LOGINEnfim, o dia que tanto aguardei, chegou. O que me faz sair mais cedo da fábrica. Bem mais cedo. O Nicolas está na sala de reunião com a Geórgia. Passo pela porta deles de fininho, falo baixo com a secretária. — Se perguntarem, fui resolver coisas da produção. — Coisa de produção no heliporto, senhor Andrea? — ela brinca. Dou risada e desço. Tô ansioso. Ansioso pra caralho. Desde que acordei hoje parece que o dia não anda. Olho pro relógio a cada cinco minutos. Então decidi: vou de helicóptero. Se eu for pilotando, chego em vinte minutos. De carro levaria horas nesse trânsito. Subo correndo lembrando que se quiser manter esse segredo vou ter que começar a usar o táxi aéreo. Faço o check, decolo. Eu mesmo pilotando. O barulho me acalma um pouco, mas a cabeça não para. Aqui de cima a cidade parece pequena, mas o orfanato parece cada vez mais perto. Pouso, deixo a aeronave no hangar e pego o carro que já pedi pra preparar. Agora é o segundo trecho. Estrada até o orfanato. E aí c
A semana passou se arrastando, e hoje é segunda-feira de novo. Já passamos do almoço e eu não consigo parar quieta. Lavei minha caneca três vezes. Arrumei a cama, desarrumei a cama. Tudo isso para ter o que fazer.A Irmã Lúcia passa e fala:— Anna, vai lá pra fora, menina. Você está ansiosa.Eu estou. Muito.Quando bate uma hora, a Irmã me chama. Eu já estou nervosa, em pé na porta.— Ele chegou, Anna. Está te esperando no jardim. No mesmo lugar.Meu coração dispara na hora. Sigo quase correndo, mas tento disfarçar quando chego perto do jardim. Não quero que ele veja o quanto eu estou feliz. Não quero que ele me ache sem modos.E ele está lá. Sentado no mesmo banco. Inquieto. Mexendo os pés. Barba bem marcada. Uma camisa vinho dobrada até o antebraço. Calça social preta. Sapatos brilhando. Lindo de matar!Meu coração até erra a batida. E quando ele me vê, ele levanta.Rápido. Rápido demais para parecer casual.Ele sorri. E eu sorrio também. Sem nem perceber, meu rosto se abriu i
Essa foi a semana mais longa da minha vida.Eu achei que depois que a Cassandra marcou toda segunda na agenda, eu ia ficar em paz. Que era só esperar. Foi o contrário. Agora que eu tenho a certeza que vou vê-la, cada dia útil parece ter quarenta e oito horas. E o fim de semana então, nem se fala.*Terça-feira.*Levantei antes do despertador. Já com a doação na cabeça.Se tem uma coisa que eu aprendi com meu pai é: não mistura conta pessoal com conta da empresa. Se eu coloco "Doação Orfanato - R$ 150.000,00" no financeiro, o Nicolas me liga em cinco minutos."Que doação é essa, Andrea? Foi aprovada em reunião? Desde quando faz caridade?"E eu não ia saber explicar sem falar dela. E eu não quero falar dela ainda. Pra ninguém.Isso é meu. Por enquanto.Fui pro meu banco, conta pessoal, pessoa física. Transferi da minha reserva. Doeu? Não. Cento e cinquenta mil é troco pra gente. Porque na hora que caiu a confirmação, eu senti alívio pela primeira vez desde segunda.Alívio porque a minh
Eu ainda flutuava quando a diretora Cassandra me chamou pra sair.Por causa dele. Do jeito que ele me segurou antes de me afastar. Firme. Como se não quisesse soltar.Quando eu voltei para o interior do orfanato, já tinha um grupinho esperando.— Anna, o que ele queria?— O que ele falou?— O que fez para ele voltar?Eu não sabia o que responder. Porque nem eu tinha entendido direito. Só sabia que o peito estava batendo muito rápido e que, pela primeira vez, uma visita tinha acabado com aquela sensação de vazio. Até ela terminar, é claro.— Ele só veio conversar — eu falei, baixinho.— Conversar o quê? — a Sofia insistiu. — Ele fica te olhando diferente, Anna. Todo mundo vê.Eu senti o rosto queimar. Apertei o uniforme velho contra o corpo sem querer. Querendo me esconder.— Ele é bom. Ele escuta — foi tudo que consegui dizer. Porque era verdade. Ele me escutou quando eu falei da minha rotina boba. Ninguém aqui escuta a gente de verdade. Ele escutou.Elas iam continuar perguntando, e
Quando Anna se afastou, deixei claro que queria conversar em particular e ela me encaminhou para a diretoria.Eu ainda sentia com o calor da mão dela na minha quando a Cassandra fechou a porta da diretoria.— Senhor Andrea, o senhor precisa entender. A Anna é uma menina muito sensível.Eu não sentei. Fiquei em pé. — Eu sei disso. Por isso mesmo vim falar com a senhora.Ela me olhou surpresa. Achou que eu ia reclamar do horário.— A partir de hoje eu vou vir toda semana — falei direto. — Toda segunda. No mesmo horário. Quero que fique marcado na agenda.Ela franziu a testa.— Senhor, nós temos um cronograma de visitas...— E eu quero mais tempo. Meia hora não dá. Uma hora. No mínimo. — Cruzei os braços disposto a tudo para ganhar essa guerra. — Hoje a senhora nos cortou no melhor da conversa.— São regras, senhor Andrea. É igual para todas.— Então muda a regra pra ela. Ou pra mim.Ela suspirou. Sentou na cadeira dela, de diretora.— Posso ver o que consigo fazer sobre o tempo. Mas nã
— Achei que não viesse.Foi o que saiu. Minha voz fina, espremida. Assim que falei, quis me esconder dentro do uniforme.Que burra. Que burra, Anna. Ele veio até aqui e você falou isso?Mas ele não riu de mim.— Sou ocupado sim, mas sempre tem um jeitinho. E você, você tem muito valor.Valor.Ninguém nunca tinha me dito que eu tenho valor.Fiquei olhando pra mão dele no meu pulso. Grande, quente. O dedo dele em cima da pedra da pulseira, tocando minha pele. Eu não tirei. Eu não queria que ele tirasse. Queria congelar o tempo.Mesmo que a Irmã visse. Mesmo que me deixasse de castigo um mês.— Senta comigo? — ele perguntou.Eu só assenti. Porque se eu abrisse a boca ia sair tudo errado de novo.Só aí ele soltou. Devagar. Quando soltou, o frio voltou. Puxei a manga na hora. Cobri. Escondi. Costume.A gente foi pro banco. O banco que quase ninguém usa. Eu sentei na pontinha. Bem na pontinha. Se eu me sentasse mais na ponta eu caía.Ele sentou longe. Deixou um espaço enorme. Eu olhei pa







