LOGINUma pessoa que se sente segura começa a fazer perguntas. Uma pessoa que começa a fazer perguntas pode descobrir respostas. Pousei o telemóvel sobre a mesa. Precisava impedir que isso acontecesse. Talvez eu devesse falar novamente com Silver. Aproximar-me dela como a amiga preocupada que sempre fingira ser, descobrir o que estava a acontecer dentro daquela cabeça e perceber até onde iam as suspeitas. Não podia permitir que o medo me fizesse agir precipitadamente. Foi então que ouvi a porta abrir. Adrien entrou novamente na sala. Olhei para ele e percebi imediatamente que continuava inquieto. — Pensei que tivesses ido para casa — disse. — Tentei, mas não consegui parar de pensar no que aconteceu. Aproximei-me dele e segurei-lhe a mão. — É precisamente por isso que precisas de parar de pensar com raiva. Ele respirou fundo. — Não gosto da forma como ela está a agir. — Eu também não. — Então admites que há alguma coisa errada? — Claro que há. A questão é descobrir o quê sem lhe d
Fiquei a observar Adrien desaparecer pelo corredor até ouvir a porta da entrada fechar. Só então deixei o sorriso que mantivera no rosto desaparecer. Aproximei-me lentamente da janela e fiquei a olhar para o carro dele afastar-se pela rua. Adrien estava perturbado, e isso era precisamente o que eu não queria. Um homem assustado tornava-se impulsivo, e eu conhecia-o suficientemente bem para saber que, quando sentia que estava a perder o controlo, tinha dificuldade em pensar com clareza. Silver tinha conseguido deixá-lo inseguro em apenas uma noite. Isso preocupava-me. Não porque eu me importasse particularmente com os sentimentos de Adrien, mas porque dependia dele para que tudo acontecesse como tínhamos planeado. O casamento precisava acontecer. Silver precisava continuar apaixonada por ele, precisava confiar nele o suficiente para colocar o seu património nas mãos do marido e, acima de tudo, precisava chegar ao momento certo sem suspeitar do que estávamos a preparar. Tudo tinha sid
Olhei para ela. — O que queres dizer? — Talvez tenha percebido que está prestes a casar e que deveria começar a pensar no próprio futuro. — Silver nunca pensou assim. — As pessoas mudam. — Não desta maneira. Elsa ficou em silêncio. Eu também. O problema era exatamente esse. Eu conhecia Silver. Conhecia a mulher que se apaixonara por mim, que acreditava em todas as minhas histórias e que se sentia culpada sempre que pensava que não estava a fazer o suficiente pela nossa relação. A mulher diante de mim já não era assim. Ela estava a questionar e pessoas que começam a questionar tornam-se perigosas. — O acordo pré-nupcial foi o que mais me preocupou — admiti. Elsa sentou-se no sofá. — Porque ela decidiu assiná-lo? — Sim. — Talvez seja apenas uma decisão sensata. — Para qualquer outra pessoa, seria. Para Silver, não. Elsa observou-me atentamente. — Ela recusou porque acreditava em ti. — Exatamente. — Então talvez tenha deixado de acreditar. As palavras
Saí da casa de Silver com a sensação desagradável de que alguma coisa tinha corrido terrivelmente mal. Entrei no carro e permaneci alguns segundos sem ligar o motor. A imagem dela agarrada ao braço de Cole continuava diante dos meus olhos, mas não era a proximidade entre os dois que mais me incomodava. Era a expressão no rosto de Silver quando me viu. Ela teve medo de mim. Apertei o volante com força. Silver nunca tinha tido medo de mim. Durante todo o nosso relacionamento, eu soubera exatamente como lidar com ela. Sabia quando devia ser carinhoso, quando devia demonstrar fragilidade e, principalmente, quando devia fazê-la sentir que estava a magoar-me. Silver tinha um coração demasiado sensível para suportar a ideia de ser responsável pela infelicidade de alguém que amava. Eu tinha usado isso a meu favor. Sempre. Ela me ama e acreditava que eu a amava da mesma maneira. Acreditava que as nossas diferenças sociais nunca tinham sido um problema para mim e que eu apenas queria construi
Precisava descobrir quem Adrien e Elsa realmente eram quando deixavam de representar os papéis de noivo perfeito e melhor amiga. Quando chegámos à minha casa, agradeci a Cole. — Obrigada por me ouvires. Ele desligou o motor. — Não precisas agradecer. Abriu a porta e saiu. Eu fiz o mesmo. Quando caminhávamos em direção à entrada, senti uma estranha inquietação. Não sabia explicar porquê. Assim que entrei, percebi. Adrien estava ali. O meu corpo reagiu antes que a minha mente conseguisse compreender. O coração disparou. As minhas mãos ficaram frias. A respiração tornou-se curta. Era ele. O mesmo homem que, na minha outra vida, segurara a minha mão enquanto eu morria. O mesmo homem que tinha olhado para mim sem qualquer piedade. O mesmo homem que tinha escolhido Elsa. Eu parei. Cole percebeu imediatamente. — Silver? Não consegui responder. Adrien aproximou-se. — Finalmente. Aquela voz. Apenas aquela voz foi suficiente para fazer o meu estômago revirar. Sem pensar, aproximei-me d
Às vezes, eu perguntava-me se tudo aquilo tinha realmente acontecido. Talvez a minha morte tivesse sido apenas um pesadelo tão cruel que o meu cérebro se recusava a deixá-lo desaparecer. Talvez eu ainda estivesse deitada naquela cama, doente, fraca, incapaz de me levantar, enquanto a minha mente criava uma realidade onde os meus pais continuavam vivos e eu ainda tinha tempo para mudar tudo. Mas então eu olhava para eles. Via o meu pai sentado à mesa, a conversar com a mesma naturalidade de sempre. Via a minha mãe sorrir enquanto organizava alguma coisa na cozinha. Ouvia as suas vozes pela casa. E lembrava-me de que, na minha outra vida, aqueles sons tinham desaparecido. Para sempre. Era impossível considerar aquilo apenas um sonho quando eu conseguia sentir o calor dos seus abraços. Os meus pais estavam vivos, e eu ainda conseguia andar. Apenas isso já era suficiente para me fazer querer chorar de felicidade. Também havia Kimberly. Depois de tantos anos afastadas, estar novamente







