LOGINPaula é um nome que ela odeia. Para os moradores do morro, ela é Penélope Charmosa: uma garota de dezoito anos, língua afiada, personalidade forte e coragem suficiente para comprar briga até com quem deveria evitar. Filha de Ricardo, um pedreiro, e Maria das Graças, uma faxineira, Penélope cresceu conhecendo de perto as dificuldades da pobreza. Mas nunca aceitou que o lugar onde nasceu determinasse até onde poderia chegar. Ela é atrevida, impulsiva, cheia de atitude e não leva desaforo para casa. No morro, todo mundo conhece seu jeito explosivo — e alguns preferem atravessar a rua quando veem Penélope vindo. Mas a vida dessa garota está prestes a mudar. Entre amizades, rivalidades, segredos, confusões e um sentimento que ela jamais imaginou viver, Penélope vai descobrir que ser forte não significa não se machucar. Porque quando alguém mexe com o coração da garota mais malvada do morro, até Penélope Charmosa pode perder o controle. E talvez o maior perigo da sua vida não esteja nas vielas do morro...
View MoreEu estava cansada.Muito cansada.Mas, ao mesmo tempo, parecia que minha cabeça tinha tomado umas três latas de energético.Eu não conseguia parar de pensar na noite.Na varanda.Na conversa com Tiago.No jeito que ele tinha falado do pai.No sanduíche.No sorriso.No maldito sorriso.— Para, Penélope — murmurei para mim mesma enquanto abria a porta de casa. — Você tá ficando doida.Entrei devagar, tentando não fazer barulho.Fechei a porta com o maior cuidado do mundo.Dei dois passos.Três.E, quando virei para entrar no corredor...— Bom dia.Eu quase pulei no teto.— CARALHO!Levei a mão ao peito.Minha mãe estava sentada na cadeira da cozinha, com os braços cruzados e uma expressão de quem estava esperando aquele momento fazia horas.— Mãe!Ela segurou o riso.— Que foi?— Você quer me matar?— Eu só falei bom dia.— Bom dia nada! Você ficou aí escondida igual uma assombração!Ela começou a rir.— Assombração?— É! Eu quase tive um negócio aqui.Minha mãe balançou a cabeça.— Voc
Quando Luciana finalmente decidiu ir embora, eu já estava quase dormindo em pé.— Eu vou nessa, Penélope — ela disse, ajeitando a bolsa no ombro. — Amanhã a gente se fala.— Vai com Deus.— Você também. E não faz merda.Olhei para ela, indignada.— Eu? Fazer merda?Gabriel, que estava ao nosso lado, soltou uma risada.— Você tem um histórico.— Cala a boca, Playboy.Ele levantou as mãos.— Tô quieto.Luciana riu.— Boa noite, vocês dois.— Boa noite — respondi.Gabriel também se despediu e tomou o caminho dele.Fiquei alguns segundos parada, olhando os dois se afastarem pela rua.O baile já tinha acabado de vez.As caixas de som estavam silenciosas. Algumas luzes ainda permaneciam acesas, iluminando a rua quase vazia. O chão estava cheio de marcas da noite, copos espalhados aqui e ali, e o cheiro de comida, bebida e fumaça ainda pairava no ar.O morro parecia outro depois que a música acabava.Mais quieto.Mais íntimo.Eu respirei fundo e comecei a caminhar para casa.Meu corpo estava
O baile foi diminuindo aos poucos.A música, que antes fazia o chão parecer tremer, começou a baixar. As luzes continuavam piscando, mas já tinha menos gente dançando. Alguns casais foram embora de mãos dadas, outros grupos ficaram espalhados pelas ruas, conversando, rindo e comentando tudo o que tinha acontecido durante a noite.Eu estava cansada pra caralho.Mas também não queria ir embora.Sentada num muro baixo perto da entrada do baile, eu tirei uma das botas e massageei o pé.— Nunca mais uso esse negócio — resmunguei.Luciana olhou para mim e começou a rir.— Você fala isso toda vez.— Porque toda vez eu sou idiota e uso de novo.Gabriel, que estava sentado do outro lado, olhou para minhas botas.— Mas ficou bonito.Levantei a cabeça devagar.— O quê?Ele apontou para meus pés.— A bota. Ficou bonita.— Ah.Coloquei a bota de volta.— Achei que você estivesse falando de mim.Ele arregalou os olhos.Luciana quase caiu do muro de tanto rir.— Meu Deus, Penélope! — ela conseguiu d
Sábado chegou.E, se tinha uma coisa que fazia o morro mudar de cara, era noite de baile.Desde o começo da tarde já dava para perceber que alguma coisa estava acontecendo.As casas ficavam com as portas abertas.As mulheres começavam a se arrumar.Os homens apareciam com camisa nova, perfume forte e aquele cabelo cuidadosamente ajeitado.As crianças ficavam correndo pelas vielas enquanto os adultos gritavam de um lado para o outro.E, quando a noite começava a cair, o morro inteiro parecia ganhar outra energia.Eu estava sentada na minha cama quando ouvi três batidas na porta.— Penélope!— O quê?A porta abriu sem esperar resposta.Luciana entrou.E entrou como se fosse dona da casa.— Você vai comigo.Olhei para ela.— Vou aonde?— Ao baile.— Não vou.— Vai sim.— Não vou.— Vai.— Luciana, eu falei que não vou.Ela colocou as mãos na cintura.— Por quê?— Porque não quero.— Mentira.— Como é que você sabe?— Porque você está sentada na cama desde cedo olhando para o teto.— Eu e






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