não sabe bater?
— A porta tava aberta.
— Então aprende mesmo assim.
Ele entrou.
— Com quem você tava falando?
— Ninguém.
— Ninguém te faz sorrir olhando pro celular?
— Vai pra faculdade.
— Ainda nem tomei café.
— Então vai tomar.
Lucas estreitou os olhos.
— É o TH?
— Lucas.
O sorriso dele ficou enorme.
— É!
Peguei o travesseiro.
— Sai.
— Minha irmã tá de papinho com o Dono da Rocinha.
Joguei.
Ele desviou.
— Cala a boca!
— Mãe! A Nanda tá namorando!
— LUCAS!
A voz da minha mãe veio da cozinha.
— Fernanda tá namorando?
— NÃO!
Lucas começou a gargalhar.
Levantei da cama.
— Eu vou te matar.
— Violência doméstica!
Corri atrás dele pelo corredor.
Ele chegou à cozinha rindo.
Minha mãe nos olhou.
— Vocês têm quantos anos?
— Ele começou.
— Ela tá falando com o…
Tampei a boca dele.
— Termina e você morre.
— Hum! Hum!
— Solta seu irmão, Fernanda!
Soltei.
Lucas puxou o ar dramaticamente.
— Quase fui assassinado porque descobri um romance proibido.
— Não existe romance nenhum.
Minha mãe parou.
— Romance?
— Não tem romance!
— Com quem?
Olhei para Lucas.
Ele sorriu.
— Experimenta.
— Eu não falei nada.
— Melhor.
Márcia olhava de um para o outro.
— Eu vou descobrir.
— Não tem nada pra descobrir, mãe.
Sentei.
Meu celular vibrou.
Lucas olhou.
Eu olhei.
Ele sorriu.
— Nem pensa.
Peguei o aparelho antes dele.
Não era TH.
Era Renan.
Meu sorriso desapareceu.
Renan: A gente precisa conversar hoje.
Suspirei.
— Quem foi? — Lucas perguntou.
— Ninguém.
Dessa vez era verdade.
Ou pelo menos eu queria que Renan se tornasse ninguém.
No hospital, eu estava terminando de organizar algumas coisas quando Júlia apareceu.
— Café?
— Quero.
Ela me entregou o copo.
— Você tá com cara de quem dormiu pouco.
— Meu irmão decidiu infernizar minha vida às seis da manhã.
— Irmão serve pra isso.
Meu celular vibrou.
Renan de novo.
Renan: Que horas você sai?
Não respondi.
Júlia viu minha expressão.
— Ele?
— Renan.
— Ainda?
— Ainda.
— Bloqueia.
— Eu vou.
— Você fala isso faz semanas.
— Porque ele some, depois volta.
— Justamente.
Guardei o celular.
— Hoje ele quer conversar.
— Você quer?
— Não.
— Então pronto.
Parecia simples quando ela falava.
E deveria ser.
Eu já tinha deixado claro várias vezes que não queria nada com Renan.
O problema era que ele parecia interpretar rejeição como convite para insistir.
— Ele falou alguma coisa depois daquela história de “cuidado com quem você anda”?
— Não.
— Estranho.
— Muito.
— Você acha que tem alguma coisa a ver com…
Ela parou.
— Com o quê?
— Nada.
— Júlia.
— Com aquele seu conhecido.
— Que conhecido?
Ela me olhou.
— O que manda comida, arruma segurança e faz você sorrir pro celular.
— Eu não sorrio.
— Nanda.
— Tá. Às vezes.
— Quem é ele?
— Complicado.
— Casado?
— Não!
Ela riu.
— Você sempre responde isso rápido.
— Porque você sempre pergunta.
— Então me conta.
— Não posso.
O sorriso dela diminuiu.
— Não pode ou não quer?
Pensei.
— Um pouco dos dois.
Ela ficou séria.
— Você tá segura?
A pergunta me atingiu.
— Tô.
— Certeza?
— Sim.
Pela primeira vez, percebi que acreditava nisso.
Eu estava assustada com tudo que vinha acontecendo.
Mas não tinha medo de TH.
Podia ficar furiosa com ele.
Podia querer estrangular aquele homem três vezes por dia.
Mas medo dele?
Não.
— Então quando quiser falar, eu tô aqui.
Sorri.
— Eu sei.
Meu celular vibrou outra vez.
Renan: Vou te esperar na saída.
Fechei os olhos.
— Pronto.
— O quê?
Mostrei.
Júlia fez uma careta.
— Isso já tá ficando chato.
— Eu vou resolver.
— Quer que eu saia com você?
— Não precisa.
— Nanda…
— Júlia, sério. Eu vou falar uma última vez.
Ela não gostou.
Eu também não.
Mas precisava acabar com aquilo.
Quando meu plantão terminou, Davi já estava no ponto combinado.
— Boa noite.
— Boa noite.
— Tudo tranquilo?
— Quase.
Ele percebeu.
— O que aconteceu?
— Nada que você precise resolver.
A expressão dele mudou.
— Essa frase normalmente significa que eu vou precisar resolver.
— Não vai.
Começamos a andar.
— Davi.
— Oi.
— Você conta tudo pro TH?
Ele demorou demais para responder.
— Depende.
— Péssima resposta.
— Coisa de segurança, sim.
— E coisa da minha vida?
— Não.
— Certeza?
— Certeza.
— Então se eu conversar com alguém, você não vai fazer relatório?
Ele olhou para mim.
— É o Renan?
— Por que todo mundo sabe desse homem?
— Porque ele já foi citado.
— Citado por quem?
Davi ficou quieto.
— TH.
— Eu não falei nada.
— Não precisava.
— Davi.
— Nanda, ele perguntou uma vez se Renan tinha aparecido.
Meu sangue começou a esquentar.
— Quando?
— Uns dias atrás.
— E o que você respondeu?
— Que não.
— Mais alguma coisa?
— Não.
— Ótimo.
Apontei para ele.
— Hoje você não fala nada.
— Se ele aparecer…
— Ele só quer conversar.
— Se ele aparecer, eu preciso avisar.
— Não precisa.
— Preciso.
— Davi.
— Foi mal.
Suspirei.
— Vocês são impossíveis.
— Meu salário depende disso.
— Pelo menos é sincero.
Chegamos perto da saída.
E Renan estava lá.
Encostado em um carro.
Meu corpo ficou tenso.
Davi também percebeu.
— É ele?
— É.
— Quer que eu…
— Não.
Olhei para Davi.
— Fica aqui.
— Fernanda…
— Eu vou conversar com ele ali. Você consegue me ver.
Ele não gostou.
— Cinco minutos.
— Dez.
— Cinco.
— Oito.
Olhei indignada.
— Você tá negociando comigo?
— Aprendi com meu chefe.
Quase ri.
— Cinco.
Fui.
Renan me viu e se afastou do carro.
— Finalmente.
— Fala.
— Boa noite primeiro.
— Renan, eu trabalhei o dia inteiro. Você mandou mensagem dizendo que precisava conversar. Então conversa.
Ele olhou por cima do meu ombro.
Viu Davi.
— Quem é?
— Não interessa.
— Seu namorado?
— Não.
— Então por que tá te seguindo?
— Isso não é da sua conta.
A expressão dele mudou.
— É gente do TH?
Meu coração acelerou.
— Por que você perguntou isso?
— Todo mundo sabe.
— Sabe o quê?
— Que você tá andando protegida.
— Eu não tô “andando protegida”.
Ele riu sem humor.
— Tá bom.
— O que você queria falar?
Renan olhou ao redor.
— Você devia se afastar dele.
— De quem?
— Você sabe.
— Não. Fala.
— TH.
Cruzei os braços.
— Por quê?
— Porque você não sabe onde tá se metendo.
— E você sabe?
— Sei o suficiente.
— Então explica.
Ele ficou quieto.
— Foi exatamente o que imaginei.
Virei.
Renan segurou meu braço.
— Espera.
Parei.
Olhei para a mão.
— Solta.
— Nanda, escuta.
— Solta meu braço.
Ele soltou.
— Você tá diferente.
— Não. Eu só cansei de repetir.
— Eu tô preocupado com você.
— Então respeita quando eu digo que não quero nada.
— Não é sobre nós.
— Nunca existiu “nós”.
Ele passou a mão no cabelo.
— Caralho, Fernanda. Você não percebe?
— O quê?
— Desde que aquele cara apareceu, todo mundo olha pra você diferente.
— E você tá ajudando muito fazendo exatamente isso.
— Eu tô tentando te avisar.
— Avisar do quê?
Ele olhou novamente para Davi.
— Você não sabe metade das coisas.
— Então conta a metade que você sabe.
Silêncio.
— Renan.
Nada.
— Foi o que pensei.
Comecei a sair.
— Ele vai acabar trazendo problema pra sua família.
Parei.
Aquilo bateu diferente.
Virei.
— Não fala da minha família.
— Eu só…
— Não fala da minha mãe nem do meu irmão.
— Tô tentando ajudar.
— Então fala claramente ou me deixa em paz.
Renan ficou me encarando.
— Só toma cuidado.
Soltei uma risada amarga.
— Você adora essa frase.
— Porque você precisa.
— Boa noite.
Fui até Davi.
— Vamos.
Ele me acompanhou.
— Tá tudo bem?
— Tá.
— Ele segurou seu braço.
Parei.
— Você viu?
— Vi.
— Ele soltou.
— Eu sei.
— Então acabou.
Davi pegou o celular.
— Não.
Meu estômago afundou.
— Davi.
— Tenho que avisar.
— Ele não fez nada.
— Ele segurou você depois de você pedir pra não encostar.
— Eu resolvi.
— Eu sei.
— Então não liga.
— Nanda…
— Por favor.
Ele me olhou.
E guardou o celular.
Soltei o ar.
— Obrigada.
Só que eu deveria conhecer melhor os homens que trabalhavam para TH.
Davi não ligou.
Mandou mensagem.
Cheguei em casa.
Tomei banho.
Jantei com minha mãe e Lucas.
Tentei esquecer Renan.
Não consegui.
Ele vai acabar trazendo problema pra sua família.
Aquilo parecia aviso.
Mas aviso de quê?
Depois eu falaria com TH.
Ele tinha prometido contar o que sabia.
Eu também precisava contar sobre Renan.
Não porque precisava da autorização dele.
Mas porque, pela primeira vez, comecei a pensar que talvez as coisas estivessem se cruzando.
Peguei o celular.
Antes que mandasse qualquer mensagem, alguém bateu na porta.
Olhei para Lucas.
— Você pediu alguma coisa?
— Não.
Minha mãe apareceu no corredor.
— Quem é?
Meu celular vibrou.
TH.
TH: Não precisa abrir. Sou eu.
Fechei os olhos.
— Filho da mãe.
Lucas levantou.
— É ele?
— Senta.
— É o TH?
— Lucas!
Minha mãe cruzou os braços.
— Fernanda.
— Eu vou resolver.
Fui até a porta.
Abri apenas o suficiente para sair e fechei atrás de mim.
TH estava ali.
Sozinho.
Camiseta preta.
Expressão fechada.
— Você ficou maluco?
— Boa noite.
— O que você tá fazendo aqui?
— Vim conversar.
— Eu ia falar com você.
— Quando?
— Agora.
— Ótimo.
Ele olhou para meu braço.
— Onde ele pegou?
Meu sangue ferveu.
— Davi.
— Davi fez o trabalho dele.
— Eu pedi pra ele não falar.
— Ele trabalha pra mim.
— Exatamente por isso que eu não queria essa merda!
TH respirou fundo.
— Renan segurou você.
— E soltou.
— Porque você mandou.
— Sim.
— Já é a segunda vez.
Parei.
— Como sabe da primeira?
Ele ficou quieto.
— Claro.
Balancei a cabeça.
— O seu homem viu.
— Fernanda…
— O que você fez?
A pergunta saiu baixa.
TH não respondeu.
Meu estômago apertou.
— Thiago.
— Eu mandei conversarem com ele.
Fiquei imóvel.
— Você fez o quê?
— Só conversar.
— Quando?
— Depois que Davi avisou.
— Hoje?
— Sim.
— Você mandou alguém atrás dele?
— Mandei deixar claro que ele não encosta mais em você.
Ri.
Não porque tinha graça.
Porque eu estava incrédula.
— Eu não acredito.
— Não aconteceu nada com ele.
— Não é esse o ponto!
— Então qual é?
— Eu resolvi!
Minha voz aumentou.
— Eu mandei ele me soltar e ele soltou. Eu falei o que precisava falar. Eu fui embora.
— E ele vai continuar.
— Se continuar, eu decido o que fazer!
— Até quando?
— Até quando o quê?
— Até ele passar do limite de verdade?
— Ele já passou e eu coloquei limite!
— Fernanda…
— Não!
Apontei para ele.
— Você não tinha direito.
— Eu não mandei bater nele.
— Que ótimo! Quer parabéns?
O maxilar dele travou.
— Eu mandei conversar.
— Você sabe que uma “conversa” mandada por você não é uma conversa normal.
Ele ficou quieto.
— Sabe ou não sabe?
— Sei.
— Então não finge.
TH respirou fundo.
— Ele precisava entender.
— Quem precisava fazer ele entender era eu.
— Ele não tá te ouvindo.
— E isso te transforma em quê? Meu dono?
A expressão dele mudou imediatamente.
— Não fala isso.
— Por quê? É assim que você tá agindo.
— Eu nunca disse que era dono de você.
— Não precisa dizer! Toda vez que alguma coisa acontece, você aparece e resolve do seu jeito.
— Porque você tá em perigo!
— Renan não é o homem que me seguiu!
— Ainda não sabemos qual é a ligação dele com isso.
Parei.
— Ligação?
TH fechou os olhos por um segundo.
— O que você sabe sobre Renan?
— Ainda pouca coisa.
— Então fala.
— Ele anda com alguém que pode ter contato com gente ligada ao que aconteceu comigo.
Meu estômago afundou.
— E você não me contou.
— Não temos prova contra ele.
— Mas mandou ameaçar o homem mesmo sem prova?
— Não mandei ameaçar!
— Para de brincar com palavra!
Ele ficou em silêncio.
— Você mandou homens ligados a você falarem com um cara que você sabe que insiste comigo. O que acha que ele entendeu?
TH passou a mão pelo rosto.
— Que não deve encostar em você.
— Exatamente.
— E qual é o problema nisso?
— Que eu não sou sua!
O silêncio caiu.
Pesado.
TH me encarou.
— Eu sei.
— Não parece.
— Eu sei que você não é minha.
— Então para de agir como se fosse.
Ele se aproximou um passo.
Não recuei.
— Eu não faço isso porque acho que você é minha.
— Então por quê?
— Porque ele colocou a mão em você.
— Isso não responde.
— Responde pra mim.
— Mas minha vida não funciona pelas suas regras!
— Eu sei!
— Não sabe!
Minha mãe poderia ouvir.
A rua poderia ouvir.
Eu não ligava.
— Você chega, decide, manda, interfere e depois fala que é proteção!
— Porque é!
— Proteção sem limite vira controle!
TH ficou em silêncio.
A frase pareceu bater nele.
Continuei:
— Eu agradeço tudo que você fez.
Minha voz diminuiu.
— Agradeço por ter voltado naquela noite. Agradeço por me contar sobre o homem. Agradeço por colocar Davi quando eu aceitei. Agradeço por se preocupar comigo.
Ele me observava.
— Mas gratidão não é obediência.
TH não respondeu.
— Eu não vou passar a fazer o que você quer só porque você tá tentando me proteger.
— Nunca pedi isso.
— Pede o tempo inteiro sem perceber.
A mandíbula dele ficou tensa.
— Você manda no morro, TH.
Respirei fundo.
— Em mim, não.
Ele fechou os olhos.
Quando abriu, estava mais calmo.
— Eu lembro.
— Então começa a agir como se lembrasse.
Ficamos alguns segundos nos encarando.
— E se Renan aparecer de novo? — ele perguntou.
— Eu resolvo.
— E se ele encostar em você?
— Eu resolvo.
— E se você não conseguir?
— Eu peço ajuda.
— Pra quem?
— Pra quem eu quiser.
Ele não gostou.
Vi na hora.
— Inclusive você — completei.
A expressão mudou.
— Mas eu escolho.
Silêncio.
— Entendeu?
TH respirou fundo.
— Entendi.
— De verdade?
— Não significa que eu goste.
— Você não precisa gostar.
— Isso eu já percebi.
Quase sorri.
Mas ainda estava brava.
— E mais uma coisa.
— Fala.
— Não manda ninguém falar com Renan de novo.
— Se ele não fizer nada…
— TH.
Ele fechou a boca.
— Não manda.
— Tá.
— Promete.
Ele hesitou.
— Se não existir risco imediato pra você, eu não interfiro sem falar com você antes.
Estreitei os olhos.
— Você sempre coloca cláusula.
— Porque o mundo não é simples.
— E você é insuportável.
— Também.
Suspirei.
— Tá.
Ele olhou para a porta da minha casa.
— Sua mãe tá ouvindo?
— Provavelmente.
— Ótimo.
— Tá com medo dela?
— Tenho respeito.
— Medo.
— Respeito.
Sorri sem querer.
— Covarde.
O canto da boca dele subiu.
— Você acabou de gritar comigo no meio da rua e eu ainda tô aqui.
— Porque gosta de problema.
O olhar dele ficou diferente.
— Talvez.
Meu sorriso sumiu.
Droga.
TH sabia fazer isso.
Uma frase.
Um olhar.
E, de repente, eu esquecia por dois segundos que estava furiosa.
— Não faz isso.
— O quê?
— Esse olhar.
— Que olhar?
— Você sabe.
Ele deu meio passo para perto.
— Não sei.
— Sabe, sim.
— Explica.
Meu coração acelerou.
— Boa noite, TH.
Virei.
— Fernanda.
Parei.
— O quê?
— O que Renan falou pra você?
Voltei a encará-lo.
Pensei em esconder.
Depois lembrei que eu tinha cobrado honestidade dele.
Então precisava oferecer a mesma coisa.
— Falou que eu devia me afastar de você.
TH ficou sério.
— Mais?
— Disse que eu não sabia onde tava me metendo.
— Mais?
— Que você podia trazer problema pra minha família.
O rosto dele mudou completamente.
— Ele falou da sua família?
— Falou.
— Exatamente como?
— Que você acabaria trazendo problema pra eles.
TH ficou imóvel.
— Isso foi antes ou depois de ele ver Davi?
— Depois.
— Ele sabia quem Davi era?
— Perguntou se era gente sua.
— E você respondeu?
— Não.
TH olhou para o chão por um instante.
— O quê?
— Nada.
— Não faz isso.
— Isso o quê?
— A cara de quem juntou uma coisa com outra e não quer me contar.
Ele voltou a olhar para mim.
— Não tô escondendo.
— Então fala.
— Renan sabe mais do que deveria sobre você estar sendo protegida.
— Todo mundo parece saber.
— Talvez.
— TH.
— Eu vou verificar.
— Nós vamos conversar quando você verificar.
Ele assentiu.
— Nós vamos conversar.
— Sem mandar ninguém atrás dele.
— Sem mandar ninguém atrás dele.
— Obrigada.
Entrei.
Antes de fechar a porta, ouvi:
— Nanda.
Olhei.
— O quê?
— Eu errei.
Parei.
Aquelas três palavras pareciam custar dinheiro para ele.
— Em quê?
— Em mandar falar com Renan sem te contar.
Meu peito amoleceu um pouco.
— Obrigada por admitir.
— Mas continuo achando ele um filho da puta.
Revirei os olhos.
— Boa noite, Thiago.
O sorriso apareceu.
— Boa noite, Fernanda.
Fechei a porta.
E encontrei minha mãe e Lucas parados no corredor.
Os dois.
Me olhando.
— O quê? — perguntei.
Lucas cruzou os braços.
— “Você manda no morro, em mim não.”
Fechei os olhos.
— Você ouviu.
— O bairro ouviu.
— Lucas.
Ele abriu um sorriso.
— Só tenho uma pergunta.
— Não quero saber.
— Vocês tão namorando ou brigando antes de começar a namorar?
— Vai pro seu quarto.
— Então é a segunda opção.
— Lucas!
Ele saiu correndo e rindo.
Minha mãe não.
Márcia continuou parada.
Séria.
— Fernanda.
— Mãe…
— Esse homem tá se envolvendo demais na sua vida.
Meu sorriso desapareceu.
— Eu sei.
— E você?
Parei.
— Eu o quê?
— Tá se envolvendo demais na dele?
Não soube responder.
E o silêncio foi resposta suficiente para minha mãe ficar ainda mais preocupada.
Visão do TH
— Você fez o quê?
ND me encarava como se eu tivesse acabado de confessar uma burrice histórica.
— Mandei conversarem com Renan.
— Depois que ela disse pra não interferir?
— Foi antes de eu falar com ela.
— Isso melhora onde?
— Nathan.
Ele passou as duas mãos pelo rosto.
— Você tem algum problema sério.
— Eu sei.
ND parou.
— Pera.
— O quê?
— Você admitiu?
— Não começa.
— Fernanda tá fazendo milagre.
Ignorei.
CK estava do outro lado da mesa.
— E o que Renan falou pra ela?
Repeti.
A expressão de CK ficou séria.
— Isso é interessante.
— Também achei.
ND parou de brincar.
— “Vai trazer problema pra sua família”?
— Exatamente.
— Pode ser só ciúme.
— Pode.
— Ou aviso — CK completou.
Assenti.
— É isso que quero descobrir.
CK pegou o celular.
— Vou aprofundar a ligação dele com Vini.
— Sem chegar perto do Renan.
ND me olhou.
— Ela mandou?
— Eu prometi.
O sorriso dele apareceu.
— Olha só.
— Não começa.
— Tô orgulhoso.
— Vai se foder.
CK riu.
— E outra coisa — falei. — Quero saber como ele soube tão rápido que Davi era meu.
— Pode ter reconhecido — ND respondeu.
— Pode.
— Ou alguém falou.
— Exatamente.
Silêncio.
Mais uma possibilidade.
Mais uma peça.
O telefone de CK vibrou.
Ele olhou.
— Falando nisso…
— O quê?
— Vini apareceu de novo.
— Onde?
CK me mostrou.
— Perto de um dos homens que recebeu uma das informações falsas.
Meu corpo ficou alerta.
— Qual informação?
Ele falou.
Olhei para ND.
— Então o teste começou a funcionar.
— Talvez.
— Não faz nada ainda.
— Não vou.
— Quero saber se a informação chega mais longe.
CK assentiu.
— Certo.
Meu celular vibrou.
Olhei.
Fernanda.
Fernanda: E não esquece: minha vida, minhas regras.
Sorri de canto.
Respondi:
Eu: Você gosta de ter a última palavra?
Ela visualizou.
Fernanda: Sim.
Eu: Percebi.
Outra mensagem.
Fernanda: E você precisa aprender.
Pensei antes de responder.
Eu: Tô aprendendo.
Demorou alguns segundos.
Fernanda: Devagar.
Eu: Você é uma professora difícil.
Fernanda: E você é um aluno péssimo.
Ri.
ND me olhou.
— Ela?
— Cuida da sua vida.
— Já sei que é.
Guardei o celular.
Mas a frase continuou na minha cabeça.
Minha vida, minhas regras.
Fernanda estava certa.
Eu podia protegê-la.
Podia estar disponível.
Podia colocar meu corpo na frente se fosse necessário.
Mas não podia transformar preocupação em posse.
Eu sabia disso.
O problema era fazer meu instinto entender.
Porque toda vez que imaginava alguém encostando nela, ameaçando a família dela ou colocando medo naquele olhar que normalmente enfrentava o meu sem hesitar, alguma coisa dentro de mim queria resolver do único jeito que eu tinha aprendido durante anos:
Assumindo o controle.
Fernanda não aceitava isso.
E talvez fosse exatamente por isso que eu não conseguia parar de pensar nela.
Todo mundo ao meu redor sabia quem eu era.
Sabia o peso do meu nome.
Muita gente obedecia antes mesmo que eu terminasse uma frase.
Fernanda não.
Ela olhava nos meus olhos e dizia não.
Me enfrentava.
Me obrigava a explicar.
E, pior ainda, às vezes me fazia perceber que eu estava errado.
ND tinha razão.
Eu estava procurando desculpas para saber dela.
Só que agora começava a entender que o problema era maior.
Eu não queria que Fernanda fosse minha porque alguém decidiu que a mulher protegida pelo TH pertencia a ele.
Se algum dia ela ficasse ao meu lado, teria que ser por uma única razão:
Porque ela escolheu.
E, conhecendo Fernanda, essa seria a única maneira possível
Uma Nova HistóriaNarrado por TJNunca pensei que assumir o lugar do meu pai seria tão diferente de tudo que imaginei.Durante anos, ouvi que um dia aquela responsabilidade seria minha. Cresci observando TH, acompanhando suas decisões e tentando entender como ele conseguia manter tanta coisa nas mãos sem demonstrar o peso que carregava.Quando era mais novo, achava que bastava chegar aos dezoito anos para provar que estava pronto.Hoje sei que estava errado.Um título não transforma ninguém em alguém preparado. O que faz diferença são as escolhas, a capacidade de ouvir e, principalmente, a coragem de reconhecer quando estamos errados.E eu já tinha aprendido isso da maneira mais difícil.Estava sentado à mesa quando João Pedro entrou sem bater.— Bom dia, chefe.Levantei os olhos.— Começou?Ele abriu um sorriso.— Estou treinando. Preciso me acostumar.— Se continuar me chamando assim, vou mandar você embora.— Não pode. Sou seu melhor amigo e braço direito. Tem contrato vitalício.R
A Despedida do ComandoNarrado por FernandaEu sabia que aquele dia chegaria, mas isso não significava que estava preparada para vivê-lo.Durante muitos anos, minha vida esteve ligada às decisões de TH. Conheci o homem por trás das responsabilidades, acompanhei suas noites difíceis e aprendi a reconhecer sua preocupação mesmo quando ele tentava escondê-la.Agora, depois de tanto tempo, ele finalmente estava pronto para deixar aquela etapa para trás.E nosso filho estava prestes a começar uma nova fase.Naquela manhã, acordei antes de TH. Fiquei alguns minutos observando seu rosto enquanto ele dormia. Havia uma tranquilidade diferente nele, mas também percebi a tensão que tentava disfarçar.Quando abriu os olhos, sorriu.— Está me olhando por quê?— Tentando descobrir se você está nervoso.Ele soltou uma risada baixa.— Um pouco.Passei a mão pelo rosto dele.— Você passou anos esperando por esse momento.— Esperei. Só não imaginava que seria tão estranho quando chegasse.Beijei sua te
O Nome Que Vou ConstruirNarrado por TJDurante muito tempo, achei que precisava provar alguma coisa para todo mundo.Ser filho de TH significava carregar um sobrenome que chegava aos lugares antes de mim. Algumas pessoas me respeitavam sem me conhecer. Outras duvidavam da minha capacidade antes mesmo de me ouvirem.Eu queria ser reconhecido pelo que era, não apenas por quem era meu pai.Mas, depois de tudo que aconteceu, comecei a entender que estava tentando provar isso da maneira errada.Meu pai tinha razão em algumas coisas. Eu precisava aprender a ouvir, controlar meu temperamento e pensar nas consequências antes de agir.O erro que cometi ainda me incomodava. Não porque alguém tinha me chamado de despreparado, mas porque eu sabia que poderia ter evitado aquele problema.E não queria repetir aquilo.Encontrei João na varanda, como quase sempre acontecia quando precisávamos conversar sem que alguém interrompesse.— Está ocupado? — perguntei.Ele levantou os olhos do celular.— Dep
O Último ConselhoNarrado por NDConheci TH antes de muita coisa mudar em nossas vidas.Vi aquele homem enfrentar momentos que teriam feito muita gente desistir. Estive ao lado dele em dias bons e ruins, acompanhei suas decisões, seus erros e as consequências que vieram depois.Durante anos, fomos mais do que parceiros. Construímos uma amizade que resistiu ao tempo, às dificuldades e até às diferenças que surgiram pelo caminho.Mas agora tudo estava mudando.TH havia decidido se afastar definitivamente, e TJ começava a ocupar um espaço que, durante muito tempo, pertenceu ao pai.Às vezes, eu olhava para aquele garoto e ainda enxergava o menino que corria pela casa com Sofia. Agora, os dois estavam adultos o suficiente para tomar decisões próprias, mesmo que ainda tivessem muito a aprender.E eu também precisava aprender a deixá-los crescer.Encontrei João Pedro na varanda, mexendo no celular.— Posso conversar com você?Ele guardou o aparelho.— Claro, ND.Sentei-me ao lado dele.— Vo
A Decisão de THNarrado por THEu passei muitos anos acreditando que precisava estar no controle de tudo.Aprendi a tomar decisões difíceis, a carregar responsabilidades e a esconder minhas preocupações para que ninguém percebesse quando alguma coisa estava me atingindo. Mas, com o passar do tempo, comecei a entender que não poderia viver daquela maneira para sempre.TJ estava crescendo. Cometeu erros, enfrentou as consequências e começou a perceber que responsabilidade não era apenas ter voz nas decisões.E eu precisava cumprir minha parte.Naquela manhã, encontrei Fernanda no quarto, organizando algumas coisas.— Preciso conversar com você — falei.Ela levantou os olhos.— Aconteceu alguma coisa?— Tomei uma decisão.Fernanda deixou o que estava fazendo de lado.— Sobre seu afastamento?Assenti.— Vou iniciar a etapa final. Não quero mais prolongar isso.Ela se aproximou.— Tem certeza?— Tenho. Quero organizar os próximos passos e deixar claro para todos que, quando a transição est
Mais Que Uma AmizadeNarrado por SofiaEu sempre achei TJ irritante.Desde pequenos, ele tinha aquela mania de querer ter resposta para tudo. Se eu dizia alguma coisa, ele encontrava um jeito de discordar. Se eu ficava quieta, perguntava o que tinha acontecido. E, quando queria me provocar, fazia isso com uma tranquilidade que dava vontade de jogar alguma coisa nele.Só que, nos últimos tempos, comecei a perceber que havia algo diferente.Talvez fosse o jeito como ele tentava esconder as preocupações. Ou a maneira como olhava para o pai quando achava que ninguém estava prestando atenção. Talvez fosse porque, pela primeira vez, eu estava vendo o garoto que conheci crescer diante dos meus olhos.E isso estava me confundindo.Depois do problema que ele causou, fiquei decepcionada. Não porque esperava que TJ fosse perfeito, mas porque sabia que ele tinha capacidade de agir melhor. Ele parecia tão preocupado em provar que estava pronto que esqueceu de ouvir as pessoas que queriam ajudá-lo.







