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capítulo 5.Linhas Que Não Deveriam Ser Cruzadas

Author: Leila
last update publish date: 2026-01-22 18:57:32

Natália começou a perceber que Nicolas Vartem não gritava quando perdia o controle.

Ele ficava quieto.

Quieto demais.

Foi isso que a deixou em alerta naquela manhã.

Arthur estava no quarto, montando um quebra-cabeça no chão, enquanto Natália organizava algumas roupas no armário. O silêncio era confortável — até que a porta se abriu sem aviso.

Nicolas entrou.

— Precisamos conversar — disse, a voz baixa, sem rodeios.

Natália sentiu o aviso no tom.

— Arthur, querido — ela falou com cuidado —, por que você não leva o Thor para o jardim? A Helena está lá.

— Tá bom — ele respondeu, obediente, e saiu saltitando.

A porta se fechou.

O ar mudou.

— Aconteceu alguma coisa? — Natália perguntou, virando-se.

Nicolas estava parado perto da porta, braços cruzados, olhar fixo nela como se estivesse prestes a desmontá-la peça por peça.

— Você está ultrapassando limites — disse.

Ela suspirou.

— Se isso for sobre o café da manhã…

— Não é.

Ele deu um passo à frente.

— Meu filho dorme com você no quarto. Ri com você. Procura você. — A voz dele ficou mais tensa. — Você se tornou o centro da rotina dele em poucos dias.

— Porque alguém precisava estar — respondeu ela, firme. — E o senhor não estava.

A frase o atingiu em cheio.

— Eu sempre estive — rebateu.

— Fisicamente — corrigiu. — Emocionalmente, não.

Nicolas passou a mão pelo rosto, visivelmente irritado.

— Você não entende o que está em jogo aqui.

— Então me explique — ela disse, cruzando os braços. — Porque do meu ponto de vista, o que está em jogo é uma criança que finalmente está sorrindo.

— E quando você for embora? — ele explodiu, finalmente. — Quando decidir ir embora como todos os outros?

O silêncio caiu pesado.

Natália sentiu o impacto daquela frase.

— Eu não planejo ir embora — respondeu, mais baixo. — Mas também não posso prometer ficar para sempre.

Os olhos dele escureceram.

— Exatamente.

Ele se aproximou mais. Perto demais.

Natália sentiu o calor do corpo dele, o perfume discreto, a tensão que parecia vibrar no ar entre os dois.

— É por isso que não posso permitir que você se torne indispensável — ele continuou. — Nem para ele. Nem para mim.

O coração dela bateu mais forte.

— Então o problema não é o Arthur — disse. — Sou eu.

Nicolas não respondeu.

O silêncio foi resposta suficiente.

— O senhor tem medo — ela concluiu, num sussurro.

Ele riu sem humor.

— Medo é para pessoas que acreditam em finais felizes.

— Ou para quem já perdeu demais — rebateu.

Algo se quebrou no olhar dele.

Por um segundo, Nicolas pareceu… humano.

— Você não faz ideia do que está provocando — disse, a voz rouca.

— Então pare de me provocar também — ela respondeu, sustentando o olhar.

Eles estavam perto demais agora.

Próximos o suficiente para que Natália percebesse a respiração dele mudar. Próximos o suficiente para que Nicolas percebesse que afastá-la seria muito mais difícil do que mantê-la ali.

Ele deu um passo atrás de repente.

— A partir de hoje, novas regras — anunciou. — Arthur dorme no próprio quarto. Nada de intimidades desnecessárias. E você…

Fez uma pausa.

— Você mantém distância de mim.

Natália sentiu algo apertar no peito.

— Isso não é uma regra — disse. — É uma fuga.

— É sobrevivência.

— Não para mim — respondeu. — Para o senhor.

Ela saiu do quarto antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.

Nicolas ficou sozinho.

Minutos depois, Arthur apareceu na porta.

— Pai… a Natália vai embora?

Nicolas fechou os olhos por um instante.

Porque, pela primeira vez, ele não tinha certeza da resposta.

E isso o aterrorizava.

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