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Capítulo 3

Autor: Nuvem Verde
Comprei um café quente na área de embarque.

Assim que encaixei a tampa, alguém bateu com força no meu ombro.

Um pouco de café derramou e queimou os nós dos meus dedos.

Virei-me e encontrei Rafael e Camila atrás de mim.

Rafael havia abotoado o casaco errado, e havia suor em sua testa.

Camila ainda apertava o cartão de embarque para Porto Dourado e estava ofegante demais para completar uma frase.

— Chega. — Rafael pegou meu café, tocou o copo para sentir a temperatura e o devolveu às minhas mãos. — Pelo menos comprou algo quente. Não está com frio, né?

Seu tom parecia tanto uma tentativa de me acalmar quanto uma declaração de que o assunto estava encerrado.

— Não vamos mais a Porto Dourado. Perdemos o voo procurando você. Agora estamos quites, certo? Vamos pra casa.

Camila finalmente recuperou o fôlego e ergueu o rosto para mim com as mãos apoiadas nos joelhos.

— Mari, o que está fazendo no terminal internacional? Vai mesmo fugir de casa como nos filmes?

Olhei para Rafael.

— Como soube que eu estava aqui?

O olhar dele vacilou.

— A desvinculação do cartão adicional demora para ser atualizada. Recebi a notificação quando você comprou o café.

— Então, estava acompanhando os meus gastos?

— Eu estava preocupado com você. — Rafael franziu a testa. — Não distorça uma preocupação normal pra fazer parecer algo horrível.

Camila tentou pegar minha mochila.

— Vamos embora. Deixa que eu carrego pra você. Ela está tão cheia... Não vai me dizer que só trouxe roupas de inverno?

Segurei a alça.

— Não encosta.

Ela ficou surpresa, e o sorriso forçado desapareceu de seu rosto.

— Por que está tão agressiva hoje? Eu não sou uma estranha.

Rafael baixou a voz.

— Mariana, o aeroporto está cheio. Não faça uma cena.

Ergui os olhos para ele.

— Sou eu que estou fazendo uma cena?

De repente, Camila agarrou a alça da minha mochila.

— Agora é que eu vou olhar. No caminho, eu e o Rafael apostamos que você só trouxe uma mochila vazia pra fazer cena.

Ela puxou com força.

Por instinto, puxei de volta.

A alça apertou a pele entre meu polegar e o indicador, e o zíper arrebentou durante a disputa.

No instante seguinte, a mochila caiu com força no chão.

A capa acolchoada deslizou para fora, e o notebook dentro dela bateu contra o mármore.

Ouviu-se um baque abafado.

A tela se estilhaçou, e um dos cantos da carcaça se deformou.

Todos os sons ao redor pareceram desaparecer.

Agachei-me e toquei a tela quebrada. Pequenos fragmentos de vidro perfuraram a ponta dos meus dedos.

Um zumbido intenso tomou conta dos meus ouvidos. Meu coração começou a disparar sem controle, e a conhecida sensação de sufocamento voltou em ondas.

Por instinto, apalpei os bolsos, mas os dois comprimidos de ansiolítico que eu guardava para emergências haviam desaparecido durante a disputa.

Camila recuou meio passo, com a voz trêmula.

— Eu não fiz de propósito. Você também puxou com tanta força. E se esse notebook era tão importante, por que não guardou direito?

Rafael se agachou ao meu lado e colocou a mão no meu ombro.

— Mari, calma. Se quebrou, é só consertar. Tem um monte de lugares que recuperam dados. Se não tiver jeito, compro um novo pra você.

Suportei o mal-estar e ergui o rosto.

— Você sabe o que tinha nele?

Ele hesitou.

— Seus desenhos. Eu sei que são importantes.

— Não, você não sabe.

Não eram apenas desenhos.

Ali estavam os arquivos originais em camadas que eu ainda não havia sincronizado na nuvem, os arquivos-base que me permitiriam reconstruir o portfólio destruído do Prêmio Lume e as primeiras propostas que eu deveria apresentar à minha orientadora para o Programa de Residência Artística de Nordalva.

Camila começou a chorar.

— Mariana, pode parar de olhar assim pra mim? Estou com medo.

Rafael a puxou para trás de si, com o rosto sombrio.

— O notebook já quebrou. Assustar a Camila agora não vai resolver nada. A Cami se assusta fácil. Você vai mesmo pressionar ela até ter uma crise aqui?

Um aviso soou pelos alto-falantes, informando que os passageiros do voo atrasado deveriam refazer os procedimentos de embarque.

Abracei o notebook deformado, esperei o mal-estar diminuir e me levantei.

Meus braços tremiam, mas minha voz permaneceu calma.

— Saiam da frente.

Quando Rafael me viu caminhar em direção ao balcão de remarcação, sua expressão mudou.

— Você ainda vai embora? Seu notebook ficou destruído. Agora deveria voltar pra casa e tentar recuperar os dados.

— Vou buscar o HD de backup.

Camila ergueu a cabeça imediatamente.

— Então, vamos com você.

Olhei para ela.

— Você não merece nem chegar perto da minha casa.

O rosto dela empalideceu, e seu choro se tornou ainda mais sentido.

O olhar de Rafael esfriou.

— Mariana, você está sendo cruel demais hoje.

Não respondi.

Apertei o notebook quebrado contra o peito e caminhei lentamente até o balcão de remarcação.

Uma mensagem da minha orientadora apareceu na tela.

"Quer que eu peça a um curador daqui de Nordalva para encontrar você? O sobrenome dele é Lima, e ele está perto do aeroporto."

Fiquei olhando para a mensagem e, no fim, respondi apenas:

"Não precisa. Meu notebook quebrou. Primeiro, vou voltar pra casa e buscar o backup."

Depois que a mensagem foi enviada, guardei o celular no bolso.

Atrás de mim, Rafael falou em voz muito baixa:

— Ela não vai conseguir ir embora de verdade.

Eu não sabia se ele dizia aquilo para Camila ou para si mesmo.

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