Masuk— Eu uso o meu próprio dinheiro pra fazer compras. O lucro que gerei pro Grupo Siqueira nesses anos já passou de cem milhões. Mesmo que o Gustavo tenha me dado alguma coisa, não cobre nem os centavos do que ele me deve de dividendos. Quer que eu abra as contas agora pra gente resolver tudo, item por item?A voz de Ayla era calma, sem pressa, mas cada sílaba acertava como uma lâmina no orgulho de Gustavo.Era isso que ele mais temia: que Ayla começasse a cobrar. No passado, ela sempre protegeu a imagem dele. Mesmo carregando a empresa nas costas, nunca reivindicou o mérito, dizia que tudo era conquista dele.Mas se ela resolvesse puxar os dados... cada projeto, cada resultado, tinha nome e sobrenome. E era o dela.— Lalá, não foi isso que eu quis dizer. Nem a Prof. Bianca... — Gustavo entrou em pânico. Tentou justificar, mas Ayla nem quis ouvir. Seu olhar caiu sobre as sacolas espalhadas no chão.— Professora Bianca, vejo que comprou bastante coisa. Deve ter gastado uma boa quantia, né?
A provocação de Bianca não podia ser mais óbvia.Gustavo lhe lançou um olhar rápido, um aviso silencioso para que se controlasse, antes de se virar depressa:— Lalá, nesses dias em que você ficou fora, a Bianca realmente ajudou bastante na empresa. E com o Thiago também. Foi ela quem cuidou de tudo.— É mesmo? Que dedicação, Prof. Bianca. — Ayla curvou levemente os lábios, o tom carregado de falsa curiosidade. — Mas, se foi tão eficiente, por que eu ouvi dizer que um projeto da empresa foi arruinado pelas mãos da própria Prof. Bianca?— E que ela pediu demissão por causa disso?— Sem falar que anteontem minha sogra me mandou mensagem dizendo que a Prof. Bianca fez as malas e se mudou às pressas... Será que aconteceu alguma coisa?As perguntas saíram suaves, quase inocentes — mas bastaram para deixar os dois com a expressão de quem acabara de engolir um inseto.O canto da boca de Bianca se contraiu. O olhar que lançou a Ayla parecia faiscar.Gustavo logo se colocou à frente dela:— Lalá
— Tá bom, eu prometo. Tranquila, meu amor. — Gustavo forçou um sorriso.Não teve coragem de contar a Bianca que o retorno de Ayla à empresa já era um fato consumado.Armando lhe dera um ultimato: fizesse o que fosse necessário, mas Ayla teria de voltar e pôr ordem no caos em que o Grupo Siqueira se transformara.Para reunir os cinquenta por cento das ações, ele precisou transferir também as cotas da mãe e da Vera para o nome dela... tudo feito sem que nenhuma das duas soubesse. E hoje era o prazo final. Assim que terminasse o passeio com Bianca, iria atrás de Ayla para resolver tudo.Mas, por enquanto, era o momento dos dois. Gustavo queria ao menos fingir que as preocupações estavam longe dali.Afinal, quando Ayla voltasse, tudo voltaria aos eixos. E cedo ou tarde, ela acabaria devolvendo tudo que lhe pertencia.No shopping, Bianca enfim se animou. De braço dado com Gustavo, passou de uma vitrine de bolsas para a seção de joias.Em menos de uma hora, já estouraram mais de um milhão.C
Como era de se esperar, quando a votação começou, Ayla recebeu apoio unânime. Sua autorização de acesso foi liberada imediatamente, e a nomeação oficial foi comunicada a todos os setores.Ao fim da reunião, Bruno já não tinha mais o menor resquício da arrogância de antes. A gravata borboleta pendia frouxa no colarinho, os óculos haviam sido retirados e ele tentava, em vão, recuperar o controle da respiração.— Sr. Bruno, agradeço pela presença hoje. Uma pena que a Sra. Carolina não pôde comparecer. Eu tinha vontade de aprender um pouco sobre gestão com ela. De qualquer forma, espero que possa transmitir meus votos de melhora e desejar uma rápida recuperação. — Comentou Ayla ao sair da sala, com um tom de voz calmo e educado.— Claro... — Respondeu Bruno entre os dentes, forçando um sorriso que mais parecia uma careta.Assim que ela saiu, ele voltou para sua sala furioso. Atirou o paletó na cadeira, esbravejou contra a equipe e ligou imediatamente para os dois acionistas que haviam comp
Bruno ficou ali sentado metade do dia, e até assistir o caos já tinha perdido a graça para ele.Ele soltou um suspiro impaciente, com o olhar carregado de escárnio.— Calma, eles já vão chegar.Ayla conferiu o relógio, a voz firme e tranquila.Mal ela terminou a frase, a porta do salão foi empurrada.O corpo relaxado de Bruno enrijeceu na hora.Os acionistas centrais da empresa eram sete. Tirando Carolina, ele e Ayla, os outros quatro sempre foram aliados ferrenhos de Carolina... gente que jamais apareceria para uma reunião convocada por Ayla.Mas quem entrou justamente naquele instante... eram dois desses quatro.Os dois homens, já de meia-idade, estavam impecavelmente vestidos, passos rápidos e tensos.Entraram sem nem sequer encarar Bruno, rostos fechados, e se acomodaram ao lado de Ayla.Bruno respirou fundo, pesadamente, e apoiou as mãos na mesa, incapaz de entender o que estava acontecendo.Que diabos era aquilo?A notícia da presença dos acionistas correu como pólvora.Não levou
— Sr. Daniel... — Ayla queria explicar o assunto de Gustavo,Daniel porém falou primeiro:— Eu não vou perguntar sobre sua vida pessoal, nem interferir. Mas nós temos um compromisso de casamento, e eu acredito que você vai resolver bem tudo que ficou para trás.Sem perseguição, sem cobrança, essas palavras fizeram uma pontada de culpa subir no peito de Ayla.Ela até imaginou que, pela identidade de Daniel, ele talvez fosse se importar com o passado dela, talvez até exigir explicações. Mas ele não perguntou absolutamente nada.— Eu… eu vou resolver tudo o mais rápido possível. Acredite em mim! — Disse Ayla.Nesse instante, ela finalmente percebeu que o homem diante dela realmente colocava aquele compromisso no coração, e até tratava ela com respeito.Daniel fez um leve aceno afirmativo, embora no fundo passasse uma sombra de incômodo que ele mesmo não soube definir.Ele não deixou de investigar Ayla. Seis anos de relacionamento, para qualquer pessoa não é pouco.Será que no coração dela







