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ND Percebe Primeiro

Autor: Amanda Nunes
last update Data de publicação: 2026-10-28 02:09:02

Capítulo 13 — ND Percebe Primeiro

Visão do TH

— Ela chegou?

ND levantou os olhos do celular.

— Quem?

— Davi já voltou?

— Você perguntou se ela chegou.

— Se Davi voltou, significa que ela chegou.

— Não necessariamente.

Olhei para ele.

— Nathan.

Um sorriso lento apareceu no rosto daquele filho da puta.

— Fernanda chegou em segurança. Davi mandou mensagem faz uns vinte minutos.

Assenti.

— Beleza.

Voltei a olhar para os papéis na mesa.

Silêncio.

Dois segundos.

Três.

Cinco.

— Que foi? — perguntei.

— Nada.

— Então para de me olhar.

— Não tô olhando.

Levantei os olhos.

Ele estava olhando.

— Tá, sim.

— Só tô observando.

— Observando o quê?

ND abriu um sorriso.

— Um fenômeno muito interessante.

— Vai começar?

— Ainda nem comecei.

Ignorei.

Tínhamos coisa mais importante para resolver.

CK estava cruzando informações sobre o homem que seguiu Fernanda, tentando descobrir a identidade dele. Ao mesmo tempo, precisávamos encontrar a pessoa que tinha passado minha rota na noite do ataque.

A imagem mostrava aquele homem encontrando alguém.

Mas não mostrava quem.

E aquilo estava me deixando puto.

Peguei uma folha.

— Samuca recebeu qual informação?

ND respondeu.

— Horário diferente.

— CK?

— Outra rota.

— E os outros dois?

Ele explicou.

Assenti.

O teste estava montado.

Agora precisávamos esperar para ver se alguma informação vazava.

Eu odiava esperar.

— E Davi? — perguntei.

ND fechou os olhos.

— Meu Deus.

— Que foi agora?

— Nada.

— Então responde.

— O que você quer saber sobre Davi?

— Se aconteceu alguma coisa.

— Com quem?

— Com a Fernanda.

O sorriso voltou.

— Ah.

— “Ah” o quê?

— Nada.

— Nathan.

— Não aconteceu nada.

— Renan apareceu?

— Não.

— Alguém ficou olhando?

— Não.

— Algum carro estranho?

— Não.

— Ela saiu do hospital sozinha?

— Davi tava esperando.

— E…

ND levantou a mão.

— Posso fazer uma pergunta?

— Não.

— Vou fazer mesmo assim.

Soltei o ar.

— Fala.

Ele se inclinou para frente.

— Você quer um relatório de segurança ou quer saber como foi o dia da Fernanda?

— Relatório de segurança.

— Certo.

Ele pegou o celular.

— Então: saiu do hospital, comprou um açaí, reclamou do preço, ficou uns dez minutos conversando com Júlia, parou numa farmácia, depois foi…

— Por que ela foi na farmácia?

ND parou.

A boca dele começou a abrir num sorriso.

Merda.

— Segurança — respondi antes que falasse. — Vai que aconteceu alguma coisa.

— Comprou shampoo.

— Davi entrou com ela?

— Não.

— Então como sabe?

— Ela falou quando saiu.

— Certo.

— Quer saber a marca?

— Vai tomar no cu.

ND começou a gargalhar.

— Eu sabia!

— Sabia o quê?

— Você tá interessado.

— Na segurança dela.

— Na marca do shampoo?

— Eu não perguntei marca nenhuma.

— Quase.

Joguei a caneta na mesa.

— A mulher foi seguida por um cara ligado ao atentado. É óbvio que eu vou perguntar.

— Claro.

— Para de falar “claro” desse jeito.

— Que jeito?

— Como se eu fosse idiota.

— Não acho você idiota.

Ele pensou.

— Nesse assunto talvez um pouco.

— Qual assunto?

— Fernanda.

— Não existe assunto Fernanda.

ND começou a rir de novo.

— Beleza.

— Beleza.

— Sem assunto.

— Exatamente.

— Só não esquece de perguntar amanhã se ela tomou café.

Olhei para ele.

— Ela pula café quando tá atrasada.

Silêncio.

ND ficou me encarando.

Percebi tarde demais.

— Caralho.

Ele bateu as duas mãos na mesa.

— Eu sabia!

— Ela me contou naquela noite!

— Você lembra até se a mulher toma café!

— Eu tava quase morrendo. Meu cérebro gravou coisa aleatória.

— Muito específico.

— Nathan.

— Tá bom.

Ele levantou.

— Vou deixar você e seu “relatório de segurança” em paz.

— Ótimo.

Chegou até a porta.

— Ah, TH.

— O quê?

— Amanhã ela entra às sete.

Franzi a testa.

— Eu sei.

ND explodiu numa gargalhada.

Peguei outra caneta.

Ele saiu correndo antes que eu jogasse.

— Filho da puta!

A risada continuou do corredor.

Balancei a cabeça.

Não tinha nada acontecendo.

Fernanda tinha entrado numa situação perigosa por minha causa.

Eu estava acompanhando.

Só isso.

O fato de eu saber que ela trabalhava às sete não significava nada.

O fato de eu lembrar que ela queria fazer faculdade também não.

Nem o fato de ter percebido que ela prendia o cabelo quando estava irritada.

Ou que mordia o canto da boca quando estava pensando.

Ou que me chamava de Thiago quase sempre que queria brigar sério comigo.

Parei.

— Porra.

Talvez ND estivesse me deixando maluco.

Visão da Fernanda

— Ele perguntou de você.

Continuei arrumando as coisas.

— Quem?

Davi ficou quieto.

Olhei para ele.

— Não.

Ele riu.

— Eu nem falei.

— Não precisa.

— TH.

— Eu sabia.

Estávamos perto do hospital. Meu plantão tinha acabado e eu esperava o carro que tinha chamado.

Depois da confusão dos últimos dias, TH e eu tínhamos chegado a um acordo: Davi me acompanhava apenas nos horários mais complicados e eu tentaria evitar andar sozinha à noite.

Eu não estava feliz.

Mas estava aceitando.

Por enquanto.

— O que ele perguntou?

— Se tava tudo bem.

— Só?

Davi sorriu.

— Só.

— Você tá com uma cara estranha.

— Que cara?

— De quem sabe alguma coisa.

— Não sei de nada.

— Vocês são todos péssimos mentirosos.

— Eu nem menti.

— E por que falou que ele perguntou?

— Porque achei engraçado.

— O quê?

— Nada.

— Davi.

Ele começou a rir.

— Vocês têm alguma coisa combinada pra me irritar?

— Não.

— Parece.

O carro chegou.

Abri a porta.

— Boa noite.

— Boa noite, Nanda.

— E fala pro TH parar de perguntar de mim.

— Quer que eu fale exatamente assim?

Parei.

— Não.

O sorriso dele aumentou.

— Imaginei.

Entrei.

Fechei a porta.

Idiota.

No caminho, abri o W******p.

Nenhuma mensagem de TH.

Ótimo.

Era isso que eu queria.

Não era?

Fiquei olhando para o contato.

TH — PROBLEMA.

Ainda estava salvo daquele jeito.

Pensei em mudar.

Não mudei.

Abri a conversa.

A última mensagem era do dia anterior.

TH: Chegou?

Eu: Sim.

TH: Comeu?

Eu: Você virou minha mãe?

TH: Responde.

Eu: Sim, Thiago.

TH: Gosto quando você me chama assim.

Eu não tinha respondido.

E não responderia.

Aquela conversa tinha acabado.

Fechei.

Cinco segundos depois, meu celular vibrou.

Quase ri.

TH.

TH: Chegou em casa?

Olhei pela janela.

Eu ainda estava no carro.

Eu: Você colocou rastreador em mim?

Ele visualizou.

TH: Ainda não.

Meus olhos arregalaram.

Eu: AINDA?

TH: Brincadeira.

Eu: Não tem graça.

TH: Tem um pouco.

Eu: Davi falou que você perguntou de mim.

Demorou mais dessa vez.

TH: Davi fala demais.

Sorri.

Eu: Perguntou por quê?

Os três pontinhos apareceram.

Sumiram.

Apareceram novamente.

TH: Segurança.

Revirei os olhos.

Eu: Claro.

TH: Que foi?

Eu: Nada.

TH: Você fala “nada” quando quer dizer alguma coisa.

Parei.

Como ele sabia?

Eu: Você acha que me conhece demais.

TH: Tô começando.

Meu sorriso desapareceu lentamente.

Li de novo.

Tô começando.

Meu estômago fez aquela coisa irritante.

Bloqueei o celular.

Não.

Aquilo precisava parar.

Ele era TH.

Eu era Fernanda.

Nossas vidas só tinham se cruzado porque ele levou um tiro.

Quando descobrissem quem estava por trás daquilo, cada um voltaria para seu lado.

Era simples.

Então por que a ideia me incomodou um pouco?

Visão do TH

No dia seguinte, acordei cedo.

Cedo demais.

Olhei o celular.

Seis e vinte.

Fernanda entrava às sete.

Não manda mensagem.

Levantei.

Tomei banho.

Troquei de roupa.

Seis e quarenta.

Peguei o celular.

Nada.

Não manda mensagem.

Fui até a cozinha.

Minha mãe tinha razão.

Minha geladeira era uma vergonha.

Abri.

Água.

Cerveja.

Um pote que eu não lembrava de ter colocado ali.

Fechei.

Peguei café.

Meu celular vibrou.

Olhei rápido demais.

ND.

ND: Reunião 9h.

Idiota.

Guardei.

Dois minutos depois, peguei de novo.

Abri a conversa com Fernanda.

Pensei.

Digitei.

Bom plantão.

Apaguei.

— Ridículo.

Guardei.

O celular vibrou.

Dessa vez era ela.

Fernanda: Davi chegou atrasado dois minutos. Vou descontar do salário dele.

Sorri.

Respondi:

Eu: Você contou?

Fernanda: Sim.

Eu: Preocupada comigo?

Fernanda: Com pontualidade.

Eu: Claro.

Fernanda: E para de usar “claro” desse jeito.

Comecei a rir.

Como ela sabia?

Eu: Que jeito?

Fernanda: O jeito irritante.

Eu: Você me acha irritante e continua mandando mensagem.

Demorou.

Fernanda: Bom dia, TH.

Sorri.

Eu: Bom plantão, Nanda.

Guardei o celular.

— Tá feio.

Quase derrubei a caneca.

Virei.

ND estava parado na porta da cozinha.

— Como você entrou?

— Tenho chave.

— Vou trocar a fechadura.

— Faz isso.

Ele pegou uma caneca.

— Tá feio o quê?

— Você.

— Vai tomar no cu.

— Olha esse sorriso.

— Que sorriso?

— Esse.

Fechei a cara.

— Pronto.

— Tarde demais.

ND serviu café.

— Era ela?

— Não.

— Mentira.

— Você veio aqui às sete da manhã pra cuidar da minha vida?

— Vim porque temos reunião às nove e CK vai passar antes.

— Então fica quieto.

— Impossível.

Ele bebeu.

— Sabe qual é a parte engraçada?

— Não quero saber.

— Você nunca foi assim.

— Assim como?

— Procurando motivo.

— Motivo pra quê?

— Pra falar com uma mulher.

Ri.

— Eu não preciso procurar motivo.

— Exatamente. Esse é o problema.

Franzi a testa.

ND apoiou a caneca na bancada.

— Quando você queria ficar com alguém, você ia e falava. Acabou.

— E?

— Com Fernanda você pergunta se ela comeu. Se chegou. Se trabalhou. Se o segurança atrasou. Se dormiu. Se a mãe tá bem.

— Porque existe uma ameaça.

— E a faculdade?

Fiquei quieto.

— O que a faculdade tem a ver com segurança?

— Nada.

— E a sobrinha ter gostado dela?

— Nada.

— E você ter perguntado ontem pra Camila o que ela achou da Fernanda?

Olhei para ele.

— Como você sabe?

O sorriso dele cresceu.

— Camila me contou.

— Fofoqueiros.

— Você perguntou ou não?

— Perguntei por educação.

ND quase cuspiu o café.

— Educação?

— Vai se foder.

— TH, você tá inventando desculpa pra saber dela.

— Não tô.

— Tá.

— Não.

— Tá.

— Nathan…

— Você quer saber como foi o dia dela.

— Segurança.

— Quer saber se ela comeu.

— Ela trabalha demais.

— Quer saber se chegou.

— Segurança.

— Quer saber o que minha sobrinha achou dela.

— Curiosidade.

— Quer saber se ela tá saindo com alguém.

Parei.

— Eu nunca perguntei isso.

ND levantou uma sobrancelha.

— Perguntou no dia em que descobrimos quem ela era.

Merda.

— Isso fazia parte das informações básicas.

— Namorado é informação básica agora?

— Dependendo.

— Dependendo do quê?

Não respondi.

ND sorriu.

— Pois é.

Peguei minha caneca.

— Acabou a análise?

— Ainda não.

— Então acaba.

Ele ficou sério.

— Você tá gostando dela.

— Não.

A resposta veio rápida.

Rápida demais.

ND percebeu.

— Beleza.

— Não fala “beleza” assim.

— Que jeito?

— Igual ela fala “claro”.

Ele começou a rir.

— Meu irmão…

— Cala a boca.

— Você tá muito fodido.

— Por quê?

— Porque ela também tá começando.

Meu olhar foi para ele.

— Começando o quê?

ND sorriu.

— Ah.

— Nathan.

— Nada.

— Você acabou de falar.

— Esquece.

— Fala.

— Não.

— ND.

— Segurança.

Filho da puta.

Ele estava usando minhas próprias desculpas.

— O que você percebeu?

— Não importa.

— Fala.

— Você tá interessado agora?

— Quero saber por que você falou.

— Claro.

— Para de graça.

ND ficou alguns segundos me observando.

— Ela te olha diferente.

Meu peito ficou estranho.

— Diferente como?

— Aí eu já vou cobrar consulta.

— Nathan.

Ele riu.

— Ela presta atenção em você.

— Fernanda presta atenção em tudo.

— Não daquele jeito.

— Que jeito?

— Você tá perguntando demais pra alguém que não gosta dela.

Fiquei em silêncio.

— Vai tomar no cu.

— Sabia.

Ele saiu da cozinha rindo.

Fiquei sozinho.

Peguei o celular.

Abri a conversa.

Nenhuma mensagem nova.

Fechei.

Abri de novo.

Nada.

— Porra.

Talvez ND estivesse certo em uma coisa.

Eu estava procurando desculpas.

Só não sabia exatamente para quê.

Para saber se ela estava segura?

Sim.

Para ter certeza de que aquele homem não tinha aparecido novamente?

Também.

Mas talvez não fosse só isso.

Porque eu queria saber coisas que não tinham relação nenhuma com perigo.

Queria saber como tinha sido o plantão.

Se ela tinha conseguido almoçar.

Se a mãe ainda estava puta comigo.

Se Lucas continuava pedindo biscoito.

Se ela tinha falado com Júlia sobre mim.

Queria saber por que ela tinha escolhido a área da saúde.

Qual faculdade queria fazer.

O que fazia nos dias de folga.

Qual música ouvia no fone.

Coisas pequenas.

Coisas inúteis.

Coisas que eu não precisava saber.

E talvez esse fosse exatamente o problema.

Visão da Fernanda

Meu plantão terminou quase uma hora depois do previsto.

Eu estava destruída.

Júlia caminhava comigo até a saída.

— Hoje eu quero cama.

— Você quer cama todo dia.

— Hoje eu quero mais.

— Seu segurança tá esperando?

Olhei para ela.

— Fala baixo.

Júlia ainda não sabia tudo.

Eu tinha contado apenas que, depois de um problema na rua, um conhecido tinha arrumado alguém para me acompanhar em alguns horários.

Ela obviamente não acreditou na versão completa.

— Ele é bonito?

— Quem?

— O segurança.

— Júlia.

— Só perguntei.

— Você precisa urgentemente de um namorado.

— Eu tenho entretenimento observando sua vida.

— Coitada.

Chegamos à saída.

Davi estava mais distante.

Acenei discretamente.

Ele respondeu.

— Ali? — Júlia perguntou.

— Sim.

— Bonito.

— Meu Deus.

— Calma. Não vou roubar seu segurança.

— Pode levar.

— Quem paga?

Parei.

— Eu…

Merda.

Eu nunca tinha perguntado isso.

Claro que TH pagava.

— Um conhecido.

— O mesmo da comida?

— Tchau, Júlia.

Ela segurou meu braço.

— É o mesmo!

— Eu não falei isso.

— Nanda!

— Amanhã eu te vejo.

Saí antes do interrogatório.

Davi sorriu quando me aproximei.

— Dia bom?

— Não.

— Quer ir direto?

— Quero.

— TH pediu…

Parei.

— O quê?

Davi percebeu o erro.

— Nada.

— Não. Agora fala.

— Ele perguntou se você tinha saído.

Cruzei os braços.

— De novo?

— É.

— Mais alguma coisa?

— Não.

— Davi.

Ele olhou para o lado.

— Perguntou se você tinha almoçado.

Fechei os olhos.

— Meu Deus.

— Eu falei que não sabia.

— Ótimo.

— Depois perguntou se você parecia cansada.

Abri os olhos.

— Ele tá fazendo pesquisa científica?

Davi riu.

— Não sei.

Peguei meu celular.

— O que você vai fazer?

— Resolver.

Abri a conversa.

Eu: Você tá perguntando pro Davi se eu almocei?

Visualizou rápido.

TH: Ele fala demais.

Eu: Você fala isso de todo mundo.

TH: Porque todo mundo fala demais.

Eu: Por que quer saber se eu almocei?

Demorou.

Sorri.

Peguei ele.

Finalmente respondeu.

TH: Porque você pula refeição quando o plantão aperta.

Meu sorriso diminuiu.

Como ele lembrava disso?

Eu: E daí?

TH: E daí que faz mal.

Eu: Obrigada, mãe.

TH: Comeu ou não?

Revirei os olhos.

Eu: Comi.

TH: O quê?

Comecei a rir.

Davi me olhou.

— Que foi?

— Seu chefe é maluco.

Tirei uma foto da embalagem vazia de um sanduíche que ainda estava na minha bolsa.

Mandei.

Eu: Satisfeito?

TH respondeu:

TH: Isso não é almoço.

Eu: Você tá abusando da sorte.

TH: Amanhã come direito.

Parei.

Digitei:

Você não manda em mim.

Antes que enviasse, outra mensagem chegou.

TH: Por favor.

Fiquei olhando.

Apaguei o que tinha escrito.

Eu: Vou tentar.

A resposta demorou alguns segundos.

TH: Boa menina.

Minha boca abriu.

— Ah, não.

Davi olhou assustado.

— O quê?

Comecei a digitar.

Eu: BOA MENINA É O CARALHO, TH.

Ele respondeu com um emoji rindo.

— Eu vou matar ele.

Davi começou a rir.

— O que ele falou?

— Não interessa.

Guardei o celular.

Mas estava sorrindo.

E eu sabia.

Visão do TH

ND entrou na sala justamente quando eu estava rindo da mensagem de Fernanda.

— Nem fala.

Ele parou.

— Eu não ia falar nada.

— Ia, sim.

— Não.

— Sua cara.

— Eu só vim avisar que CK chegou.

— Manda entrar.

ND abriu a porta.

Antes de sair, olhou para meu celular.

— Ela almoçou?

Levantei o dedo do meio.

Ele saiu gargalhando.

CK entrou logo depois.

O clima mudou.

— Temos novidade.

Guardei o celular.

— Fala.

— Sobre o homem que seguiu a Fernanda.

Minha atenção ficou inteira nele.

— Identificou?

— Ainda não completamente.

— Então?

— Descobri que ele já apareceu em outro lugar.

— Onde?

CK colocou algumas imagens na mesa.

Olhei.

— Isso é perto daqui.

— É.

— Quando?

— Duas semanas antes do ataque.

Meu maxilar travou.

— Então estavam acompanhando minha rotina antes.

— Parece.

ND voltou para a sala.

Agora sério.

— Tem mais?

CK assentiu.

— O homem não estava sozinho.

— O mesmo da outra imagem?

— Não dá pra confirmar.

— Mas?

— Alguém próximo daqui se encontrou com ele mais de uma vez.

Olhei para ND.

— Então o traidor não passou informação uma vez só.

CK balançou a cabeça.

— Pelo que parece, não.

A brincadeira tinha acabado.

Peguei as imagens.

— Quero saber quem é.

— Estamos chegando.

Meu celular vibrou.

Olhei.

Fernanda.

TH, falando sério agora. Descobriram alguma coisa nova?

Fiquei alguns segundos olhando.

Talvez, semanas atrás, eu tivesse respondido que não.

Para proteger.

Para evitar preocupação.

Mas eu tinha prometido fazer diferente.

Digitei:

Sim.

Ela visualizou imediatamente.

Fernanda: É sobre o homem que me seguiu?

Eu: Também.

Fernanda: Me conta.

Olhei para ND.

Ele percebeu.

— Ela?

Assenti.

— Vai esconder?

Balancei a cabeça.

— Não.

Peguei o celular.

Eu: Não quero falar isso por mensagem. Quando sair do trabalho amanhã, a gente conversa.

Ela respondeu:

Fernanda: Sem esconder nada.

Eu: Sem esconder nada.

Guardei o celular.

ND sorriu de canto.

— O quê?

— Nada.

— Fala.

— Você tá aprendendo.

— Vai se foder.

— Devagar, mas tá.

Ignorei.

Só que ele estava certo.

Fernanda tinha entrado na minha cabeça de um jeito que eu ainda não sabia nomear.

E ND tinha percebido antes de mim.

Talvez porque fosse mais fácil enxergar de fora.

Ou talvez porque eu estivesse ocupado demais procurando desculpas para continuar perto dela.

Segurança.

Gratidão.

Dívida.

O homem que a seguiu.

Renan.

O atentado.

Sempre existia uma justificativa.

Mas, pela primeira vez, comecei a considerar uma possibilidade muito mais simples.

Talvez eu quisesse saber de Fernanda porque gostava de saber dela.

Talvez eu quisesse vê-la porque gostava de estar perto.

E talvez o perigo maior não fosse ND perceber primeiro.

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