LOGINPOV — FRIDA
Um ano atrás... Minha mãe, Wanda, chegou em casa exausta, deixando a bolsa escorregar do ombro. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque despojado, e seus olhos castanhos escuros pousaram em mim. Não havia ódio ali. Minha mãe não me odiava… mas eu sabia que era um fardo. Quase todos os dias, ela me dava do próprio sangue para beber. Eu já tinha lido, em um livro de biologia, sobre parasitas. Era assim que eu me sentia. Um parasita. Apesar disso, minha mãe insistia em me chamar de seu anjo. — Vejo que alguém desenhou de novo — disse ela, sorrindo. Entreguei o caderno que estava em minhas mãos. Ela observou o desenho com atenção, enquanto Relâmpago — nosso gatinho dourado e branco — se esfregava manhoso em sua perna, com a cauda felpuda erguida. — Ficou bonito, mãe? — perguntei. Ela segurou minha bochecha com carinho e assentiu. — Ficou lindíssimo, minha querida. Sorri. — Sabe… amanhã é seu aniversário de dezessete anos. Já sabe o que quer? Mordi o lábio inferior. — Eu queria ir ao parque de diversões… aquele que chegou na cidade. À noite, eu costumava me esgueirar para fora e subir na árvore mais alta do quintal vizinho — o terreno abandonado da casa onde um casal de velhinhos havia morado há tempos atrás. Eles tinham sido gentis comigo. Ainda me lembrava do cheiro da torta de maçã que dona Ruth fazia. Uma vez tentei comer um pedaço. Não tinha gosto. Era como mastigar isopor. A verdade era simples e cruel: o sangue era a única coisa realmente palatável para mim. Minha mãe tentava compensar isso preparando carne sempre malpassada; assim, eu ainda conseguia sentir algo. Ela foi para a cozinha e começou a preparar o jantar com paciência: espaguete com almôndegas. O cheiro era delicioso. Meu estômago roncava. Mas minha fome… era outra. Depois do jantar, minha mãe puxou lentamente a manga da camisa social — ela trabalhava como secretária de um advogado importante, e falava dele às vezes. Eu suspeitava que ela gostava dele. Mas minha mãe nunca o trouxe para a nossa casa. Ela sentou-se no sofá. Aproximei-me e deitei a cabeça em seu colo. Revelei minhas presas. O sangue dela era doce… quente… reconfortante. Ronronei baixo, fechando os olhos enquanto ela acariciava meus cabelos loiros. Eu bebia apenas o necessário. Sempre. — Está bom, querida.— disse ela, com suavidade. Quando terminei, ela parecia ainda mais cansada. Isso me doía. Minha mãe já se desgastava no trabalho… e ainda precisava me alimentar. Se eu pudesse, não beberia. Uma vez tentei. Fiquei dois dias sem me alimentar. Quase morri. Ela também quase enlouqueceu. Teve que implorar ajuda ao chefe — e, para minha surpresa, ele conseguiu sangue para mim. Não sei como. E não sei se ele desconfiava do que eu era. Provavelmente não. Minha mãe nunca me mostrava a ninguém. Talvez todos pensassem que ela nunca teve filhos. — Mãe, você gosta daquele senhor? Ela me olhou surpresa. — Sobre quem fala? — Sobre seu chefe, mamãe. Ela olhou para um ponto na parede e suspirou triste. — Não, querida… Há só um homem que amei… E infelizmente amo até hoje… Seu pai. Ela suspirou. Meu pai… John… Uma lembrança de quase dois anos antes invadiu minha mente. Quando completei quinze anos, o vi pela última vez. Estava na gangorra brincando sozinha, de noite, enquanto minha mãe me observava de um banco na praça. Ele se aproximou — meu pai parecia uma estrela de filme: todo bem trajado, bonito, parecia mais jovem que minha mãe; hoje sei que era por ser vampiro. Ele me olhou com aqueles olhos azuis, iguais aos meus. — Quer companhia? — perguntou sorrindo. Assenti, e ele se sentou na outra ponta da gangorra. Por um momento, o olhei, pensando que poderia desenhá-lo — talvez um desenho dele junto da minha mãe. Quando terminamos de brincar, ele foi até minha mãe. Vi como acariciou sua bochecha e pegou uma caixa que estava com ela. Voltou até mim, acariciou minha bochecha e disse: — Sabe… Antes eu era sombra da sua mãe, mas agora sou sua sombra também, minha amada filha… — Ele suspirou, e vi uma dor profunda passar por seus olhos. — Peço perdão por não estar sempre com vocês, por ser um fantasma… Ele ficou em silêncio, então finalmente me entregou a caixa. — Comprei isso especialmente para você. Ele vai estar sempre contigo. Sorri timidamente. Ao abrir a caixa, vi o gatinho. Saltei em seus braços, feliz com o presente… — Filha… — chamou minha mãe, me fazendo voltar ao presente, ainda acariciando meus cabelos. — Sim, mãe. — Amanhã eu vou te levar ao parque… mas também vou começar a te ensinar a caçar sozinha. Levantei a cabeça, assustada. — Como assim? Ela suspirou. — Você precisa aprender a se alimentar na floresta. Eu não me importo de cuidar de você… nunca me importei. Mas… se um dia eu não estiver aqui… Meu peito apertou. — Não fala isso, mãe. Ela sorriu e beijou minha testa. — Sou humana, Frida. Meu tempo é diferente do seu. — Fez uma pausa, com ternura no olhar. — Mas não se anime… você ainda vai ter que aguentar essa velha por muito tempo. Ri, mesmo com o coração pesado. Para mim… ela era o único anjo que existia. E eu queria ter entendido, naquele momento… que o tempo dela estava acabando.POV — DESCONHECIDO Ele entrou na sala usando um sobretudo preto. Os óculos escuros escondiam seus olhos enquanto caminhava até a mesa e se sentava diante da velha feiticeira. Ela passava lentamente as unhas pintadas de preto sobre a superfície de uma esfera escura e impura. A velha feiticeira das sombras ergueu os olhos para ele. — Ela está grávida de um lobisomem... Então, definitivamente, eliminei todos os Dunstan vampiros — afirmou, recostando-se na cadeira, confiante. A feiticeira arqueou uma sobrancelha branca. — Será mesmo? Ele franziu o cenho imediatamente. — O que quer insinuar? Olhe logo meu futuro na esfera — exigiu entre os dentes. — Se o senhor quer... assim será. A velha colocou as mãos sobre a esfera. Seus olhos emitiram uma luz negra, como se duas pequenas fendas para um vazio infinito tivessem se aberto em seu rosto. A mesa começou a tremer sob o poder maligno que emanava dela. Por alguns segundos, a sala permaneceu em absoluto silêncio. Então, a feiticei
Um mês depois... Ajudei uma serva a organizar os vasos de flores enquanto o clã comemorava a tradicional época da colheita. Os lobos já não se afastavam de mim. Não podia afirmar que havia sido totalmente aceita, mas percebia que os olhares de desconfiança haviam diminuído. Alguns ainda me observavam com curiosidade, mas já não sentia aquela sensação de estar sendo julgada a cada passo que dava. Depois que Dante anunciou minha gravidez, ouvi muitos cochichos sobre a possibilidade de meu filho ser um Alfa. Mas, para falar a verdade, aquilo não me importava. Eu estava feliz porque minha gravidez estava indo bem. Apesar de a curandeira ter dito que minha natureza vampírica voltaria assim que o bebê nascesse, estava aproveitando cada momento daquela fase. E, realmente, estava comendo de tudo. Peguei um pedaço de bolo de chocolate que estava sobre a mesa e o levei à boca. O sabor doce se espalhou pela minha língua, e fechei os olhos por um instante, apreciando a textura
POV — FRIDA Quando acordei, fiquei surpresa ao perceber que Dante ainda me envolvia em seus braços. — Ficou todo esse tempo me olhando? — perguntei, curiosa. Ele assentiu, acariciando minha bochecha. — Acho que quer saber como consegui fugir de Lady — falei, por fim. — Sim... — respondeu, olhando para mim com curiosidade. Suspirei. — Eu não fugi. Apesar de ter tentado... fui salva por Demétrius, um vampiro que tinha uma relação de quase amizade com meu irmão, Boris. Dante assentiu. — Ele cuidou dos meus machucados. Lady havia me chicoteado. O maxilar de Dante enrijeceu imediatamente. Vi o dourado tentando se sobrepor ao cinza de seus olhos. — Aquela maldita! Ainda conseguiu fugir da minha fúria — rosnou entre os dentes. Coloquei a mão sobre seu peito. — Esqueça ela. Ele respirou fundo, tentando conter a raiva. — Melina... onde ela está? — perguntei, curiosa. — Não sei... Na verdade, fiquei todo esse tempo fora. Apenas mandei que a mãe dela fosse presa
POV — DANTE Estacionei o carro de forma brusca. Mal desliguei o motor, já abri a porta e saí, sem me importar com a chuva que voltava a cair forte sobre mim. Lorenzo havia ligado minutos antes, avisando que Frida tinha retornado. Frida. Minha companheira estava de volta. Mil perguntas se acumulavam em minha cabeça. Onde ela esteve? Quem a ajudou? Por que demorou tanto a voltar? E, acima de tudo, como estavam ela e o meu filho? Eu precisava saber tudo. Mas, naquele momento, só conseguia pensar em uma coisa. Ela estava viva. Ela estava de volta. Por alguns segundos, até cheguei a me perguntar se estava sonhando. Atravessei a entrada do castelo quase correndo. E então a vi. Frida estava sentada no sofá, com um caderno de desenhos apoiado sobre as pernas. Meu coração pareceu querer sair pela boca. Ela ergueu aqueles olhos azuis que eu tanto amava e, ao perceber minha presença, deixou o caderno de lado. Não pensei. Não me importei com mais nada. A
POV — FRIDA Caminhei pela noite segurando o guarda-chuva, enquanto as gotas de água gelada atingiam minha pele. A cidade parecia diferente naquela noite. Talvez porque, pela primeira vez, eu a observasse sem pensar em fugir de alguma coisa. Parei diante do grande vidro de um restaurante italiano. Do outro lado, um casal apaixonado jantava. O homem levou um pedaço de comida até a boca da mulher, e os dois sorriram, completamente alheios a tudo ao redor. Fiquei observando aquela cena por alguns segundos. Parecia tão simples. Tão comum. Continuei andando. Mais adiante, uma loja de brinquedos chamou minha atenção. Uma mãe pegava um boneco da prateleira que o filho, acomodado em seu colo, apontava com entusiasmo. A criança sorriu. A mãe também. Levei a mão à minha barriga, que já começava a ficar levemente saliente. Por alguns segundos, imaginei como seria ter uma vida assim. Uma vida comum. Sem responsabilidades de Luna. Sem problemas de clã. Sem guerra
POV — DESCONHECIDO Dias antes... — Droga! Aquela estúpida fugiu! — rosnou Lady. Um de seus homens permanecia parado, observando-a em silêncio. — Saia! — gritou ela. O homem obedeceu sem dizer uma palavra, deixando-a sozinha com sua irritação. Lady caminhou até o banheiro e abriu a torneira. Jogou água no próprio rosto, tentando se acalmar. Ergueu os olhos para o espelho. Seus cabelos rosas estavam completamente despenteados. A maquiagem havia desaparecido, deixando à mostra apenas sua pele pálida e os olhos cansados. Por alguns segundos, ficou encarando o próprio reflexo. Já não reconhecia aquela loba poderosa que um dia acreditara ser. Onde estava a mulher que não tinha medo de ninguém? Onde estava aquela que enfrentava qualquer um que ousasse desafiá-la? Agora, diante do espelho, parecia apenas uma sombra do que havia sido. Lady abaixou a cabeça e jogou mais água no rosto. Respirou fundo. Talvez ainda pudesse consertar as coisas. Talvez aquele maldi







