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Adeus ao Triângulo Amoroso
Adeus ao Triângulo Amoroso
Autor: Nuvem Verde

Capítulo 1

Autor: Nuvem Verde
Quando ouvi a fechadura girar, eu estava colocando o último par de meias de lã na mala.

Rafael e Camila abriram a porta e entraram carregando máscaras de mergulho, camisetas com proteção UV e um pacote de adesivos coloridos de boias.

Camila foi a primeira a ver o casaco grosso no sofá. Ficou parada por dois segundos e depois se curvou de tanto rir.

— Rafael, faz o Pix. — Ela apontou para a minha mala, quase chorando de tanto rir. — Eu disse que ela ia ficar brava. Olha só, até arrumou roupas de inverno só pra assustar a gente.

Rafael se encostou na parede da entrada e fez a transferência, sorrindo com certa resignação.

— Tá, você ganhou.

Ele guardou o celular, veio até mim e ergueu a mão para acariciar meu cabelo.

— Mari, já comprei outra passagem pra você. Dessa vez, a gente passou dos limites com a brincadeira. Para de ficar brava, vai. Tira essas roupas pesadas da mala. Você não vai usar nada disso em Porto Dourado.

Dei um passo para o lado e desviei da mão dele.

A mão de Rafael ficou suspensa no ar, e ele franziu levemente a testa.

— Você vai mesmo fazer esse drama todo?

Fechei a mala e puxei a alça.

— Não vou mais a Porto Dourado. Divirtam-se.

O sorriso de Camila desapareceu por um instante, mas ela logo se aproximou e tentou entrelaçar o braço no meu.

— Não faz isso. A passagem já foi comprada. Se você não quiser se sentar sozinha, peço pro Rafael trocar de lugar com você. Eu sento atrás. Pode ser?

Baixei os olhos para a mão que ela estendia em minha direção.

— Não encosta em mim.

Camila ficou paralisada.

Rafael fechou um pouco a cara.

— Mariana, você vai mesmo fazer tudo isso só por causa de uma brincadeira com a passagem?

Olhei para ele.

— Vocês cancelaram a minha passagem, apostaram usando a minha viagem e ainda perguntam se estou exagerando?

Rafael passou a língua por dentro da bochecha, tentando conter a impaciência.

— Mas eu já resolvi tudo, não resolvi? Comprei outra passagem ontem à noite. Você não ficou realmente sem passagem.

Camila assentiu, assumindo um tom magoado.

— Pois é. A gente nunca quis deixar você pra trás. Foi só uma brincadeira. Você não costumava agir assim.

Ela fez uma pausa, como se tivesse acabado de se lembrar de algo, e seus olhos se iluminaram.

— Ah, eu tenho uma ótima notícia. Ia contar no caminho pra animar você.

Senti um aperto no peito.

Camila tirou o celular da bolsa, abriu uma captura de tela e a mostrou para mim.

— Anteontem, submeti por você o portfólio da etapa final do Prêmio Lume de Artes Visuais. Você tem passado tantas noites acordada que fiquei preocupada e cliquei em enviar no seu lugar.

Meus dedos apertaram com força a alça da mala.

— Você mexeu no meu arquivo de inscrição?

— Não fica tão tensa. — Camila fez bico, como se eu tivesse acabado com a diversão dela. — Eu até coloquei uma surpresinha. No canto da sua imagem principal favorita, adicionei a marca-d'água de um sapo revirando os olhos. Ficou muito engraçado.

Ela piscou para Rafael.

— Eu e o Rafael também apostamos se você perceberia. A gente ia contar só quando você ganhasse o prêmio. Ia ser a maior surpresa.

Um zumbido tomou conta dos meus ouvidos.

O Prêmio Lume exigia uma avaliação anônima. O arquivo de inscrição não podia conter nenhum elemento irrelevante, muito menos uma marca de deboche.

Aquele portfólio da etapa final havia me custado duas semanas sem uma única noite inteira de sono.

Era a única vaga concedida à faculdade.

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