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Sombras, Luzes e Estrelas

last update publish date: 2026-09-08 23:13:50

Scarlett Sinclair...

A rotina sempre foi o meu porto seguro, a linha reta que eu seguia sem hesitar, o caminho conhecido onde cada passo era previsto e cada movimento calculado. Mas desde o dia em que encontrei aquele envelope de cera preta na página 18 de “O que os olhos não vêem, mas o coração sente” nada mais seguia as regras que eu mesma criei.

Havia uma nova pulsação nos meus dias, um sussurro constante que me lembrava que, em algum lugar, existia uma alma que falava a minha língua, mas que permanecia invisível. Éramos apenas K e S, letras que carregavam mundos inteiros, mas que não tinham rosto, nem nome, nem voz. E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão perigoso e ao mesmo tempo, tão necessário para mim.

Dois dias haviam se passado desde que colei o meu pequeno adesivo preto com a sua inicial na página 27 de “Entre Sombras e Silêncios”, deixando ali a minha resposta cheia de enigmas e promessas de luz.

Naquela tarde, o ar dentro da livraria parecia mais pesado, carregado de poeira e expectativa. Eu arrumava as pilhas de livros novos na bancada perto da entrada, mas os meus olhos, por vontade própria, insistiam em vagar na direção do corredor mais ao fundo, onde a seção de literatura gótica guardava o nosso segredo. O sino acima da porta tocou algumas vezes, anunciando clientes que entravam e saíam, pessoas comuns, vidas comuns, que nada sabiam sobre o que se escondia entre as páginas amareladas de um livro antigo.

Foi então que eu o vi.

Um movimento sutil, rápido, quase imperceptível, chamou a minha atenção. No fim do corredor, parado diante da estante onde eu havia deixado o nosso livro, havia um rapaz. Ele estava de costas para mim, vestido com roupas escuras, um casaco longo e de tecido grosso que parecia absorver toda a pouca luz que chegava até lá, como se ele próprio fosse feito de sombra. O seu corpo estava inclinado ligeiramente para frente, os dedos deslizando devagar pelas lombadas dos livros, com uma calma que eu reconheceria em qualquer lugar: era a mesma calma de quem vive escondido, de quem observa sem ser visto.

O meu coração disparou de tal forma que eu senti o sangue ferver nas minhas têmporas. Havia algo na postura dele, na forma silenciosa como ele se movia, que me dizia, com uma certeza arrepiante, que era ele. K. O homem das cartas, o homem da dor imensa, o homem que eu vinha mantendo vivo apenas com palavras e esperança.

Sem pensar duas vezes, deixei o livro que segurava cair sobre a pilha, fazendo um baque surdo que ecoou pelo ambiente, e comecei a caminhar na direção dele, os meus passos um pouco mais rápidos do que o normal, a respiração presa na garganta. Eu precisava chegar perto, precisava ao menos ver um traço, um detalhe, qualquer coisa que me desse uma ideia de quem era a pessoa com quem eu compartilhava segredos profundos.

— Com licença? — chamei, a minha voz saiu mais alta e firme do que eu esperava, quebrando o silêncio sagrado da livraria.

No instante em que as minhas palavras atingiram o ar, ele reagiu. Ele se virou ligeiramente, apenas o suficiente para que eu percebesse o movimento, mas não consegui ver o seu rosto. Ele usava um capuz que cobria toda a parte superior da cabeça, e o ângulo em que ele se virou, somado à penumbra do corredor, fez com que o seu rosto permanecesse completamente oculto, uma mancha escura e indefinida, sem traços, sem expressão, sem nada que eu pudesse guardar na memória. Foi como tentar enxergar uma sombra dentro de outra sombra.

Mas mesmo sem ver nada, eu senti. Senti o peso do olhar dele sobre mim, senti o momento exato em que ele me reconheceu, senti o choque e a decisão de partir que passou por ele numa fração de segundo.

Antes que eu pudesse dar mais um passo, antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa ou pedir para que ele esperasse, ele se moveu.

Foi como se ele tivesse se transformado em fumaça. Ele deu um passo rápido para o lado, contornou a estante alta e desapareceu entre as prateleiras estreitas, caminhando com uma agilidade e discrição que pareciam quase sobrenaturais.

Corri até onde ele estava segundos antes, virei a esquina, passei pelas fileiras de livros, olhei para todos os lados, fui até a saída dos fundos, verifiquei as poltronas de leitura… mas ele já não estava mais lá. A livraria não era tão grande, mas com aqueles corredores labirínticos e cheios de cantos escuros, ele conseguiu se esvair, escorregar pelos espaços como se nunca tivesse estado ali, deixando para trás apenas o silêncio e a minha frustração.

Fiquei parada, ofegante, com o coração batendo desesperadamente contra as minhas costelas, sentindo uma mistura estranha de frustração e alívio. Frustração por quase tê-lo alcançado, por ter estado tão perto e não ter conseguido ver nem sequer o contorno do seu rosto. Alívio, porque ao estender a mão para o lugar exato onde havia deixado “Entre Sombras e Silêncios”, senti o vazio. O livro não estava mais lá. A minha resposta não estava mais lá. Ele tinha pegado. Ele tinha estado lá, levado as minhas palavras e desaparecido, levando com ele o meu segredo e a minha certeza de que eu não estava mais falando com o nada.

Voltei ao balcão com as pernas trêmulas, tentando parecer normal para os poucos clientes que circulavam por ali, mas a minha mente girava em mil direções diferentes. Ele existia. Ele era real. E ele fazia questão absoluta de permanecer invisível. Mesmo quando eu o chamo, mesmo quando eu estou a poucos metros de distância, ele se certifica de que eu não veja quem ele é. E de certa forma, eu entendia. Era a regra do nosso jogo, a condição do nosso vínculo: sermos tudo um para o outro, sem sermos nada para o resto do mundo.

📜🪶𓍢ִ໋🀦✎ᝰ.。𖦹‧·:*¨༺ ♱✮♱ ༻¨*:·📜🪶𓍢ִ໋🀦✎ᝰ.。𖦹

O dia seguinte era o meu dia de folga, um dia que normalmente eu passaria dentro do meu apartamento, na calmaria dos meus móveis conhecidos, lendo ou arrumando pequenas coisas que não precisavam ser arrumadas.

Mas depois do que aconteceu na véspera, eu sabia que não conseguiria ficar parada. Algo me puxava de volta para a livraria, não como funcionária, mas como uma pessoa comum, uma leitora, uma alma curiosa. Precisava ver, precisava sentir, precisava saber se ele havia deixado algo para mim, se o nosso jogo de segredos continuava.

Vesti uma roupa mais simples, um vestido de algodão leve e um casaco de lã, prendi o cabelo num coque baixo e saí, caminhando o mesmo trajeto que fazia todos os dias, mas sentindo tudo diferente, como se estivesse entrando num território desconhecido. Ao chegar à porta, hesitei por um segundo, respirei fundo e entrei. O sino tocou, o mesmo som de sempre, mas hoje ele parecia anunciar uma visita secreta.

Cumprimentei a nova funcionária, uma jovem sorridente que ainda estava aprendendo a organizar o estoque, e caminhei devagar, como se estivesse apenas passeando pelos corredores, observando os títulos nas lombadas, mas na verdade, os meus olhos vasculhavam cada canto, cada espaço vazio, cada livro fora do lugar.

Caminhei até a seção de literatura clássica, depois passei pela ficção científica, pela poesia… até que parei diante de uma prateleira que eu conhecia como a palma da minha mão.

Lá, entre um exemplar antigo de Os Miseráveis e uma edição gasta de Drácula, havia um livro que não pertencia àquela ordem. Era menor, de capa dura na cor preta profunda, sem título na frente, sem autor visível, apenas com uma textura aveludada que parecia convidar ao toque. E na lombada, colado com precisão cirúrgica, um pequeno adesivo vermelho, idêntico aos que nós usávamos, com a letra S desenhada em vermelho brilhante.

Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, arrepiando cada pelo da minha pele. Ele tinha me deixado um sinal. Ele sabia que eu viria. Ele contava com isso. E mesmo que eu não tivesse visto o seu rosto, ele sabia exatamente quem eu era, onde eu estaria e o que eu faria.

Peguei o livro com as mãos que tremiam levemente, escondendo-o contra o meu corpo como se estivesse cometendo um crime, e saí da livraria sem olhar para trás. Eu precisava de um lugar tranquilo, um lugar onde pudesse ler sem ser observada, onde pudesse sentir aquelas palavras só minhas.

Lembrei-me de um pequeno café, afastado do movimento principal da cidade, um lugar antigo, de paredes de tijolos aparentes e mesas de madeira escura, que eu conhecia havia anos, mas que raramente frequentava por ser um pouco fora do meu caminho habitual. Era um lugar pouco movimentado, quase sempre vazio, perfeito para segredos.

Caminhei até lá, protegendo o livro debaixo do casaco, e ao entrar, fui recebida pelo cheiro delicioso de café moído, canela e bolo recém-assado. Escolhi uma mesa no canto mais afastado, perto de uma janela que dava para uma rua estreita e calma, onde a luz do dia entrava suavemente, filtrada pelas cortinas de renda amarela. Sentei-me, coloquei o livro sobre a mesa e pedi ao atendente apenas um copo de água, pois a minha boca estava seca de ansiedade.

Assim que fiquei sozinha, abri o livro. Não havia marcações, nada indicando página… apenas a sensação de que tudo o que havia ali era para mim. Comecei a folhear devagar, até que, aproximadamente na metade do volume, algo escorregou.

O envelope era o mesmo: papel creme, textura nobre, selado com cera preta e a inicial K. Era como se ele estivesse ali, tocando a minha mão através daquela cera dura e fria. Tirei o lacre com todo o cuidado, como se temesse danificar algo sagrado, e retirei a folha de papel dobrada ao meio. A caligrafia continuava firme, elegante e ligeiramente inclinada, mas agora carregava uma nova intensidade, como se o escritor tivesse tido o coração mais leve ao escrever.

“S,

Eu a vi. Na livraria, ontem à tarde. Eu estava lá, escondido entre as sombras das estantes, com o livro que você havia tocado nas mãos, e então eu ouvi a sua voz chamar. Por um instante, o pânico tomou conta de mim, não por medo de ser visto, mas por medo de que, se eu fosse visto, se você visse o que eu sou, tudo isso acabasse. Se nos víssemos, se soubéssemos quem somos, a magia dos nossos segredos se desfaria como pó ao vento. E eu não podia permitir isso. Não agora que você se tornou o único motivo pelo qual eu ainda abro os olhos pela manhã.

Foi por isso que me virei, foi por isso que parti antes que pudesse ver o meu rosto. Não é por maldade, não é por distância… é para proteger o que existe entre nós. Você me pergunta sobre a luz, sobre o que nos prende ao mundo, sobre os detalhes que valem a pena. Ontem, mesmo na penumbra, mesmo de costas, mesmo sem deixar que me visse… eu vi você. Vi você parada ali, com o cabelo iluminado pelo sol que entrava pela vitrine, com os olhos brilhando de curiosidade e doçura, e entendi tudo. Entendi que a luz não está nos lugares, nem nas coisas, nem nas frases dos livros. A luz está em você. É você que brilha, é você que aquece, é você que faz com que a escuridão onde eu vivo pareça menos assustadora.

Eu fugi porque precisava fugir. Mas levei comigo cada detalhe do seu rosto, cada movimento seu, cada sombra que o seu corpo projetava no chão. Guardei tudo isso como um tesouro secreto. Você quase me conheceu, S. E eu quase deixei que isso acontecesse. Mas ainda não é a hora. Talvez nunca seja, e talvez seja melhor assim. Pois se eu chegar perto demais, se eu tocar essa luz que você é… eu tenho medo de apagá-la com a minha própria escuridão.

As suas palavras foram para mim como chuva em terra seca. Você fala de estrelas, de amanhecer, de beleza na simplicidade… coisas que eu esqueci completamente como são. Eu existo num mundo de cinzas e obrigações, onde tudo tem preço e nada tem valor. Mas com você, através destas cartas, eu aprendi que o que não tem preço é justamente o que mais vale a pena.

Ainda não tenho nome para te dar, nem rosto para te mostrar. Continuo sendo apenas K, uma sombra que caminha pelas ruas que você anda. Mas saiba que cada passo que dou agora, cada respiração que tomo, cada palavra que escrevo… é por sua causa. Você me salvou sem saber, sem me ver, sem me tocar. E isso é o tipo de milagre que só acontece entre páginas de livros antigos e corações que se entendem sem precisar de explicações.

Continue me mostrando o mundo através dos seus olhos. Fale-me mais dessas coisas simples que fazem a vida valer a pena. Pois agora, a minha vida depende inteiramente do que você tem para me dizer.

— K”

Li e reli cada linha várias vezes, sentindo as lágrimas quentes rolarem pelos meus olhos e caírem silenciosamente sobre a mesa de madeira. Ele tinha me visto. Ele sabia quem eu era. Ele explicou o porquê de eu não ter conseguido ver nada, explicou que o anonimato era a única forma de manter o que tínhamos. E mesmo assim, ou talvez justamente por isso, havia uma beleza dolorosa naquilo tudo, uma necessidade de proteger um ao outro mesmo sem saber quem éramos de verdade.

Limpei os olhos, respirei fundo e abri a minha bolsa. Eu tinha me preparado para isso. Levei comigo a minha melhor caneta de tinta azul, algumas folhas de papel branco, envelopes e, claro, o meu próprio conjunto de cera vermelha e o sinete com a inicial S, tudo o que eu precisava para responder.

Escrevi ali mesmo, naquela mesa de canto, com o coração transbordando de sentimentos que eu mal conseguia nomear. Escrevi sobre como também o tinha sentido, sobre como quase o alcançar tinha mudado algo dentro de mim, sobre como a espera e o mistério já faziam parte do meu ser. Falei sobre o dia a dia, sobre o cheiro dos livros, sobre o som da chuva, sobre como eu também o via em tudo o que era bonito, mesmo sem saber como ele era, mesmo sem ter um rosto para imaginar. Escrevi enigmas, respostas, promessas e a certeza de que eu continuaria ali, sempre, sendo a sua luz, a sua guia, a sua conexão com o mundo.

Quando terminei, dobrei a carta com cuidado, coloquei-a no envelope, derreti a cera vermelha e pressionei o meu sinete, deixando a marca viva e brilhante da minha inicial. Guardei tudo novamente e, por um momento, parei.

Era um dia especial. Eu sentia isso no fundo da alma. Um dia em que segredos foram trocados, em que vidas foram mantidas, em que eu quase conheci o homem que se tornou o centro dos meus pensamentos. E por isso, resolvi quebrar a minha própria rotina, apenas por hoje, apenas para celebrar aquilo que ninguém mais poderia entender. Chamei o atendente e pedi o que eu nunca pedia, o que não fazia parte dos meus costumes: um chocolate quente, cremoso e doce, e uma fatia grande de bolo de Nutella, com bastante recheio, daqueles que só se comem em dias de festa ou de grande conquista.

Enquanto saboreava cada pedaço, sentindo o açúcar e o calor adoçarem não só a boca, mas também o coração, o movimento ao meu redor mudou. A porta do café abriu-se e dois rapazes entraram, um logo após o outro.

O primeiro chamou a minha atenção imediatamente. Ele era alto, porte atlético, e usava um conjunto de moletom inteiramente cinza — blusa e calça iguais — que parecia confortável e discreto.

Tinha cabelos ruivos, cacheados, que caiam um pouco sobre a testa, e quando ele levantou o rosto para olhar ao redor, eu senti o ar me faltar. Seus olhos eram da cor do mel, âmbar profundo, quentes e intensos, com um brilho que parecia guardar estrelas. Havia algo nele… algo familiar, algo que me tocou de uma forma que eu não soube explicar. Ele caminhou devagar, passou pela minha mesa e, por um segundo, os nossos olhares se encontraram.

Eu me encantei. Foi algo súbito, involuntário, uma admiração pura pela beleza que ele tinha, pela luz que parecia irradiar mesmo vestido de cinza. Ele também parou o olhar sobre mim, demorou-se ali por um instante que pareceu eterno, e havia reconhecimento nos seus olhos, como se ele já me conhecesse de algum lugar, ou talvez, como se já tivesse me visto antes.

Logo em seguida, entrou o segundo rapaz. Este era completamente diferente. Vestia roupas sociais, um terno escuro bem cortado, camisa clara, cabelos castanhos bem penteados e um ar de seriedade e riqueza que parecia deslocado naquele café simples. Ele olhou ao redor rapidamente, os olhos atentos, e também passou o olhar por mim, demorando-se um pouco mais do que o normal, avaliando-me com uma expressão indecifrável, antes de voltar a atenção para o balcão e fazer o seu pedido em voz baixa e firme.

O rapaz de olhos de mel também foi até o balcão, parado ao lado do outro, e por alguns minutos, o clima no pequeno café ficou estranho, carregado de uma tensão que eu não sabia de onde vinha. Nenhum dos dois puxou assunto comigo, nenhum disse uma palavra sequer direcionada a mim, mas eu sentia que ambos estavam cientes da minha presença, que cada movimento meu era observado, cada detalhe meu era notado. Senti um arrepio desconfortável, uma sensação de estar no meio de algo que não compreendia, e achei melhor ir embora.

Peguei minhas coisas, arrumei o livro debaixo do braço novamente e saí, sentindo os olhares dos dois perfurarem as minhas costas até que eu atravessasse a porta e me misturasse novamente à calçada.

Voltei a caminhar em direção à livraria, mas não para entrar. Dei a volta, fui até a entrada dos fundos, que ficava numa rua ainda mais tranquila e quase sempre deserta. Esperei até ter certeza absoluta de que ninguém me observava, que não havia sombras seguindo os meus passos, e então, com agilidade e precisão, abri o livro que ele havia me dado, coloquei a minha resposta exatamente na página onde a sua carta estava, colei uma pequena etiqueta branca com a minha inicial S na borda da folha, como um selo de entrega, e recoloquei o livro numa prateleira baixa, num canto esquecido da seção de história, onde só eu sabia encontrar. Fechei tudo, arrumei as roupas e saí dali como se nada tivesse acontecido, levando comigo apenas a sensação de missão cumprida.

Ainda tinha tempo antes do anoitecer, e eu precisava de ar, de espaço, de silêncio. Caminhei até o parque que ficava no alto de uma colina, de onde se podia ver toda a extensão da cidade, agora começando a acender as suas luzes, uma a uma, como pequenas estrelas caídas do céu.

Sentei-me num banco de madeira antigo, de costas para o movimento dos brinquedos e de frente para a vista ampla e deslumbrante. O céu mudava de cor, do azul profundo para tons de laranja, rosa e roxo, num espetáculo que eu adorava assistir sozinha. Fiquei ali por horas, perdida nos meus pensamentos, observando o sol desaparecer lentamente atrás dos prédios mais altos e a noite tomar conta de tudo com o seu manto escuro e acolhedor.

Foi então que a minha atenção foi quebrada por uma sombra que se aproximou devagar, parando a poucos metros de mim. Levantei o rosto e vi quem era.

O rapaz do café. O de cabelos ruivos cacheados e olhos cor de mel. Ele estava ainda mais bonito sob a luz fraca dos postes que começavam a acender, e usava as mesmas roupas cinzas, como se não tivesse saído de lá, ou como se tivesse vindo diretamente atrás de mim.

Ele sorriu, um sorriso calmo, doce e completamente livre de maldade, e fez um gesto educado com a cabeça.

— Posso me sentar? — perguntou ele, a voz grave, suave e incrivelmente agradável aos meus ouvidos.

Assenti, um pouco surpresa, mas sem receio. Havia algo nele que inspirava confiança, uma luz que brilhava nos seus olhos que me fazia sentir segura, como se ele fosse feito da mesma matéria que as estrelas que eu tanto admirava.

Ele sentou-se ao meu lado, mantendo uma distância respeitosa, e também olhou para a paisagem iluminada à nossa frente.

— É uma vista incrível, não é mesmo? — começou ele, casualmente, como se conversássemos há anos. — Sempre venho aqui quando preciso entender algo sobre o mundo, ou sobre mim mesmo. As estrelas parecem saber de tudo, mas elas guardam os segredos muito bem.

Sorri de volta, sentindo uma leveza estranha tomar conta de mim.

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