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Após rejeitada, três alfas me querem
Após rejeitada, três alfas me querem
Author: Ruivinha Gótica

Capítulo:01

last update publish date: 2026-09-03 01:19:14

O sol nascia suavemente sobre as colinas cobertas de mata, banhando de luz dourada as casas de madeira e pedra que formavam a nossa alcatéia. Para todos ali, aquele brilho matinal era um sinal de força, de vida, da essência que corria em cada veia: o lobo, parte de si mesmos, que despertava cedo ou tarde, dando poder, instinto e identidade a cada um. Mas para mim, Lira, aquela luz parecia sempre chegar mais fraca, como se nem ela mesma tivesse coragem de tocar‑me.

Cresci ouvindo as mesmas frases, repetidas tantas vezes que se tornaram parte do meu próprio pensamento: “Que pena… nasceu sem o dom”, “Uma gêmea forte e completa, a outra… apenas sombra”, “Como pode ser filha nossa se não traz nada dentro de si?”. Ao meu lado, desde o primeiro suspiro, estava Lívia — minha irmã idêntica na aparência, mas tão diferente em tudo o resto. Ela despertara seu lobo ainda na infância: ágil, destemida, com olhos que brilhavam como fogo, sempre elogiada, sempre cercada de atenções, o orgulho e a alegria de nossos pais. Eu… eu permaneci quieta, calada, esperando. Mas o que todos esperavam nunca chegou.

Nossa casa era espaçosa e cheia de vida quando se tratava dela. Os presentes, os convites, os olhares de admiração — tudo fluía para Lívia. Comigo, o silêncio. Eu passava os dias tentando ser útil, arrumando, ajudando, estudando, aprendendo tudo o que podia, na esperança de que, mesmo sem um lobo, houvesse algo em mim que valesse a pena. Mesmo assim, nas reuniões da alcatéia, nas festas, nas conversas entre vizinhos, eu sentia os olhares pesados, as palavras baixas, o desprezo disfarçado de piedade. “Fraca”, “incompleta”, “sem valor”. Palavras que cortavam fundo, mas que aprendi a guardar no peito, sorrindo e fingindo não ouvir.

Até que apareceu Rômulo.

Ele era um jovem alfa, forte, promissor, com um futuro brilhante dentro da liderança da alcatéia. Quando escolheu‑me para ser sua noiva, ninguém acreditou — nem eu mesma. Lembro‑me do dia em que ele segurou minhas mãos com firmeza e olhou nos meus olhos: “Lira, não importa o que dizem. Vejo o seu coração, e isso é o que realmente conta”. Aquelas palavras foram como uma luz que finalmente brilhou para mim. Pela primeira vez, senti que havia encontrado o meu lugar, a pessoa que me veria de verdade, que me amaria e me daria o valor que nunca tive.

Desde então, vivi apenas para esse sonho. Cada detalhe do casamento, cada pensamento, cada esperança — tudo girava em torno de construir uma vida ao lado dele. Eu acreditava sinceramente que, ao seu lado, deixaria de ser invisível. Que finalmente seria suficiente.

Naquela manhã especial, saí cedo de casa com o coração batendo forte no peito. Sabia exatamente onde ir: uma pequena loja de tecidos e roupas, escondida numa rua calma, onde costumavam fazer peças únicas e delicadas. Caminhei pelas ruas da vila sentindo o ar fresco da manhã, ignorando os olhares curiosos e os comentários que ainda chegavam até mim. Nada disso importava mais. Em breve, tudo mudaria.

Ao entrar no ambiente acolhedor, cheio de cheiro de tecidos novos e flores secas, meus olhos percorreram cada peça exposta — até que pararam em um vestido pendurado discretamente no fundo, como se estivesse esperando apenas por mim.

Era simplesmente perfeito. Feito de tecido leve e branco como a neve, com detalhes delicados de rendas que pareciam feitas à mão, caía com suavidade até o chão, com um corte que valorizava cada curva sem perder a doçura. Ao tocar o tecido macio, senti uma alegria tão grande que quase chorei. Era exatamente como eu havia sonhado: puro, belo, cheio de esperança. Com as mãos trêmulas de emoção, pedi para prová‑lo. Ao olhar‑me no espelho grande e antigo ali presente, quase não me reconheci — parecia finalmente uma mulher digna de ser amada.

Paguei rapidamente, envolvi o vestido com muito cuidado e saí com passos leves, ansiosa para encontrar Rômulo e mostrar‑lhe o que escolhera. Queria ver o brilho nos seus olhos, ouvi‑lo dizer que eu era a mais bela de todas, confirmar mais uma vez que fizera a escolha certa ao me querer.

Segui em direção à casa dele, com o coração cheio de uma felicidade ingênua e completa. Não imaginava que, ao cruzar aquela porta aberta, o meu mundo iria desabar de vez.

Ao aproximar‑me do quarto onde ele costumava ficar, ouvi vozes baixas, carregadas de uma intimidade que me fez parar imediatamente. Uma delas era a de Rômulo. A outra… reconheceria em qualquer lugar, em qualquer canto do mundo: era a voz da minha própria irmã gêmea, Lívia.

Algo gelado percorreu todo o meu corpo, mas me obriguei a dar mais um passo, empurrando suavemente a porta entreaberta. O que viu meus olhos fez o chão desaparecer sob os meus pés.

Eles estavam entrelaçados, abraçados com uma paixão que nunca vi entre nós dois. Rômulo segurava‑a com carinho, beijava‑lhe o rosto, o pescoço, como se ela fosse tudo o que desejava. E Lívia sorria, daquele seu jeito confiante e vitorioso, enquanto passava os dedos pelos cabelos dele.

— Você sim é tudo o que uma alfa merece — ouvi ele dizer, com a voz cheia de admiração. — Forte, brilhante, completa… diferente da sua irmã, que não passa de uma sombra vazia, sem graça e sem nada a oferecer. Ainda bem que logo deixarei para trás esse compromisso sem sentido. Você é a única que eu sempre quis.

— Eu sabia que veria a verdade um dia — respondeu ela, com um tom de satisfação que me cortou como uma lâmina afiada. — Lira nunca foi nada ao meu lado. Só serviu para atrapalhar, mesmo sem querer. Agora finalmente tudo vai ficar como deveria ser desde o início.

Senti o ar faltar nos meus pulmões, as pernas ficarem moles, o pacote com o vestido perfeito escorregar lentamente dos meus dedos e cair ao chão, fazendo um barulho pequeno mas que pareceu ecoar por todo o universo.

Naquele instante, entendi tudo. Cada olhar que trocavam disfarçadamente, cada vez que Lívia aparecia “por acaso” onde estávamos, cada desculpa de Rômulo para adiar o nosso casamento… nunca fui mais do que um engano, uma obrigação da qual ele queria se livrar. E a minha irmã, a pessoa que deveria ser a minha primeira amiga e companheira, tramara tudo isso às minhas costas, alimentada por uma inveja que eu nem sequer imaginava existir.

A dor foi tão forte que pareceu que iria partir‑me ao meio, mas misturou‑se de repente com uma fúria que nunca senti em toda a minha vida — um fogo que queimava cada gota de ingenuidade que ainda restava em mim.

Não haveria mais esperanças. Não haveria mais sonhos. A partir daquele momento, só restava uma verdade dura e cruel: eu estava sozinha, e o mundo que eu conhecia acabara de ruir diante dos meus olhos.

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