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Capítulo 7

Author: Linda primavera
De madrugada, Inês foi acordada pelo barulho da porta se abrindo.

Ela olhou para o relógio ao lado da cama: duas e dezesseis.

Ibsen se movia com leveza, como se temesse acordá-la.

Na verdade, o que ele não sabia era que, desde que Inês descobrira sua traição, seu sono se tornara leve, qualquer pequeno ruído era suficiente para despertá-la.

Mas, como o coração dele já não lhe pertencia, não notava detalhes tão pequenos.

Por acaso, Inês também não queria lidar com ele naquele momento, então fechou os olhos e fingiu dormir.

Ibsen abriu o guarda-roupa, pegou o pijama e foi tomar banho.

Do banheiro vinha o som contínuo da água, logo depois, o barulho cessou.

A porta do banheiro se abriu, passos se aproximaram e pararam ao lado da cama.

Mesmo de costas para Ibsen, Inês sentiu quando ele levantou o cobertor do lado dele e deitou-se.

À medida que o outro lado da cama afundava, o quarto escuro ficou em silêncio absoluto, a ponto de ambos poderem ouvir o leve som da respiração um do outro.

Inês perdeu o sono.

Antigamente, quando não conseguia dormir à noite, Ibsen contava-lhe histórias para fazê-la adormecer, ou às vezes falava sobre o futuro.

Dizia que, depois de ter sucesso nos negócios, compraria para ela uma casa com enormes janelas do chão ao teto, falava que o casamento deles seria na praia do Arquipélago de São Vicente, dizia que teriam dois filhos, de preferência um menino e uma menina...

Naquela época, eram muito pobres, dividiam uma cama pequena em um porão, mas tinham conversas intermináveis.

Diferente de agora, quando o silêncio dominava e cada um sonhava sozinho.

Pensar nisso era, de fato, bastante triste.

Inês não soube quando adormeceu, quando acordou, já eram quase oito horas.

O carro dela estava na oficina para manutenção, então, naquela semana, só podia ir ao trabalho de metrô.

O trajeto de casa até o escritório de advocacia levava quarenta e cinco minutos, geralmente, ela acordava às sete e vinte. Hoje, por algum motivo, o despertador não tocou.

Depois de se arrumar e sair do quarto, viu Ibsen à mesa, elegante em seu terno, tomando café da manhã. Inês ficou surpresa.

Ela já nem lembrava mais quando fora a última vez que Ibsen tomara café da manhã em casa.

Ao vê-la parada, Ibsen, de forma rara, tomou a iniciativa:

— Venha tomar café.

Sobre a mesa estavam Coxinha e café, combinação que Inês costumava adorar.

No passado, sempre que brigavam, Ibsen acordava cedo na manhã seguinte, preparava Coxinha e café ele mesmo e ia chamá-la para o café da manhã.

A Coxinha feita por ele era diferente das vendidas por aí: tinha formato de coração.

Sempre que via aquela Coxinha em formato de coração, toda a raiva de Inês desaparecia instantaneamente.

Mas, desde que ele a traíra, nunca mais cozinhara, pois, depois das brigas, Ibsen simplesmente batia a porta e sumia, deixando Inês sozinha, esperando que ela tomasse a iniciativa de fazer as pazes.

Ela pensava que ele já tinha esquecido tudo aquilo.

Mas, na verdade, não esquecera, só não se importava mais em agradá-la como antes.

Mudar de sentimento é mesmo a coisa mais simples do mundo.

— Não vou comer, estou atrasada para o trabalho.

— Coma, eu te levo.

Inês hesitou por um instante, mas acabou se virando e indo em direção à sala de jantar.

Mal se sentou, Ibsen colocou uma Coxinha em forma de coração em seu prato.

— Faz tempo que não faço, veja se ainda ficou boa.

Inês abaixou o olhar, encarou a Coxinha por um tempo antes de pegá-la com o garfo e dar uma mordida.

Estava macia, como sempre, com o mesmo sabor de antes.

Apenas, nos últimos anos, sua alimentação se tornou irregular, seu estômago piorou, e aquele tipo de comida agora era pesada demais para ela.

Ao ver que Inês deu apenas uma mordida e largou o prato, Ibsen franziu o cenho.

— O sabor está ruim?

Inês balançou a cabeça:

— Não, está ótima, só que agora não gosto de comidas tão gordurosas.

Os dedos de Ibsen, que seguravam o garfo, ficaram levemente esbranquiçados. O silêncio se instalou na sala de jantar.

Depois de um bom tempo, ele pousou o garfo.

— Se está muito gordurosa, não coma. Eu te levo ao trabalho, compramos algo no caminho.

— Está bem.

Assim que chegaram ao estacionamento do prédio, o celular de Ibsen começou a tocar.

Ele desligou várias vezes, mas a pessoa insistia, ligando de novo e de novo.

Inês nem precisou olhar para saber que era Mayra.

— Atenda, pode ser algo urgente.

Ibsen olhou para ela, franzindo ainda mais a testa.

No entanto, Inês não retribuiu o olhar, apenas manteve os olhos fixos na ponta dos próprios sapatos.

O telefone continuava tocando, e Ibsen, por fim, atendeu.

Ouviu-se um choro baixo pelo telefone, seguido de uma voz feminina entrecortada, mas Inês não conseguiu entender.

Ao desligar, o rosto de Ibsen estava visivelmente perturbado.

— Mayra teve um problema. Pegue um táxi, não vou poder te levar.

Sem esperar resposta de Inês, ele se apressou em direção ao próprio carro.

Para ele, o fato de Inês ter comido a Coxinha já era um sinal de que ela o perdoara pelas palavras da noite anterior, portanto, não valia a pena perder mais tempo com ela.

Observando o vulto dele sumir rapidamente de vista, Inês sentiu uma estranha serenidade.

Afinal, quando não se espera mais nada de alguém, também não se sente tanta tristeza.

Quando chegou de táxi ao escritório de advocacia, já eram nove e dezesseis.

Assim que entrou, Inês percebeu claramente os olhares de pena dos colegas, provavelmente, todos já sabiam do que acontecera no restaurante na noite anterior.

Inês baixou os olhos, sentou-se à sua mesa e começou a trabalhar, impassível.

Logo após terminar um documento, o celular vibrou — Benícia enviara uma foto.

Para ser exata, uma foto de Ibsen sentado ao lado da cama de hospital, dando comida na boca de Mayra.

Embora só mostrasse o rosto de Ibsen de perfil, ele sorria, olhando para Mayra com ternura, Mayra também o olhava, com tanto amor nos olhos que parecia transbordar.

A luz do sol atravessava a janela e caía sobre eles, compondo um cenário de harmonia e aconchego.

Não teve tempo de levá-la ao trabalho, mas teve tempo de ir ao hospital alimentar outra mulher.

Na verdade, o amor ou desamor de um homem é fácil de perceber, era ela quem não queria enxergar, preferindo fechar os olhos para a realidade.

Os dedos de Inês ficaram brancos de tanto apertar o celular, só depois de um bom tempo ela respondeu à Benícia.

[Está muito boa a foto.]

O status do chat mostrava ‘digitando’ por um longo tempo, mas, no fim, Benícia enviou apenas uma reticência.

Inês não respondeu mais, virou o celular de tela para baixo e voltou ao trabalho.

Estava prestes a escrever um relatório quando sua colega do lado exclamou:

— Inês, olha só o Facebook!

Inês parou de digitar e se virou para ela:

— O que houve?

A expressão da colega era ambígua:

— Veja você mesma.

Inês pegou o celular e abriu o Facebook. O primeiro trending topic saltou à vista:

#Romance do presidente da Voyage Technology#

Ao clicar, viu a mesma foto que Benícia lhe enviara, Ibsen alimentando Mayra no hospital, e os comentários eram todos de felicitações.

[Um casal lindo, impossível não admirar!]

[Essa moça é a secretária do Sr. Serpa. É a versão real de ‘O CEO se apaixonou por mim’!]

[Quando será que vou viver um romance doce desses? Também quero um CEO me mimando quando fico doente!]

...

Evidentemente, todos consideravam Mayra como namorada de Ibsen.

Ibsen nunca a apresentara publicamente, nos últimos anos, fora do círculo de amigos, poucos sabiam do relacionamento deles, então, para os outros, ele sempre fora solteiro.
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