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Capítulo 2

Autor: Nuvem Verde
Peguei o celular e abri meu e-mail.

A mensagem mais recente era da Comissão Organizadora do Prêmio Lume.

"Devido à presença de elementos alheios à obra, que comprometeram sua integridade visual e violaram as regras da avaliação anônima, sua participação na edição deste ano foi cancelada."

Ergui a tela diante de Camila.

O sorriso dela desapareceu aos poucos.

Logo depois, seus olhos ficaram vermelhos.

— Esses jurados não têm senso de humor? Como eu ia saber que eram tão rígidos?

Ela fungou, parecendo cada vez mais magoada.

— Eu só queria que você relaxasse um pouco. Você vive de cara fechada por causa desse concurso. Quem aguenta? Mariana, para de olhar assim pra mim. Se for preciso, eu pago a taxa de inscrição.

Rafael puxou Camila para trás de si.

Ele já estava acostumado a fazer aquilo.

Era como se, sempre que ela chorasse, eu automaticamente me tornasse a pessoa que deveria ceder.

— Mari. — O tom de Rafael ficou mais sério. — A Cami não fez isso de propósito. Ela estragou tudo, mas só queria ajudar.

Olhei para ele.

— Eu perdi a chance de concorrer.

— Se não deu este ano, tenta no próximo. — Rafael franziu a testa. — Você é talentosa. Um ano vai fazer tanta diferença assim? Precisa mesmo constranger todo mundo desse jeito?

Escondida atrás dele, Camila acrescentou em voz baixa:

— Eu já disse que pago a taxa.

De repente, aquele apartamento pareceu pequeno demais.

Pequeno demais para comportar a arrogância deles e o pouco de dignidade que ainda me restava.

Baixei a cabeça e tirei capturas de tela do cancelamento da passagem, das conversas no grupo e do e-mail de desclassificação.

Ao perceber o que eu fazia, Rafael fechou ainda mais a cara.

— Pra que está tirando essas capturas? Vai juntar provas pra julgar a gente?

Guardei o celular, fui até a entrada e retirei minha chave reserva do chaveiro de Rafael.

Por instinto, ele segurou a argola.

— Mariana.

Dei um puxão forte, e a chave caiu na palma da minha mão.

— Vocês me dão nojo.

As lágrimas continuavam no rosto de Camila, e sua expressão era como se ela tivesse levado um tapa.

Rafael finalmente perdeu o resto da paciência.

— Se sair por essa porta hoje, não espere que eu vá atrás de você depois.

Abri a porta e saí arrastando a mala.

Antes de fechar a porta, ouvi Camila perguntar entre lágrimas:

— Ela não passou dos limites?

Rafael não respondeu de imediato.

No instante em que as portas do elevador se fecharam, recebi uma mensagem dele.

"Quando se acalmar, volte por conta própria."

O táxi parou diante do terminal, e eu retirei a mala do carro.

O motorista perguntou se eu precisava de ajuda.

Balancei a cabeça e levei o celular ao ouvido para escutar o áudio da minha orientadora artística.

"Mariana, a vaga no Programa de Residência Artística de Nordalva ainda está disponível. Se tiver certeza de que quer vir, peço ao estúdio que envie sua carta-convite ainda hoje."

Mantive pressionado o botão para gravar uma resposta.

"Professora, tenho certeza."

Depois de enviar o áudio, encaminhei para ela o e-mail de desclassificação do Prêmio Lume.

Ela não demorou a responder.

"Venha primeiro para cá. Seu trabalho foi arruinado, mas isso não é o fim. Você ainda está aqui."

Fiquei olhando para aquela mensagem com um nó na garganta.

Na época da faculdade, meus pais estavam se divorciando e me deixaram sozinha com as dívidas. Camila dividiu comigo o dinheiro que tinha para as despesas e me ajudou a suportar os meses mais difíceis.

Mais tarde, tive uma crise de pânico e quase fiquei sem ar no terraço de um prédio. Rafael me carregou nas costas até o hospital e passou a noite inteira ao lado da minha cama.

Eu não era uma pessoa ingrata.

Por isso, repetia para mim mesma que eles não queriam me machucar. Éramos íntimos demais, e talvez por isso tivessem parado de respeitar meus limites.

Naquele dia, porém, finalmente entendi.

Tudo o que fizeram por mim no passado não lhes dava o direito de me pisotear sempre.

Enquanto esperava na fila do check-in, desativei o cartão adicional vinculado à conta de Rafael e interrompi o compartilhamento da minha localização.

Rafael ligou imediatamente.

Atendi.

— Você desativou o cartão adicional? — A voz dele ficou fria. — Mariana, agora quer separar até as nossas contas?

— Sim.

Houve dois segundos de silêncio do outro lado da linha.

A voz de Camila surgiu ao fundo.

— Mari, você foi mesmo pro aeroporto? Quem está tentando assustar? O Rafael já deixou isso pra lá.

Rafael pareceu afastar o celular por um instante antes de levá-lo de volta ao ouvido.

— Em qual entrada você está? Vou buscar você. Também vou perguntar sobre o portfólio pra ver se ainda dá pra recorrer.

— Não precisa.

— Não precisa do quê? — Rafael tentava conter a impaciência. — O hotel em Porto Dourado não aceita cancelamento. Se você não for, não vai ter graça nenhuma viajarmos só nós dois.

Camila comentou em voz baixa ao lado dele:

— Não é que não vá ter graça nenhuma. Só vai faltar alguém pra tirar nossas fotos.

Entreguei meu passaporte à funcionária do balcão.

Depois de conferir o documento, ela me entregou o cartão de embarque.

— Boa viagem.

Peguei o cartão de embarque e falei ao telefone:

— Tenho mais o que fazer. Vou desligar.

Rafael finalmente perdeu a paciência.

— Mariana, você precisa mesmo que todo mundo fique girando em torno do que você sente? A Camila já está chorando. O que mais você quer?

Baixei os olhos para o destino impresso no cartão de embarque.

— Quero ficar longe de vocês.

Desliguei e abri o Instagram.

Dez minutos antes, Camila havia publicado uma selfie com os olhos vermelhos, abraçada a uma máscara de mergulho.

"Preparei uma surpresa com a melhor das intenções e fui tratada como se tivesse feito algo horrível. É muito difícil conviver com quem não sabe aceitar uma brincadeira."

Várias pessoas já haviam deixado mensagens para consolá-la.

A resposta de Rafael se destacava entre todas.

"Não chora. Vamos ver o mar em Porto Dourado. Ela é teimosa. Depois de alguns dias, vai voltar e pedir desculpas."

Não curti nem comentei.

Apenas silenciei as publicações dos dois.

Antes que a tela do celular se apagasse, recebi um aviso da companhia aérea.

"O voo com destino a Nordalva está atrasado devido a uma corrente de ar polar. O embarque está previsto para ocorrer com quatro horas de atraso."

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