LOGINLeonardo*
Fazia dois meses que estavamos sem babá. Regina cuida da Lívia com aquele amor de sempre, mas percebo que a energia dela não é mais a mesma. Tentar fazer tudo sozinha é um sacrifício que ninguém deveria enfrentar, ainda mais uma criança que demanda atenção dobrada. Se eu pudesse, levaria a Lívia para o escritório todos os dias, mas reuniões, contratos e uma pilha interminável de decisões não me deixam folga. Precisava de ajuda, e urgente.
Leda, filha da Regina, foi a verdadeira âncora da minha filha desde o nascimento. Ao lado da Bárbara, minha esposa, cuidou de tudo. Depois que Bárbara partiu, Leda virou a fortaleza da Lívia. Até o acidente tirá-la de nós. A partir dali, Regina mudou. Ficou mais dura, desconfiada, amarga. Nunca mais foi a mesma com as babás. Queria ver a própria filha naquele papel, mas não vai acontecer. As últimas duas babás só quiseram ser "a nova mãe", tentando se infiltrar na nossa vida. Duas aproveitadoras. Mandadas embora rápido.
Regina nem queria que eu contratasse mais ninguém, mas insisti. Ela concordou, desde que pudesse analisar pessoalmente as candidatas. Queria proteger a Lívia, eu entendo — mas não posso deixar o trabalho acumular.
— Ela mora num orfanato, cresceu lá — Regina disse, enquanto folheava as fichas.
— Ingênua?
— Talvez. Mas o melhor é que parece não ter grandes ambições. Ou pelo menos, não aparenta.
— Você não confia em ninguém, né?
— Confio em você, meu filho.
Desde que perdi a Leda, Regina vive numa espécie de guerra contra o mundo. Cuida de mim e da Lívia como se fosse a única coisa que resta para preencher o vazio. Seu jeito protetor pode sufocar, mas no fundo sei que é amor.
— Vamos ficar de olho. Se essa babá não for tão ingênua quanto parece, será mandada embora. — Ela diz séria encarando a foto na ficha.
— Perfeição não espero, só dedicação.
— Fique atento.
— Pode deixar, senhora.
Ser empresário conhecido tem seu preço. O mundo está cheio de falsidade, amigos falsos, mulheres interessadas, sócios traiçoeiros. Tudo pelo brilho do dinheiro e do poder. A Collins Resorts & Spa nasceu pequena, mas hoje é referência em luxo e exclusividade. Dez resorts, cada um um universo particular, para clientes que querem mais que conforto: querem experiências.
Mas nesse meio, a falsidade é rotina. Confiança é moeda rara.
No dia seguinte, mandei buscar a babá. Pedi para levá-la direto ao meu escritório assim que chegasse.
— Por quê? — Regina perguntou, desconfiada.
— Quero vê-la e pedir que assine o termo de confidencialidade.
— Posso cuidar disso. Melhor que ela fale o mínimo com você.
— Regina, não é como se toda mulher aqui estivesse atrás de mim.
— Nunca se sabe...
— Quero conhecê-la. Afinal, ela vai cuidar da minha filha. — Falei firme destacando que se tratava da minha filha.
— Tudo bem, eu a levo.
Regina bufou, mas não questionou mais.
Hoje, Verônica, irmã da Bárbara, vem almoçar conosco. Pessoa em quem confio, desconfiando. Às vezes, parece que ela ama a Lívia de verdade. Noutras, sinto que quer algo a mais. Ainda não sei.
Ouvi a batida na porta e logo pensei em Regina trazendo a babá.
— Pode entrar — disse, sem olhar.
Ela entrou com aquele ar carregado, como se trouxesse uma bomba.
— A babá da vez está aqui.
— Obrigado. Pode nos deixar a sós.
Regina hesitou, olhando para mim e para ela como se estivesse prestes a impedir um desastre.
— Tem certeza?
— Tenho
Regina bufou e apontou a cadeira.
— Sente-se.
A babá obedeceu, e a governanta saiu batendo a porta.
Respirei fundo, terminei de digitar e finalmente olhei para ela. Morena, ereta, tentando parecer segura, mas com um olhar que denunciava cautela.
— Alana, certo?
— Sim, senhor.
Sem rodeios, direto ao ponto. Gostei.
— Regina disse que você foi indicada pela agência e tem boas referências. Não gosto de trocas frequentes. As últimas não duraram.
— Pode ficar tranquilo. Sou responsável. Tenho experiência e gosto de crianças.
Vi um brilho no olhar dela quando falou em crianças.
— Ela é tudo pra mim. A pessoa mais importante da minha vida.
Por um instante, senti a dor da ausência da mãe dela. Mas deixei escapar só um suspiro.
— Seu trabalho é garantir que ela esteja segura, feliz, com rotina equilibrada. Regina cuida do resto. Tudo que envolver a minha filha, fale comigo.
— Entendido.
— Nada de sumir com celular, vídeos por horas, ou ignorar quando ela fala. Ela percebe tudo.
Ela assentiu, sem discutir. Mais um ponto positivo.
— Perguntas?
— Não.
Ótimo.
Deslizei o contrato de confidencialidade até ela.
— Preciso que assine. Você não pode expor minha filha, nem ninguém daqui. Se a imprensa vier, não dê declarações sem orientação.
Ela leu, assinou com cuidado.
— Pode ir. Regina vai te levar até a Lívia e passar o cronograma.
Voltei ao computador. A entrevista acabou. Ainda não sei se ela é tão simples quanto parece, mas por enquanto, ela passa no teste.
***
Cheguei à empresa mais tarde que o habitual. Normalmente, às oito já estou revisando contratos, mas hoje quis conhecer a nova babá.
Amanda me lembra que Augusto ligou cobrando documentos. Respondo que estão em casa e que ele pode passar mais tarde. Augusto sempre quis me aproximar de Rafaela, sua filha, mas nunca me importei em comentar.
Desde que Bárbara se foi, tudo perdeu o sentido. Vivo no piloto automático: reuniões, assinaturas, decisões. Meu corpo trabalha, mas minha mente está sempre em outro lugar, no vazio que ela deixou e no esforço de não deixar que esse luto engula também a infância de minha filha.
É por Lívia que continuo. Ela é a única âncora que me mantém. Talvez, só talvez, eu consiga, um dia, abrir ainda mais essa porta, e pode ser para Rafaela. Ela é uma mulher incrível, linda e preparada desde sempre pelo pai para ser sua sucessora. É uma verdadeira mulher de negócios, sem dúvida. Mas, nos momentos em que conversamos sobre a empresa, sinto que a mente dela está em outro lugar, como se estivesse presente apenas por obrigação, sem realmente se conectar.
Quando o relógio marca meio-dia, sei que já dei o suficiente à empresa por hoje. Preciso voltar para casa. Para ela.
Alana*5 anos depoisAbro a porta do escritório depois de bater.O mesmo escritório.A mesma mesa de madeira. A mesma janela ampla. O mesmo homem atrás do computador.Mas nada ali me intimida mais.Cinco anos atrás, eu sentei naquela cadeira com as mãos suando e o coração acelerado, com medo de não ser suficiente.Hoje eu entro com um sorriso no rosto, uma taça de vinho na mãe e uma vida inteira construída ao lado dele.Na mesa, entre relatórios e o notebook aberto, há uma foto.Nós quatro.Leonardo sorrindo sem reservas. Lívia já quase da minha altura. E o pequeno Heitor, de dois anos, rindo com os olhos apertados.Meu coração aperta do jeito bom.Heitor.Ainda consigo ouvir minha própria voz trêmula naquele dia.Flashback:— Eu preciso te contar uma coisa.Leonardo levantou os olhos do computador. O mesmo gesto de anos atrás. Só que o olhar já não era frio.Era casa.— O que foi? Que cara é essa?Eu coloquei uma caixinha na mesa, sem conseguir falar.Ele olhou pra caixa, olhou p
Leonardo*Se alguém tivesse me dito, que eu me casaria de novo e ainda estaria jogando sinuca eu o mandaria embora o chingando.Mas lá estava eu.Pedro gritando porque perdeu de novo. Marcos dizendo que a culpa era da “falta de estratégia emocional”. Meu pai observando tudo com aquele sorriso contido de quem já viu muita coisa na vida. E Fernando, genro do Marcos, defendendo que videogame era treino de coordenação, não fuga da realidade.O espaço reservado para os homens tinha sinuca, videogame, pebolim e até jogos de tabuleiro. Era quase infantil.E talvez fosse exatamente isso que eu precisava.Leveza.— Você está calmo demais — Pedro comentou, encostando o taco de sinuca na mesa. — Isso me preocupa.— Eu estou tranquilo.Ele riu.— Mentiroso.Eu não estava nervoso.Estava meio apavorado. Queria que tudo saisse perfeito, a Alana merecia isso, nós mereciamos.Marcos se aproximou, segurando um copo de água.— Nem parece que você já fez isso antes.— Pois é, pra mim é como se fosse a p
Oito meses depois*Eu achei que no dia do meu casamento estaria calma.Equilibrada. Centrada. Serena.Mentira.Eu estava chorando desde a hora que acordei.— Eu devia cobrar um extra, olha só como a base não borra mesmo você chorando tanto — a maquiadora avisou, rindo.— Desculpa — eu funguei, segurando o riso e as lágrimas ao mesmo tempo.O estúdio de beleza estava cheio. Cheiro de laquê, café fresco e ansiedade boa.Elaine estava sentada perto da janela, fazendo as unhas e me observando como quem vê um milagre acontecendo devagar. Rafaela se equilibrava para segurar o pequeno Erick e deixar a maquiadora trabalhar em paz. Minha sogra conversava animada com Débora, falando sobre o sabor do bolo que eu e Leonardo escolhemos com amor.E, por um segundo, eu só observei.Essa era a minha sala agora.Minha gente.Minha história.— Você vai me fazer chorar de novo se continuar olhando assim — Rafaela avisou.— Eu só estou… me lembrando — eu respondi.— Lembrando do quê? Que você vai casar c
Alana*Eu passei o dia com a Rafaela no espaço em que ela alugou pra ser seu atelie. Livia ficou com a gente na parte da tarde, eu e Leonardo ainda vamos visitar escolas para escolher uma e fazer a matricula dela. Quando cheguei em casa eram cinco e vinte da tarde, dei banho na minha menina e depois eu tomei banho e me arrumei, quando desci Leonardo estava com Regina sentado no sofa.— Oi amor — Ela falou me olhando e vindo até mim— Olá — Vamos sair. — Ele simplesmente fala depois de me dar um selinho.— Sair pra onde?— Surpresa.Desconfiei. Mas fui.Lívia já estava de tênis, animada como se fosse viajar para outro país. Leonardo havia a arrumado novamente enquanto eu estava no meu quarto.No fim, era só o parque. Toalha xadrez. Cesta. Comida e bebida.Simples.Perfeito.O sol estava suave, o vento bagunçando meu cabelo e a risada da Lívia preenchendo tudo. Existia grama.Existia família.E existia ele me olhando de um jeito diferente.Eu voltei a atenção para Lívia tentando alim
Leonardo*Quando entramos em casa e vi Verônica na sala, respirei fundo tentando me manter calmo.Ela estava diferente. Menos armada. Ou talvez eu só estivesse cansado demais para medir cada expressão dela como fazia antes.— Eu vim conversar — ela disse.Eu não pedi para sentar. Não ofereci café. Fui direto ao ponto.— Sobre o quê?Ela olhou para Lívia. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não vi cálculo no olhar dela. Vi algo mais simples.— Ela é minha sobrinha. E é sua filha, apesar de tudo eu ainda amo você. Eu quero fazer parte da vida dela.O silêncio se espalhou pela sala.Alana ficou ao meu lado. Não interferiu. Mas também não recuou.Verônica continuou:— Eu sei que nunca fui… fácil. E dificultei ainda mais com minhas ultimas atitudes.Ela olhou pro lado, não sei bem se era arrependimento, ou só orgulho porque nada deu certo.— Mas eu gosto da Lívia. Mesmo que eu não saiba demonstrar. Mesmo que não tenha parecido. Eu não quero tirá-la de vocês. Só… não quero ser excluída
Leonardo dirigia em silêncio.Eu também.Minhas mãos estavam frias, mesmo com o sol da manhã atravessando o vidro do carro. Eu estava bem. Minha vida estava organizada. Eu tinha amor, trabalho, planos.Eu não era mais a menina que precisava que alguém ficasse.Mas, ainda assim, havia uma parte minha que tremia.Não pelo passado.Pela possibilidade de ser rejeitada outra vez.— Você não precisa fazer isso hoje — Leonardo disse, mantendo os olhos na estrada.— Preciso sim.Não porque eu devia algo a ela.Mas porque eu devia a mim.Eu não queria mais que essa história ficasse aberta dentro de mim como uma janela batendo no vento.A mansão era enorme. Antiga. Muros altos. Portão imponente.Leonardo estacionou.Meu coração acelerou.Ele segurou minha mão por um segundo antes de soltar.— Eu aperto.Assenti.Ele tocou o interfone.— Viemos falar com a dona Célia.Houve um chiado breve.— Quem deseja?Leonardo olhou para mim.Eu respirei.— Diga que é a Alana.Silêncio.Longo demais.Então a







