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Capitulo 2

last update publish date: 2025-12-16 06:23:58

Acordei naquela manhã de sábado com uma animação que eu já não reconhecia em mim. Era estranho sentir esperança depois de quase seis meses convivendo com a palavra não. Não contratamos. Não agora. Não se encaixa. Mas agora, sim. Dentro de dois dias, eu deixaria de ser a mulher que contava moedas e passaria a ser alguém que pagaria as próprias contas. Meus boletos não dependeriam mais de favores, empréstimos ou promessas vazias. O aluguel estaria quitado. O cartão de crédito deixaria de ser um lembrete diário do meu fracasso recente e, talvez, pela primeira vez em meses, eu conseguiria mandar um pouco de dinheiro para minha mãe, lá no norte de Minas, sem sentir culpa por não fazer mais.

Levantei da cama com esse pensamento aquecendo o peito. Abri a janela do pequeno apartamento na República, esperando que o sol invadisse o espaço e confirmasse aquele recomeço. Mas o que encontrei foi um céu pesado, cinza, baixo demais para um dia que prometia tanto. O vento gelado entrou sem pedir licença, trazendo consigo um frio que parecia atravessar os ossos. Era início de junho, eu sabia. O inverno ensaiava sua chegada, ainda assim, aquele dia tinha um gosto estranho. Fechei a janela rápido, como se pudesse afastar a sensação incômoda de que nem todo recomeço nasce sob céu azul.

Preparei um chocolate quente, pequeno luxo que eu me permitia nos dias difíceis e me sentei em frente ao notebook. Se eu ia começar uma nova vida na segunda-feira, precisava conhecer melhor o mundo que estava prestes a entrar.

Digitei: Arthur Montenegro.

Em segundos, a tela se encheu de manchetes. Muitas. Demais. Eu sabia que ele era um CEO conhecido, mas não estava preparada para aquilo. Escândalos financeiros, investigações abafadas, suspeitas que nunca avançavam. Um sobrenome repetido tantas vezes que parecia gritar poder. Assassinato. Estelionato. Sonegação de impostos. Sempre as mesmas palavras, sempre acompanhadas de “supostamente” e “sem provas conclusivas”. Os Montenegro não eram apenas ricos. Eram intocáveis.

Li tudo com atenção, sentindo um aperto lento se formar no estômago. Cada nova matéria despertava uma mistura de curiosidade e receio. Que tipo de homem eu estava prestes a servir? Que tipo de casa escondia tantos segredos por trás de portões altos e jardins impecáveis? Talvez eu tivesse fechado o notebook ali. Talvez tivesse me convencido de que aquilo não importava, mas continuei lendo, como se alguma parte de mim precisasse confirmar algo que ainda não sabia nomear.

Foi o toque abrupto do celular que me trouxe de volta. Dei um pulo na cadeira, o coração acelerado, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. No visor, o nome que sempre surgia nos momentos decisivos da minha vida: Adriana. Antes que eu pudesse atender, a ligação caiu. Uma mensagem chegou quase no mesmo instante. “Amiga, estou na sua portaria. Vim saber absolutamente tudo sobre esse emprego novo.”

Sorri, apesar do aperto no peito. Adriana era assim: intensa, curiosa, minha âncora quando o mundo parecia pesado demais. Levantei-me para pegar a bolsa, mas algo caiu no chão. Um papel dobrado, que eu não lembrava de ter guardado ali. Ao desdobrá-lo, meu corpo inteiro congelou. Era uma cópia antiga de um boletim de ocorrência. O mesmo sobrenome que eu acabara de pesquisar estampado no topo da folha. Montenegro.

E, naquele instante, entendi que meu novo emprego não era apenas um recomeço. Era um retorno ao passado que eu jamais imaginei reencontrar. Guardei o papel imediatamente, não queria que minha amiga visse aquilo. É claro que ela iria tentar me fazer desistir do emprego, mas depois de tanto tempo procurando emprego eu não iria desistir assim tão fácil.

Fechei a bolsa com mais força do que o necessário e respirei fundo antes de sair. O elevador parecia mais lento naquele dia, como se também quisesse me dar tempo para pensar. Quando cheguei à portaria, Adriana estava encostada no balcão, falando sem parar com o porteiro, gesticulando como se estivesse no meio de uma novela.

— Finalmente! — ela exclamou assim que me viu — Achei que você tinha desistido de mim por causa do CEO misterioso.

— Dramática — respondi, tentando sorrir com naturalidade — Entra, antes que o frio congele seus ossos.

Subimos juntas. Adriana se jogou no sofá como se aquele apartamento também fosse dela, tirou o casaco e me encarou com aquele olhar que eu conhecia bem demais. O olhar de quem não vinha apenas ouvir, vinha investigar.

— Então… — ela cruzou as pernas — Começa do começo. Quem é ele, quanto paga e por que você está com essa cara de quem viu um fantasma?

Fui até a cozinha, mais para ganhar tempo do que por necessidade, e coloquei água para ferver. Minhas mãos tremiam levemente, e eu odiei o fato de Adriana perceber.

— O salário é bom — comecei — Bom de verdade. Benefícios, carteira assinada, tudo certinho.

— Milagre — ela ironizou — E o tal Arthur Montenegro?

— Um CEO poderoso. Rico. Influente. Dono de um sobrenome que abre portas… e fecha bocas — Suspirei.

— Tá, isso soou perigosamente suspeito — ela disse, se levantando e vindo até a cozinha — Você pesquisou, né? Eu conheço essa sua cara.

Assenti, apoiando as mãos na pia.

— Pesquisei. E não gostei do que vi.

— O quê exatamente?

Hesitei por alguns segundos. Não podia contar tudo. Não ainda. Não o papel, não o passado, mas também não conseguia mentir completamente para ela.

— Escândalos. Coisas mal explicadas. Processos que nunca deram em nada — falei — Gente poderosa demais para ser tocada.

Adriana ficou em silêncio por um instante, algo raro. Depois, falou mais baixo.

— Amiga… isso é o tipo de emprego que cobra um preço. Você sabe disso, né?

— Eu sei — respondi rápido — Mas eu também sei o preço de continuar como eu estava. Endividada, humilhada, pedindo ajuda para sobreviver.

— Eu só tenho medo de você se machucar de novo — Ela se aproximou e segurou meu braço com cuidado.

— Eu também tenho — confessei — Mas não posso viver fugindo para sempre.

Engoli em seco. A chaleira apitou, quebrando o clima pesado. Preparei o café em silêncio, sentindo o olhar dela sobre mim. Quando entreguei a xícara, Adriana suspirou.

— Você está diferente — disse — Mais firme… e mais assustada.

— Talvez seja assim que a gente recomeça — respondi — Com coragem e medo andando juntos.

Adriana sorriu de leve, mas seus olhos ainda carregavam a preocupação que, apesar do tempo, nunca se afastava de nós. Sempre foi assim. Desde que nos conhecemos, éramos duas almas que se entenderam sem palavras, conectadas pela dor, pela luta e pela vontade de não sucumbir. Nos encontramos quando eu ainda era uma jovem cheia de incertezas, tentando equilibrar meus medos e minhas ambições. Adriana apareceu como um anjo disfarçado de amiga, alguém que sabia exatamente o que era precisar de alguém sem ter para quem correr.

Nosso laço se formou com base na confiança que cresce naqueles momentos silenciosos de vulnerabilidade, onde palavras são desnecessárias e o apoio é dado apenas pela presença. Ela esteve comigo nas noites mais escuras, quando eu não sabia se conseguiria me levantar. E, assim como eu a ajudei a lidar com os fantasmas dela, ela me mostrou que a força verdadeira não era a que vinha do medo de falhar, mas a que vinha de estar disposta a recomeçar, mesmo sem saber para onde se estava indo.

— Promete uma coisa? — ela perguntou, a voz suave, mas firme, como se fosse a última chance de me salvar antes de eu me perder de novo.

— O quê? — respondi, sabendo que sua pergunta tinha mais peso do que qualquer outra coisa que ela pudesse me pedir.

— Se sentir que algo está errado, você sai. Sem tentar ser forte sozinha.

Eu sabia que o "sozinha" não era apenas uma palavra. Era a essência do que tínhamos sido um para o outro: nunca sozinhas. Nunca abandonadas.

— Prometo — disse, com a certeza que só a verdadeira amizade pode oferecer.

Adriana me abraçou com força, daquele jeito que apertava e protegia ao mesmo tempo, como se pudesse me blindar de todas as inseguranças que me assolavam naquele momento. Enquanto eu retribuía o abraço, senti o peso do papel escondido na bolsa, aquele lembrete silencioso de que algumas promessas seriam mais difíceis de cumprir do que eu gostaria de admitir.

Pela primeira vez, percebi que aquele emprego não era apenas sobre minha necessidade de dinheiro ou sobre ter uma nova chance de recomeçar. Era sobre tudo o que eu havia enterrado para conseguir seguir em frente, sobre a parte de mim que ainda não estava pronta para enfrentar o que estava por vir. E, mais uma vez, Adriana me dava o alicerce necessário para me lembrar de que não estava sozinha, mesmo quando o medo de falhar parecia querer tomar conta de tudo.

Naquele abraço, entendi que, enquanto ela estivesse ao meu lado, as promessas não seriam feitas para serem quebradas, mas para serem cumpridas — com a força de quem sabe que, juntas, podemos enfrentar qualquer tempestade.

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