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Capítulo:02

last update publish date: 2026-09-03 01:19:49

O som de raiva que fiz fez pareceu ecoar infinitamente pelo quarto silencioso, cortando a intimidade maldosa que os dois compartilhavam. No mesmo instante, os corpos se afastaram de repente. Rômulo virou‑se depressa, os olhos arregalados de surpresa e de algo que parecia mais vergonha do que remorso. Ao seu lado, Lívia não demonstrou nem um pingo de culpa: apenas sorriu de leve, aquele sorriso calmo e prepotente que sempre usava quando sabia que tinha a vantagem.

Eu fiquei ali parada, tremendo dos pés à cabeça, as mãos cerradas com tanta força que as unhas cravavam‑se nas palmas, sangrando pouco, sem que eu sequer sentisse a dor física. O que doía era outra coisa: era o coração partido em mil pedaços, era a confiança destruída, a certeza de que tudo o que eu acreditara fora apenas uma mentira bem tecida.

— Lira… eu… — começou Rômulo, dando um passo na minha direção, com voz hesitante, como se tentasse encontrar uma desculpa qualquer que pudesse apagar o que eu acabara de ouvir claramente.

Mas não havia desculpa que servisse. Não havia palavra capaz de amenizar o que ele dissera, o que eles fizeram às minhas costas, durante tanto tempo.

— Não chegue perto de mim — falei, e a minha própria voz me surpreendeu: firme, carregada de desprezo, sem nenhum sinal da doçura que ele conhecia. — Não precisa dizer nada. Já ouvi tudo o que precisava saber.

Lívia deu um suspiro fingido, encolhendo os ombros como se fosse ela a vítima da história toda. Aproximou‑se devagar, arrumando a roupa com calma, o olhar cheio de triunfo ao encontrar o meu.

— Ah, irmãzinha… não precisava ficar assim tão chateada — disse ela, com uma doçura falsa que me fez revirar o estômago. — A verdade é que vocês dois nunca deram certo. Ele é um alfa forte, precisa de alguém à sua altura… alguém que tenha algo dentro de si. Você mesma sabe que não tem nada a oferecer a ninguém.

Foi o limite. Aquelas palavras, ditas com tanta frieza, como se fosse uma coisa óbvia e natural, acenderam em mim uma chama que dormia há anos. Sem pensar duas vezes, dei um passo à frente e, com toda a força que ainda restava em mim, levantei a mão e bati‑lhe forte no rosto — um som seco e nítido que ecoou novamente pelo ambiente.

Lívia levou a mão ao local atingido, os olhos arregalados de raiva pura, mas antes que pudesse reagir, Rômulo tentou intervir, vindo até mim para segurar‑me pelos braços com brusquidão.

— Chega já com isso! Não passa de uma birra de criança — gritou ele, impondo a sua força como se tivesse o direito de me controlar.

Mas eu não me deixei imobilizar. Empurrei‑o com toda a minha vontade, fazendo‑o recuar alguns passos, surpreso com a minha determinação.

— Você não tem direito de tocar‑me nunca mais! — gritei, sentindo as lágrimas finalmente escorrerem pela face, misturadas à fúria que me dominava. — Pensei que você fosse diferente! Acreditava nas suas palavras, no seu juramento de amar‑me e respeitar‑me… mas não passa de mais um que só enxerga o brilho aparente e ignora o que realmente vale a pena! E você… — apontei o dedo para a minha irmã gêmea, sentindo‑me traída ainda mais profundamente por ela — você sempre me odiou, não foi? Desde pequena, nunca aceitou que eu existisse ao seu lado!

O barulho da discussão foi suficiente para atrair a atenção de quem passava pela rua, e em poucos instantes vi aparecerem na porta os meus próprios pais, com expressões sérias e impacientes, como se já esperassem algum problema vindo de mim.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou o meu pai, com voz dura, os olhos fixos em mim como se eu fosse a culpada de tudo o que ocorria.

Respirei fundo, tentando acalmar o coração que batia descontroladamente no peito, e contei‑lhes tudo, sem omitir detalhes: o que vira, o que ouvira, a traição dupla de quem eu mais confiava no mundo. Esperei, ingenuamente, que eles ficassem chocados, que defendessem‑me, que olhassem para mim com compaixão e me dissessem que eu valia mais do que aquilo. Mas o silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer resposta dura.

Olharam‑se entre si, trocaram um olhar de compreensão, e foi a minha mãe quem falou primeiro, com uma calma que parecia feita de indiferença:

— Lira, talvez seja melhor você acalmar‑se e pensar com clareza. Rômulo é um jovem de futuro, forte e respeitado… e Lívia é a filha que sempre nos deu orgulho. Faz todo o sentido que ele queira estar ao lado de quem combina mais com ele.

Fiquei parada, sem conseguir acreditar no que ouvia. O mundo parecia girar ao meu redor, tudo perdendo o sentido de vez.

— Como é que vocês conseguem dizer isso? — Sussurrei, quase sem voz, sentindo uma dor imensa invadir cada parte do meu ser. — Eu sou filha de vocês também! A que sempre obedeceu, que nunca pediu nada, que só quis ser amada… e vocês escolhem ficar ao lado de quem me feriu profundamente?

— Não estamos escolhendo ninguém, estamos apenas vendo a realidade como ela é — cortou o meu pai, sem pestanejar. — Você não tem lobo, Lira. Não tem força, não tem prestígio… não pode oferecer‑lhe nada. Lívia sim, ela é completa, merece ser a companheira de um alfa. É o melhor para todos, inclusive para você: aceite o seu lugar e pare de causar problemas.

Naquele instante, percebi a verdade mais cruel de todas: nunca houve lugar para mim ali. Nunca fui vista, nunca fui amada, nunca fui considerada filha de verdade. A minha existência era apenas um incômodo, uma sombra que atrapalhava o brilho da filha perfeita. Não havia mais nada que me prendesse àquela casa, àquela gente, àquela vida cheia de mentiras e rejeição.

Não disse mais uma palavra. Apenas virei‑lhes as costas, deixando para trás o vestido que sonhara usar, o noivo que jurara amar‑me, a família que devia proteger‑me. Saí correndo, sem olhar para trás, os pés baterem forte no chão, os olhos cheios de lágrimas que já não conseguia segurar. Não sabia para onde ia, só sabia que precisava me afastar dali o mais depressa possível, antes que o coração se partisse de vez e eu não conseguisse mais me levantar.

Atravessei as ruas da aldeia sem prestar atenção a ninguém, até chegar à entrada da floresta densa e escura que todos evitavam por medo do desconhecido e das lendas que corriam sobre ela. Para mim, naquele momento, parecia mais segura do que o lugar onde eu crescera. Entrei sem hesitar, caminhando cada vez mais fundo entre as árvores altas que fechavam o céu acima de mim, sentindo o ar fresco e úmido invadir os pulmões, misturando‑se ao cheiro de terra e folhas secas.

Caminhei durante horas, sem rumo, sem descanso, consumida por uma mistura de tristeza, raiva e desespero que me consumia por dentro. A força que me impulsionara até ali começou a esvair‑se pouco a pouco, como se todo o meu ser finalmente reconhecesse o quanto estava ferida. A cabeça começou a girar, as pernas ficaram pesadas e trêmulas, a visão tornou‑se turva e cheia de pontos escuros a dançarem diante dos olhos. A emoção excessiva, aliada ao cansaço e à fome, cobrou o seu preço cruel.

Senti o chão desaparecer debaixo de mim mais uma vez, mas desta vez não havia ninguém para me apanhar. Caí lentamente sobre o tapete macio de folhas caídas, o corpo inerte, a consciência a desvanecer‑se por completo. Antes de tudo se tornar escuridão absoluta, ainda tive a vaga impressão de ver três silhuetas altas e imponentes aproximarem‑se devagar, vindas do meio da mata, com passos firmes e cheios de poder.

Depois disso… nada mais restou a não ser o silêncio profundo.

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