MasukPierre se aproximou de mim completamente em choque. Eu não conseguia entender. O que aquela escultura estava fazendo ali?
— Sara, nós tínhamos um acordo... O que você fez?! — sussurrou. — Eu... Eu não sei. Eu não coloquei aquilo ali. Eu jamais faria isso com você, você sabe! — Meu Deus... E agora? A questão era que a escultura mostrava uma mãe acariciando o filho. Ele estava fardado, mas morto em seu colo. Era, de fato, uma obra impactante. Para a surpresa de todos, aquele homem foi o primeiro a falar. Era como se todos estivessem esperando sua reação, prendendo a respiração para não demonstrar nada antes dele. — Interessante. Qual é a história dessa obra? — Ehh... Bom... Pierre mal conseguia falar. Foi então que, sem perceber, comecei a explicar. — Ela retrata a vida. Em tempos normais, os filhos enterram os pais. Mas, em tempos de guerra, os pais enterram os filhos. A obra mostra não apenas a dor de uma mãe que perdeu seu filho, mas também a aceitação daquilo que não podemos controlar. Reis mandam seus filhos para lugares seguros, enquanto mandam os filhos de seus súditos para a morte. Eu havia esquecido completamente que Pierre tinha me alertado sobre aquele homem. Na verdade, eu mal sabia quem ele era e sequer o olhei enquanto falava. Aquela obra era importante demais para mim. Quando comecei a explicá-la, esqueci completamente de medir minhas palavras. Entretanto, o que ele disse em seguida fez todos respirarem aliviados. — Eu gostei. Foi a melhor obra que vi hoje. Pierre então decidiu pedir que eu apresentasse todas as minhas outras esculturas. “Ódio de um Anjo”, “Cobras e Maçãs” e “Toque de Midas”, uma obra que transformava a riqueza em fome. Todas eram impactantes e visualmente muito diferentes do padrão convencional. Depois das apresentações, Pierre desabou ao meu lado. — Eu estou tão aliviado... — Por que você tem tanto medo desse homem? Ele me encarou, incrédulo. — Você realmente não sabe quem ele é? — E deveria? — A família Bellini controla uma parte enorme do comércio e dos negócios de São Paulo. Se eles não gostarem de alguma coisa, você pode perder tudo! E, normalmente, eles não gostam de nada contemporâneo. Por isso apresentamos apenas obras clássicas hoje. — Nossa... Eu nem sabia o que dizer. Mas minha surpresa veio logo depois. O leilão começou. E aquele homem comprou todas as minhas obras. Todas. Quando terminou, ele caminhou até mim. Admito que minhas pernas ficaram bambas quando nossos olhos se encontraram. — Eu adorei seu trabalho. Realmente é incrível. — O-obrigada. Fico feliz que tenha gostado. — Não agradeça. Eu que agradeço por ter feito meu tempo valer a pena. Pietro é o meu nome. — Eu sou Sara. Muito prazer. Ele estendeu a mão, mas, sem pensar, eu o abracei. Quando percebi o que havia feito, ele estava com um sorriso levemente constrangido. — Ai, desculpa... É que... — Está tudo bem. Estou tempo suficiente no Brasil para conhecer os costumes. — Você é estrangeiro? — Nasci e vivi uma parte da minha vida na Itália, mas amo o Brasil. Também me considero brasileiro. — Que bacana. Fico feliz que goste do nosso país. Ele sorriu. — E eu, por poder chamá-lo de nosso. Naquele momento, nossos olhares permaneceram presos um ao outro. — Você aceita tomar um café comigo? Quero conhecer melhor a artista que fez obras tão belas. Sorri. — Eu aceitaria, sim. Naquele momento, eu não sabia, mas aquele dia mudaria completamente a minha vida. Nós conversamos muito. Depois disso, passamos a nos falar praticamente todos os dias. Alguns meses depois, já estávamos namorando. Dois anos após nosso primeiro encontro, estávamos deitados em sua cama depois de uma noite de amor quando Pietro me disse algo que eu jamais esperava ouvir. — Eu quero que você conheça meus pais. Sorri, imaginando que finalmente conheceria a família do homem que amava. Eu ainda não sabia. Aquela frase seria o começo do fim da minha vida tranquila.Joseph continuou diante de mim.Aquela proximidade fazia meu corpo inteiro permanecer em alerta. Não era medo. Não era só medo.Ele passou a mão pelo meu corpo lentamente, sem pressa. Uma carícia que não era carinho. Era marcação. Como se quisesse me lembrar, centímetro por centímetro, que estava no controle.— Você ainda insiste em fingir — sussurrou, com a voz baixa, colada no meu ouvido.— Eu não pertenço a você.Ele sorriu. Aquele sorriso torto que me desarmava.— Continua dizendo isso. Repete, se isso te faz dormir melhor.A mão dele subiu para o meu rosto. Dedos firmes no meu queixo, me obrigando a encará-lo.— Você já está entregue a mim, Sara.Balancei a cabeça, mas minha voz saiu mais fraca do que eu queria.— Não.— Você resiste porque ainda quer acreditar que tem escolha — ele murmurou. — Mas sabe que, no fundo, quando eu estou aqui, você não consegue.Eu queria responder. Queria afastá-lo. Queria ser forte.Mas fiquei em silêncio. E o meu silêncio foi a resposta que ele qu
Duas semanas haviam se passado.Duas semanas desde a última vez que eu tinha visto Joseph.Eu havia passado esse tempo tentando voltar à minha rotina, como se continuar trabalhando, conversando e sorrindo fosse suficiente para colocar tudo no lugar.Não era.O pior não era lembrar.Era perceber que eu continuava lembrando mesmo quando não queria.Naquele dia, eu estava sozinha no ateliê.Pierre não havia aparecido. Ele tinha o próprio espaço de trabalho e, naquele dia, não veio me visitar.Diante de mim estava a escultura que eu finalmente havia terminado.Uma arara realmente grande, com as asas abertas, protegendo dois pequenos filhotes junto ao corpo. Eu havia pensado nela como uma representação de proteção, força e cuidado.O nome seria simples:“Mãe”.Fiquei alguns minutos observando a obra.Era estranho.Eu havia passado semanas construindo uma imagem de proteção enquanto, dentro de mim, tudo parecia cada vez mais desprotegido.Desviei o olhar e fui para o escritório.O projeto d
Três dias.Foi esse o tempo que passei na casa dos meus pais.Disse que estava com saudade.E era verdade.Mas não era o único motivo.Eu não conseguia olhar para Joseph.E, pior ainda, não conseguia olhar para Pietro.Cada vez que pensava nele, sentia culpa.Cada vez que lembrava do que havia acontecido, minha cabeça se enchia de perguntas.Eu precisava contar.Mas não tinha coragem.E também não sabia o que aconteceria depois.Então fiquei.Passei aqueles dias tentando agir normalmente, conversando com meus pais, ajudando em algumas coisas da casa e inventando pequenas desculpas para justificar minha permanência.Mas, todas as noites, quando ficava sozinha, a mesma dúvida voltava.O que eu faria?Uma tarde, Pietro me ligou.Atendi tentando parecer normal.— Oi, amor.— Oi, Sara. Como você está?— Estou bem.Houve uma pequena pausa.— Tem certeza?Sorri discretamente.Ele me conhecia bem demais.— Tenho. Só estou com saudade dos meus pais.— Eu entendo.Conversamos durante alguns min
— Joseph, NÃO!Disse enquanto ele me tocava, explorando meu corpo com aquelas mãos. Eu relutava, me debatia e tentava resistir... mas, assim como Pietro, Joseph era forte demais.— Para... por favor, me deixa ir! Eu não quero.— Quantas vezes você já me olhou? Quantas vezes já implorou pelos meus toques enquanto eu olhava para você? Acha que nunca notei suas vontades?Aquelas palavras me deixaram em completo silêncio por um instante. Eu só conseguia continuar lutando contra ele.— Eu vou gritar!Mal terminei a frase e senti sua mão pesada acertar meu rosto, me fazendo sentir toda a sua brutalidade.Então ele segurou meu rosto, tampando minha boca com sua mão enorme.— Então grite, não irá mudar nada! Você é minha! Eu sou dono desse seu corpo e vou te usar para o meu prazer, e você será minha putinha daqui em diante.Ele me olhava diretamente enquanto falava isso. Seus olhos e seu rosto eram tão dominantes que me deixavam cada vez mais acuada. Eu não sei o motivo, mas não gritei. Mesmo
Depois de algum tempo, finalmente chegamos em casa.Já era tarde da noite, por volta de meia-noite, e a casa estava completamente silenciosa. Todos já haviam se recolhido.Sentei-me no sofá da sala.Pietro passou por mim sem dizer nada.Eu pensei em assistir alguma coisa com ele, talvez aproveitar um pouco mais daquela noite, já que ele havia permanecido tão silencioso durante todo o jantar e o caminho de volta.Mas nem tive tempo de falar.Assim que passou por mim, ele simplesmente segurou minha mão.Levantei-me.— Pietro...Ele não respondeu.Apenas continuou andando.Subimos até o quarto.Quando entramos, fiquei olhando para ele.— Você já quer dormir?Nenhuma resposta.Ele se aproximou.Naquele momento, havia alguma coisa diferente nele novamente.A mesma presença que eu tinha percebido na praça.A mesma segurança.A mesma maneira de agir sem precisar explicar o que queria.Ele me conduziu até a cama e, em poucos segundos, eu estava deitada, com ele acima de mim.Pietro segurou mi
Na manhã seguinte, despertei e percebi que Pietro não estava na cama ao meu lado.Tomei um banho e depois fui para a cozinha. Eleonora já estava tomando café.— Bom dia.— Bom dia, querida.Sentei-me diante dela.— Cadê todo mundo?Ela continuou tomando seu café antes de responder.— Vittorio, Joseph e Pietro saíram cedo. Tinham algumas coisas para resolver.Parei por um instante.— Os três?— Sim.Ela respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo.— Devem voltar mais tarde.Não perguntei o que estavam fazendo.Talvez porque já soubesse que certas perguntas não tinham respostas naquela casa.Terminei meu café e fui para o ateliê.Pierre estava lá.Trabalhamos durante algum tempo, até que a conversa acabou chegando ao assunto de Paulo.Ele parecia mais inseguro do que eu já tinha visto.— Ele parece ser um cara legal e vocês são amigos há um bom tempo e eu confio em você. Eu sei que se ele é seu amigo significa que ele é uma boa pessoa, mas mesmo assim, sabe? Tenho medo, porque







