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Capitulo 3

last update 게시일: 2025-12-16 06:24:22

O grande portão da casa dos Montenegro se abriu em silêncio, lento demais. Faltava cinco minutos para as seis da manhã. Minha mãe sempre dizia, em um trabalho, chegar na hora marcada é considerado atraso. Então, eu preferia chegar alguns minutos antes. Desci do carro com a postura mais firme que consegui reunir naquela manhã e ajeitei a bolsa no ombro, tentando ignorar o peso invisível do passado que eu carregava comigo. Apertei a campainha, mas alguém só veio abrir a gigante porta de madeira, as seis em ponto.

A fachada da era imponente. Vidros espelhados, jardim milimetricamente aparado, nada fora do lugar. Aproveitei para observar tudo ao redor. Aquele espaço não fazia parte da minha realidade suburbana. Por dentro, o cheiro era de limpeza recente e dinheiro antigo. Fui recebida por Berta, a governanta.

— Seja bem-vinda, Lívia — ela já me recebeu com intimidade de colegas de trabalho — O senhor Montenegro já saiu para o trabalho. Vou lhe apresentar o Théo.

Assenti, seguindo-a por um corredor amplo demais para uma casa onde morava apenas um homem e uma criança. Théo estava na sala de brinquedos, sentado no chão, concentrado em montar algo que parecia um castelo torto de blocos coloridos.

— Théo, essa é a Lívia. Ela vai ficar com você a partir de hoje — disse Berta, com doçura ensaiada.

Ele levantou os olhos devagar. Tinha um olhar curioso, atento, sério demais para seus cinco anos.

— Você vai embora também? — perguntou, direto, sem rodeios. Com seu lindo sotaque sulista.

— Não — respondi com um sorriso sincero — Eu vou ficar — respondi, pois já sabia o motivo da pergunta.

Ele me estudou por alguns segundos, como se estivesse decidindo se podia confiar. Depois voltou ao castelo. Berta fez uma cara de “Eu Duvido”. E saiu resmungando.

— Pode sentar-se, se quiser — Théo me convidou.

Senti uma abertura do garoto, para que eu pudesse me familiarizar. Sentei-me no chão ao lado dele, sobre o carpete caro.

— Isso é um castelo ou uma fortaleza? — perguntei, puxando assunto.

— Fortaleza — respondeu — Castelos caem fácil.

Sorri, sem saber exatamente por quê. A manhã passou surpreendentemente tranquila. Théo falava pouco, mas observava tudo. Aos poucos, foi se soltando. Contou sobre a escola, sobre como odiava matemática e sobre o balanço do jardim, que ele só podia usar quando o pai não estava em casa.

— Por quê? — perguntei, curiosa. Ele deu de ombros.

— Porque o papai não gosta que eu fique lá fora.

Antes que eu pudesse perguntar mais, passos firmes ecoaram pelo corredor. Arthur Montenegro surgiu à porta da sala, imponente como as manchetes que eu havia lido. Terno impecável, expressão fechada, presença que ocupava o espaço sem pedir licença.

— Bom dia — disse, olhando rapidamente para mim e depois para o filho — Théo, já te disse que não gosto que você faça bagunça antes do almoço.

Théo abaixou a cabeça. Algo em mim se retesou.

— Bom dia, senhor Montenegro — respondi, levantando-me e ajeitando a blusa — Eu estava ajudando-o a guardar.

— Ótimo. Lívia, preciso ser claro desde o início — disse, com a voz firme — Existem regras nesta casa. E a principal é: Théo não sai. Em hipótese alguma. Nem para o jardim, nem para a rua. Entendido? — perguntou me encarando tão firme que meu corpo estremeceu.

— Sim, senhor — respondi, mesmo sentindo o incômodo crescer.

Ele assentiu e saiu, como se o assunto estivesse encerrado. Minutos depois, enquanto organizávamos os brinquedos, Théo puxou minha manga.

— Você pode me levar lá fora? Só um pouco. No balanço.

Olhei para a porta de vidro que dava para o jardim. O dia estava bonito, o sol tímido, o vento leve. Nada ali parecia perigoso. Nada, exceto a ordem ecoando na minha cabeça.

— Seu pai disse que não — respondi, tentando manter a voz suave.

— Ele sempre diz — retrucou — Mas ele nunca está.

Hesitei. E odiei a rapidez com que a empatia venceu o medo.

— Só no jardim — murmurei — E se ele voltar, a gente entra. Combinado?

Os olhos de Théo brilharam como se eu tivesse lhe dado o maior presente do mundo. No balanço, ele finalmente riu. Um riso solto, infantil, livre. E foi ali que Arthur Montenegro nos encontrou.

— O que está acontecendo aqui? — a voz dele cortou o ar.

Meu corpo inteiro gelou. Théo parou o balanço imediatamente. Eu acreditava que ele já teria saído naquele momento, mas ele nos surpreendeu.

— Eu mandei você não sair com ele — disse Arthur, agora olhando diretamente para mim — Isso foi uma ordem.

Respirei fundo. Sabia que aquele momento definiria muito mais do que meu primeiro dia. Ele pegou o braço do garoto e puxou para levá-lo para dentro.

— Pai, me deixa ficar, só um pouquinho. A moça vai cuidar de mim.

— Théo! Regra é regra. Se você não se acostumar com regras agora, como será um profissional dedicado no futuro?

O garotinho abaixou a cabeça com os olhos cheios de lágrimas. Isso cortou meu coração. Eu não podia deixar aquilo acontecer.

— Com todo respeito, senhor Montenegro — comecei sentindo o coração acelerar — estamos no jardim da casa. Théo precisa de ar, de espaço. Ele não estava fazendo nada de errado.

— Não cabe a você decidir isso — retrucou, duro — Você foi contratada para obedecer.

— Eu fui contratada para cuidar — respondi, a voz firme apesar do medo. — E cuidar também é ouvir, observar e proteger. Inclusive emocionalmente.

Arthur me encarou como se eu tivesse cruzado uma linha invisível. O silêncio cortou o ar, pareceu durar horas.

— Entre. Agora — ordenou a Théo.

Ele obedeceu, cabisbaixo. Arthur se voltou para mim.

— Com quem você pensa que está falando? — ele me encarou firme — isso não pode se repetir.

— Então talvez precisemos conversar sobre o que significa cuidado — respondi, antes que pudesse me conter.

Ele não disse nada. Apenas virou as costas. Fiquei ali, sozinha no jardim, com a certeza incômoda de que aquele emprego seria tudo, menos simples. E que, naquele primeiro dia, eu já tinha feito algo irreversível, eu não tinha apenas entrado na casa dos Montenegro. Eu tinha desafiado o dono dela. E tive certeza naquele momento que estava desempregada, DE NOVO.

Fiquei em casa a noite toda ao lado do telefone, com a certeza de que em algum momento alguém iria me ligar para me demitir do emprego. Afinal, eu tinha desrespeitado uma das grandes regras do senhor Montenegro. Fiquei tanto tempo encarando o celular que acabei pegando no sono. Talvez aquele dia tivesse sido mais cansativo do que eu tinha imaginado que seria.

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