LOGINA amizade que era minha. Os momentos que eu tinha guardado no coração durante tantos anos.
E, por mais doloroso que fosse, eu não conseguia sentir raiva dela. Kimberly era uma pessoa incrível, se o tempo tinha escolhido colocá-la ao lado de Silver, então eu preferia saber que Silver estava rodeada por alguém que realmente a amava. O problema era outro, Silver não confiaria em mim. Para ela, eu não era o melhor amigo de infância. Eu era apenas Cole. O irmão da sua melhor amiga. Um estranho dentro da própria história. Afundei-me novamente na cama, como iria conseguir protegê-la? Como iria impedir Adrien e Elsa? Como iria aproximar-me dela sem revelar que sabia coisas que ninguém deveria saber? E, principalmente, como poderia fazê-la confiar em mim quando, nesta realidade, eu nunca tinha feito parte da vida dela? Antes que conseguisse encontrar uma resposta, ouvi três batidas na porta. — Entre. A porta abriu-se, Kimberly apareceu do outro lado. Ela estava com os cabelos solto revelando algumas madeixas roxas, é a cor preferida da Kimberly. Sorriu assim que me viu. — Oi, mano. Podemos conversar um pouco? Na minha memória, aquela palavra carregava anos de cumplicidade. Nesta realidade, porém, era apenas a verdade biológica. — Claro. Ela entrou e sentou-se na beira da cama, observei-a por alguns segundos. Era a mesma Kimberly, mas não era. Ou talvez fosse eu quem tivesse mudado. — Tu sabes que eu e a Silver somos amigas desde sempre, não sabes? O meu coração apertou. — Sim, eu sei. — Menti. Eu sabia que elas eram amigas. Mas a verdade era que aquelas memórias deveriam ser minhas. Kimberly suspirou. — Só que nós já fomos muito mais próximas. — O que aconteceu? Ela deu de ombros. — Não sei exatamente. Depois que ela começou a ficar mais próxima da Elsa, nós fomos nos afastando. O nome de Elsa fez algo dentro de mim se contrair. Eu tinha passado meses investigando a morte de Silver. Tinha reconstruído cada passo daquela conspiração, eu sabia exatamente quem Elsa era mas Kimberly não sabia. Para ela, Elsa era apenas uma mulher desagradável. — Compreendo. Mesmo assim, Silver convidou-te para seres uma das damas de honra. — Sim. Mas mesmo assim a Silver convidou-me para ser uma das damas de honra, e eu acho que é só porque a mãe dela é minha madrinha. — Ela ficou em silêncio por um momento. — Para ser sincera, fiquei surpresa quando recebi o convite. — Talvez isso seja uma oportunidade. Ela levantou os olhos para mim. — Para quê? — Para recuperares a amizade de vocês. Kimberly sorriu. — Foi exatamente por isso que vim falar contigo. — Comigo? — Sim. — Ela ajeitou-se na cama antes de continuar. — Podes fazer-me um favor? — Depende. — Quero que pintes um quadro da Silver. Fiquei em silêncio. Um quadro. Aquilo parecia uma coincidência cruel demais. — Um quadro? — Sim. Sei que já não pintas como antes, mas lembro-me de quando passavas horas no estúdio. Ela fez uma pequena pausa. — Quero oferecer algo especial à Silver antes do casamento. Olhei para ela. Depois para as minhas mãos, durante anos, eu tinha pintado Silver. Às vezes sem que ela percebesse. Eu conhecia o rosto dela tão bem que conseguia desenhá-lo de memória. O sorriso. Os olhos. A pequena inclinação da cabeça quando estava curiosa. A maneira como franzia a testa quando alguma coisa a incomodava. Eu conhecia Silver melhor do que qualquer pessoa. Ou pelo menos conhecia a Silver da minha vida anterior. Nesta vida, eu não tinha esse direito. — Não sei se consigo — respondi. Kimberly fez uma expressão de súplica. — Por favor. — Kimberly… — Faz isso pela tua irmã. Cruzei os braços, ela continuou a olhar para mim. Acabei por sorrir. — Está bem. Eu faço. Ela abriu um sorriso enorme. — A sério? — Com uma condição. — Qual? — Prometes que vais tentar recuperar a tua amizade com Silver. O sorriso dela diminuiu um pouco. — Isso significa que terei de passar mais tempo com ela. — Exatamente. — E provavelmente vou ter de aguentar a Elsa. — Talvez. Kimberly fez uma careta. — Eu realmente não gosto daquela mulher. Meu coração parou por um segundo. — Por quê? Ela deu de ombros. — Não sei explicar. Ela nunca fez nada diretamente contra mim. É só… não gosto da maneira como ela olha para as pessoas. Fiquei calado. Talvez fosse apenas uma impressão. Talvez fosse apenas antipatia, mas eu sabia que algumas pessoas conseguiam perceber aquilo que outras ignoravam. Kimberly levantou-se. — Então está combinado. Vou preparar-me para ir à casa da Silver. — Hoje? — Sim. Quero falar com ela antes da próxima reunião das damas. — Ela caminhou até à porta. Antes de sair, virou-se para mim. — Obrigada, Cole. Sorri. — Vai. Ela saiu e fechou a porta, fiquei sozinho. Olhei novamente para o telemóvel. A fotografia de Silver continuava aberta no ecrã, passei o dedo pelo rosto dela. Naquela realidade, ela não se lembrava de mim. Não sabia que eu a amava. Não sabia que, numa outra vida, ela tinha sido a minha melhor amiga. Não sabia que eu tinha procurado justiça depois da sua morte. Não sabia que eu tinha estado disposto a morrer para ter uma oportunidade de salvá-la. Mas eu sabia e isso teria de ser suficiente. Levantei-me e caminhei até ao meu antigo espaço de pintura.Talvez aquele fosse o primeiro passo. Eu tinha perdido a minha história com Silver. Agora teria de construir uma nova e, desta vez, eu não iria afastar-me dela. Não importava quanto o tempo tivesse levado de mim. Não importava quantas coisas tivesse mudado, eu encontraria uma maneira de salvar Silver. Mesmo que, no processo, tivesse de fazê-la apaixonar-se por mim.Uma pessoa que se sente segura começa a fazer perguntas. Uma pessoa que começa a fazer perguntas pode descobrir respostas. Pousei o telemóvel sobre a mesa. Precisava impedir que isso acontecesse. Talvez eu devesse falar novamente com Silver. Aproximar-me dela como a amiga preocupada que sempre fingira ser, descobrir o que estava a acontecer dentro daquela cabeça e perceber até onde iam as suspeitas. Não podia permitir que o medo me fizesse agir precipitadamente. Foi então que ouvi a porta abrir. Adrien entrou novamente na sala. Olhei para ele e percebi imediatamente que continuava inquieto. — Pensei que tivesses ido para casa — disse. — Tentei, mas não consegui parar de pensar no que aconteceu. Aproximei-me dele e segurei-lhe a mão. — É precisamente por isso que precisas de parar de pensar com raiva. Ele respirou fundo. — Não gosto da forma como ela está a agir. — Eu também não. — Então admites que há alguma coisa errada? — Claro que há. A questão é descobrir o quê sem lhe d
Fiquei a observar Adrien desaparecer pelo corredor até ouvir a porta da entrada fechar. Só então deixei o sorriso que mantivera no rosto desaparecer. Aproximei-me lentamente da janela e fiquei a olhar para o carro dele afastar-se pela rua. Adrien estava perturbado, e isso era precisamente o que eu não queria. Um homem assustado tornava-se impulsivo, e eu conhecia-o suficientemente bem para saber que, quando sentia que estava a perder o controlo, tinha dificuldade em pensar com clareza. Silver tinha conseguido deixá-lo inseguro em apenas uma noite. Isso preocupava-me. Não porque eu me importasse particularmente com os sentimentos de Adrien, mas porque dependia dele para que tudo acontecesse como tínhamos planeado. O casamento precisava acontecer. Silver precisava continuar apaixonada por ele, precisava confiar nele o suficiente para colocar o seu património nas mãos do marido e, acima de tudo, precisava chegar ao momento certo sem suspeitar do que estávamos a preparar. Tudo tinha sid
Olhei para ela. — O que queres dizer? — Talvez tenha percebido que está prestes a casar e que deveria começar a pensar no próprio futuro. — Silver nunca pensou assim. — As pessoas mudam. — Não desta maneira. Elsa ficou em silêncio. Eu também. O problema era exatamente esse. Eu conhecia Silver. Conhecia a mulher que se apaixonara por mim, que acreditava em todas as minhas histórias e que se sentia culpada sempre que pensava que não estava a fazer o suficiente pela nossa relação. A mulher diante de mim já não era assim. Ela estava a questionar e pessoas que começam a questionar tornam-se perigosas. — O acordo pré-nupcial foi o que mais me preocupou — admiti. Elsa sentou-se no sofá. — Porque ela decidiu assiná-lo? — Sim. — Talvez seja apenas uma decisão sensata. — Para qualquer outra pessoa, seria. Para Silver, não. Elsa observou-me atentamente. — Ela recusou porque acreditava em ti. — Exatamente. — Então talvez tenha deixado de acreditar. As palavras
Saí da casa de Silver com a sensação desagradável de que alguma coisa tinha corrido terrivelmente mal. Entrei no carro e permaneci alguns segundos sem ligar o motor. A imagem dela agarrada ao braço de Cole continuava diante dos meus olhos, mas não era a proximidade entre os dois que mais me incomodava. Era a expressão no rosto de Silver quando me viu. Ela teve medo de mim. Apertei o volante com força. Silver nunca tinha tido medo de mim. Durante todo o nosso relacionamento, eu soubera exatamente como lidar com ela. Sabia quando devia ser carinhoso, quando devia demonstrar fragilidade e, principalmente, quando devia fazê-la sentir que estava a magoar-me. Silver tinha um coração demasiado sensível para suportar a ideia de ser responsável pela infelicidade de alguém que amava. Eu tinha usado isso a meu favor. Sempre. Ela me ama e acreditava que eu a amava da mesma maneira. Acreditava que as nossas diferenças sociais nunca tinham sido um problema para mim e que eu apenas queria construi
Precisava descobrir quem Adrien e Elsa realmente eram quando deixavam de representar os papéis de noivo perfeito e melhor amiga. Quando chegámos à minha casa, agradeci a Cole. — Obrigada por me ouvires. Ele desligou o motor. — Não precisas agradecer. Abriu a porta e saiu. Eu fiz o mesmo. Quando caminhávamos em direção à entrada, senti uma estranha inquietação. Não sabia explicar porquê. Assim que entrei, percebi. Adrien estava ali. O meu corpo reagiu antes que a minha mente conseguisse compreender. O coração disparou. As minhas mãos ficaram frias. A respiração tornou-se curta. Era ele. O mesmo homem que, na minha outra vida, segurara a minha mão enquanto eu morria. O mesmo homem que tinha olhado para mim sem qualquer piedade. O mesmo homem que tinha escolhido Elsa. Eu parei. Cole percebeu imediatamente. — Silver? Não consegui responder. Adrien aproximou-se. — Finalmente. Aquela voz. Apenas aquela voz foi suficiente para fazer o meu estômago revirar. Sem pensar, aproximei-me d
Às vezes, eu perguntava-me se tudo aquilo tinha realmente acontecido. Talvez a minha morte tivesse sido apenas um pesadelo tão cruel que o meu cérebro se recusava a deixá-lo desaparecer. Talvez eu ainda estivesse deitada naquela cama, doente, fraca, incapaz de me levantar, enquanto a minha mente criava uma realidade onde os meus pais continuavam vivos e eu ainda tinha tempo para mudar tudo. Mas então eu olhava para eles. Via o meu pai sentado à mesa, a conversar com a mesma naturalidade de sempre. Via a minha mãe sorrir enquanto organizava alguma coisa na cozinha. Ouvia as suas vozes pela casa. E lembrava-me de que, na minha outra vida, aqueles sons tinham desaparecido. Para sempre. Era impossível considerar aquilo apenas um sonho quando eu conseguia sentir o calor dos seus abraços. Os meus pais estavam vivos, e eu ainda conseguia andar. Apenas isso já era suficiente para me fazer querer chorar de felicidade. Também havia Kimberly. Depois de tantos anos afastadas, estar novamente







