LOGINAcordei naquela manhã de sábado com uma animação que eu já não reconhecia em mim. Era estranho sentir esperança depois de quase seis meses convivendo com a palavra não. Não contratamos. Não agora. Não se encaixa. Mas agora, sim. Dentro de dois dias, eu deixaria de ser a mulher que contava moedas e passaria a ser alguém que pagaria as próprias contas. Meus boletos não dependeriam mais de favores, empréstimos ou promessas vazias. O aluguel estaria quitado. O cartão de crédito deixaria de ser um lembrete diário do meu fracasso recente e, talvez, pela primeira vez em meses, eu conseguiria mandar um pouco de dinheiro para minha mãe, lá no norte de Minas, sem sentir culpa por não fazer mais.
Levantei da cama com esse pensamento aquecendo o peito. Abri a janela do pequeno apartamento na República, esperando que o sol invadisse o espaço e confirmasse aquele recomeço. Mas o que encontrei foi um céu pesado, cinza, baixo demais para um dia que prometia tanto. O vento gelado entrou sem pedir licença, trazendo consigo um frio que parecia atravessar os ossos. Era início de junho, eu sabia. O inverno ensaiava sua chegada, ainda assim, aquele dia tinha um gosto estranho. Fechei a janela rápido, como se pudesse afastar a sensação incômoda de que nem todo recomeço nasce sob céu azul.
Preparei um chocolate quente, pequeno luxo que eu me permitia nos dias difíceis e me sentei em frente ao notebook. Se eu ia começar uma nova vida na segunda-feira, precisava conhecer melhor o mundo que estava prestes a entrar.
Digitei: Arthur Montenegro.
Em segundos, a tela se encheu de manchetes. Muitas. Demais. Eu sabia que ele era um CEO conhecido, mas não estava preparada para aquilo. Escândalos financeiros, investigações abafadas, suspeitas que nunca avançavam. Um sobrenome repetido tantas vezes que parecia gritar poder. Assassinato. Estelionato. Sonegação de impostos. Sempre as mesmas palavras, sempre acompanhadas de “supostamente” e “sem provas conclusivas”. Os Montenegro não eram apenas ricos. Eram intocáveis.
Li tudo com atenção, sentindo um aperto lento se formar no estômago. Cada nova matéria despertava uma mistura de curiosidade e receio. Que tipo de homem eu estava prestes a servir? Que tipo de casa escondia tantos segredos por trás de portões altos e jardins impecáveis? Talvez eu tivesse fechado o notebook ali. Talvez tivesse me convencido de que aquilo não importava, mas continuei lendo, como se alguma parte de mim precisasse confirmar algo que ainda não sabia nomear.
Foi o toque abrupto do celular que me trouxe de volta. Dei um pulo na cadeira, o coração acelerado, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. No visor, o nome que sempre surgia nos momentos decisivos da minha vida: Adriana. Antes que eu pudesse atender, a ligação caiu. Uma mensagem chegou quase no mesmo instante. “Amiga, estou na sua portaria. Vim saber absolutamente tudo sobre esse emprego novo.”
Sorri, apesar do aperto no peito. Adriana era assim: intensa, curiosa, minha âncora quando o mundo parecia pesado demais. Levantei-me para pegar a bolsa, mas algo caiu no chão. Um papel dobrado, que eu não lembrava de ter guardado ali. Ao desdobrá-lo, meu corpo inteiro congelou. Era uma cópia antiga de um boletim de ocorrência. O mesmo sobrenome que eu acabara de pesquisar estampado no topo da folha. Montenegro.
E, naquele instante, entendi que meu novo emprego não era apenas um recomeço. Era um retorno ao passado que eu jamais imaginei reencontrar. Guardei o papel imediatamente, não queria que minha amiga visse aquilo. É claro que ela iria tentar me fazer desistir do emprego, mas depois de tanto tempo procurando emprego eu não iria desistir assim tão fácil.
Fechei a bolsa com mais força do que o necessário e respirei fundo antes de sair. O elevador parecia mais lento naquele dia, como se também quisesse me dar tempo para pensar. Quando cheguei à portaria, Adriana estava encostada no balcão, falando sem parar com o porteiro, gesticulando como se estivesse no meio de uma novela.
— Finalmente! — ela exclamou assim que me viu — Achei que você tinha desistido de mim por causa do CEO misterioso.
— Dramática — respondi, tentando sorrir com naturalidade — Entra, antes que o frio congele seus ossos.
Subimos juntas. Adriana se jogou no sofá como se aquele apartamento também fosse dela, tirou o casaco e me encarou com aquele olhar que eu conhecia bem demais. O olhar de quem não vinha apenas ouvir, vinha investigar.
— Então… — ela cruzou as pernas — Começa do começo. Quem é ele, quanto paga e por que você está com essa cara de quem viu um fantasma?
Fui até a cozinha, mais para ganhar tempo do que por necessidade, e coloquei água para ferver. Minhas mãos tremiam levemente, e eu odiei o fato de Adriana perceber.
— O salário é bom — comecei — Bom de verdade. Benefícios, carteira assinada, tudo certinho.
— Milagre — ela ironizou — E o tal Arthur Montenegro?
— Um CEO poderoso. Rico. Influente. Dono de um sobrenome que abre portas… e fecha bocas — Suspirei.
— Tá, isso soou perigosamente suspeito — ela disse, se levantando e vindo até a cozinha — Você pesquisou, né? Eu conheço essa sua cara.
Assenti, apoiando as mãos na pia.
— Pesquisei. E não gostei do que vi.
— O quê exatamente?
Hesitei por alguns segundos. Não podia contar tudo. Não ainda. Não o papel, não o passado, mas também não conseguia mentir completamente para ela.
— Escândalos. Coisas mal explicadas. Processos que nunca deram em nada — falei — Gente poderosa demais para ser tocada.
Adriana ficou em silêncio por um instante, algo raro. Depois, falou mais baixo.
— Amiga… isso é o tipo de emprego que cobra um preço. Você sabe disso, né?
— Eu sei — respondi rápido — Mas eu também sei o preço de continuar como eu estava. Endividada, humilhada, pedindo ajuda para sobreviver.
— Eu só tenho medo de você se machucar de novo — Ela se aproximou e segurou meu braço com cuidado.
— Eu também tenho — confessei — Mas não posso viver fugindo para sempre.
Engoli em seco. A chaleira apitou, quebrando o clima pesado. Preparei o café em silêncio, sentindo o olhar dela sobre mim. Quando entreguei a xícara, Adriana suspirou.
— Você está diferente — disse — Mais firme… e mais assustada.
— Talvez seja assim que a gente recomeça — respondi — Com coragem e medo andando juntos.
Arthur MontenegroAlguns anos se passaram desde aquela noite em que tudo pareceu finalmente se encaixar. E, de certa forma, se encaixou mesmo. A vida não ficou perfeita, nunca fica, mas encontrou um equilíbrio que, por muito tempo, eu achei que não existia para mim. Hoje, quando acordo, não estou mais com o peso de resolver o mundo antes do café. É com o som da casa viva, minha princesa Lavínia e Theo tomando café e procurando meias pela casa. Ele nunca sabe onde estão.Lavínia chora no quarto ao lado, exigindo atenção com a autoridade de quem acabou de chegar ao mundo e já entende que é o centro dele. Theo, agora um adolescente, reclama do barulho enquanto tenta manter a pose de quem já cresceu, mas ainda desce para o café com o cabelo bagunçado e a mesma mania de falar demais.E a Lívia… A Lívia escolheu desacelerar.Não foi uma decisão impulsiva, nem fácil. Eu vi o quanto ela pensou, o quanto pesou cada detalhe antes de decidir se afastar da empresa. Mas, quando ela finalmente diss
Lívia RochaEu nunca tive tanto medo de uma resposta quanto naquele dia em que voltei para casa com Arthur ao meu lado. O caminho parecia mais curto do que antes, mas a urgência dentro de mim fazia tudo acelerar, e mesmo com a mão dele firme segurando a minha, havia algo que eu sabia que precisava enfrentar por conta própria. Quando paramos em frente à casa, ele me olhou por um segundo e disse em voz baixa: — Eu tô aqui, independente do que vier.Eu apenas assenti, porque qualquer palavra naquele momento parecia pequena demais. Quando a porta se abriu, minha mãe não sorriu, e aquilo foi suficiente para me preparar para o que viria.— Oi, filha… — ela disse com a voz baixa — como foi lá?A mansão parecia menor, mais silenciosa, como se estivesse carregando tudo o que ainda não tinha sido dito, parecia não caber nós três no mesmo espaço. Sentamos e Arthur ficou mais ao fundo, atento, mas respeitando o momento, e minha mãe respirou fundo antes de começar.— Eu não vou esconder nada de vo
Capitulo 66Lívia RochaEu não sabia que o silêncio podia ser tão barulhento até entrar naquela delegacia. O cheiro de café velho, papel e tensão grudava na pele. Cada passo que eu dava parecia ecoar mais alto que o normal, como se o lugar inteiro soubesse exatamente por que eu estava ali. Arthur caminhava ao meu lado, firme, mas eu conhecia aquele silêncio… não era calma.— Fica perto de mim — ele disse baixo, sem me olhar.Assenti, mas a verdade é que eu já estava perto demais de tudo aquilo. Fomos levados até uma sala de espera fria, com cadeiras duras e luz pálida. O tipo de luz que não acolhe, mas expõe. Um investigador se aproximou, falando com Arthur em tom técnico, direto, cheio de termos que deveriam me tranquilizar, mas faziam o oposto.— Conseguimos mais do que o esperado — ele disse — mas ele… não está colaborando.Claro que não. Lauro Montenegro nunca colaborava. Ele controlava.— Eu quero vê-lo — falei, antes mesmo de pensar.Arthur virou o rosto na minha direção, o olha
Lívia RochaA viagem de volta foi silenciosa. Diferente da ida… minha mente não estava mais em desespero, mas também não estava em paz. Era como se eu tivesse recolhido pedaços importantes, mas ainda não soubesse exatamente onde encaixá-los. Quando o ônibus finalmente parou, meu coração apertou de um jeito estranho.E então eu o vi Arthur encostado no carro, postura firme, olhar atento, como se estivesse ali há horas. Assim que me viu, ele se endireitou e naquele instante tudo em mim relaxou. Desci com a mala pequena na mão, mas antes mesmo de dar dois passos, ele já estava na minha frente sem dizer nada me puxou para um abraço forte, seguro e necessário. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o cheiro dele, o calor, a presença.
Lívia RochaDepois que minha mãe saiu daquela forma, a casa nunca mais pareceu a mesma. O silêncio ganhou outro significado, não era mais apenas ausência de som… era ausência dela e, ainda assim, a vida não parou. Talvez essa tenha sido a parte mais estranha de tudo. Mesmo com o caos emocional, com a tensão ainda pairando entre nós, com a sombra de Lauro Montenegro rondando nossos pensamentos… a rotina continuou. Arthur continuou indo para a empresa todos os dias. Eu continuei cuidando da casa, de Theo, das finanças, tentando manter tudo em ordem como se aquilo fosse suficiente para segurar o mundo no lugar. E Theo…Theo era o nosso respiro, a nossa âncora. Naquela semana, ele falava de uma coisa só, a formatura.&md
Lívia RochaDepois que minha mãe saiu daquela forma, a casa nunca mais pareceu a mesma. O silêncio ganhou outro significado, não era mais apenas ausência de som… era ausência dela e, ainda assim, a vida não parou. Talvez essa tenha sido a parte mais estranha de tudo. Mesmo com o caos emocional, com a tensão ainda pairando entre nós, com a sombra de Lauro Montenegro rondando nossos pensamentos… a rotina continuou. Arthur continuou indo para a empresa todos os dias. Eu continuei cuidando da casa, de Theo, das finanças, tentando manter tudo em ordem como se aquilo fosse suficiente para segurar o mundo no lugar. E Theo…Theo era o nosso respiro, a nossa âncora. Naquela semana, ele falava de uma coisa só, a formatura.&md







