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Capítulo 3

Author: Caca Petit
last update publish date: 2026-09-17 03:35:10

— Liz.

— Gabriel.

Os dois disseram os nomes quase ao mesmo tempo, e por alguns segundos ficaram ali, parados um diante do outro, enquanto a música continuava pulsando ao redor como se nada tivesse mudado. Era curioso como, em meio a centenas de pessoas suadas e barulhentas, era possível sentir que alguém tinha conseguido, sem esforço nenhum, abrir um pequeno espaço de silêncio só para os dois.

Gabriel foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Você está bem?

Liz olhou para o próprio vestido e depois para ele.

— Acho que sim. O vestido, provavelmente, não.

Ele soltou uma risada baixa, genuína, do tipo que raramente escapava dele em público.

 — Eu realmente sinto muito.

— Você já pediu desculpas.

— Posso pedir outra vez.

— Não precisa.

— Tem certeza?

— Tenho — disse ela, assentindo, os olhos ainda fixos nos dele com aquela firmeza tranquila que já começava a desarmá-lo por completo.

Gabriel observou o rosto dela por mais um instante, tentando entender o que havia ali que já parecia diferente de tudo que conhecia. Não sabia explicar exatamente o que havia naquela mulher. Talvez fosse aquele olhar direto, sem a curiosidade exagerada que costumava surgir no rosto das pessoas assim que reconheciam seu sobrenome, como se o nome Mafra abrisse automaticamente uma cortina de expectativas que ele nunca tinha pedido para carregar.

Liz, porém, simplesmente o olhava como se ele fosse apenas Gabriel — um homem qualquer, sem sobrenome, sem holofote, sem história prévia pairando no ar entre os dois.

E aquilo era novo. Muito novo.

Gabriel Mafra estava acostumado a ser reconhecido antes mesmo de se apresentar. Em reuniões, restaurantes, eventos, e até em encontros casuais como aquele, sempre existia alguém que conhecia seu pai, seu avô, ou pelo menos alguma história antiga envolvendo a família — como se ele fosse, antes de qualquer coisa, um capítulo de uma narrativa que outras pessoas já tinham decidido de antemão.

Liz, porém, apenas o olhava como quem olha para uma pessoa comum, curiosa, talvez, mas sem cálculo nenhum por trás dos olhos.

E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo lhe pareceu genuinamente interessante.

— Você está sozinha? — perguntou ele.

Liz apontou discretamente para trás, onde Bia e Duda fingiam manter uma conversa qualquer, sem nenhum sucesso em disfarçar que observavam cada movimento da cena.

— Não exatamente.

Gabriel acompanhou o olhar dela e sorriu, um sorriso mais largo do que o de minutos atrás.

— Acho que suas amigas estão esperando uma história.

— Elas sempre esperam.

— E você costuma dar histórias pra elas?

— Não.

— Por quê?

Liz deu de ombros, o gesto quase automático.

— Porque minha vida não é muito interessante.

Gabriel ergueu uma sobrancelha, discordando abertamente daquela afirmação.

— Discordo.

Ela estreitou os olhos, um sorriso pequeno escapando apesar de si mesma.

— Você me conhece há aproximadamente três minutos.

— E já descobri que você não gosta de admitir quando alguém está certo.

Liz riu, um som curto, mas verdadeiro.

— Você é convencido.

— Talvez.

— Talvez?

— Estou tentando ser humilde.

Ela riu de novo, mais solta dessa vez, e aquele riso — simples, espontâneo, sem nenhuma intenção de agradar — atravessou Gabriel de um jeito que ele não soube explicar de imediato. Era como se uma nota musical, tocada sem nenhuma pretensão, tivesse conseguido alcançar exatamente o ponto certo dentro dele, aquele que ele nem sabia que ainda estava sensível o suficiente para vibrar.

Depois de Amanda, não tinha acontecido nada parecido. Durante muito tempo, ele simplesmente não sentira vontade de olhar de verdade para nenhuma outra mulher.

Amanda Veiga tinha sido sua namorada durante anos. Cresceram praticamente juntos, filhos de famílias tradicionais que sempre acreditaram, com uma confiança quase arrogante, que aquela proximidade inevitavelmente terminaria em casamento. As mesmas festas, os mesmos círculos, as mesmas casas de praia dividindo o verão — Amanda fazia parte da paisagem de sua vida havia tanto tempo que, por anos, Gabriel nunca tinha se dado ao trabalho de imaginar um caminho diferente.

Ela era ruiva, de pele alva e impecável, o tipo de beleza que chamava atenção sem nenhum esforço visível. Formada em Direito, possuía uma inteligência afiada e uma capacidade de persuasão que beirava a arte — conseguia conduzir qualquer conversa até o resultado que desejava, deixando a outra pessoa convencida de que a decisão tinha sido inteiramente sua.

Mas não conseguiu convencer Gabriel.

Quando ele decidiu voltar aos Estados Unidos para concluir uma etapa importante da formação, Amanda se posicionou contra, com uma firmeza que ele reconheceria, anos depois, como o primeiro sinal claro de que aquele relacionamento carregava rachaduras profundas demais para serem ignoradas.

— Você não precisa ir — dissera ela.

— Preciso, Amanda.

— Não precisa.

— Preciso.

— E eu?

Gabriel tinha ficado em silêncio diante daquela pergunta, que parecia simples, mas carregava um peso muito maior do que quatro palavras deveriam ser capazes de sustentar. Amanda queria que ele desistisse — não confiava nele longe dela, tinha medo da distância, medo de outra mulher, medo de que tudo mudasse assim que o oceano os separasse.

— Eu não posso simplesmente abandonar tudo aqui pra te acompanhar — ela tinha dito. — Tenho minha faculdade, minha vida.

— Eu nunca pedi pra você abandonar nada.

— Mas está me pedindo pra aceitar que meu namorado passe meses em outro país.

— Estou pedindo que confie em mim.

Ela tinha rido, sem nenhum humor.

— Então prove.

E, por fim, colocara a escolha diante dele como uma ameaça pura e simples: fique, ou perca-me. Gabriel escolhera partir — não porque não a amasse, mas porque, para ele, amor nunca deveria exigir que alguém desistisse de quem era só para caber dentro da vida do outro.

O término aconteceu sem grandes discursos finais. Amanda, orgulhosa demais para recuar, e Gabriel, responsável demais para abandonar uma decisão amadurecida ao longo de meses. Ela o deixou partir, e, embora ainda o amasse, nunca foi atrás dele. Gabriel, por sua vez, também nunca procurou por ela.

Depois disso, alguma coisa dentro dele simplesmente parecera se desligar. Mulheres bonitas nunca tinham faltado ao seu redor — convites, olhares, mensagens de flerte que ele raramente respondia —, mas nenhuma despertara curiosidade suficiente para fazê-lo querer ficar.

Até aquela noite.

Até Liz.

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