LOGINCarolina sentia a força dos braços dele ao redor do seu corpo, apertando-a tanto que quase lhe faltava o ar.Entre a dor e a ternura, ela o abraçou pela cintura e acariciou de leve suas costas, tentando acalmá-lo.— Me desculpa... Carol.A voz de Henrique saiu rouca. Cada palavra vinha carregada de dor, como se ele estivesse sangrando por dentro.— Me desculpa por ter feito você passar aperto ao meu lado... Naquela época, eu não tinha nada. Fui orgulhoso demais, imaturo demais. Passei a faculdade inteira sem aceitar ajuda da minha família, teimando em me virar sozinho. O pouco que eu ganhava com os trabalhos de meio período mal dava pra pagar a mensalidade, o aluguel e a comida. No fim, sobrava tão pouco que eu quase não conseguia te dar nada. Você ficou comigo por todo aquele tempo... E eu nem fui capaz de te dar um presente decente.Cada frase era como uma lâmina atravessando o peito de Carolina.Doía tanto que parecia rasgá-la por dentro. Seus olhos se encheram de lágrimas, que esco
Carolina baixou a cabeça, tomada pela culpa.— Na hora... Eu só pensei que a gente cresceu junto. Que somos amigos de infância.Henrique soltou uma risada fria e a interrompeu. A decepção era nítida em sua voz.— Por você, eu fui capaz de cortar laços com a Lílian. E você? Não consegue fazer o mesmo por mim? Não consegue se afastar dele?Carolina não teve coragem de encará-lo.— Se, dessa vez, também tiver sido de propósito... Eu não vou perdoar de novo.— E se dessa vez tiver sido só coincidência? — Perguntou ele. — Você vai apagar tudo o que ele fez antes? Vai mesmo? Ou... Você ainda ama ele?As palavras saíram leves, quase descuidadas. Mas cortaram como facas. No instante em que deixaram sua boca, foi como se lhe rasgassem o próprio peito. A dor foi tão intensa que seus olhos começaram a ficar vermelhos.Carolina congelou. Assustada, ergueu o rosto e fitou Henrique.No instante em que viu seus olhos marejados, vermelhos daquele jeito, ela entendeu.Tinha ferido Henrique mais uma vez
No instante em que os olhares dos dois se cruzaram, o ar pareceu ficar pesado demais para respirar. Carolina sentiu o peito afundar, como se estivesse cheio de chumbo.Marcelo deu um passo à frente, pronto para ir até Henrique.— Vou falar com ele. Vou explicar tudo.Carolina puxou depressa a camisa dele, impedindo-o.Marcelo parou e se virou para ela, falando em tom brando:— Se você não esclarecer isso agora, ele vai entender tudo errado.Se contasse a Henrique sobre a orientação sexual de Marcelo, não seria o mesmo que levá-lo a investigar o motivo daquele término abrupto, cinco anos antes?Marcelo sabia que ela não teria coragem de contar.— Não precisa. Ele vai acreditar em mim. — Carolina respondeu com calma.Marcelo soltou uma risada carregada de desprezo.— Tá brincando. Você acha mesmo que entende mais de homem do que eu?— Ele não é como os seus casos. Ele é o Henrique.— E daí? Ele é tão especial assim?Carolina não respondeu em voz alta, mas, no fundo, sabia a resposta.Sim
Carolina sacudiu o braço com força e se desvencilhou dele.— Marcelo, você não tem vergonha na cara? A gente já acabou.— Eu sei que fui sem noção. — Disse Marcelo, com os olhos vermelhos, visivelmente abalado. — A gente cresceu junto. Somos amigos desde pequenos, praticamente uma família... Melhores amigos. Eu amo você, amo a Lari também. Esse tipo de amizade não dá para cortar assim. Sério... Esses dias sem você têm sido piores do que um término.Carolina ergueu os olhos para ele. Estava calma, quase indiferente.— Você só quer fazer as pazes comigo para conseguir se aproximar do Henrique, não é? — Falou sem pressa. — Desculpa, mas eu não tenho interesse nenhum em ser usada.Marcelo se apressou. Segurou os braços dela com firmeza. A voz saiu urgente, carregada de sinceridade.— É verdade que o Henrique sempre foi meu amor platônico, mas, para mim, nenhum namorado é mais importante do que a melhor amiga. Um amor platônico não vale nada perto disso. Carol, se você me perdoar e não se a
Resmungando, sentindo-se injustiçado, Wallace bateu nas roupas manchadas de café e foi embora, ainda praguejando em voz baixa.Assim que ele saiu, Carolina pegou imediatamente o celular e o gravador. Ouviu, assistiu e revisou tudo várias vezes, certificando-se de que cada detalhe estivesse correto. Com as mãos tremendo de emoção, salvou todos os arquivos e ainda fez upload para a nuvem, com medo de perder qualquer coisa.Até o último instante, ela não podia relaxar.Quando terminou, soltou um longo suspiro. Levou as mãos aos olhos e enxugou as lágrimas que insistiam em cair.Depois, pegou um lenço umedecido e limpou a mesa, a cadeira e até o chão, apagando qualquer vestígio da confusão. Só então pegou a bolsa e saiu do café.Caminhando pelas ruas de Serra Alta, Carolina ergueu os olhos para o céu azul, onde nuvens brancas flutuavam leves e espaçadas. O sol era acolhedor, o vento suave. Até o ar parecia mais puro, mais leve.Cinco anos.Finalmente, a luz depois da tempestade.A felicida
Anos de atuação como advogada moldaram nela uma autoridade natural. Quando ficava séria, fria e implacável, sua presença se tornava sufocante.A voz saiu dura, com cada palavra marcada com precisão:— Wallace, eu sou a filha de Thiago Brito, Carolina. Já encontrei provas de que você e as outras duas testemunhas mentiram no tribunal naquela época. Vocês não estavam reunidos coisa nenhuma. Falso testemunho é crime. Dá cadeia. Você sabe disso, não sabe.Wallace entrou em pânico por dentro. Engoliu em seco, tentando manter a calma.— A gente estava, sim, reunido. Seu pai entrou, bateu no Luiz, largou as ferramentas e fugiu. Eu não menti.Carolina soltou uma risada fria.— Tem certeza disso?— Tenho. Claro que tenho.Ela arqueou a sobrancelha, tranquila.— Engraçado... Porque eu me lembro de que, no tribunal, vocês disseram que estavam jogando cartas.O cérebro de Wallace disparou. Ele ficou encarando Carolina, atônito. Mesmo no frio do inverno, suor brotou em sua testa. Limpou-o às pressas
A polícia nunca foi muito entusiasmada em lidar com casos de violência doméstica, ainda mais quando se tratava de mãe e filha.Afinal, Carolina apresentava apenas hematomas superficiais. Não era considerado ferimento grave.A intenção inicial era simples. Uma advertência verbal, algumas palavras de
Carolina pousou os talheres devagar. Mais da metade da tigela ainda permanecia intocada. Ela já não conseguia engolir mais nada.Pegou um guardanapo e limpou a boca com calma. Quando falou, a voz saiu fria, opaca, sem vida alguma.— Eu tenho vinte e sete anos, não dezessete. Como você acha que ainda
Carolina voltou para o quarto, tomou um banho, secou o cabelo e ficou parada diante da janela. Com cuidado, afastou a cortina e olhou para o prédio em frente.A casa de Amanda já estava completamente às escuras.O estômago roncou baixo e insistente, e aquela dorzinha conhecida voltou a se manifestar
Por um instante, Carolina ficou atordoada.Henrique… Estava preocupado com ela?Verdade ou não, ela não teve coragem de deixá-lo ainda mais aflito.— Acho que você entendeu errado. — Disse em voz baixa. — Eu só encontrei minha mãe perto do escritório… E ela me jogou no chão e me bateu.Henrique cong







