LOGINMILENA CHRISTIAN
A caixa à minha esquerda tinha etiqueta azul.
“Roupas de cama”, lia-se na caligrafia que eu caprichara para que ficasse legível no papelão, como se organizar a própria vida em categorias cromáticas desse a ilusão de controle sobre qualquer coisa. A caixa à direita, etiqueta verde, dizia “Livros de cozinha”. Atrás de mim, empilhadas contra a parede onde a cabeceira costumava encostar antes de eu desmontá-la, havia outras sete caixas com roupas de banho, sapatos, documentos, objetos de inverno, objetos de verão e outras coisas que não sei onde colocar.
Já o colchão estava nu, eu não coloquei os lençóis porque, sinceramente, qual era o sentido? Dentro de dois dias, a cama inteira seria desmontada e levada para algum lugar — primeiro para o apartamento de Edward, depois para a casa que ainda estava em obras, depois para quem sabia onde. Trocar lençóis agora parecia um esforço tão fútil quanto pentear os cabelos antes de entrar numa piscina.
Suspirei, apertando o telefone na mão.
Já fazia vinte minutos.
Vinte minutos sentada na borda do colchão desnudo, os pés descalços tocando o piso frio do quarto, o olhar perdido nas caixas que transformavam o que havia sido meu refúgio por três anos depois do meu divórcio. Eu estava literalmente a vinte minutos com o dedo pairando sobre o nome do meu pai na lista de contatos, ensaiando frases que morriam na ponta da língua antes de serem ditas.
“Pai, vou casar.”
Não!
“Pai, tenho uma novidade.”
Pior.
“Pai, lembra daquele homem que eu havia dito que estava grávida dele a menos de dois meses atrás? Então…”
Definitivamente não!
Joguei o telefone ao lado do travesseiro — o único “item” que ainda restava na cama, como se ironicamente eu precisasse de um lembrete de que, apesar de toda a bagunça, eu ainda dormia ali — e enterrei o rosto nas mãos.
O problema não era o casamento em si.
Bem, o problema era exatamente o casamento em si, mas não da forma que alguém poderia imaginar. Meu pai não era um monstro, sempre foi o típico e cliché pai meio carrancudo, mas que muito protetor e carinhoso; do tipo que guardava as preocupações para si e as transformava em silêncios pesados se estivesse chateado, em olhares que diziam mais do que palavras, em perguntas aparentemente inocentes que, na verdade, eram armadilhas retóricas das quais não se saía vitorioso.
E eu ia ligar para ele, do nada, para dizer que ia me casar em duas semanas.
Com um homem que ele mal conhecia.
Com um homem que, tecnicamente, eu também mal conhecia, embora estivesse carregando um contrato que poderia me fazer ir à cadeia, mas que assinei de livre e espontânea vontade.
Suspirei novamente e deslizei a mão sobre a barriga. O vestido do dia inauguração havia sido trocado por um moletom velho e macio, o meu belo e maravilhoso moletom que guardo há anos porque nenhum outro abraça o meu corpo do mesmo jeito. A seda e o scarpin haviam ficado para trás com o salão iluminado e os olhares de espanto. Agora, no silêncio do meu quarto desmontado, não havia plateia, não havia Edward para me confundir e eu justificar que as péssimas decisões que tomo desde o dia em que aconteceu o jantar na casa da Ruby, fora por causa dele.
Havia apenas eu, o telefone, e a tarefa iminente de informar ao meu pai que a filha dele, aquela que sempre fora tão certinha, tão previsível, tão cuidadosa, estava prestes a fazer DE NOVO a coisa mais idiota da vida dela.
Respirei fundo.
Respirei fundo.
Peguei o telefone, desbloqueei a tela, e antes que o cérebro pudesse inventar outra desculpa, toquei no nome.
Ele atendeu na segunda chamada.
— Oi, filha. Pensava agora mesmo em você — A voz do meu pai sempre teve essa qualidade de soar como se ele estivesse a resolver um problema enquanto falava, como se a conversa fosse apenas uma das várias tarefas que ele geria simultaneamente.
Achava engraçado toda a vez que fosse falar com ele.
— Oi, pai — a minha voz saiu mais fraca do que eu queria. Limpei a garganta, endireitei os ombros mesmo sabendo que ele não podia me ver. — Tudo bem por aí?
— Tudo bem. — fez uma pausa, e eu ouvi o barulho de fundo da televisão desligando. Ele sempre desligava a televisão quando queria prestar atenção em alguma coisa. — Estava vendo um documentário, nada de mais. Parece nervosa, aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu, sim. Mas não é nada ruim, quer dizer, não é ruim. É... é apenas uma notícia.
— Você está bem? O bebê está bem? Me conte, Mila!
— Estou, pai, estou bem. Só… — Hesitei. A frase ensaiada sumiu da cabeça como água entre os dedos — olha, vou só dizer, porque se eu ficar a enrolar, vou perder a coragem.
— Perder a coragem? — Ele pareceu genuinamente confuso. — Para falar comigo? Desde quando você precisa de coragem para falar comigo?
Desde que comecei a tomar decisões que o senhor não aprovaria, pensei, mas não disse.
— Pai, eu vou me casar daqui alguns dias.
Silêncio.
Não foi um silêncio curto, daqueles que precedem uma reação imediata. Foi um silêncio longo, pesado, daqueles que se alongam por vários segundos enquanto o outro lado processa uma informação que não se encaixa em nenhuma das categorias esperadas.
— Casar — repetiu ele, finalmente. A voz não tinha entonação, basicamente uma afirmação, não uma pergunta, como se ele estivesse a testar a palavra na língua, vendo se ela fazia sentido.
— Sim.
— Mas casar com quem? Que eu não estou a perceber direito isso.
— Com o Edward.
— Edward quem?
— Edward Portman, o pai do meu filho.
Outro silêncio.
Desta vez, eu podia quase ouvir os mecanismos funcionando na cabeça dele. Edward Portman, claramente o nome não era familiar porque eu não havia feito menção do seu nome, mas mesmo assim ele estava vasculhando a memória, tentando encontrar algum registro, alguma menção, alguma ocasião em que eu pudesse ter falado sobre esse homem.
MILENA CHRISTIANO trânsito de Manhattan parece sempre durar uma eternidade, ou então eu estava muito ansiosa, porque, após muito tempo, eu tinha absoluta certeza do que precisava fazer, e no caso, seria uma coisa certa: pedir desculpas!Só de pensar nessas duas palavras, senti vontade de dar meia-volta no carro. Eu nunca havia sido boa em admitir que estava errada, não que eu preferisse durante horas, inventar justificativas absurdas e, no fim, fingir que o assunto simplesmente deixara de existir, nada disso. Todavia, em geral, eu nunca sabia muito bem o que fazer.Claro, a Milena Christian não sabe agir como uma adulta e por isso se mente em situações patéticas, tudo porque é covarde — pensei.Norman havia destruído completamente a imagem que eu insistia em alimentar de Edward, o que era irritante, porque significava que eu também havia sido injusta.Quando finalmente estacionei diante do edifício luxuoso onde ele morava, desliguei o carro e permaneci alguns segundos segurando o vol
MILENA CHRISTIAN— O Edward provavelmente não gostaria que eu comentasse isso, porque ele detesta parecer… excessivamente meloso, mas penso que deveria saber. — Ele deu uma pequena risada, como se estivesse se lembrando de alguma discussão antiga. — Este quarto já devia estar completamente pronto, na verdade.— Sim… e o que aconteceu? — Franzi o cenho.— O projeto estava fechado há quase duas semanas. Os móveis já haviam sido encomendados, as tintas escolhidas, até os fornecedores estavam contratados para a montagem. A nossa intenção era deixar tudo finalizado antes de você vir dar a olhada final.Voltei a olhar o cômodo, ligeiramente confusa.— Então por que não fizeram? — E o amigo do Edward soltou um suspiro divertido.— Porque o Edward apareceu aqui logo no dia seguinte e cancelou tudo — o meu olhar voltou imediatamente para o Norman e ele continuou. — Mandou suspender qualquer intervenção neste quarto. Perguntei se havia algum problema com o orçamento ou se ele pretendia alterar o
MILENA CHRISTIAN— “Bom dia, Edward, estou indo agora para a obra”.O celular vibrou na minha mão enquanto eu ainda estava no carro com o motor ligado e o GPS já programado, afastei-me ligeiramente para abrir a notificação e ver que era a resposta de Edward, a primeira em uma semana.“Ok.”Apenas isso, um “OK” seco, sem vírgulas, sem emojis e nenhum toque pessoal que todo mundo costuma colocar nas mensagens. Era como se ele estivesse respondendo por obrigação e a conversa fosse um item a ser marcado numa lista de tarefas que ele havia enrolado já há tempo. Olhei para a mensagem por um longo momento, os dedos apertando o volante. Bem, não era o que eu esperava. Edward estava distante, e eu não sabia como chegar até ele, começava a entender o sentimento dele para comigo. Mas não era a hora de focar nisso, primeiro, a obra.Liguei o carro e saí do estacionamento, deixando o bairro familiar para trás. O trajeto até a nova casa levaria uns quarenta minutos, tempo suficiente para eu pensa
MILENA CHRISTIANA semana inteira havia sido um exercício de paciência, e não exatamente da minha parte.As palavras de Edward ainda ecoavam na minha cabeça como uma música que eu não conseguia parar de ouvir, repetindo-se em loop nos momentos mais inoportunos: no meio de uma reunião, enquanto eu tomava banho, quando tentava dormir e o silêncio da casa se tornava ensurdecedor, ainda mais porque a minha TV estava embalada e eu não conseguia ver televisão de jeito nenhum, ou até mesmo, enquanto eu estivesse comendo despreocupadamente.“ — Sim, se trata. Serei o seu marido por um ano e parece que está sempre procurando um jeito de não fazer parte disso — falou um pouco mais alto, mas logo em seguida fechou os olhos e respirou fundo antes de voltar a falar: — Muito mais dos meus interesses, eu quero ajudá-la, mas você não permite, só vê más intenções em todos os meus atos.”“ — Eu não faço isso…” eu havia dito, fraca, defensiva.“ — Sabes que o faz, e eu acho injusto porque não sou o Enri
MILENA CHRISTIAN— Ah, provavelmente você tem razão. Ainda mais, tenho três anos de férias acumuladas, acho que está mais do que na hora de finalmente tirar elas de uma vez.— Viu só? Admiro muito o fato de você ser capaz de ter ficado três anos sem nenhum descanso, é impressionante.— Não por boas razões — comentei, a fazendo lembrar de ter feito isso por estar atrelada ao Enrique, não por só amar o meu trabalho.— Ah, verdade. — Estou indo em um almoço de trabalho. Marca o ultrassom ou vou perseguir-te, Milena.— Eu vou, eu vou, prometo. Bom trabalho!— Obrigada, igualmente. XOXO.Guardei o celular na bolsa enquanto abanava a cabeça pouco acreditando, e em seguida olhei pela janela. As ruas da fria cidade nova-iorquina passavam devagar, os prédios antigos se misturando com algumas lojas modernas, e a luz cinzenta da manhã de inverno iluminando tudo com suavidade.— Ruby quer ir ao ultrassom comigo — revelei, mais para mim mesma do que para ele. — Daqui a duas semanas, mais ou menos
MILENA CHRISTIANO carro do Edward era tão ele que quase doía, embora eu já tivesse me acostumado a essa sensação. Não que eu andasse nele com frequência — longe disso —, mas a primeira vez já tinha sido o suficiente para gravar na memória o cheiro do couro, o ronco baixo do motor e a forma como os bancos são bem confortáveis.Edward dirigia com uma mão no volante, a outra apoiada no apoio de braço central e os olhos fixos na estrada. O silêncio entre nós era confortável e isso incomodava-me menos agora, porque muito antes dele aparecer na minha vida, eu sempre gostei de degustar da solitude, se bem que às vezes era mais melancólica do que de fato confortável.Peguei o celular novo na bolsa e durante o caminho fiquei a transferir todos os ficheiros do celular antigo, já que, felizmente, eu tinha a bela mania de, nos meus tempos livres, guardar arquivos na nuvem.Graças a Deus, esse meu hobby estranho havia me trazido frutos agora.Abri as mensagens que haviam ficado paradas no tempo d







