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Capítulo 2

Author: Pisco do Jardim
Vinícius tentou vir atrás de mim, mas Alessandra o chamou:

— Volte logo! Carolina está chorando!

No fim, ele simplesmente me deixou ali, com o guarda-chuva que havia me entregado.

— Não vou me divorciar. Volte sozinha para casa.

Abri o guarda-chuva e percebi que havia um buraco no tecido. Era como o meu casamento com Vinícius: estava tão danificado que já não havia como consertá-lo.

A chuva fina atravessava o buraco. Não era forte o bastante para me incomodar, mas parecia capaz de apagar o pouco de esperança que ainda me restava.

Assim que entrei no táxi, abri o perfil de Carolina nas redes sociais. Ela tinha acabado de publicar um vídeo.

— Nossa filha nasceu! É uma menina! Foi meu marido quem escolheu o nome dela: Giovanna Cardoso.

Segurei o celular com tanta força que meus dedos enrijeceram. Uma dor lancinante tomou conta do meu peito. Giovanna Cardoso. Aquele era o nome que eu havia escolhido para a filha que perdi.

Na época, alguém que queria se vingar de Vinícius contratou um grupo de capangas para atacar a empresa dele. Tentei protegê-lo e acabei sendo espancada a ponto de perder o bebê.

E agora ele simplesmente havia dado aquele mesmo nome a outra criança. Tinha se esquecido por completo da minha dor e da morte da nossa filha. Com a visão turva pelas lágrimas, continuei deslizando o dedo pela tela, com a mão trêmula.

No dia em que sofri um acidente de carro e quebrei a perna, eles me enviaram centenas de mensagens dizendo estar preocupados, mas passaram a noite inteira soltando fogos de artifício com Carolina.

Quando os enjoos da gravidez me faziam vomitar sem parar, eles se limitaram a mandar alguém me entregar uma canja de galinha. Enquanto isso, levaram Carolina para passar uma semana na Europa, onde fizeram pedidos enquanto admiravam a aurora boreal.

As mesmas pessoas que disseram estar ocupadas demais para comparecer ao meu aniversário fizeram um piquenique com Carolina no alto de uma montanha, sob um céu estrelado. Havia mais de seiscentos vídeos. Assisti a todos, várias vezes, como se estivesse tentando me torturar. No fim, estava tão anestesiada que já não conseguia derramar mais uma lágrima.

Eu já desconfiava de tudo, mas ainda me agarrava a um último fio de esperança. Agora que a verdade estava escancarada diante dos meus olhos, não havia mais como negar: eles sempre me fizeram de idiota.

Afastei aqueles pensamentos, levei a mão à barriga e respirei fundo, tentando me acalmar.

— Não se preocupe, meu bebê. A mamãe logo vai tirar você daqui.

Voltei à casa dos meus pais para buscar todos os meus documentos.

Mas, quando abri a porta do meu quarto, me deparei com uma decoração que não reconheci. Todas as minhas coisas haviam desaparecido. O ambiente agora parecia um aconchegante quarto de princesa.

Eu deslizava os dedos pela superfície de uma luminária em formato de concha que estava sobre a mesa quando ouvi uma voz apressada atrás de mim:

— Não fique mexendo nas coisas!

Meus pais estavam na entrada, carregando sacolas de compras. Os dois me olhavam com reprovação.

— Carolina não gosta que mexam nas coisas dela. Ela vai ficar chateada.

Olhei para eles.

— E onde estão as minhas coisas?

— No quartinho dos fundos.

— Mas este quarto é meu.

Minha mãe me lançou um olhar irritado e seguiu para a cozinha.

— Carolina é minha filha de coração. Você vai implicar até com isso?

Tive de me espremer contra o batente da porta para deixá-los passar. Minhas roupas, encharcadas pela chuva, grudavam no meu corpo, causando um desconforto terrível. Mesmo assim, nenhum dos dois se deu ao trabalho de perguntar o que havia acontecido comigo.

Senti o nariz arder e os olhos se encherem de lágrimas.

— E eu? Por acaso deixei de ser filha de vocês?

Minha mãe nem sequer levantou a cabeça.

— Como você pode se comparar à Carolina? Aquela menina é bondosa, dedicada e sabe dar valor aos pais. Está sempre ao nosso lado e ilumina a casa como um raio de sol. Só de olhar para ela, já fico feliz. Você, por outro lado, vive com essa cara de enterro, como se o mundo inteiro lhe devesse alguma coisa. — Ela soltou um suspiro. — Se você não tivesse se metido no meio dos dois, Carolina e Vinícius já estariam juntos há muito tempo. Eles sempre se amaram, mas passaram todos esses anos escondendo o que sentiam por consideração a você. Consegue imaginar como isso deve ter sido difícil para eles? Será que não pode ter um pouco de compreensão?

Minha própria mãe estava me pedindo que tivesse compreensão pelo meu marido e pela amante dele.

Soltei uma risada amarga enquanto enxugava as lágrimas.

— Então, de agora em diante, deixem que ela cuide de vocês.

— Que drama é esse agora? Aonde você pensa que vai? — Perguntou meu pai, olhando para mim com impaciência.

— Vou trabalhar em Santa Aurora. E não pretendo voltar.

Depois de responder, peguei o celular para conferir mais uma vez a confirmação da minha contratação.

Mas, antes que pudesse abrir a mensagem, vi um novo e-mail do Hospital Santa Aurora informando que minha contratação havia sido cancelada:

[Após o recebimento de uma denúncia envolvendo possíveis irregularidades em seu histórico profissional, incluindo suspeitas de falsificação de informações curriculares, infrações profissionais, desvio de recursos e recebimento de vantagens indevidas, informamos que seu processo de contratação foi cancelado. Sua candidatura não será considerada em futuras seleções desta instituição.]

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