LOGINA quinta-feira caiu sobre o Rio com aquele calor que não vai embora nem depois do pôr do sol. O asfalto devolvia o dia inteiro de sol em ondas, o vento vinha do mar carregado de sal, e a cidade toda parecia estar de porta aberta.
Liz foi arrastada. Literalmente.
— Uma hora — ela negociou, parada na porta do apartamento de Bia, ainda de tênis.
— Três.
— Uma e meia.
— Liz, a boate é a duas quadras aqui de casa. Você vai andando. Se você quiser ir embora, você pode voltar no momento que desejar. Não existe argumento.
Duda apareceu com um vestido preto na mão, curto, de alcinha fina.
— Prova.
— Isso não é meu.
— É meu, e agora é seu. Vai cair melhor em você do que em mim e eu vou ter que viver com essa humilhação.
Liz riu e cedeu. E quando se olhou no espelho, sentiu algo estranho no peito — não vaidade exatamente, mas reconhecimento. Como quem encontra uma foto antiga e pensa: ah, sim, essa também sou eu. A franja emoldurando o rosto, o cabelo preto solto nas costas, os ombros nus, e no pulso a única joia que ela tinha, uma pulseirinha de prata que a avó lhe dera aos quinze.
— Você está absurda — disse Bia, séria.
— Eu estou desconfortável.
— As duas coisas convivem. Bem-vinda à vida social.
A boate era uma daquelas casas de Botafogo com pé-direito alto, luz baixa e o som batendo no peito antes de chegar ao ouvido. Gente bonita, gente cheirosa, gente com dinheiro e gente fingindo ter.
Liz entrou e sentiu o impacto como quem entra no mar de uma vez: choque, resistência e, depois de um minuto, aquela leveza esquisita de estar submersa.
Gabriel chegou meia hora depois, camisa branca de linho com as mangas dobradas, e a expressão de alguém convocado para um júri.
— Relaxa esse maxilar — disse Ícaro, empurrando um copo na mão dele. — Você parece que veio auditar o lugar.
— Eu estou avaliando a saída de incêndio.
— Meu Deus.
Mas algo aconteceu, aos poucos. Talvez fosse o calor, talvez a música, talvez o fato de que ninguém ali o chamava de doutor. Na terceira música, Gabriel percebeu que estava rindo de algo que Ícaro disse sobre um deputado. Na quinta, percebeu que estava com o copo na mão e o corpo ligeiramente no ritmo, o que para ele era praticamente dançar.
Liz, do outro lado da pista, também tinha desistido de resistir. Estava com os olhos meio fechados, o cabelo colado na nuca pelo suor, os braços soltos, dançando leve — não para ninguém, o que é a única forma honesta de dançar. Bia gritava a letra errada ao lado dela. Duda filmava. E por uns minutos, quatro ou cinco minutos inteiros, Liz Souza não estava pensando em turno, boleto, tinta ou prova. Era a primeira pausa verdadeira em meses.
Foi exatamente aí que a multidão empurrou.
Alguém passou com uma bandeja, o fluxo se fechou, e Gabriel — que tentava atravessar a pista para chegar ao mezanino — foi jogado meio passo para o lado sem tempo de reagir. O copo virou. O líquido gelado desceu pelo ombro nu, pela clavícula, pelo vestido preto emprestado.
Liz arfou com o choque do frio e girou nos calcanhares.
— Ah, ótimo. Perfeito.
— Desculpa. — A voz dele veio grave, imediata, sem a menor teatralidade. — Foi meu erro. Me desculpa de verdade.
Ela ergueu os olhos para responder. E parou.
Ele estava perto o suficiente para ela ver, mesmo naquela penumbra, os olhos verdes fixos nela com uma atenção que não combinava nem um pouco com a bagunça em volta — como se, de repente, a boate inteira tivesse virado som de fundo. O queixo tenso, a camisa branca com o mesmo respingo que agora escorria nela, a mão já estendida com um punhado de guardanapos que ele havia pegado do bar sem nem pensar.
— O vestido não é meu — Liz ouviu a própria voz sair, um pouco rouca, um pouco desafiadora.
— Então você acabou de me arruinar duas vezes.
Um canto da boca dele subiu. Meio milímetro.
— Então eu devo um vestido a você e um pedido de desculpas a uma terceira pessoa que eu nunca conheci.
— Exatamente.
— Eu pago os dois.
— Eu não pedi dinheiro.
— Eu não ofereci. — Ele estendeu os guardanapos, e havia algo naquele gesto, uma delicadeza fora de lugar num homem daquele tamanho. — Ofereci reparação.
Liz pegou os papéis. Os dedos dos dois se tocaram por um segundo e meio — tempo suficiente para nada e tempo suficiente para tudo.
Atrás dela, Bia ficou absolutamente muda, o que nunca acontecia. Atrás dele, do alto do mezanino, Ícaro Mascarenhas se debruçou no corrimão, viu a cena inteira, e sorriu como quem acaba de assistir ao primeiro ato de algo muito, muito longo.
— Liz — ela disse, sem saber exatamente por que estava dizendo o nome.
— Gabriel.
A música mudou. A multidão empurrou outra vez. E nenhum dos dois se mexeu.
O segundo gol veio pouco depois do intervalo, e o estádio inteiro voltou a gritar como se a vitória já estivesse garantida. Dessa vez, porém, Liz não pulou. Em vez disso, levou as duas mãos até a camisa dobrada em seu ombro — a camisa do pai, que carregava consigo desde a manhã — e a beijou devagar, os olhos já marejados, os lábios se movendo num murmúrio baixo que só ela conseguia ouvir por completo.Gabriel observou a cena em silêncio, sem entender de imediato o que se passava, mas sentindo, com uma clareza estranha, que aquilo tinha um peso diferente de tudo mais que acontecia ao redor. Havia algo naquele gesto — na delicadeza com que ela segurava o tecido gasto, no jeito que fechava os olhos por um segundo antes de voltar a gritar junto com a torcida — que despertou nele mais curiosidade do que qualquer relatório financeiro jamais tinha conseguido.Ele não perguntou ali. Só guardou a pergunta, junto com a cena, para depois.O Fluminense venceu por dois a zero, e quando o apito fin
Por um instante que pareceu se esticar mais do que deveria, nenhum dos dois disse nada. Liz continuava parada, o coro da torcida ainda ecoando ao redor como se ninguém mais tivesse percebido que o tempo tinha, ali, resolvido parar de correr. Gabriel também não se mexia, o sorriso torto ainda preso no rosto, os olhos verdes presos nela com aquela mesma atenção inconveniente que já tinha feito Liz perder o fio dos próprios pensamentos uma vez.Foi Ícaro quem, como sempre, resolveu que silêncios daquele tamanho não deveriam existir por muito tempo.— Bom, já que ninguém aqui parece capaz de formar uma frase — disse ele, aparecendo ao lado de Gabriel com o copo erguido e um sorriso largo, cúmplice —, eu me apresento. Ícaro Mascarenhas, amigo de infância deste rapaz aqui que, aparentemente, esqueceu como se fala.Duda soltou uma risada alta.— Duda — disse ela, estendendo a mão. — E essa aqui do meu lado, tentando parecer discreta e falhando completamente, é a Bia.— Eu não estou tentando
Liz estava a poucos metros dali, de costas para ele, a camiseta verde, branco e grená colada ao corpo pelo calor, o rabo de cavalo balançando enquanto ela cantava — desafinada, animada, sem qualquer pudor — um coro que as amigas ao lado gritavam junto com ela. Havia algo na cena inteira que parou o tempo de Gabriel de um jeito quase indecente: os braços erguidos, os olhos fechados de riso, a felicidade tão inteira que parecia contagiar o ar ao redor.Ele ficou parado, cerveja esquecida na mão, incapaz de desviar o olhar.Ícaro percebeu a demora e seguiu a direção dos olhos do amigo. Levou apenas alguns segundos para juntar as peças — o jeito como Gabriel tinha congelado, a mulher de cabelo preto cantando sem se importar com quem olhava, a coincidência absurda demais para ser ignorada.— Não acredito — murmurou Ícaro, um sorriso enorme se abrindo no rosto. — Não acredito mesmo.— Cala a boca, Ícaro.— Gabriel. Gabriel, olha pra mim. Essa é a morena misteriosa?— Eu não disse nada.— Vo
O sábado chegou do jeito que Liz mais gostava: sem despertador, sem pressa, sem o peso do relógio empurrando cada movimento. Ela abriu os olhos sozinha, olhou para o teto por alguns segundos só para sentir o luxo raro de não precisar sair correndo de baixo do lençol, e sorriu antes mesmo de se lembrar por quê. Depois lembrou. Fluminense. Maracanã. A camisa do pai, dobrada com cuidado dentro do armário, esperando.Levantou-se com uma disposição que parecia contagiar até as paredes descascadas do quarto. Foi até a cozinha ainda de pijama, o cabelo solto e bagunçado, e encontrou Dona Neusa já de pé, como sempre, mexendo o café no coador de pano.— Olha só quem acordou sorrindo — disse a mãe, sem tirar os olhos da panela.— Hoje é dia de jogo, mãe. Não tem como não sorrir.— Também é dia da sua folga. Isso já era motivo suficiente.Liz riu, puxou uma cadeira e sentou-se sem aquela ansiedade costumeira de quem calcula o tempo entre um gole e outro. O irmão apareceu logo depois, ainda com c
Gabriel, por outro lado, tinha dormido mal. Muito mal.Às quatro e quarenta e cinco da manhã já estava completamente acordado, os olhos fixos no teto do quarto, tentando entender por que uma mulher que ele conhecera por poucos minutos tinha conseguido ocupar um espaço tão desproporcional em sua cabeça. Aquilo era absurdo, pensou. Tinha reuniões importantes pela frente, contratos que precisavam de revisão cuidadosa, uma empresa inteira esperando por suas decisões — e ali estava ele, deitado no escuro, pensando numa desconhecida.Uma linda desconhecida.Fechou os olhos.Liz.O nome parecia combinar perfeitamente com ela — curto, forte, difícil de esquecer, como se tivesse sido escolhido especificamente para grudar na memória de quem o ouvisse uma única vez.Levantou-se às cinco, decidido a aplicar a única estratégia que conhecia contra pensamentos barulhentos demais: cansar o corpo até a mente finalmente se render ao silêncio. Na academia, aumentou o peso além do habitual, correu por ma
Liz acordou antes mesmo do despertador tocar.Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto e tentando entender por que tinha aberto os olhos tão cedo, o corpo ainda pesado de sono, mas a mente já inquieta demais para voltar a dormir. Então se lembrou: a boate, o vestido preto emprestado, os olhos verdes fixos nela em meio à confusão da pista. Gabriel.Virou-se para o lado, puxando o lençol até o queixo, como se aquele gesto simples pudesse, de alguma forma, protegê-la do próprio pensamento.— Não — murmurou para si mesma. — Nem começa.Era exatamente o tipo de ideia que ela precisava evitar, o tipo de fio que, se puxado com atenção demais, ameaçava desmanchar toda a lógica cuidadosa com que ela organizava a própria vida.Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu a calça jeans e a camiseta branca de sempre, prendendo o cabelo num rabo de cavalo alto antes de seguir para a varanda, onde Bia e Duda já estavam de pé, os cafés fumegando sobre a mesa.— Bom dia, celebridad







