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Ayla Valen-
A lua estava vermelha. Nunca gostei quando ela ficava assim. Minha avó dizia que a Lua Sangrenta despertava os instintos mais antigos dos lobos. Que segredos enterrados podiam voltar à superfície. Que promessas esquecidas encontravam um jeito de cobrar seu preço. Sempre achei exagero. Mas, naquela noite, meu coração batia rápido demais para ser apenas nervosismo. Respirei fundo enquanto observava meu reflexo no espelho. O vestido branco marcava minha cintura e descia em camadas leves até os pés. Meu cabelo escuro caía em ondas pelas costas, preso apenas por uma pequena presilha de prata em forma de lua. Minha avó entrou no quarto sem bater. — Você está linda. Sorri de lado. — Você é obrigada a dizer isso. Ela caminhou até mim e segurou meu rosto entre as mãos. — Não. Estou dizendo porque é verdade. Os olhos dela demoraram um pouco mais que o normal sobre mim. Como se quisesse gravar meu rosto na memória. Aquilo me deixou desconfortável. — O que foi? Ela piscou algumas vezes antes de sorrir. — Nada. Mentira. Conheço minha avó desde que me entendo por gente. Sempre que ela dizia "nada", significava exatamente o contrário. — Vó... Ela apenas ajeitou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Independentemente do que acontecer hoje... nunca deixe ninguém dizer quanto você vale. Franzi a testa. — Você está estranha. Ela riu baixo. — Estou velha. — Dramática. — Também. Acabei rindo. Era impossível não rir com ela. Minha avó me abraçou forte. Forte demais. Quando se afastou, seus olhos estavam marejados. — Vai. Antes que eu pergunte qualquer coisa, ela saiu do quarto. Fiquei olhando a porta fechada. Aquilo não fazia sentido. Todos estavam felizes com a cerimônia daquela noite. Era o dia em que Ethan Blackwood finalmente escolheria sua companheira diante da alcateia. E todos esperavam que fosse eu. Inclusive eu. Conheci Ethan quando éramos crianças. Enquanto os outros meninos implicavam comigo por eu ser menor e mais lenta nas transformações, ele sempre aparecia. Nem sempre dizia alguma coisa. Às vezes apenas ficava ali. Era suficiente. Com o passar dos anos, nossa amizade mudou. Começamos a treinar juntos. A correr juntos. A dividir silêncios. Nunca houve uma declaração. Não era necessário. Os olhares falavam por nós. Ou pelo menos era o que eu acreditava. Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos. — Posso entrar? Sorri antes mesmo de responder. — Mirella. Ela entrou como um furacão, segurando a barra do vestido para não tropeçar. — Eu sabia que você ainda estaria aqui! Ela parou na minha frente. Depois arregalou os olhos. — Pela Deusa... você está maravilhosa. — Você também. Ela girou mostrando o vestido verde-musgo. — O meu é bonito. O seu vai fazer o Alfa esquecer como respirar. Revirei os olhos. — Para. — Estou falando sério. Ela segurou minhas mãos. — Você está nervosa? Pensei alguns segundos. — Um pouco. — Normal. — E se... As palavras morreram antes de saírem. Ela arqueou uma sobrancelha. — E se o quê? Balancei a cabeça. — Esquece. Ela apertou minha mão. — Ethan olha para você como se o resto do mundo desaparecesse. Vai dar tudo certo. Sorri, mas aquele aperto estranho continuava dentro do peito. Nos últimos dias, algumas coisas estavam... diferentes. Eu acordava cansada. Meu estômago embrulhava logo cedo. Achei que fosse ansiedade. Nada além disso. Ou pelo menos tentei acreditar. Saímos do quarto e caminhamos até o grande salão da alcateia. As tochas iluminavam as paredes de pedra. Músicas antigas ecoavam pelo lugar. Lobos de todas as famílias conversavam animados. Assim que entrei, dezenas de olhares se voltaram para mim. Alguns sorriram. Outros apenas cochicharam. Ignorei. Era impossível agradar todo mundo. Meus olhos encontraram Ethan do outro lado do salão. Ele estava usando as roupas tradicionais da cerimônia. Bonito como sempre. Por um breve instante, nossos olhares se cruzaram. Mas... Havia alguma coisa diferente. Ele não sorriu. Não veio até mim. Apenas desviou os olhos. Meu peito apertou. Talvez estivesse nervoso. Era o dia mais importante da vida dele também. Continuei andando. Foi quando um perfume invadiu minhas lembranças. Madeira. Chuva. E hortelã. Meu corpo inteiro congelou. Aquela fragrância... Eu conhecia. Só não fazia ideia de onde. Fechei os olhos por um segundo. Então uma imagem atravessou minha mente. Uma mão grande segurando a minha. Um peito quente contra minhas costas. Uma voz grave, rouca, sussurrando perto do meu ouvido: — Você está segura. Abri os olhos de repente. A lembrança desapareceu tão rápido quanto surgiu. Levei a mão à cabeça. — Ayla? Mirella segurou meu braço. — Você ficou pálida. Forcei um sorriso. — Só foi uma tontura. Mas meu coração continuava acelerado. E, pela primeira vez desde que cheguei ao salão, tive a estranha sensação de que alguém me observava. Não era Ethan. Era um desconhecido escondido entre as sombras. Seus olhos dourados permaneceram sobre mim apenas por um instante. Quando tentei encontrá-lo novamente... Ele havia desaparecido.Não consegui voltar a dormir depois que Kael me contou sobre a profecia.Havia coisas demais acontecendo ao mesmo tempo.Meus pais.A marca.A Lua.Os gêmeos.E aquela noite.A noite que minha mente havia apagado.Fiquei olhando para o teto enquanto Kael dormia sentado na poltrona ao lado da cama.Ele insistira em ficar ali.Dissera que não queria me deixar sozinha depois do parto.Mas eu sabia que havia outro motivo.Ele também estava tentando juntar as peças.Virei o rosto para o berço.Aren dormia tranquilamente.Liora estava ao lado dele, com uma pequena mão fechada perto do rosto.Meus filhos.A profecia dizia que eles poderiam colocar fim à guerra.Mas também dizia que poderiam ser a razão para ela começar.Eu não queria que nenhum dos dois carregasse esse peso.Nem que soubessem dele.---Quando o sol começou a entrar pela janela, Kael abriu os olhos.— Você não dormiu.— Você também não.Ele passou a mão pelo rosto.— Eu dormi.— Por dez minutos.— Foram quinze.Sorri.— Você
Não consegui dormir.Ayla finalmente havia adormecido.Os gêmeos também.Fiquei sentado próximo à janela, observando os três.Minha família.A palavra ainda parecia estranha.Bonita.Perigosa.Meu olhar foi até Aren.Os pequenos olhos dourados haviam sido a primeira coisa que me fez compreender.Não havia dúvida.Ele carregava meu sangue.Mas Liora...Era ela quem me preocupava.A pequena lua crescente nas costas.E a estrela.A marca que eu conhecia desde criança.A marca que minha mãe me mostrou quando eu ainda era um garoto, explicando que aquele símbolo pertencia apenas aos descendentes diretos do nosso sangue.Nunca havia visto aquela marca em outra pessoa.Até aquela noite.— Não pode ser...Darius havia dito aquilo várias vezes.Eu também havia pensado.Mas agora, olhando para minha filha, já não conseguia fingir que era impossível.Alguma coisa havia unido nossas duas linhagens.E alguém sabia disso.---Saí do quarto sem fazer barulho.Darius estava esperando no corredor.— V
A porta se fechou depois que Darius saiu.Mas as palavras dele permaneceram no quarto.Três alcateias haviam rompido a aliança.E tudo por causa dos meus filhos.Olhei para Kael.Ele continuava parado perto da janela, de costas para mim.Seu corpo estava rígido.Conhecia aquela postura.Era a mesma que ele assumia quando tentava controlar alguma coisa dentro de si.— Kael.Ele não respondeu.— Venha aqui.Dessa vez, ele se virou.A expressão dele ainda carregava a frieza do Rei, mas seus olhos procuraram imediatamente os bebês.— Eles acabaram de nascer — falei. — Não podem começar uma guerra por causa deles.— Não será por causa deles.Ele caminhou até a cama.— Será por causa do que eles representam.Franzi a testa.— O que isso significa?Kael se sentou ao meu lado.— Significa que algumas alcateias estavam apenas esperando uma oportunidade para desafiar minha autoridade.— E nossos filhos deram essa oportunidade.Ele ficou em silêncio.A palavra nossos ainda parecia estranha e bon
A primeira coisa que senti ao acordar foi o peso. Meu corpo inteiro parecia pesado. As pernas doíam, minhas costas estavam cansadas e até respirar profundamente parecia exigir esforço. Mas havia outra coisa. Um silêncio diferente. Abri os olhos devagar. Por alguns segundos, não reconheci o quarto. Então ouvi um pequeno som. Um resmungo. Virei o rosto. Kael estava sentado em uma poltrona ao lado da cama. E tinha um bebê em cada braço. Fiquei olhando. Ele parecia completamente concentrado. O menino estava enrolado em uma manta clara, dormindo tranquilamente contra seu peito. A menina estava no outro braço, com uma das mãozinhas fechadas ao redor do dedo dele. Kael olhava para os dois como se estivesse diante de algo que não conseguia compreender. Sorri. — Você está acordado há quanto tempo? Ele levantou os olhos. — Não sei. Minha voz saiu rouca. — Você dormiu? — Um pouco. — Mentira. Um sorriso apareceu no canto de sua boca. — Talvez. Observei os dois bebês. —
Eu ainda não conseguia entender. Meu corpo estava exausto. Meus braços tremiam depois de horas de dor. Mas nada se comparava ao que acontecia dentro da minha cabeça. Olhei para o pequeno menino nos braços de Kael. Os olhos dourados. Depois para a menina, tão pequena, com a lua crescente nas costas. Minha marca. Meu coração disparou. E então aconteceu. Uma dor atravessou minha cabeça. Levei a mão à testa. — Ayla? — Kael chamou. Fechei os olhos. E a lembrança veio. Não como antes. Não fragmentada. Não como um sonho. Inteira. A floresta. A chuva. A noite. Eu correndo entre as árvores. Rindo. Minha mão presa à de um homem. Kael. Era ele. Eu sabia. Eu me virei enquanto corria. Vi seu rosto. Seus olhos dourados. O sorriso que eu não conseguia esquecer. — Você está demorando! Minha própria voz ecoou na lembrança. Kael riu. — Você não sabe nem para onde está indo. — Não preciso saber. Continuei correndo. Ele me puxou de volta. Caí contra seu peito. E e
Eu não conseguia respirar. Meu olhar permanecia preso ao pequeno corpo nos braços de Lysandra. O menino chorava. Um choro forte, indignado, vivo. Mas eram os olhos que me destruíam. Dourados. A mesma cor que eu via no espelho todas as manhãs. A mesma cor que pertencia à minha família havia gerações. A mesma cor que nenhum outro membro das alcateias possuía. Meu coração bateu violentamente. — Não... A palavra saiu quase sem som. Darius estava atrás de mim. — Kael... Levantei uma mão. Não queria ouvir. Não ainda. Porque, se alguém dissesse em voz alta aquilo que eu estava pensando, tudo mudaria. Olhei novamente para o menino. Ele abriu os olhos. Dourados. Fixos em mim. Meu lobo reagiu imediatamente. Não houve dúvida. Nenhuma hesitação. Uma certeza brutal atravessou meu corpo. Meu filho. Fechei os olhos. Não. Não podia ser. Ayla estava olhando para mim, exausta, confusa. — Kael... Eu não conseguia responder. Porque havia outra criança. A menina. Lysand







