Share

CAPÍTULO 2

last update publish date: 2026-08-01 09:25:14

Na noite seguinte, esperei pela minha mãe. A expectativa pulsava dentro de mim. Hoje iríamos ao parque — eu finalmente iria naquela roda‑gigante que piscava ao longe todas as noites.

Andei de um lado para o outro, olhando o relógio. O tempo passou. E ela não chegou.

Meia‑noite.

Nada.

Relâmpago subiu no meu colo, se aninhando como se nada estivesse errado. Passei a mão em sua cabeça, ouvindo o ronronar suave. Eu queria ter a paz dele. Mas não tinha.

Virei a noite acordada, atenta a qualquer som. Nada. O silêncio gritava.

Quando o relógio marcou cinco da manhã, suspirei, exausta. Foi então que tive uma ideia. Corri até o telefone e procurei o número do escritório onde ela trabalhava. Parei. Ninguém atenderia àquela hora. Teria que esperar.

Assim que a manhã chegou, fechei as cortinas com cuidado. A luz ainda se infiltrava, queimando levemente a minha pele. Vesti um moletom preto, máscara de esqui e óculos escuros. Era incômodo. Mas suportável.

Disquei.

Um toque.

Dois.

Três.

— Escritório do Dr. Wagner — disse uma voz feminina.

Meu coração disparou.

— Olá… poderia me informar se a Srta. Wanda está?

Silêncio.

— Quem deseja saber?

Hesitei. Filha, eu queria dizer. Mas ninguém sabia que eu existia.

— A irmã dela — respondi, torcendo para soar convincente.

Houve uma pausa. Então uma nova voz surgiu — masculina, firme.

— Você é irmã da Wanda?

— Sim…

Ele suspirou.

— Hoje ela não veio ao escritório. Como estava usando o uniforme do trabalho, ligaram para nós. — Fez uma pausa, e meu coração pareceu parar. — Sua irmã foi gravemente ferida, aparentemente durante um assalto, mas não levaram nada. Ela está no hospital no centro da cidade.

O mundo parou. O telefone escorregou da minha mão. Minha mãe estava ferida? As lágrimas vieram sem controle.

Esperei a noite cair. Eu precisava vê‑la. Tive que esperar, pois não podia sair de dia. Quando finalmente pude sair, usei um mapa para me guiar.

Fui até o hospital e perguntei por ela. A atendente digitou por alguns segundos e depois suspirou.

— Ela está na ala privada. Não pode receber visitas.

Meu coração afundou. Queria ver minha mãe, queria saber se estava bem…

— O namorado dela está ali — acrescentou, apontando.

Segui o olhar. Um homem alto, moreno, bem‑vestido. Elegante. Bonito. Então era verdade. Ela tinha algum envolvimento com ele.

Me aproximei dele, nervosa.

— Olá… O senhor é o namorado da minha ma… irmã? — corrigi a tempo.

Ele me olhou com seus olhos castanhos; vi preocupação neles.

— Hum… Não exatamente. Quer dizer, por mim sim, mas por Wanda ainda não — sorriu triste.

Nesse instante, percebi: minha mãe talvez tivesse sido feliz com outra pessoa… Se não tivesse conhecido meu pai… Se eu não tivesse nascido.

— Entendo — falei, tentando esconder a melancolia que me invadiu.

Ele me observou por um instante.

— Não sabia que Wanda tinha uma irmã tão jovem.

Esfreguei o pescoço, nervosa.

— Ah sim…

— Está bem? — perguntou ele, preocupado. — Seu rosto está pálido… e esses olhos, são lentes?

Me assustei e olhei para o reflexo na porta de vidro ao lado. Meus olhos estavam ficando vermelhos.

Então ouvi.

Tum...Tum...

O coração dele.

O coração dele batia forte. Forte demais. Senti as gengivas doerem. Sem pensar, saí correndo. Ele agarrou meu braço.

— Ei… Está bem, moça?

Me desvencilhei assustada.

— Estou… por favor, me solta… Preciso de ar.

Recuei e cobri a cabeça com o capuz. Saí do hospital apressada, ofegante. As lágrimas não paravam. A dor me rasgava por dentro. E o pior: a fome já começava a me torturar.

Quando cheguei em casa, desci direto para o porão. Minhas gengivas latejavam. A fome crescia. Cruel. Insuportável. Se eu deixasse… ela me consumiria. E se eu morresse…? A ideia me aterrorizou. Eu era fraca demais… Tinha medo de morrer.

Relâmpago se esfregou nas minhas pernas. Faminto. Coloquei ração para ele e observei enquanto comia. Tão simples. Tão fácil. Engoli em seco. Eu não tinha essa opção. Eu precisava de sangue.

Depois de um tempo, tentei me acalmar, repetindo que minha mãe ficaria bem. Olhei para o relógio: uma hora da manhã. Oficialmente tinha dezessete anos, mas não estava em clima de festividades — estava muito triste, preocupada, e a garganta doía de sede.

Não suportando mais, resolvi ir atrás de alimento. Andei por longos minutos. Nada

Quando cheguei perto da floresta, meu estômago se revirou. Nunca tinha entrado ali sozinha. Não sabia o que encontraria… nem se conseguiria voltar. Mas engoli em seco — não podia fugir, não tinha saída.

Respirei fundo e tentei usar meus sentidos. Foi então que senti: uma presa. O coração dela batia forte, rápido, vivo.

Meu corpo reagiu antes da mente. Corri e vi a corça. Ela fugiu. Eu tropeçava, desequilibrada, fraca — não sabia caçar, nunca tinha feito isso. Mas precisava.

Quando finalmente me aproximei, saltei — e errei. Caí direto na lama. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões. Fiquei ali: imunda, fraca, faminta e completamente sozinha.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A Perdição do Alfa Feroz    EPÍLOGO

    POV — DESCONHECIDO Ele entrou na sala usando um sobretudo preto. Os óculos escuros escondiam seus olhos enquanto caminhava até a mesa e se sentava diante da velha feiticeira. Ela passava lentamente as unhas pintadas de preto sobre a superfície de uma esfera escura e impura. A velha feiticeira das sombras ergueu os olhos para ele. — Ela está grávida de um lobisomem... Então, definitivamente, eliminei todos os Dunstan vampiros — afirmou, recostando-se na cadeira, confiante. A feiticeira arqueou uma sobrancelha branca. — Será mesmo? Ele franziu o cenho imediatamente. — O que quer insinuar? Olhe logo meu futuro na esfera — exigiu entre os dentes. — Se o senhor quer... assim será. A velha colocou as mãos sobre a esfera. Seus olhos emitiram uma luz negra, como se duas pequenas fendas para um vazio infinito tivessem se aberto em seu rosto. A mesa começou a tremer sob o poder maligno que emanava dela. Por alguns segundos, a sala permaneceu em absoluto silêncio. Então, a feiticei

  • A Perdição do Alfa Feroz    CAPÍTULO 149

    Um mês depois... Ajudei uma serva a organizar os vasos de flores enquanto o clã comemorava a tradicional época da colheita. Os lobos já não se afastavam de mim. Não podia afirmar que havia sido totalmente aceita, mas percebia que os olhares de desconfiança haviam diminuído. Alguns ainda me observavam com curiosidade, mas já não sentia aquela sensação de estar sendo julgada a cada passo que dava. Depois que Dante anunciou minha gravidez, ouvi muitos cochichos sobre a possibilidade de meu filho ser um Alfa. Mas, para falar a verdade, aquilo não me importava. Eu estava feliz porque minha gravidez estava indo bem. Apesar de a curandeira ter dito que minha natureza vampírica voltaria assim que o bebê nascesse, estava aproveitando cada momento daquela fase. E, realmente, estava comendo de tudo. Peguei um pedaço de bolo de chocolate que estava sobre a mesa e o levei à boca. O sabor doce se espalhou pela minha língua, e fechei os olhos por um instante, apreciando a textura

  • A Perdição do Alfa Feroz    CAPÍTULO 148

    POV — FRIDA Quando acordei, fiquei surpresa ao perceber que Dante ainda me envolvia em seus braços. — Ficou todo esse tempo me olhando? — perguntei, curiosa. Ele assentiu, acariciando minha bochecha. — Acho que quer saber como consegui fugir de Lady — falei, por fim. — Sim... — respondeu, olhando para mim com curiosidade. Suspirei. — Eu não fugi. Apesar de ter tentado... fui salva por Demétrius, um vampiro que tinha uma relação de quase amizade com meu irmão, Boris. Dante assentiu. — Ele cuidou dos meus machucados. Lady havia me chicoteado. O maxilar de Dante enrijeceu imediatamente. Vi o dourado tentando se sobrepor ao cinza de seus olhos. — Aquela maldita! Ainda conseguiu fugir da minha fúria — rosnou entre os dentes. Coloquei a mão sobre seu peito. — Esqueça ela. Ele respirou fundo, tentando conter a raiva. — Melina... onde ela está? — perguntei, curiosa. — Não sei... Na verdade, fiquei todo esse tempo fora. Apenas mandei que a mãe dela fosse presa

  • A Perdição do Alfa Feroz    CAPÍTULO 147

    POV — DANTE Estacionei o carro de forma brusca. Mal desliguei o motor, já abri a porta e saí, sem me importar com a chuva que voltava a cair forte sobre mim. Lorenzo havia ligado minutos antes, avisando que Frida tinha retornado. Frida. Minha companheira estava de volta. Mil perguntas se acumulavam em minha cabeça. Onde ela esteve? Quem a ajudou? Por que demorou tanto a voltar? E, acima de tudo, como estavam ela e o meu filho? Eu precisava saber tudo. Mas, naquele momento, só conseguia pensar em uma coisa. Ela estava viva. Ela estava de volta. Por alguns segundos, até cheguei a me perguntar se estava sonhando. Atravessei a entrada do castelo quase correndo. E então a vi. Frida estava sentada no sofá, com um caderno de desenhos apoiado sobre as pernas. Meu coração pareceu querer sair pela boca. Ela ergueu aqueles olhos azuis que eu tanto amava e, ao perceber minha presença, deixou o caderno de lado. Não pensei. Não me importei com mais nada. A

  • A Perdição do Alfa Feroz    CAPÍTULO 146

    POV — FRIDA Caminhei pela noite segurando o guarda-chuva, enquanto as gotas de água gelada atingiam minha pele. A cidade parecia diferente naquela noite. Talvez porque, pela primeira vez, eu a observasse sem pensar em fugir de alguma coisa. Parei diante do grande vidro de um restaurante italiano. Do outro lado, um casal apaixonado jantava. O homem levou um pedaço de comida até a boca da mulher, e os dois sorriram, completamente alheios a tudo ao redor. Fiquei observando aquela cena por alguns segundos. Parecia tão simples. Tão comum. Continuei andando. Mais adiante, uma loja de brinquedos chamou minha atenção. Uma mãe pegava um boneco da prateleira que o filho, acomodado em seu colo, apontava com entusiasmo. A criança sorriu. A mãe também. Levei a mão à minha barriga, que já começava a ficar levemente saliente. Por alguns segundos, imaginei como seria ter uma vida assim. Uma vida comum. Sem responsabilidades de Luna. Sem problemas de clã. Sem guerra

  • A Perdição do Alfa Feroz    CAPÍTULO 145

    POV — DESCONHECIDO Dias antes... — Droga! Aquela estúpida fugiu! — rosnou Lady. Um de seus homens permanecia parado, observando-a em silêncio. — Saia! — gritou ela. O homem obedeceu sem dizer uma palavra, deixando-a sozinha com sua irritação. Lady caminhou até o banheiro e abriu a torneira. Jogou água no próprio rosto, tentando se acalmar. Ergueu os olhos para o espelho. Seus cabelos rosas estavam completamente despenteados. A maquiagem havia desaparecido, deixando à mostra apenas sua pele pálida e os olhos cansados. Por alguns segundos, ficou encarando o próprio reflexo. Já não reconhecia aquela loba poderosa que um dia acreditara ser. Onde estava a mulher que não tinha medo de ninguém? Onde estava aquela que enfrentava qualquer um que ousasse desafiá-la? Agora, diante do espelho, parecia apenas uma sombra do que havia sido. Lady abaixou a cabeça e jogou mais água no rosto. Respirou fundo. Talvez ainda pudesse consertar as coisas. Talvez aquele maldi

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status